
 
































Traduo
Renato Motta








  
Copyright 1997 by Nora Roberts

Ttulo original: Ceremony in Death


Capa: Leonardo Carvalho

Editorao: DFL



2006
Impresso no Brasil
Printed in Brazil



CIP-Brasil. Catalogao na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros - RJ

R545c            Robb.J. D., 1950-
Cerimnia mortal/Nora Roberts escrevendo como J. D. Robb; 
traduo Renato Motta.  Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
392p.

Traduo de: Ceremony in death 
ISBN 85-286-1179-5

1. Romance americano. I. Morta, Renato. II. Titulo.




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H mais coisas entre o cu e a terra, 
Horcio, do que sonha a tua filosofia.
 SHAKESPEARE 






No devemos prestar reverncia a Satans, 
pois isto seria imprudente, mas podemos, 
pelo menos, respeitar seus talentos. 
 MARK TWAIN





 



CAPTULO UM





A
 morte a cercava. Ela a encarava todos os dias e sonhava com ela  noite. Vivia com ela sempre. Conhecia seus sons, suas fragrncias, at sua textu-ra. Era capaz de olhar para seus olhos escuros e hbeis sem piscar. A morte era uma adversria ardilosa, ela sabia. Um segundo de hesitao, uma piscadela, e ela podia se mover, podia mudar. Podia vencer.
Dez anos trabalhando como policial no a haviam endurecido com relao a isso. Uma dcada na fora policial de Nova York no a fez aceit-la. Quando via a morte frente a frente, seus olhos exibiam o tom frio de um guerreiro.
Eve Dallas olhava para a morte naquele instante. E olhava para a morte de um de seus companheiros.
Frank Wojinski havia sido um bom tira, muito confivel. Alguns o achavam at caxias demais. Era corts, lembrou Eve. Um homem que jamais reclamara do grude disfarado de comida que era servido na cantina do Departamento de Polcia de Nova York, ou da papelada absurda que o trabalho gerava. Ou, pensou Eve, a respeito do fato de ter chegado aos sessenta e dois sem nunca ter passado da patente de sargento-detetive.
Era meio rechonchudo e deixara o cabelo ficar ralo e grisalho de forma natural. Era raro, em 2058, um homem abrir mo das facilidades da escultura corporal e melhorias estticas de todo tipo. Agora, em seu caixo com tampo de vidro, com o rosto e o corpo cercados por pesarosos lrios, parecia um monge de outras eras, placidamente adormecido. 
Ele nascera em outra era, refletiu Eve, chegando ao mundo no fim de um milnio e vivendo quase toda a vida no milnio seguinte. Passara pelas Guerras Urbanas, mas no costumava falar tanto sobre elas quanto os tiras mais velhos. No era de contar histrias de guerra, pelo que Eve lembrava. Era mais do tipo que gostava de exibir a mais nova foto ou um holograma dos filhos e netos. 
Gostava de piadas fracas, de falar de esportes, e tinha uma fraqueza por cachorros-quentes feitos com salsicha de soja e molho condimentado demais. 
Um sujeito voltado para a famlia, pensou, e que deixara entre os seus grande luto. Na verdade, Eve no conhecia ningum que tivesse convivido com Frank Wojinski e no gostasse muito dele. 
Morrera com metade da vida pela frente, e morrera sozinho, quando o corao que todos julgavam to grande e forte simplesmente parar de bater. 
 Droga!  Ouviu ela. 
Virando-se para o lado, colocou a mo no brao do homem que chegara junto dela e disse: 
 Sinto muito, Feeney.
Ele balanou a cabea e seus olhos de cozinho carente se encheram de lgrimas e tristeza. Passando as mos nos cabelos ruivos despenteados, disse: 
 Se tivesse sido em servio, talvez fosse mais fcil de aceitar. Consigo entender a morte no cumprimento do dever. Mas simplesmente deixar de viver, assim... dar uma relaxada na poltrona reclinvel, assistindo ao jogo na tev e apagar... isso no est certo, Dallas. Um homem no pode deixar de viver assim de repente, na idade dele. 
 Eu sei.  Sem ter idia de como proceder, Eve colocou o brao sobre o ombro do amigo e o levou para longe do caixo. 
 Ele me treinou  explicou Feeney.  Cuidou de mim quando fui recruta. Nunca me deixou na mo...  A dor parecia irradiar dele e fazia seus olhos brilharem muito, estremecendo-lhe a voz.  Frank jamais deixou ningum na mo, em toda a sua vida. 
 Eu sei  repetiu ela, porque no havia mais nada que pudesse ser dito. Eve estava acostumada a ver Feeney cheio de energia, forte, duro... a delicadeza de sua dor a comoveu. 
Passou com ele atravs das pessoas presentes. A sala do velrio estava lotada de policiais e familiares do morto. E onde havia tiras e um morto, sempre havia caf... ou o lquido escuro que passava por caf, no caso de lugares como aquele. Servindo uma xcara, Eve a entregou a Feeney. 
 No consigo entender. No consigo aceitar!  Soltou um longo e trmulo suspiro. Ali estava ele, um homem robusto e atarracado que exibia sua dor to abertamente quanto o sobretudo amassado que usava.  Ainda no falei com Sally. Minha mulher est com ela. Simplesmente no consigo ir at l... 
 Tudo bem... eu tambm ainda no fui falar com ela.  Como no sabia o que fazer com as mos, Eve serviu uma xcara de caf para si mesma, sabendo que no tinha a inteno de beb-lo.  Todos esto muito abalados com isso. Eu no sabia que ele tinha problema de corao. 
 Ningum sabia  disse Feeney, baixinho,  Ningum sabia... 
Eve manteve a mo no ombro do amigo, enquanto observava a sala cheia demais e muito quente. Quando um colega policial morria no cumprimento do dever, os outros tiras ficavam zangados, mas conseguiam manter o foco, tinham um alvo onde descontar depois. Porm, quando a velha morte chegava sorrateira e apontava para algum com seu dedo deformado e caprichoso, no havia quem culpar. Nem quem punir. 
Era impotncia o que ela sentia na sala e em si mesma. No dava para ameaar o destino com uma arma nem com os punhos. 
O chefe do cerimonial, elegante em seu terno preto, bem tradicional, e com um rosto to plido quanto os de seus clientes, circulava pela sala, dando tapinhas nos ombros e exibindo olhos tristes. Eve decidiu que preferia ver um cadver levantar do caixo e sorrir para ela a ouvir o blablabl do papa-defunto. 
 Por que no vamos falar com a famlia juntos?  props ela.
Era difcil para ele, mas Feeney concordou com a cabea e colocou de lado a xcara de caf intocada. 
 Frank gostava muito de voc, Dallas. Aquela menina tem colhes de ao e uma cabea que funciona, era o que costumava dizer sobre voc. Falava que, se estivesse encurralado, era voc que ele ia querer para lhe dar cobertura. 
Ouvir isso a deixou surpresa e satisfeita, mas ao mesmo tempo fez aumentar o pesar pela perda. 
 Puxa, Feeney, nunca imaginei que ele pensasse isso de mim.
Feeney olhou para ela. Eve tinha um rosto interessante, no exatamente o que ele qualificaria como de fechar o comrcio, mas a verdade  que seus traos faziam com que um homem olhasse duas vezes quando ela passava, apreciando os ngulos, os ossos proeminentes e a covinha no queixo. Ela possua olhos de policial, intensos e atentos, e Feeney s vezes se esquecia de que eles tinham tambm um lindo tom castanho-dourado. Seus cabelos exibiam o mesmo tom, eram curtos e precisavam urgentemente de um corte bem-feito. Ela era alta e tinha o corpo resistente. 
Lembrou que, menos de um ms antes, ele a encontrara no corredor de um prdio, ferida e muito ensangentada. Sua arma, porm, se mantivera firme na mo. 
 Bem, Eve, ele realmente achava isso de voc. E eu acho tambm.  Ao v-la piscar os olhos de surpresa, Feeney se empertigou e decidiu:  Vamos logo falar com Sally e as crianas. 
Foram se apertando para abrir caminho atravs da multido compacta, em uma sala que dava a sensao de opresso, com seu revestimento de frmica imitando madeira escura, cortinas vermelhas pesadas, muito pregueadas, e o cheiro funreo de flores em excesso apertadas em um lugar muito pequeno. 
Eve se perguntou o motivo de velrios serem sempre acompanhados de flores e cortinas vermelhas pesadas. De que cerimnia ancestral teria vindo aquilo, e por que razo a raa humana continuava a seguir esse ritual? Estava certa de que, quando chegasse a sua hora, no gostaria de ficar deitada em exibio diante de seus entes queridos e colegas em uma sala sufocante de calor e fedendo a flores que pareciam estar entrando em estado de putrefao. 
Ento viu Sally, amparada pelos filhos e netos, e compreendeu que tais ritos eram para os vivos. Os mortos j no precisavam de cuidados. 
 Ryan!  Sally estendeu as mos pequenas, que pareciam pertencer a uma fada, e encostou a face na de Feeney. Ficou ali por um momento, com os olhos fechados e a pele plida e sem vida. 
Era uma mulher magra, com voz suave, que Eve sempre considerara delicada. No entanto, como mulher de um policial, que sobrevivera aos estresses do trabalho do marido por mais de quarenta anos, devia ter alguma coisa de ao dentro dela. Sobre o vestido preto simples, ela usava, pendurado em um cordo, o anel que seu marido recebera ao completar vinte e cinco anos no Departamento de Polcia de Nova York. 
Outro rito, pensou Eve. Outro smbolo. 
  um consolo que tenha vindo  murmurou Sally. 
 Vou sentir falta dele. Vamos todos sentir muita falta dele.  Feeney deu-lhe uns tapinhas nas costas, meio sem jeito, antes de se afastar. A dor estava em sua garganta, engasgando-o. Engolir em seco s servia para fazer a dor descer fria e pesada at o estmago.  Voc sabe que se houver alguma coisa que eu possa fazer... 
 Sim, eu sei...  Seus lbios se curvaram de leve, formando um sorriso, e ela apertou-lhe a mo com carinho, confortando-o, antes de se virar para Eve.  Muito obrigada por ter vindo, Dallas. 
 Ele era um homem bom... e um tira confivel. 
 Sim, ele era.  Reconhecendo o alto tributo representado por aquelas palavras, Sally conseguiu ampliar o sorriso.  Tinha orgulho em servir e proteger. O comandante Whitney e sua esposa esto aqui, alm do secretrio Tibble. E tantos outros!  Seu olhar vitrificado vagou pela sala.  Tantos... Frank era querido. Eles se importavam com ele. 
 Claro que sim, Sally.  Feeney trocou o peso do corpo de um p para outro, pouco  vontade.  Voc, ahn... sabe a respeito do fundo de auxlio s famlias dos policiais, no sabe? 
 No se preocupe, Feeney, estamos bem amparados com relao a isso.  Ela tornou a sorrir, batendo em sua mo com carinho.  Dallas, acho que voc no conhece minha famlia. Tenente Dallas, minha filha, Brenda. 
Baixinha, com curvas generosas, notou Eve ao cumpriment-la. Cabelos e olhos escuros, um queixo firme. Puxara ao pai... 
 Este  meu filho, Curtis. 
Magro, ossos pequenos, mos macias e olhos que, embora secos, pareciam confusos pelo choque. 
 E estes so meus netos. 
Havia cinco deles, sendo que o mais novo tinha uns oito anos e o nariz meio achatado coberto de sardas. Olhou para Eve, analisando-a, e perguntou: 
 Por que trouxe a sua arma a laser? 
Parecendo aturdida, Eve apertou o casaco de couro com o brao, dizendo: 
  que eu vim direto da Central de Polcia. No tive tempo de ir em casa para trocar de roupa. 
 Pete!  Curtis lanou um olhar de desculpas para Eve.  No amole a tenente. 
 Se as pessoas se concentrassem mais nos seus poderes pessoais e espirituais, armas no seriam necessrias. Meu nome  Alice, tenente. 
Uma loura muito magra toda de preto deu um passo em direo a Eve. A moa seria linda de qualquer modo, refletiu Eve, mas tendo nascido de uma famlia to bonita se tornara deslumbrante. Seus olhos tinham um tom suave e sonhador de azul; seus lbios eram cheios, sensuais e estavam sem pintura. Usava o cabelo solto, de forma que ele escorria liso e brilhante sobre os ombros do vestido leve. Uma fina corrente de prata descia at sua cintura. Na ponta, havia uma pedra negra com um crculo em volta, tambm em prata. 
 Alice, voc  uma pirada mesmo. 
Ela lanou um olhar frio por sobre os ombros, na direo de um menino com cerca de dezesseis anos. Suas mos, porm, ficaram envolvendo a pedra negra, como pssaros elegantes que protegiam o ninho. 
 Esse  o meu irmo Jamie, tenente  explicou, com a voz suave como seda.  Ele ainda est na fase de achar que xingamentos merecem resposta. Meu av falava muito da senhora, tenente Dallas. 
 Sinto-me lisonjeada. 
 Seu marido no est em sua companhia esta noite? 
Eve levantou uma sobrancelha. Ali no h apenas luto, deduziu, mas um pouco de nervoso tambm. Era bem fcil de reconhecer. Havia sinais, embora no fossem muito claros. A garota estava a fim de alguma coisa, avaliou Eve. Mas do qu? 
 No, meu marido no veio.  Desviou o olhar para Sally.  Ele enviou suas condolncias, sra. Wojinski. Est fora do planeta. 
 Deve exigir muita concentrao e energia  interrompeu Alice  manter um relacionamento com um homem como Roarke e ao mesmo tempo construir uma carreira difcil, cheia de exigncias e at perigosa. Meu av costumava dizer que, quando voc assume uma investigao, no larga o osso at desvend-la. Essa  uma descrio precisa, tenente? 
 Se voc largar o osso, voc o perde... e eu no gosto de perder.  Eve fez questo de manter o olhar grudado no de Alice, que apresentava um ar estranho, e ento, por impulso, se agachou e sussurrou ao ouvido de Pete:  Quando eu ainda era uma recruta, vi seu av acertar um cara com a arma de atordoar a mais de dez metros de distncia. Ele era o melhor!  Foi agraciada com um sorriso curto, antes de endireitar o corpo.  Seu marido no ser esquecido, sra. Wojinski  disse ela, oferecendo a mo.  Todos ns gostvamos muito dele. 
Deu um passo para trs, mas Alice colocou a mo sobre seu brao e se inclinou em sua direo, discretamente. A mo, notou Eve, tremia ligeiramente. 
 Foi muito bom conhec-la, tenente. Obrigada por ter vindo. 
Eve inclinou a cabea e se misturou  multido. De forma casual, enfiou a mo no bolso do casaco e tocou com a ponta dos dedos a estreita tira de papel que Alice enfiara ali dentro. Levou mais uns trinta minutos para sair, esperou at estar do lado de fora e dentro do carro antes de abrir o bilhete e ler. 

Encontre-me amanh  meia-noite no Clube Aquarius. 
NO CONTE PARA NINGUM. Sua vida corre perigo. 

 guisa de assinatura, havia um smbolo, uma linha escura que formava um crculo que se expandia e formava uma espcie de labirinto. Quase to intrigada quanto chateada com aquilo, Eve enfiou o bilhete de volta no bolso e foi para casa. 
Como era uma policial experiente, reparou na figura vestida de preto, pouco mais que uma sombra entre as sombras. E por ser uma policial capaz, soube na hora que a figura a estava vigiando. 


Sempre que Roarke viajava, Eve preferia fingir que a casa estava vazia. Tanto ela quanto Summerset, que trabalhava como mordomo e era tambm chefe da criadagem de Roarke, faziam o possvel para ignorar a presena um do outro. A casa era imensa, uma intrincada multiplicidade de quartos que tornava uma questo simples evitar um ao outro.
Ela entrou no largo vestbulo e jogou o casaco de couro muito arranhado sobre a coluna entalhada que ficava no primeiro degrau da escada, pois sabia que isso ia fazer Summerset ranger os dentes de raiva. Ele detestava qualquer coisa que maculasse a elegncia da casa. Particularmente Eve. 
Subindo as escadas, ela desviou para sua sute particular com escritrio, em vez de ir para o quarto principal da casa. 
J que Roarke ia passar mais uma noite fora do planeta, ela preferia dormir na sua poltrona de relaxamento, em vez de ir para a cama deles. 
Ela muitas vezes tinha sonhos terrveis quando dormia sozinha. 
Com o tempo que gastara analisando a papelada e depois indo ao velrio, ela no teve oportunidade de comer nada. Ordenou em voz alta um sanduche  com presunto de verdade e po de centeio  e caf, que ela sabia que vinha cheio de cafena pura. Quando o AutoChef entregou o pedido, Eve inalou os aromas bem devagar, com avidez. Deu a primeira mordida e fechou os olhos para sentir melhor o milagre do sabor. 
Realmente, havia muitas vantagens em ser casada com um homem que podia se dar ao luxo de consumir carne de verdade, em vez de subprodutos ou imitaes sintticas. 
Para satisfazer a curiosidade, foi at a escrivaninha e ligou o computador. Engoliu um bom pedao de presunto e o acompanhou com um gole de caf. 
 Quero todos os dados disponveis a respeito de Alice, sobrenome paterno desconhecido. O nome de solteira da me  Brenda Wojinski, e os avs maternos chamam-se Frank e Sally Wojinski. 

Pesquisando...

Eve tamborilou na mesa com os dedos, pegou o bilhete e tornou a l-lo, enquanto acabava sua rpida refeio. 

Objeto de pesquisa: Alice Lingstrom. Data de nascimento: 10 de junho de 2040. Primognita e nica filha mulher de Jan Lingstrom e Brenda Wojinski, divorciados. Residncia: Rua 8, nmero 486, lado oeste, apartamento 4B, Nova York. Irmo: James Lingstrom, nascido em 22 de maro de 2042. Grau de instruo: ensino mdio completo. Foi oradora da turma. Dois semestres de faculdade em Harvard, um em antropologia e outro em mitologia. Trancou a matrcula no terceiro semestre. Atualmente trabalhando como balconista na loja Busca Espiritual, na Dcima Avenida, parte oeste, nmero 228, Nova York. Estado civil: solteira.

Eve passou a lngua sobre os dentes da frente. 
 Tem ficha na polcia? 

Sem registros criminais. 

 Parece tudo normal  murmurou Eve.  Dados a respeito da loja Busca Espiritual. 

Busca Espiritual. Loja de magia ligada  religio Wicca e centro de consultas de propriedade de Isis Paige e Charles Forte. Funciona h trs anos no local. Renda bruta anual de cento e vinte e cinco mil dlares. H um herbolrio e uma sacerdotisa registrada; um hipnoterapeuta formado tambm trabalha no local.

 Magia Wicca?  Eve se recostou na cadeira, bufando pelas narinas.   algum lance ligado  bruxaria? Meu Deus... que tipo de troo  esse? 

Wicca, movimento reconhecido como religio e tambm como arte. Trata-se de uma f ancestral, baseada na natureza, que... 

 T bom, chega!  ordenou Eve, soltando o ar com fora. Ela no estava atrs de uma definio detalhada de bruxaria. Queria apenas uma explicao para o fato de um policiai duro e com os ps no cho acabar tendo na famlia uma neta que acreditava em feitios e cristais mgicos. 
E por que essa neta queria um encontro secreto com ela. 
O melhor jeito de descobrir, decidiu, era dar as caras no tal de Clube Aquarius dali a pouco mais de vinte e quatro horas. Eve deixou o bilhete sobre a mesa. Era mais fcil jogar aquilo fora, pensou, mas ele havia sido escrito pela neta de um homem que Eve respeitava muito... 
Alm do mais, reparara naquela figura entre as sombras. Uma figura que ela tinha certeza de que no pretendia ser notada. 
Foi at o banheiro da sute e comeou a se despir. Era uma pena que ela no pudesse levar a Mavis com ela para o encontro misterioso. Eve tinha a leve impresso de que o tal do Clube Aquarius tinha tudo a ver com sua amiga. Chutou os jeans para um canto e se inclinou para a frente, fazendo um alongamento para relaxar depois do longo dia. Perguntou-se o que ia fazer para passar a noite comprida que tinha diante de si. 
No havia nenhum trabalho urgente a fazer. Seu ltimo homicdio fora resolvido to depressa que em menos de oito horas ela e sua assistente fecharam o caso. Talvez ela passasse umas duas horas assistindo a algum filme. Ou talvez pegasse uma das armas da sala de tiro de Roarke e rodasse algum programa hologrfico para se exercitar e gastar o excesso de energia at conseguir ter sono. 
Ela nunca experimentara um dos rifles automticos de ataque. Devia ser interessante descobrir como um policial derrubava um inimigo nos idos das Guerras Urbanas. 
Entrou sob o chuveiro e ordenou: 
 Jato forte, em modo pulsante a trinta e seis graus. 
Bem que ela gostaria de ter um assassinato nas mos para resolver. Algo em que focar a mente e acelerar sua circulao. Droga, aquilo era pattico. Ela estava se sentindo solitria, compreendeu. Louca por algo com o que se distrair, e ele s estava fora h trs dias. 
Os dois tinham seu trabalho e suas vidas, no ? J tinham antes de se conhecerem, e continuavam a ter depois de casados. As exigncias profissionais dos dois absorviam muito do tempo de ambos e da sua ateno. O casamento s funcionava  e isso continuava a surpreend-la  porque os dois eram pessoas independentes. 
Nossa, ela sentia falta dele de uma forma absurda. Revoltada consigo mesma por sentir isso, enfiou a cabea sobre o jato e deixou que a gua lhe martelasse o crebro. 
Quando sentiu duas mos que subiram lentamente pela sua cintura e acabaram comprimindo os dois seios, no chegou a se assustar. Seu corao, sim, deu um pulo. Ela conhecia aquele toque, a emoo daqueles dedos longos e finos, a textura das palmas largas e envolventes. Deixou a cabea tombar para trs, convidando a boca que sentia respirar por trs dela a pousar na curva do seu ombro. 
 Humm, Summerset!... seu tarado! 
Sentiu dentes se enterrarem em sua carne e soltou uma risada. Polegares experientes roavam de leve os seus mamilos, ensaboando-os, e ela gemeu. 
 No adianta, porque eu no vou despedi-lo!  Roarke deixou a mo ir descendo lentamente at o centro do corpo dela. 
 No custa a gente tentar. Voc j voltou...  Os dedos dele se enfiaram com muita percia dentro dela, muito lisos e escorregadios, fazendo-a arquear o corpo com violncia, gemer mais e gozar na hora, tudo ao mesmo tempo  ...voltou mais cedo  conseguiu dizer afinal, soltando o ar em uma exploso e perdendo o flego.  Ah, meu Deus!... 
 Diria que cheguei na hora certa.  Girando-a e colocando-a de frente para ele, viu que ela estava ainda trmula, piscando muito para tirar a gua dos olhos, e cobriu-lhe a boca em um beijo longo e voraz. 
Ele pensara nela o tempo todo durante o interminvel vo de volta. Pensara basicamente naquilo, simplesmente naquilo: toc-la, sabore-la e ouvir-lhe a respirao entrecortada ao fazer isso. E ali estava ela, nua, molhada e j tremendo  espera dele. 
Ele a encostou no canto do boxe, agarrou-a pelos quadris e lentamente a levantou do cho, perguntando: 
 Sentiu saudade? 
O corao dela martelava... ele estava ali, a poucos centmetros de penetr-la, preench-la e desestrutur-la. 
 No muito... 
 Bem, nesse caso...  ele a beijou de leve no queixo  ...vou deix-la terminar seu banho em paz. 
Com a rapidez de um relmpago, ela o envolveu, colocando as pernas em volta de sua cintura e agarrando sua vasta cabeleira molhada com fora, ameaando-o: 
 Nem pense nisso, meu chapa, seno voc pode se considerar morto... 
 Ento, simplesmente por uma questo de autopreservao  disse ele e, para torturar a ambos, deixou-se deslizar para dentro dela bem devagar, vendo seus olhos ficarem opacos. Fundiu sua boca com a dela novamente e sentiu-lhe a respirao ofegante trepidar por dentro dele. 
A cavalgada foi lenta, escorregadia, e mais suave do que ambos haviam esperado. O orgasmo dos dois veio em um suspiro longo, bem baixinho. Os lbios dela se abriram em um sorriso, de encontro aos dele, dizendo: 
 Bem-vindo ao lar. 
Ela conseguia v-lo agora, com aqueles atordoantes olhos azuis, o rosto que tinha um pouco de santo e de pecador, e a boca de um poeta condenado. Seus cabelos, por onde a gua escorria, eram pretos e lisos, um pouco compridos, tocando de leve os ombros largos enfeixados com msculos sutis, mas surpreendentemente duros. 
Olhar para ele depois dessas ausncias curtas e peridicas sempre fazia com que algo inesperado se movesse por dentro dela. Eve duvidava de que algum dia pudesse se acostumar com a idia de que ele no apenas a desejava, mas tambm a amava. 
Ainda sorria ao passar os dedos por entre seus cabelos fartos e pretos enquanto perguntava: 
 Est tudo bem no Olympus Resort? 
 Alguns ajustes, alguns atrasos. Nada que no possa ser resolvido.  O elaborado resort e o centro de entretenimento e prazer que estavam sendo construdos em uma estao espacial iam ser inaugurados dentro do prazo, porque Roarke no aceitaria menos que isso. 
Ordenando o fechamento da ducha, ele pegou uma toalha e a enrolou em volta dela, mesmo sabendo que Eve preferia o tubo de secagem de corpo. 
 Comecei a entender o porqu de voc preferir ficar aqui nesta sua sute particular sempre que viajo. Eu tambm no consegui ficar na sute presidencial do Olympus  disse e pegou outra toalha, esfregando-a sobre os cabelos de Eve.  Estava muito solitrio l, sem voc... 
Ela deixou-se recostar nele por um momento, s para sentir o relevo familiar das linhas do corpo dele de encontro ao dela, e disse: 
 Estamos ficando muito melosos!... 
 No me importo. Ns, irlandeses, somos muito sentimentais.
Isso a fez dar um sorriso afetado no instante em que ele se virou para pegar os robes. Talvez ele tivesse aquele sotaque musical irlands na voz, mas Eve duvidava muito de que algum dos seus companheiros ou rivais de negcios pudesse considerar Roarke um sentimental. 
 Ora, vejo que voc no adquiriu nenhuma marca roxa nova  observou ele, ajudando-a a colocar o robe antes mesmo de ela tentar vesti-lo.  Imagino que isso signifique que as coisas por aqui andam calmas. 
 Pode-se dizer que sim. Tivemos um cara que ficou um pouco entusiasmado demais quando estava em companhia de uma acompanhante autorizada e a estrangulou durante o sexo.  Dando um lao no robe, ela passou os dedos pelos cabelos e lanou respingos de gua para os lados.  Depois, ficou apavorado e fugiu.  Encolheu os ombros enquanto ia para o escritrio.  No fim, resolveu arrumar um advogado e se entregou poucas horas depois. O promotor o enquadrou como caso de homicdio culposo. Deixei Peabody interrog-lo e fich-lo. 
 Humm...  Roarke foi at uma cabine embutida para pegar vinho e serviu dois clices.  Anda tudo quieto, ento. 
 ... estive naquele velrio hoje  noite. 
 Ah, sim...  lembrou ele, depois de franzir o cenho.  Sinto muito no ter conseguido voltar a tempo de ir at l com voc. 
 Feeney est muito abalado. Seria mais fcil se Frank tivesse tombado no cumprimento do dever. 
Dessa vez as sobrancelhas de Roarke se uniram, demonstrando estranheza. 
 Voc est me dizendo que preferia que seu colega tivesse sido assassinado, em vez de, digamos, deslizar suavemente para o sono eterno? 
 Bem, eu aceitaria melhor, apenas isso.  Franziu os olhos, olhando para o vinho. No achou muito sensato contar a Roarke que ela prpria preferia uma morte violenta e rpida.  S que h algo estranho nessa histria. Conheci a famlia de Frank. A neta mais velha  meio esquisita. 
 Esquisita como?... 
 O jeito de falar, e os dados sobre ela que levantei quando cheguei em casa. 
 Voc fez uma pesquisa sobre ela?  perguntou ele, intrigado, levando o vinho aos lbios. 
 S uma conferida rpida. Porque ela me entregou isto.  Eve foi at a mesa e pegou o bilhete. 
 Um labirinto do elemento Terra  observou Roarke com ateno, avaliando o desenho. 
 Um o qu? 
 Esse smbolo aqui.  celta. 
 Eu, hein!...  Balanando a cabea, Eve chegou mais perto para tornar a olhar o desenho.  Voc sabe de cada coisa estranha! 
 No  to estranho assim. Sou irlands... descendente dos celtas, afinal. Este antigo labirinto  um smbolo mgico e sagrado. 
 Bem, combina com ela. Anda envolvida com bruxarias, ou algo desse tipo. Conseguiu entrar em uma das melhores faculdades. Harvard. De repente, trancou a matrcula e foi trabalhar como balconista em uma loja do Village que vende cristais e ervas mgicas. 
Roarke passou a ponta do dedo sobre o desenho. Ele j tinha visto aquilo, e outros desenhos do mesmo tipo. Durante sua infncia, os cultos em Dublin eram comuns entre gangues ferozes e piedosos pacifistas. Todos,  claro, usavam a religio como pretexto para matar. Ou serem mortos. 
 Voc no faz a mnima idia do motivo pelo qual ela quer se encontrar com voc? 
 No. Imagino que tenha visto alguma coisa na minha aura, sei l!... Mavis trabalhava nesse ramo de enganar os outros com lances msticos antes de eu prend-la por bater carteiras. Ela me contou que as pessoas pagam qualquer preo para voc dizer a elas o que desejam ouvir. Pagam at mais se voc disser o que elas no desejam ouvir. 
  por isso que as trapaas e os negcios legalizados so mais ou menos a mesma coisa.  Ele sorriu para ela.  Aposto que voc vai l, de qualquer jeito. 
 Claro! Vou ver qual ... 
Naturalmente que ela iria. Roarke deu mais uma olhada no bilhete e o colocou de lado, informando: 
 Vou com voc. 
 Mas ela quer que eu v... 
  uma pena que queira.  Tomou o vinho com ar de quem sempre conseguia exatamente o que queria, de um jeito ou de outro.  No vou atrapalhar seu papo, mas vou junto. O Clube Aquarius  basicamente inofensivo, mas sempre pintam uns elementos desagradveis que conseguem entrar l. 
 Elementos desagradveis so a minha vida  disse ela, com ar sensato, e ento jogou a cabea para o lado.  Voc no ... tipo assim... dono do Clube Aquarius, ? 
 No.  Ele sorriu.  Por qu? Voc quer que eu seja?
Ela riu e levou-o pela mo, dizendo: 
 Venha comigo. Vamos acabar de beber isso na cama.


Sentindo-se relaxada pelo efeito do sexo e do vinho, ela caiu em um sono plcido, enrascada em Roarke. Por isso  que se sentiu surpresa ao se ver sbita e completamente desperta duas horas mais tarde. No fora um de seus pesadelos o que a acordara. No sentia terror, nem dor, nem frio, nem um suor pegajoso. 
No entanto, ela acordara de repente, e seu corao no estava muito tranqilo. Ficou deitada quieta, olhando o cu atravs da larga cpula de vidro que havia sobre a cama, ouvindo o respirar calmo e constante de Roarke ao lado dela. 
Mexendo-se um pouco para o lado, olhou para os ps da cama e quase gritou ao ver olhos que brilhavam na escurido. Ento percebeu o peso sobre os seus tornozelos. Galahad, lembrou, e rolou os olhos para cima. O gato entrara no quarto e pulara na cama. Foi isso o que a acordara, disse a si mesma. Foi apenas isso... 
Acomodando-se novamente, virou de lado e sentiu o brao de Roarke enla-la, enquanto ele dormia. Suspirando, fechou os olhos e se aninhou, bem aconchegada a ele. 
Foi apenas o gato, pensou, j sonolenta. 
Mas podia jurar que ouvira vozes cantando.





















 



CAPTULO DOIS





N
o momento em que Eve estava enterrada at o pescoo na papelada de sua sala na Central de Polcia, o estranho despertar da noite anterior j estava esquecido. A cidade de Nova York parecia contente por poder se aquecer nos dias ainda clidos do incio de outono e estava se compor-tando bem. Aquele parecia um bom momento para separar algumas ho-ras e tentar organizar sua sala. 
Melhor ainda, delegar poderes a Peabody para fazer isso por ela. 
 Como  que esses seus arquivos podem estar assim to zoneados?  quis saber Peabody. Seu rosto quadrado, muito srio, expressava dor e desapontamento. 
 Eu sei muito bem onde cada coisa est  disse-lhe Eve.  E quero que voc arrume tudo de um jeito que eu continue a saber onde tudo est, s que com um pouco mais de organizao. Essa  uma misso muito difcil, policial Peabody? 
 D pra encarar...  Peabody levantou os olhos para o teto quando Eve ficou de costas  ...senhora! 
 timo! E no levante os olhos para o teto nas minhas costas. Se as coisas esto meio zoneadas, como voc as descreveu,  pelo fato de eu estar enfrentando um ano muito movimentado. E, j que estamos no ltimo trimestre e estou treinando voc,  meu dever jogar a tarefa em cima das suas costas.  Eve se virou e sorriu de leve, continuando:  Com a esperana, Peabody, de que um dia voc tambm tenha uma subalterna para poder se livrar de roubadas como essa. 
 Sua confiana em mim  comovente, Dallas. Estou engasgada de tanta emoo  e cochichou para o computador:  Ou talvez seja o fato de voc ter formulrios e relatrios aqui de cinco anos atrs que esteja me deixando engasgada. Esses casos todos j deviam ter sido arquivados no sistema principal e apagados dessa unidade no mximo vinte e quatro meses depois de terem sido resolvidos. 
 Ento, arquive-os no sistema e apague-os do meu computador agora.  O sorriso de Eve se ampliou quando a mquina engasgou e ento zumbiu, avisando que o sistema ia cair.  Boa sorte! 
 A tecnologia pode ser nossa amiga. S que, como ocorre com qualquer amizade, ela requer manuteno regular e muita compreenso. 
 Sei muito bem disso.  Eve chegou junto do monitor e deu-lhe dois golpes com a base da mo. O aparelho soluou mais uma vez e voltou a funcionar normalmente.  Viu s?... 
 Voc tem mesmo um jeitinho meigo, tenente. Deve ser por isso que o pessoal da manuteno se diverte nas horas de folga lanando dardos sobre uma foto sua pregada na parede. 
 Eles continuam fazendo isso? Puxa, so mesmo rancorosos...  Encolhendo os ombros, Eve se sentou na beira da mesa.  O que sabe a respeito de feitiaria Wicca, Peabody? 
 Se pretende lanar um feitio nessa mquina aqui, Dallas, isso  meio fora da minha rea.  Rangeu os dentes enquanto comprimia e salvava arquivos. 
 Mas voc  uma partidria da Famlia Livre!... 
 Travou! Vamos l, vamos l, maquininha, voc consegue!...  murmurou ela para o computador.  Alm do mais, Dallas, partidrios da Famlia Livre no so adeptos da Wicca. Os dois so tipos de religies neopags, ligadas  terra, e ambas so baseadas na ordem da Natureza, mas... filho-da-me, para onde  que voc foi?!... 
 O qu? Para onde foi o qu? 
 Nada.  Com os ombros curvados por sobre o monitor, Peabody o protegeu do olhar de Eve.  Nada, nada... no se preocupe, estou no controle de tudo. Voc provavelmente no ia precisar daqueles arquivos mesmo... 
 Isso  uma piada, Peabody? 
 Pode apostar! R, r...  Um filete de suor descia por suas costas enquanto ela brigava com o teclado.  Pronto! Achei! Tudo bem, tudo resolvido. E l vo eles para o arquivo central. Bonitinhos e organizados.  Soltou um longo suspiro.  Ser que posso tomar um pouco de caf? S para me manter alerta?... 
Eve desviou o rosto, olhou para o monitor e no viu nada de alarmante ali. Sem dizer nada, levantou-se e ordenou caf para o AutoChef. 
 Por que deseja saber a respeito de Wicca? Est pensando em se converter?  Ao notar o olhar sem expresso de Eve, Peabody tentou sorrir.  Foi s outra brincadeira... 
 Voc est cheia de brincadeiras e piadas hoje, no  mesmo, Peabody? No... estou perguntando apenas por curiosidade. 
 Bem, existem alguns pontos em comum, princpios bsicos  Famlia Livre e  Wicca. A busca pelo equilbrio e harmonia internos, a celebrao das mudanas entre as estaes do ano, coisas que remontam a tempos imemoriais. Alm disso, existe um cdigo muito rgido que prega a no-violncia.
 No-violncia?  Eve estreitou os olhos.  E quanto a rogar pragas, lanar feitios e fazer sacrifcios? Virgens nuas no altar e galos pretos sendo decapitados? 
  que as obras de fico mostram as bruxas desse jeito. Voc conhece a famosa cena: Mais dores para a barrela, mais cinzas para a panela. Shakespeare. Macbeth. 
Eve, com ar de desdm, rebateu: 
 Vou pegar voc, minha menina, e seu cozinho tambm, a Bruxa Malvada do Oeste, em O Mgico de Oz. Assisti no canal de filmes clssicos. 
 Boa citao  admitiu Peabody.  Ambas so exemplos de um imenso mal-entendido. Bruxas no so feias, velhas malficas que preparam poes em caldeires cheios de gosma ou perseguem garotinhas acompanhadas de simpticos espantalhos falantes. Os seguidores da Wicca gostam de ficar despidos, mas no ferem ningum nem nada desse tipo. Trata-se basicamente de magia branca. 
 E no...? 
 Magia negra. 
 Voc no vai me dizer que acredita nessas coisas, no ?  reagiu Eve, olhando para a ajudante.  ...Mgicas e encantamentos? 
 No.  Mais animada pelo efeito do caf, Peabody tornou a se virar para o computador.  Sei algumas coisas bsicas porque tenho um primo que se converteu  religio Wicca. Ele leva a coisa a srio. Chegou a se filiar a um grupo e participa de convenes de bruxas em Cincinnati.
 Voc tem um primo que participa de convenes de bruxas em Cincinnati.  Rindo alto, Eve colocou o caf sobre a mesa.  Peabody, voc vive me surpreendendo. 
 Qualquer dia vou lhe contar tudo a respeito de minha av e seus cinco amantes. 
 Bem, cinco amantes no  to anormal no perodo da vida de uma mulher. 
 Mas no foi durante a vida toda, foi s no ms passado. E ela namorou com todos ao mesmo tempo.  Peabody olhou para cima, com a fisionomia impassvel.  Vov est com noventa e oito anos. Tomara que eu puxe a ela... 
Eve ia soltar uma gargalhada, mas teve que engoli-la, pois seu tele-link tocou. 
 Aqui  Dallas  atendeu, enquanto observava o rosto do comandante Whitney surgir na tela.  Sim, comandante? 
 Quero falar com voc, tenente, em minha sala. O mais rpido possvel. 
 Sim, senhor. Cinco minutos.  Eve desligou e lanou um olhar esperanoso para Peabody.  Talvez tenha pintado alguma coisa. Continue organizando esses arquivos. Entro em contato com voc se a gente tiver que sair. 
Ao deixar a sala, deu um passo atrs e falou, apenas com a cabea  vista: 
 E no coma minha barra de chocolate! 
 Droga!  reclamou Peabody, baixinho.  Ela no deixa escapar nada.


Whitney passara a maior parte de sua vida por trs de um distintivo e grande parte de sua carreira no comando. Fazia questo de conhecer seus policiais, avaliar seus pontos fortes e fracos. Sabia como utilizar ambos. 
Era um homem corpulento, com mos de operrio, olhos escuros e penetrantes que muitos achavam frios. Seu temperamento, na superfcie, era to calmo que chegava a assustar. E, como acontece com a maioria das guas plcidas, escondia algo perigoso que ficava borbulhando no fundo. 
Eve o respeitava, de vez em quando chegava a gostar dele e sempre o admirara. 
Ele estava sentado atrs de sua mesa quando ela entrou na sala, e rugas de concentrao franziam-lhe a testa enquanto ele lia um relatrio impresso. No levantou a cabea, simplesmente fez um gesto indicando uma cadeira para Eve. Ela se sentou, vendo um bonde areo ribombar do lado de fora da janela, e se espantou, como sempre, ao ver o nmero de passageiros que usavam binculos e culos de enxergar a distncia. 
O que ser que eles esperavam ver por trs das janelas nas salas onde os policiais trabalhavam?, perguntou-se ela. Suspeitos sendo torturados, armas sendo descarregadas sobre algum, vtimas sangrando e chorando? E por que ser que a fantasia de ver tanta misria os deixava to interessados? 
 Eu a vi no velrio ontem  anunciou ele. 
Eve transferiu seus pensamentos e sua ateno para o comandante, confirmando: 
 Imagino que quase todos os policiais da Central de Polcia apareceram por l. 
 Frank era muito querido. 
 Sim, era mesmo. 
 Voc nunca trabalhou com ele? 
 Ele me deu algumas dicas quando eu ainda era recruta, me ajudou algumas vezes fazendo investigaes de rua em alguns casos que investiguei, mas... no, jamais trabalhei diretamente com ele. 
Whitney concordou com a cabea e manteve os olhos nos dela, informando: 
 Ele era parceiro de Feeney, antes do seu tempo, Dallas. Quando voc comeou a trabalhar nas ruas com Feeney, assumiu o lugar de Frank, que se transferira para um setor burocrtico. 
Eve comeou a sentir uma sensao desagradvel na barriga. Tem alguma coisa aqui, pensou. Algo est errado. Porm, disse apenas: 
 Sim, senhor. A morte de Frank foi um duro golpe para Feeney. 
 Sei bem disso, Dallas.  por essa razo que o capito Feeney no est conosco neste momento.  Whitney apoiou os cotovelos sobre a mesa e cruzou os dedos bem apertados.  Talvez tenhamos um problema aqui, tenente. Uma situao delicada. 
 Relacionada com o sargento Wojinski? 
 A informao que vou lhe passar neste momento  confidencial. Sua auxiliar pode ser informada, a seu critrio, mas ningum mais em toda a fora. E ningum da mdia. Estou pedindo a voc, ordenando a voc  corrigiu , a essencialmente trabalhar nesse caso por conta prpria. 
A sensao de desconforto em sua barriga se transformou em fisgadas de medo ao pensar em Feeney. 
 Entendido, senhor. 
 H alguns problemas relacionados com as circunstncias da morte do sargento Wojinski. 
 Problemas, comandante?... 
 Voc precisa tomar conhecimento de algumas coisas para lhe servir de base.  Colocou as mos cruzadas na beira da mesa, dizendo:  Chegou ao meu conhecimento que o sargento Wojinski estava efetuando uma investigao por conta prpria, fora do horrio de expediente, ou ento estava envolvido com drogas ilegais. 
 Drogas? Frank?!... Ningum tinha a ficha mais limpa do que Frank. 
Whitney continuou, sem piscar: 
 No dia 22 de setembro ltimo, o sargento Wojinski foi visto por uma detetive da Diviso de Drogas Ilegais. Ela estava sob disfarce e, segundo eu soube, conduzia uma investigao a respeito de um suspeito centro de distribuio de drogas qumicas. O Athame  um clube privado, com temtica religiosa, que oferece aos seus membros servios ritualsticos individuais e em grupo, e tambm  licenciado para fornecer favores sexuais em particular. A Diviso de Drogas Ilegais est investigando o lugar h quase dois anos. Frank foi visto fazendo uma compra.
Ao ver que Eve no disse nada, Whitney soltou um longo suspiro e continuou: 
 Este evento foi relatado a mim. Eu interroguei Frank, e ele no cooperou muito...  Whitney hesitou e ento foi em frente:  Para ser franco, Dallas, o prprio fato de ele no ter confirmado nada nem negado j era estranho em se tratando dele. Isso me deixou preocupado. Ordenei que ele se submetesse a um exame fsico completo, incluindo pesquisa de consumo de drogas, e o aconselhei a tirar uma semana de folga. Ele concordou com tudo. Os exames deram negativo. Em respeito  sua ficha limpa, alm de nossa amizade e a opinio que tinha dele, no registrei este incidente em seu histrico e bloqueei os dados. 
Levantando-se da mesa, ele se virou para a janela. 
 Talvez isso tenha sido um erro  continuou.  Se eu tivesse insistido na questo, quela altura talvez ele ainda estivesse vivo, e ns no estaramos tendo esta conversa. 
 O senhor confiava em seu subordinado e no juzo que fazia dele. 
Whitney se virou. Seus olhos pareciam ainda mais escuros, intensos, mas no frios, pensou Eve. Exibiam sentimentos. 
 Sim, confiei... e agora tenho outros dados. A autpsia-padro detectou, no organismo do sargento Wojinski, traos de digitlicos e Zeus. 
 Zeus?!  Dessa vez foi Eve quem se levantou.  Frank no era usurio, comandante. Independentemente do fato de sabermos quem ele era, uma droga qumica to poderosa quanto Zeus d a maior bandeira! D pra gente ver nos olhos, nas modificaes de personalidade. Se ele estivesse usando Zeus, todos os tiras desta diviso iam ficar sabendo. E o exame antidrogas teria revelado. S pode ser um engano. 
Enfiando as mos nos bolsos, Eve fez um esforo para no comear a andar de um lado para outro na sala. 
 Sei que h tiras que consomem drogas  continuou ela.  Sei que h tiras que acham que o distintivo serve como escudo para escapar da lei. Mas no Frank! De jeito nenhum aceito a idia de que ele estivesse sujo... 
 Mas os traos estavam l, tenente. Bem como vestgios de outras drogas, identificadas como clones de projeo. A combinao de todos esses elementos qumicos resultou em parada cardaca e morte. 
 O senhor suspeita de que ele tenha tomado uma overdose ou se matado?  Ela balanou a cabea para os lados.  No, no  possvel, isso est errado! 
 Repito, tenente, os traos apareceram l, na autpsia. 
 Ento deve haver algum outro motivo. Digitlicos e Zeus?  Ela franziu a testa.  Digitlicos so remdios para o corao, no ? O senhor disse que ele se submeteu a um exame fsico completo h duas semanas. Por que no apareceu que ele sofria de problemas cardacos? 
O olhar de Whitney permaneceu firme ao falar. 
 O amigo mais chegado de Frank na fora  o melhor detetive eletrnico da cidade.
 Feeney?  Eve deu dois passos para frente, sem conseguir se segurar.  O senhor acha que Feeney escondeu tudo dentro do sistema e alterou seus registros mdicos? Droga, comandante! 
  uma possibilidade que eu no posso ignorar  disse Whitney, sem baixar o tom.  Nem voc! A amizade s vezes impede o julgamento imparcial. Estou confiando na sua competncia e espero que a sua amizade com Feeney no v, nesse caso, impedir o seu julgamento imparcial. 
Voltou para a mesa, reassumiu a postura de autoridade e disse: 
 Estas alegaes e suspeitas tm que ser investigadas e esclarecidas. 
O calor que Eve sentia no estmago se transformara em azia, que queimava como cido. 
 O senhor quer que eu investigue dois colegas. Um deles est morto, e sua famlia est arrasada. O outro foi a pessoa que fez meu treinamento e  um grande amigo...  colocou as mos sobre a mesa do comandante  ...e  seu amigo tambm. 
Whitney esperava a raiva, e a aceitava. Da mesma forma que esperava que ela fosse desempenhar bem a misso. Ele no aceitaria menos que isso. 
 Eve, voc preferia que eu entregasse esse caso a algum que no se importasse com os dois?  Suas sobrancelhas se elevaram ao fazer a pergunta.  Quero que isso seja feito na surdina, e cada pea que sirva de prova alm de todos os registros da investigao devero ser lacrados e entregues somente a mim. Pode ser necessrio que voc precise conversar com a famlia do sargento Wojinski em algum momento. Tenho certeza de que far isso com tato e discrio. No precisamos aumentar o pesar da famlia. 
 E se eu encontrar alguma coisa que manche uma vida inteira de bom servio pblico? 
 Caber a mim a tarefa de lidar com o problema. 
 Isso que o senhor est me pedindo  algo terrvel de fazer  afirmou ela, empertigando-se. 
 No estou pedindo, estou ordenando  corrigiu Whitney.  Talvez ver as coisas desse modo torne a tarefa mais fcil para voc, tenente.  Ele lhe entregou dois discos lacrados.  Assista a esses dois discos em sua casa. Toda e qualquer transmisso ou contato comigo a respeito desse assunto deve ser enviada da sua casa para a minha. Nada deve passar pelo sistema da Central de Polcia, at que eu determine o contrrio. Agora, est dispensada! 
Ela girou nos calcanhares e caminhou at a porta. Ao chegar ali, fez uma pausa e falou, sem olhar para trs: 
 No vou entregar Feeney. De jeito nenhum! 
Whitney a observou sair e fechou os olhos. Eve faria o que precisava ser feito, e ele sabia disso. S esperava que no fosse mais do que ela conseguiria suportar. 


Eve estava fervendo de raiva quando voltou  sua sala. Peabody continuava sentada diante do monitor, com um sorriso afetado. 
 Estou quase acabando. Seu computador  de lascar, Dallas, mas j dei uns socos nele, para ajud-lo a se comportar. 
 Desligue!  disse Eve com cara feia enquanto pegava o casaco e a bolsa.  Pegue seu equipamento, Peabody. 
 Temos um caso para resolver?  Animada, Peabody pulou da cadeira e correu atrs de Eve.  Que tipo de caso? Aonde vamos?  Ela acelerou o passo para acompanh-la.  Dallas?... tenente? 
Eve apertou com fora o boto do elevador e s o olhar furioso que lanou para Peabody j foi o bastante para acabar com as perguntas. Eve entrou no elevador, apertou-se no meio de um monte de policiais barulhentos e permaneceu em um silncio de pedra. 
 Oi, Dallas, como vai a vida de recm-casada? Por que no pede ao seu marido rico para ele comprar a lanchonete aqui da central? Quem sabe assim a gente finalmente vai conseguir alguma comida de verdade para morder. 
Eve lanou um olhar glido por cima do ombro e olhou para o rosto sorridente do policial que disse isso. 
 Voc pode me morder, Carter. 
 Bem que eu tentei isso, h uns trs anos, e voc quase me quebrou os dentes. Acabou deixando um civil te morder...  completou, enquanto uma gargalhada geral explodia em volta deles. 
 Pelo menos foi algum que no  o maior babaca da Diviso de Roubos  acrescentou algum l do fundo. 
  melhor que ser o menor babaca, Forenski  reagiu Carter.  Ei, Peabody, quer que eu morda voc? 
 Se o seu plano odontolgico estiver em dia... 
 Vou verificar e depois a informo.  Dando uma piscadela, Carter e vrios outros saram em bando. 
 Carter d em cima de qualquer mulher  comentou Peabody, casualmente, preocupada ao ver que Eve continuava a olhar direto em frente.   uma pena que seja realmente um babaca.  Nenhuma resposta.  Ahn, eu acho Forenski um gato...  continuou Peabody.  Ele no tem namorada firme, tem? 
 No fico xeretando a vida pessoal dos colegas  reagiu Eve, saltando quando o elevador chegou  garagem. 
 Mas no se importa de xeretar a minha vida  disse Peabody, baixinho. Esperou at Eve digitar o cdigo para abrir o carro e entrou no lado do carona.  Devo informar ao sistema qual  o nosso destino, senhora, ou  uma surpresa?  Ento piscou, preocupada, ao ver que Eve simplesmente apoiou a cabea sobre o volante.  Ei, voc est bem? O que est acontecendo, Dallas? 
 Digite o endereo da minha casa. Vamos para a sala de trabalho que fica l.  Eve sugou o ar com esforo e se ajeitou no banco.  Vou explicando tudo pelo caminho. Todas as informaes que voc receber e todos os registros que surgirem e que tenham relao com esta investigao devem ser codificados e lacrados.  Eve manobrou o carro para fora da garagem e saiu na rua movimentada.  Todas as informaes que eu citar so confidenciais. Voc dever se reportar apenas a mim ou ao comandante Whitney. 
 Sim, senhora.  Peabody engoliu em seco, desobstruindo a garganta, e perguntou:   um assunto interno, no ? O investigado  um de ns. 
 Sim... droga!  um de ns.


Seu sistema caseiro no tinha as excentricidades do computador do trabalho. Roarke providenciara isso. Os dados rolavam suavemente na tela. 
 Detetive Marion Burns. Ela vem trabalhando sob disfarce no Clube Athame h oito meses, como atendente no bar.  Eve apertou os lbios.  Burns... eu no a conheo. 
 Eu a conheo, por alto.  Peabody chegou sua cadeira mais para perto da de Eve.  Tive contato com ela quando estava... voc lembra, durante o caso Casto. Ela me pareceu uma profissional do tipo confivel, focada e alerta. Se me lembro bem, ela faz parte da terceira gerao de policiais em sua famlia. Sua me ainda est na ativa. Tem a patente de capito, me parece, em Bunko. Seu av tombou no cumprimento do dever durante as Guerras Urbanas. No sei por que motivo ela teria dedurado o sargento Wojinski. 
 Talvez tenha simplesmente relatado o que viu, ou talvez haja mais alguma coisa por trs. Vamos ter que descobrir. O relatrio que entregou a Whitney  curto e direto.  meia-noite e meia do dia 22 de setembro de 2058, ela observou o sargento Wojinski sentado em uma cabine privativa em companhia de Selina Cross, conhecida traficante de drogas qumicas. Wojinski entregou algumas fichas de crdito para ela e recebeu um pequeno pacote que parecia conter uma substncia ilegal. A conversa e a compra demoraram quinze minutos, ao fim dos quais Selina Cross foi para outra cabine. Wojinski permaneceu no clube por mais uns dez minutos e ento foi embora. A detetive Burns seguiu o suspeito por dois quarteires, at que o viu entrar em um coletivo. 
 Ento ela no o viu consumir a droga. 
 No. E tambm no o viu retornar ao clube naquela noite nem em nenhuma noite subseqente, durante o tempo em que ficou de vigia. Marion Burns  a primeira em nossa lista de interrogatrios. 
 Sim, senhora. Dallas, j que Wojinski e Feeney eram muito ligados, no lhe parece que Wojinski teria confidenciado algo a ele? Ou, se isso no aconteceu, que Feeney talvez tenha reparado em... alguma coisa? 
 No sei.  Eve esfregou os olhos.  Clube Athame... que diabos  um athame? 
 No sei.  Peabody pegou seu computador de mo e requisitou dados.  Athame: punhal cerimonial para rituais wiccanos,  uma ferramenta normalmente fabricada em ao. Tradicionalmente, o athame no  utilizado para cortar, mas apenas para marcar ou traar crculos protetores, em religies ligadas  terra. 
Peabody olhou para Eve e acrescentou: 
 Feitiaria.  uma tremenda coincidncia. 
 No creio.  Pegando o bilhete de Alice que guardara na gaveta, entregou-o a Peabody.  A neta de Frank me entregou esse papel, disfaradamente, durante o velrio. Descobri que ela trabalha em uma loja chamada Busca Espiritual. Conhece esse lugar? 
 No, mas sei o que .  Preocupada, Peabody devolveu o bilhete.  Os seguidores Wicca so pacficos, Dallas. E usam ervas, no elementos qumicos. Nenhum wiccano legtimo vai comprar, vender ou consumir Zeus. 
 E quanto a digitlicos?  Eve colocou a cabea meio de lado.  So feitos a partir de ervas, no so? 
 So destilados da dedaleira, uma erva do gnero Digitalis. Vm sendo usados para fins medicinais h sculos. 
 Funciona como,  um tnico ou estimulante? 
 No sei tanto assim a respeito de cura, mas... sim, acho que sim. 
 Zeus tambm... fico imaginando que tipo de efeito voc consegue misturando os dois. Mistura malfeita, dosagem errada, sei l, mas no ficaria surpresa se soubesse que provoca parada cardaca. 
 E voc acha que Wojinski se matou? 
 O comandante  quem suspeita disso  respondeu Eve, com impacincia.  Eu s tenho perguntas, no respostas. Mas vou consegui-las.  Tornou a guardar o bilhete.  Vamos comear por hoje  noite, com Alice. Quero que voc esteja l s onze da noite,  paisana. Tente parecer uma entusiasta da Famlia Livre, Peabody, e no uma policial. 
 Bem, tenho um vestido bem tpico que a minha me fez para mim e me deu no ltimo aniversrio  contraiu o rosto , mas vou ficar muito injuriada se voc comear a rir dele e me zoar. 
 Prometo que vou tentar me controlar. Por ora, vamos ver o que conseguimos desencavar a respeito dessa tal Selina Cross e do Clube Athame. 
Cinco minutos depois, Eve estava sorrindo com ar sombrio para o monitor, enquanto comentava: 
 Muito interessante. Nossa Selina anda muito agitada... Passou algum tempo na cadeia. Olhe s para a sua ficha criminal, Peabody. Ofereceu-se para fazer sexo sem ser licenciada, em 2043 e 2044. Acusada de assalto tambm em 2044, mas a queixa foi retirada. Depois encarou uma queixa de fraude, em 2047, quando gerenciava uma espelunca para contatos medinicos. Mas por que diabos ser que as pessoas vivem querendo conversar com os mortos, hein? Suspeita de mutilao de animais em 2049. No houve provas suficientes para prend-la. Fabricao e distribuio de substncias ilegais. Foi isso que a levou para o xadrez, de 2050 a 2051. Tudo isso pode ser considerado coisa pequena. Em 2055, porm, ela foi chamada para interrogatrio por suspeita de estar ligada ao assassinato ritual de um menor. Seu libi, porm, foi confirmado. 
 A Diviso de Drogas Ilegais a vem mantendo sob observao desde que saiu da priso, em 2051  acrescentou Peabody, olhando a ficha. 
 Mas no conseguiram enquadr-la. 
 Como voc disse, ela  uma sardinha... eles devem estar  procura de um peixe maior. 
 Exato! Vamos ver o que Marion Burns tem a nos dizer. Veja s... Selina Cross  a dona do Clube Athame, a dona legal!  Eve apertou os lbios.  Ora, ora... onde  que uma traficante de segunda classe consegue grana para comprar e manter um clube prive? Ela  testa-de-ferro! Ser que o pessoal das Drogas Ilegais sabe para quem ela est servindo de fachada? Vamos dar uma olhada na cara dela. Computador, exiba uma foto da suspeita, Selina Cross. 
 Ahff...  Peabody sentiu um calafrio diante da imagem que surgiu na tela.  Fantasmagrica! 
 No  um rosto fcil de esquecer  murmurou Eve. 
Era comprido e estreito, os lbios cheios, muito vermelhos, os olhos pretos como nix. Havia traos belos ali, considerando o conjunto... a pele era muito branca e lisa, mas com um rosto frio. E, como Peabody to bem descrevera, fantasmagrico. Seus cabelos eram to pretos quanto os olhos, repartidos bem no meio, e desciam em fios retos, escorridos. Havia uma pequena tatuagem acima da sobrancelha esquerda. 
 Que smbolo  aquele ali, tatuado?  quis saber Eve.  Ampliar a imagem em trinta por cento e aumentar a nitidez nos segmentos vinte a vinte e dois!  ordenou ao sistema. 
 Um pentagrama...  a voz de Peabody estremeceu, fazendo com que Eve olhasse com mais curiosidade  ...e est invertido. Ela no segue a religio Wicca, Dallas.  Peabody pigarreou.  Ela  adepta do satanismo! 


Eve no acreditava nessas coisas  magia negra ou magia branca. Mas estava disposta a aceitar que outros acreditavam. E mais inclinada ainda a imaginar que havia gente por a usando esse tipo de f mal direcionado, a fim de explorar e tirar vantagens. 
 Tenha cuidado com o que voc no acredita, Eve. 
Distrada, ela olhou para ele. Roarke insistira em dirigir. Ela no podia reclamar, pois qualquer um dos carros que ele tinha deixava o dela no chinelo. 
 O que quer dizer com isso? 
 Quero dizer que, quando certas crenas e tradies sobrevivem intactas durante sculos, existe uma razo para isso. 
 Claro que existe. Os seres humanos so, e sempre foram, crdulos e ingnuos. E existem, como sempre existiram, indivduos que sabem como usar essa credulidade simplria. Vou descobrir se algum andava explorando essa fraqueza em Frank. 
Ela contara toda a histria a Roarke, justificando isso para si mesma com o argumento de que, j que no podia recorrer a Feeney para ajud-la na parte tcnica, poderia e iria usar os talentos de Roarke para isso. 
 Voc  uma boa policial e uma mulher sensvel, Eve. s vezes,  uma policial boa demais e uma mulher sensvel demais, at...  Parou em um sinal e olhou para ela.  O que estou lhe pedindo  para ser mais cuidadosa ainda ao aprofundar-se em uma rea como essa. 
Seu rosto parecia circunspecto, sombrio, e sua voz, ainda mais sria. 
 Estamos falando de bruxas e adoradores do diabo. Qual , Roarke, j estamos em outro milnio... satanistas, pelo amor de Deus!  Tirou o cabelo da frente do rosto.  O que esse pessoal acha que poderia conseguir do diabo, se ele existisse e eles conseguissem chamar sua ateno? 
 Esse  o problema, no ?  disse Roarke, baixinho, enquanto virava para oeste, na direo do Clube Aquarius. 
 Demnios existem!  Eve franziu a testa quando ele conseguiu estacionar em uma vaga elevada, junto da calada.  Existem, so de carne e osso... e caminham sobre duas pernas. Voc e eu j encontramos um monte deles. 
Ela saltou do carro e seguiu pela rampa que descia at o nvel da rua. Estava ventando um pouco e a brisa refrescante limpara os cheiros e a fumaa, levando-os para longe. Acima deles, o cu estava carregado com nuvens negras e no dava para ver a lua nem as estrelas. Fachos de luz se cruzavam no cu, lanados por veculos presos em um engarrafamento areo, e ouvia-se o roncar suave dos motores no alto. 
A rua ficava em uma regio sofisticada, cheia de pretenses urbanas artsticas, um ponto nobre e valorizado onde o carrinho de churrasquinho de rua era limpo e brilhante e o cardpio apresentava at mesmo frutas hbridas frescas, em vez de vender apenas enfumaados cachorros-quentes de soja. A maior parte dos vendedores ambulantes j havia se recolhido para a noite. Durante o dia, porm, camels montavam suas bancas e discretamente ofereciam jias fabricadas  mo, tapetes feitos manualmente em tear, ervas para banhos aromticos e chs. 
At os pedintes daquela rea eram mais educados, e deixavam suas licenas para exercer a mendicncia bem  vista de todos. Provavelmente gastavam seus ganhos dirios em uma boa refeio e no em drogas qumicas. 
A criminalidade era baixa ali, e os aluguis, carssimos. Os moradores da regio, bem como os comerciantes, eram, em mdia, jovens. 
Eve detestaria morar ali. 
 Chegamos cedo  murmurou ela, analisando a rua em volta com todo o cuidado, por fora do hbito. Ento seus lbios se abriram em um sorriso forado, dizendo:  Olhe ali! Delicatssen Medinica. Imagino que voc entre l, pea uma poro de vegetais picados e o atendente afirme que j sabia que voc ia pedir esse prato. Saladas, massas e leitura de mos. Esto abertos.  Por impulso, virou-se para Roarke. Queria alguma coisa que ajudasse a levantar o seu astral.  Est a fim de ir at ali? 
 Voc quer pedir a uma pessoa para ler a sua mo? 
 J que a gente est aqui...  Agarrou a mo dele.  Vai servir para me deixar no clima de investigar seguidores de Satans que tambm so traficantes de drogas qumicas. Talvez a quiromante faa um acordo e leia a sua mo tambm pela metade do preo. 
 No. 
 A gente nunca sabe, no custa pechinchar. 
 No quero que leiam a minha mo. 
 Covarde!  murmurou ela e o empurrou pela porta de entrada. 
 Eu prefiro a palavra cuidadoso. 
Eve tinha de admitir... o cheiro estava tentador! No havia o fedor de cebolas e molho apimentado em excesso, to comum em lugares como aquele. Em vez disso, havia uma leve fragrncia de temperos exticos e flores, que se mesclavam perfeitamente com a msica etrea. 
Mesinhas brancas e cadeiras tambm brancas estavam colocadas a uma boa distncia da mesa do buf, onde tigelas e pratos de comida muito colorida eram apresentados por trs de vidros impecavelmente limpos. Dois clientes estavam sentados junto de uma das mesas, debruados sobre tigelas de sopas claras. Ambos usavam mantos brancos e soltos, sandlias incrustadas com pedras e tinham as cabeas raspadas. 
Atrs do balco, estava um homem cheio de anis de prata, um em cada dedo. Usava uma camisa solta, azul-clara, com mangas largas. Seus cabelos louros estavam cuidadosamente tranados com um cordo de prata. Ele sorriu, dando-lhes as boas-vindas. 
 Abenoados sejam... desejam comida para o corpo ou para a alma? 
 Achei que voc ia descobrir s de olhar...  Sorriu Eve para ele.  Que tal uma leitura? 
 Leitura de mo, tar, runas ou aura? 
 Mo!  Divertindo-se com aquilo, Eve esticou a mo com a palma para cima. 
 Cassandra  a nossa quiromante. Fiquem  vontade, sentem-se... ela ficar feliz em atend-los... Irm!  chamou ele, enquanto Eve comeava a se virar para sentar.  Suas auras so muito fortes e vibrantes. Vocs combinam muito bem um com o outro.  E dizendo isso, pegou uma vareta de madeira com a ponta redonda e a passou com suavidade sobre a borda de uma tigela branca fosca, translcida. 
Com o som melodioso da madeira sobre a borda de vidro, uma mulher surgiu por trs de uma cortina de contas que escondia uma sala ao fundo. Usava uma tnica prateada, com um bracelete em prata preso acima do cotovelo. Eve notou que ela era muito jovem, em torno de vinte anos, e, como o homem do balco, tinha os cabelos louros e tranados. 
 Sejam bem-vindos.  Sua voz tinha um leve sotaque da Irlanda.  Por favor, fiquem  vontade. Os dois vo querer leitura de mo? 
 No, s eu.  Eve sentou-se a uma mesa mais afastada.  Quanto ? 
 A leitura  de graa. Solicitamos apenas uma doao, a critrio do cliente.  Sentando-se com graa e leveza, sorriu para Roarke.  Agradecemos muito pela sua generosidade. Agora, senhora, a mo com a qual a senhora nasceu. 
 Eu nasci com as duas. 
 A esquerda, por favor.  Ela fechou os dedos em concha sob a mo que Eve lhe ofereceu, quase sem toc-la a princpio.  Fora e coragem. Seu destino no foi determinado. Um trauma, uma falha na linha da vida. A senhora era muito nova... apenas uma criana... tanta dor, tanta tristeza.  Levantou os olhos em um tom de cinza-claro.  No teve, e no tem, culpa pelo que houve. 
Ela segurou a mo de Eve com mais fora ao sentir que, por instinto, ela a estava recolhendo. 
 No  necessrio que se lembre de tudo o que aconteceu, pelo menos at estar pronta. Vejo muito pesar, dvidas a respeito de si mesma, paixes bloqueadas. Uma mulher solitria que sempre escolhe se manter focada em um objetivo. Tem uma grande necessidade de ver a justia ser feita.  disciplinada, automotivada... atormentada. Seu corao se quebrou... na verdade, foi pior do que isso. Assim, a senhora guardou com cuidado o que sobrou dele.  muito capaz no que faz. Muito confivel tambm. 
Pegou a mo direita de Eve com firmeza, mas mal olhou para ela. Os olhos cinzentos permaneceram fixos no rosto da consulente, e continuou: 
 A senhora carrega muito do que aconteceu dentro de si.  algo que no se aquieta, algo que no lhe d descanso. Mas conseguiu encontrar o seu lugar. A autoridade combina com o seu temperamento, bem como a responsabilidade que a acompanha. Vejo que  teimosa, muitas vezes obstinada, mas seu corao est curado. A senhora ama... 
Lanou um olhar de lado para Roarke mais uma vez, e seus lbios se tornaram mais suaves quando tornou a olhar para Eve, dizendo: 
  um amor to profundo que a deixa surpresa. Isso a deixa nervosa tambm, e a senhora no  de ficar nervosa com facilidade.  Seu polegar passou de leve pela palma da mo de Eve.  Seu corao  profundo. E ... seletivo, exigente. Ele caminha com muito cuidado, mas, quando se d,  de forma completa. A senhora possui uma identificao nica e personalizada... uma espcie de... distintivo.  Sorriu de leve.  Sim... fez a escolha certa, talvez a ltima que teria a chance de fazer. A senhora j matou outro ser humano. Mais de uma vez. No houve alternativa para a senhora, mas isso pesa muito no seu corao e na sua cabea, o tempo todo. Com relao a isso, a senhora tem dificuldades para separar o intelecto do emocional. Vejo aqui que vai tornar a matar... 
Os olhos cinzentos ficaram vidrados de repente, e a fora com que segurava a mo de Eve aumentou. 
 Est escuro...  murmurou ela.  As foras so muito escuras aqui. Foras do mal. H vidas que j se perderam e outras ainda vo se perder. Vejo dor e medo. Corpo e alma. A senhora deve proteger muito bem a si mesma e queles que ama. 
Virando-se para Roarke, ela agarrou de forma inesperada a mo dele e comeou a falar muito depressa em idioma galico. Seu rosto ficou muito branco e sua respirao se tornou ofegante. 
 J chega!  Abalada, Eve puxou a mo para perto de si.  Foi um tremendo show...  Irritada por sentir que a palma de sua mo formigava, ela a esfregou com fora nas calas, sobre o joelho.  Voc tem mesmo um olho muito bom. Cassandra  o seu nome, no ? Tem uma conversa mole bem impressionante tambm.  Enfiando a mo na bolsa, Eve pegou cinqenta fichas de crdito e as colocou sobre a mesa. 
 Espere!  Cassandra abriu uma pequena bolsa bordada que trazia presa  cintura e pegou uma pedra lisa, em um tom de verde muito claro.  Isto  um presente... uma lembrana.  Ela a colocou na mo de Eve, fechando-a.  Leve-a sempre com a senhora. 
 Por qu? 
 Por que no? Por favor, voltem sempre. Abenoados sejam.
Eve deu mais uma olhada rpida em seu rosto plido, antes de Cassandra voltar correndo para dentro, deixando para trs um som musical das contas que balanavam umas contra as outras. 
 Bem, Roarke, acho que no rolou a previso que diz que voc vai fazer uma longa viagem pelo mar  murmurou Eve, enquanto se encaminhava para a porta.  O que foi que ela disse para voc? 
 O dialeto que usou era um pouco estranho, carregado... acho que ela veio de algum condado da parte oeste da Irlanda.  Ao sair da loja, sentiu-se estranhamente aliviado ao respirar o ar da noite.  O bsico da mensagem foi que se eu a amo tanto quanto ela imagina, devo me manter bem perto de voc. Disse que voc est em grande perigo de perder a vida, e talvez at a alma, e vai precisar de mim para sobreviver. 
 Quanta bobagem!...  Eve olhou para a pedra que estava em sua mo. 
 Fique com a pedra.  Roarke fechou os dedos de Eve sobre ela.  Mal no vai fazer. 
 Acho que vou manter distncia desses paranormais.  Encolhendo os ombros, Eve guardou a pedra no bolso. 
 Excelente idia!  afirmou Roarke com sinceridade, enquanto atravessava a rua com Eve, seguindo ambos em direo ao Clube Aquarius.









 



CAPTULO TRS





E
ra um lugar e tanto, refletiu Eve, e certamente bem mais calmo do que qualquer clube em que ela j estivera. Tanto as conversas quanto as msicas eram quase inaudveis, e com um toque de elegncia. As mesas estavam uma ao lado da outra, como costumava ser, mas foram espalhadas com o intuito de formar padres circulares, que fizeram Eve se lembrar do smbolo que havia no fim do bilhete de Alice. 
Revestindo as paredes, havia espelhos com o formato de estrelas e luas. Cada um deles exibia uma vela acesa, como um pilar branco que refletia luz e calor. Entre os espelhos, estavam placas com smbolos e figuras que ela no reconheceu. A pequena pista de dana era igualmente circular, bem como o bar, onde os clientes se sentavam em bancos altos com representaes dos signos do zodaco. Levou um instante para Eve reconhecer a mulher sentada sobre a face dupla de Gmeos. 
 Caramba, aquela  a Peabody! 
Roarke desviou o olhar, focando-o em uma mulher que trajava um vestido longo, muito rodado, em tons de azul e verde e padres espiralados. Exibia longos cordes com contas que lhe desciam, brilhando, at a cintura, e brincos em metais multicores que balanavam musicalmente ao lado das franjas de seu cabelo reto, cortado bem curto. 
 Ora, ora...  disse ele, sorrindo lentamente  ...nossa resoluta Peabody est uma beleza! 
 Ela parece que... faz parte do cenrio  decidiu Eve.  Tenho que me encontrar com Alice a ss. Por que no vai at l conversar um pouco com Peabody? 
 Ser um prazer. Escute, tenente...  Roarke deu uma longa olhada nos jeans surrados que Eve usava, no casaco de couro sem vida e nas orelhas sem brincos.  Voc no est parecendo parte deste cenrio. 
 Est me sacaneando? 
 No!...  Colocou um dedo sobre a covinha em seu queixo. 
 Foi apenas uma observao.  E se afastou, deslizando suavemente para o banco ao lado de Peabody, dizendo:  Bem, vamos ver, qual seria a frase para puxar assunto aqui...? O que uma bruxa legal como voc est fazendo em um lugar como este? 
 Estou me sentindo uma idiota dentro dessa fantasia.  Peabody lhe lanou um olhar meio de lado, sorrindo. 
 Est linda! 
 No  exatamente o meu estilo  disse ela, bufando baixinho. 
 Sabe o que  mais fascinante em vocs, mulheres, Peabody?  Esticou o brao, dando um piparote no brinco dela, fazendo-o danar.   o fato de vocs terem tantos estilos diferentes. O que est bebendo? 
Sentindo-se ridiculamente elogiada, ela lutou para no ficar vermelha e disse: 
 Um Sagitrio.  o meu signo. O drinque foi designado espiritual e metabolicamente para a minha personalidade.  E tomou um gole do lquido claro.  At que no  mau... qual  o seu signo?
 No fao a menor idia. Acho que nasci na primeira semana de outubro. 
Acho, refletiu Peabody. Que estranho a pessoa no saber... 
 Bem, ento voc  de Libra  afirmou ela. 
 Ento, vamos ser espiritual e metabolicamente corretos.  E se virou para pedir dois drinques, observando Eve, que estava sentada a uma mesa.  Sob que signo voc acha que a sua tenente nasceu? 
  difcil enquadr-la em um signo. 
  mesmo...  murmurou Roarke. 
De sua mesa no crculo mais externo, Eve observava tudo com ateno. No havia uma banda tocando, nem mesmo a imagem hologrfica de uma... em vez disso, a msica parecia vir de lugar nenhum e de toda parte. Um sopro de flautas e cordas sendo tangidas e uma voz feminina tranqilizante que cantava com incrvel doura em uma lngua que Eve no reconheceu. 
Ela viu casais envolvidos em conversas srias, enquanto outros riam baixinho. Ningum virou o rosto quando uma mulher usando um vestido tubinho transparente se levantou para danar sozinha. Eve pediu gua e achou divertido quando notou que o lquido foi servido em um clice que simulava prata. 
Procurou prestar ateno  conversa da mesa ao lado, e achou ainda mais divertido quando percebeu que a sbria discusso do grupo tratava a respeito de suas experincias com projeo astral. 
Em uma das mesas que ficava no crculo ao lado do dela, duas mulheres conversavam sobre suas vidas passadas como danarinas do templo na Atlntida. Eve ficou se perguntando por que ser que as vidas passadas eram sempre mais exticas do que a atual. A nica que a pessoa tinha, em sua opinio. 
Gente esquisita, mas inofensiva, pensou Eve, mas se pegou esfregando contra os jeans a palma da mo que continuava formigando. 
Viu Alice no instante em que a garota entrou. Parece agitada, avaliou Eve. Est com as mos inquietas, nervosas, os ombros tensos e os olhos assustados. Esperou que ela verificasse em torno do salo, at avist-la, e ento balanou a cabea, cumprimentando-a. Olhando uma ltima vez para a porta por cima do ombro, Alice aproximou-se depressa. 
 Voc veio. Temia que no aparecesse.  Rapidamente, enfiou a mo no bolso e pegou uma pedra preta, lisa, pendurada em um cordo de prata.  Coloque isto, por favor.  Insistiu ao ver que Eve a pegou e comeou a analisar o objeto entre os dedos.   uma hialopsita. Foi consagrada. Ela afasta o Mal. 
 Sou a favor disso.  Eve colocou o cordo em volta do pescoo.  Est melhor assim? 
 Este  o lugar mais seguro que conheo. E o mais limpo, purificado.  Continuando a lanar olhares assustados em todas as direes, Alice se sentou.  Costumava vir sempre aqui.  Apertou com fora os amuletos que trazia nas duas mos enquanto uma plataforma de servio veio deslizando em direo  mesa.  Um Golden Sun, por favor  pediu ela, e respirou fundo, enquanto olhava para Eve.  Preciso de coragem. Tentei fazer meditao o dia todo, mas h um bloqueio... estou com medo. 
 De que tem medo, Alice? 
 De que aqueles que mataram o meu av venham me matar a seguir. 
 Quem matou o seu av? 
 O Mal o matou. Matar  o que o Mal sabe fazer de melhor. Voc no vai acreditar nas coisas que vou lhe contar. Tem os ps plantados firmes no cho e s acredita no que pode ser visto com os olhos.  Aceitou o drinque que chegou deslizando e fechou os olhos por um momento, como se rezasse, para s ento levar o copo aos lbios.  Mesmo assim, sei que no vai ignorar o que vou lhe contar. Voc  uma tima policial. Eu no quero morrer!  disse Alice, pousando o copo sobre a mesa. 
Aquela, pensou Eve, era a primeira declarao razovel que ela fazia desde que entrara. O medo era genuno, decidiu, e aparecia sem mscaras ali. Durante o velrio, Alice tivera o cuidado de se cobrir com uma camada de compostura e calma. 
Em respeito  sua famlia, compreendeu Eve. 
 De quem tem medo, Alice, e por qu? 
 Preciso lhe explicar tudo desde o incio. Tenho que me purgar de tudo, antes de pagar por minhas faltas. Meu av a respeitava, tenente, ento vim at aqui em sua memria. Eu no nasci bruxa. 
 Ah, no?...  perguntou Eve, com um tom seco. 
 Algumas nascem bruxas. Outras, porm, como eu, so simplesmente atradas para a Arte. Tornei-me interessada em Wicca atravs de estudos, e quanto mais aprendia, mais sentia necessidade de fazer parte daquilo. Senti-me atrada pelos rituais, pela busca do equilbrio, pela alegria e pela tica positiva. No compartilhava esses interesses com minha famlia. Eles no teriam compreendido. 
Ela abaixou a cabea, e seus cabelos se lanaram para frente como uma cortina que se fecha. 
 Eu gostava do segredo de tudo aquilo  continuou  e ainda era jovem o bastante para achar que a experincia de ficar completamente despida em uma celebrao ao ar livre era ligeiramente desafiadora e m. Minha famlia...  tornou a levantar a cabea  ...eles so conservadores, e uma parte de mim queria fazer algo bem ousado! 
 Uma pequena rebelio? 
 Sim,  verdade. Se eu tivesse deixado as coisas nesse p  murmurou Alice , se eu realmente tivesse aceitado a minha iniciao na Arte e o que isto significava, tudo seria diferente agora. Mas eu era fraca, e meu intelecto, muito ambicioso.  Tornou a pegar o drinque e molhou sua garganta seca.  Eu queria conhecer as coisas. Comparar e analisar, como se fosse em uma tese, os contrastes entre a magia branca e a magia negra. Como poderia apreciar por inteiro uma sem conhecer completamente a sua anttese? Era esse o meu raciocnio. 
 Parece-me lgico. 
 Mas  uma falsa lgica  insistiu Alice.  Eu estava enganando a mim mesma. O ego e o intelecto so muito arrogantes. Pretendia estudar as artes negras em um nvel puramente acadmico. Queria conversar com as pessoas que haviam escolhido o outro caminho para descobrir o que as desviara da luz. Pareceu-me algo empolgante e, durante algum tempo, foi mesmo... 
Uma criana, pensou Eve, no corpo de uma mulher estonteante. Brilhante e curiosa, mas uma criana mesmo assim. Era ridiculamente fcil arrancar informaes dos jovens. 
 Foi assim, Alice, que voc conheceu Selina Cross?
Empalidecendo, Alice fez um gesto rpido, unindo as pontas do indicador e do dedo mindinho, antes de perguntar: 
 Como soube dela? 
 Andei fazendo umas pesquisas. No queria vir at aqui no escuro, Alice. Como neta de um policial, tenho certeza de que voc no esperaria isso de mim. 
 Tenha cuidado com ela!  disse Alice, apertando os lbios.  Tenha muito cuidado com ela! 
 Selina Cross  apenas uma picareta de segunda categoria e traficante de drogas. 
 No, ela  muito mais!  Alice tornou a apertar o amuleto. 
 Acredite em mim, tenente. Eu vi... eu sei. Ela vai querer voc. Voc vai desafi-la. 
 Voc acredita que ela teve alguma coisa a ver com a morte de Frank? 
 Sei que ela o matou.  Seus olhos ficaram rasos dgua e comearam a brilhar, intensificando o tom de azul que havia neles. Uma imensa e solitria lgrima transbordou e escorreu pelo seu rosto muito branco.  Ela o matou por minha causa. 
Eve se inclinou para confort-la e tambm para bloquear a viso que qualquer pessoa em volta pudesse ter daquele rosto choroso. 
 Conte-me a respeito disso  pediu Eve.  Fale-me dela. 
 Eu a conheci h quase um ano. No sab do Samhain.  a noite do Dia de Todos os Santos no calendrio cristo. Vou ter que fazer mais pesquisas, foi o que disse a mim mesma. No imaginava o quanto eu j estava envolvida nem o quanto j estava absolutamente seduzida pelo poder, pela ambio mesquinha em estado puro que havia no outro lado. Ainda no havia participado de nenhum dos rituais, pelo menos naquela poca. Estava apenas observando. Foi quando eu a conheci, e tambm um homem chamado Alban. 
 Alban? 
 Ele  um servo de Selina.  Alice levantou a mo e colocou os dedos sobre a boca.  Naquela noite, as coisas ainda no estavam muito claras na minha cabea. Hoje, percebo que eles lanaram um feitio em mim. Deixei que eles me levassem at o centro do crculo e tirassem o meu manto, as minhas roupas. Ouvi o soar dos sinos e o cntico em louvor ao Prncipe Negro. Presenciei o sacrifcio de um bode. E compartilhei um pouco do seu sangue. 
Sua cabea tornou a tombar para a frente, e a vergonha pareceu envolv-la por completo. 
 Compartilhei um pouco do seu sangue, bebi do clice cerimonial e gostei daquilo. Fui o altar da cerimnia naquela noite. Eles me amarraram na pedra. No sei como aconteceu isso nem quem o fez, mas no senti medo. Estava excitada. 
Sua voz baixou ao nvel de um sussurro. A msica ambiente mudou e passou das cordas para a percusso, com tambores e sinos, criando uma atmosfera alegremente sexual. Alice continuou, sem levantar os olhos: 
 Cada membro da conveno me tocou, esfregou leos em meu corpo e um pouco de sangue sobre a minha pele. O cntico parecia vir de dentro de mim, e o fogo estava to forte e quente... Ento Selina se deitou sobre mim. Comeou a fazer... coisas. Eu jamais havia tido experincias sexuais de nenhum tipo. Ento, enquanto ela se esfregou e veio se arrastando pelo meu corpo acima, Alban montou em mim com as pernas abertas. Ela olhava para mim. As mos dele estavam sobre os seios dela, e, de repente, ele estava dentro de mim. E ela olhava para o meu rosto. Eu quis fechar os olhos, mas no consegui. No consegui. No conseguia parar de fitar os olhos dela. Era como se fosse ela... como se fosse ela que estava dentro de mim. 
As lgrimas comearam a pingar sobre a mesa nesse momento. Embora Eve tivesse mudado o ngulo do corpo para proteg-la dos olhares da maior parte das pessoas que estavam no salo, e apesar de a voz de Alice estar pouco mais alta do que um cochicho a esta altura, vrias cabeas se viraram na direo delas com curiosidade. 
 Voc foi drogada, Alice. E explorada sexualmente. No h nada do que se envergonhar. 
Seu olhar se levantou por um instante e pareceu partir o corao de Eve, quando ela perguntou: 
 Ento, por que estou com tanta vergonha agora? Eu era virgem e senti dor, mas mesmo isso foi excitante, incrivelmente excitante! O prazer que veio com aquilo foi imenso, monstruoso. Eles me usaram, e eu implorei para ser usada novamente. E fui, por todos os que estavam na conveno. Quando amanheceu, eu estava perdida, escravizada. Acordei na cama, no meio deles. Alban e Selina. J me transformara em discpula deles... e em seu brinquedo. 
As lgrimas voltaram a escorrer e ela voltou a beber do drinque. 
 Sexualmente  prosseguiu , no havia nada que eu no permitia que eles fizessem comigo; nem eles nem as pessoas que eles escolhiam. Eu abracei as trevas. E me tornei descuidada em minha arrogncia. Algum contou tudo para o meu av. Ele nunca me disse quem foi, mas sei que foi algum ligado  crena Wicca. Ele me questionou e eu ri na cara dele. Avisei-o para ficar longe dos meus assuntos. E achei que ele havia feito isso. 
Sem dizer nada, Eve empurrou um pouco de gua na direo dela, pela mesa. Sentindo-se grata, Alice pegou o copo e bebeu tudo. 
 Alguns meses atrs, descobri que Selina e Alban estavam promovendo rituais privados. Eu viera da faculdade mais cedo, um dia. Fui  casa deles, entrei por conta prpria e ouvi os cnticos cerimoniais. Abri a porta da sala de rituais. Eles estavam l, juntos, oferecendo um sacrifcio...  Suas mos comearam a tremer.  Dessa vez no era um bode, mas uma criana. Um menininho. 
 Voc testemunhou o assassinato de uma criana cometido por eles?  A mo de Eve apertou com fora o punho de Alice. 
 Assassinato  uma palavra muito gentil para o que eles fizeram.  Suas lgrimas secaram de tanto horror.  No me pea para lhe contar tudo em detalhes. No me pea isso! 
 Conte-me o que conseguir, ento.  Eve sabia que ia precisar de todos os detalhes, mas isso podia esperar. 
 E vi... Selina... a faca ritual. O sangue, os gritos. Juro que conseguia ouvi-los como se fossem manchas negras rasgando o ar. J era tarde demais para impedi-los. 
Tornou a olhar para Eve, os olhos ainda marejados, implorando para ser convencida pelo menos disso.  J era tarde demais para fazer qualquer coisa pelo menino, mesmo que eu tivesse a fora ou a coragem de tentar. 
 Voc estava sozinha, chocada  disse Eve, com todo o cuidado.  A mulher estava armada, o menino estava morto. Voc no teve condies de ajud-lo. 
Por um longo momento, Alice ficou olhando para Eve, e ento cobriu o rosto com as mos, dizendo: 
 Eu tento acreditar nisso. Tento muito! Viver com isso est me destruindo. Eu sa correndo. Simplesmente fugi... 
 Voc no pode mudar isso!  Eve manteve a mo no pulso de Alice, mas com menos fora. Ela tambm j vira uma criana ser mutilada e tambm chegara tarde demais, uma questo de segundos. Ela no fugira... matara. Mas a criana continuou morta do mesmo jeito.  Voc no pode voltar l e mudar o que aconteceu. Tem que viver com as coisas do jeito que elas so. 
 Eu sei. Isis sempre me diz isso.  Alice respirou fundo, uma inspirao entrecortada, e abaixou as mos.  Eles estavam envolvidos com o que estavam fazendo e no me viram. Ou pelo menos eu rezo para que eles no tenham me visto. No procurei o meu av nem a polcia. Estava aterrorizada, enjoada. No sei exatamente quanto tempo se passou, mas procurei por Isis, a sacerdotisa que me iniciara na religio Wicca. Ela me aceitou; mesmo depois de tudo o que eu fizera, ela me aceitou. 
 Voc no chegou a contar a Frank sobre o que viu?
 No na poca.  Alice se encolheu um pouco ao perceber o tom contundente da voz de Eve.  Passei algum tempo fazendo sesses de reflexo e purificao. Isis realiza vrios rituais de limpeza e cura da aura. Ela e eu chegamos  concluso de que era melhor que eu permanecesse em recluso por algum tempo, concentrando-me em tornar a encontrar a luz e fazendo penitncia. 
Os olhos de Eve estavam mais duros quando ela chegou perto de Alice e perguntou: 
 Voc est me dizendo que viu uma criana ser assassinada e no contou a mais ningum, a no ser para a bruxa da vizinhana? 
 Sei que isso parece horrvel.  Seus lbios comearam a tremer, antes que ela os apertasse com os dentes para acalm-los.  O ser fsico da criana j estava alm de qualquer auxlio. Eu no podia fazer mais nada por ele, a no ser rezar por uma passagem segura da sua alma, rumo ao plano seguinte. Estava com medo de contar ao vov. Com medo do que ele poderia fazer e do que Selina faria com ele. Ento, finalmente, fui procur-lo no ms passado e contei-lhe tudo. Agora ele est morto, e sei que ela  a responsvel. 
 Como  que sabe? 
 Eu a vi. 
 Espere um pouco.  Eve levantou a mo, devagar, com os olhos semicerrados.  Voc a viu mat-lo? 
 No. Eu a vi do lado de fora da minha janela. Olhei para fora na noite em que ele morreu e a vi em p na rua, olhando para cima... olhando para mim. Ento o telefone tocou. Era a minha me, me dizendo que vov estava morto. E Selina sorriu. Sorriu e acenou para mim.  Alice tornou a enterrar o rosto nas mos.  Ela enviou suas foras contra ele. Usou os poderes dela para fazer o corao do meu av parar. Por minha causa! Agora um corvo vem pousar toda noite no peitoril da minha janela e fica olhando para mim com os olhos dela. 
 Um corvo, um pssaro?  Meu Deus, pensou Eve, onde ser que vamos parar com essa histria? 
 Ela consegue mudar de forma  afirmou Alice, com as mos trmulas sobre a mesa.  Selina adquire a forma que quiser. Tentei me proteger o melhor que pude, mas talvez minha f no seja forte o bastante. Eles esto me pressionando, me chamando. 
 Alice.  Apesar de manter um ar de simpatia, Eve sentiu que sua pacincia estava se esgotando  Selina Cross talvez tenha alguma coisa a ver com a morte do seu av. Se descobrirmos que ele no morreu de causa natural, pode crer que no foi nenhum encanto; sua morte foi calculada, assassinato simples. E se for esse o caso, vai haver alguma prova, e um julgamento, e ela vai ter que pagar por isso. 
 No se pode encontrar fumaa  disse Alice, balanando a cabea.  Voc no vai encontrar provas de uma maldio. 
 Bem, nesse momento voc  testemunha de um assassinato  disse-lhe Eve, achando que j ouvira o bastante.  Potencialmente,  a nica testemunha, e se estiver com medo, posso conseguir um lugar seguro para voc ficar.  Sua voz estava mais rpida, objetiva, bem profissional.  Preciso que me d uma descrio da criana para que eu possa verificar com o servio de desaparecidos. Com o seu depoimento formal, posso conseguir um mandado de busca para entrar no lugar onde voc diz ter testemunhado o assassinato. Preciso que me fornea os detalhes, detalhes bem especficos. Horas, locais, nomes. Posso ajud-la. 
 Voc no compreende  disse Alice, balanando a cabea lentamente.  Voc no acredita em mim. 
 Acredito que voc  uma mulher inteligente e curiosa, que se impressionou com algumas pessoas realmente desprezveis. Acredito tambm que esteja confusa e aborrecida. Conheo uma pessoa com quem voc pode conversar e que vai ajud-la a superar tudo. 
 Uma pessoa?  Os olhos de Alice ficaram frios e sua voz, dura.  Um psiquiatra? Voc acha que andei imaginando coisas, inventando?  Seu corpo tremeu e ela se levantou de um salto.  No  a minha mente que est em perigo,  a minha vida! Minha vida, tenente Dallas, e minha alma! Se um dia voc enfrentar Selina, vai acreditar em mim. E que a deusa a ajude! 
Girando o corpo, ela saiu e deixou Eve praguejando baixinho. 
 Pelo que reparei, foi um tremendo fracasso  comentou Roarke, chegando por trs de Eve. 
 A garota pirou, mas est apavorada!  Eve expirou com fora e se levantou.  Vamos dar o fora daqui.  Fez um sinal para Peabody e comeou a caminhar em direo  porta. 
Do lado de fora, uma leve nvoa rastejava junto do solo, com movimentos furtivos, como serpentes que se entrelaavam. Uma garoa fina e fria comeava a polir a calada com um brilho molhado. 
 L vai ela  murmurou Eve, ao avistar Alice correndo e virando em uma esquina.  Est indo para o sul. Peabody, cole nela e certifique-se de que ela vai chegar em casa em segurana. 
 J fui!...  Peabody saiu na direo indicada, quase correndo. 
 A cabea daquela menina est um desastre! Eles foderam com ela, de todas as formas possveis e imaginveis.  Enojada, enfiou as mos nos bolsos.  Talvez eu devesse ter tentado lidar melhor com a situao, mas no vi em que ajudaria ficar incentivando os seus delrios. Feitios, maldies e gente que assume a forma que bem quer. Santo Cristo! 
 Querida Eve.  Ele beijou-lhe a sobrancelha.  Minha tira particular, totalmente prtica e objetiva. 
 Pelo que Alice contou, ela se tornou praticamente a noiva de Satans.  Resmungando, Eve resolveu ir para o carro, virou-se na direo de onde viera e comeou a caminhar de volta.  Deixe-me contar como foi a histria, Roarke. Ela queria brincar, comeou a se interessar pelas cincias ocultas e acabou encontrando gente da pesada. Ela  uma menina ingnua, bonita, e no  preciso bola de cristal para ver isso. Enfim, ela foi a uma das reunies deles, ou sei l como chamam aquilo, e eles a drogaram. Depois a estupraram, em bando. Canalhas! Ela ali, drogada, em choque, vulnervel e sugestionvel... foi fcil para um casal de picaretas profissionais convenc-la de que ela fazia parte da seita. Foi s fazer alguns truques de mgica, tirar objetos da cartola e fascin-la. Depois, usaram o sexo para mant-la na linha. 
 Ela comoveu voc...  murmurou Roarke, tocando nos cabelos de Eve e secando-os com as pontas dos dedos. 
 Talvez sim... droga, voc deu uma olhada nela? Aquela jovem foi batizada com o nome certo, sabia? Parece a menina da histria infantil. Provavelmente, tambm acredita em coelhos brancos que falam.  Ento suspirou, tentando colocar as emoes de volta no lugar.  O problema  que essa histria no  um conto de fadas no... ela afirma que presenciou um assassinato ritual. Um menininho, segundo disse. Tenho que lev-la para a dra. Mira dar uma olhada. Uma psiquiatra vai conseguir separar o que  fato do que  fico. Mas acredito que o assassinato foi um fato, e se eles mataram uma criana, j devem ter matado outras. Gente desse tipo adora atacar os indefesos. 
 Eu sei.  Ele esticou o brao para massagear a tenso que sentiu nos ombros de Eve.  Voc se identificou com o caso? 
 No. Isso no foi igual ao que aconteceu comigo... ou com voc.  Mas havia ecos suficientes naquela histria para deix-la desconfortvel.  Ns continuamos aqui, no ?  Colocou a mo sobre a dele, franzindo a testa entre as sombras da noite e perguntando a si mesma, em voz alta:  Por que razo Frank no fez um registro do que a neta lhe contou? Por que diabos decidiu que ia resolver tudo sozinho? 
 Talvez ele tenha feito um registro de tudo. Um registro particular. 
 Meu Deus, como  que pude ser to lerda?  Eve piscou e olhou direto para Roarke. Colocou as mos uma em cada lado de seu rosto e o beijou com fora.  Voc  brilhante! 
 Sou sim, eu sei...  Ele a afastou quando viu uma figura sair das sombras e subir pela rampa.  Um gato preto  disse ele, achando graa e sentindo um certo desconforto ao mesmo tempo.  Sinal de azar... 
 ... sei...  Ela comeou a subir a rampa, virou a cabea um pouco para o lado ao ver o gato sentado sobre as patas traseiras ao lado do carro de Roarke, olhando para ela com olhos verdes muito brilhantes, quase cintilantes.  Voc no parece estar com fome, rapazinho. Tem o plo muito macio e brilhoso para um gato de beco.  perfeito demais!  E compreendeu:  Deve ser um andride.  Mesmo assim, se agachou e esticou o brao para acarici-lo. O gato soltou um ronco agudo por entre os dentes, arqueou a espinha e atacou com a pata, tentando alcan-la. Eve quase levou um arranho bem fundo na palma da mo, mas recuou a tempo.  Puxa, como voc  amigvel!... 
 Voc j devia ter aprendido que no se deve estender a mo para animais estranhos, mesmo andrides.  Roarke passou na frente de Eve para digitar o cdigo, a fim de abrir o carro, e encarou fixamente o brilho verde dos olhos do gato. Quando Eve j estava no carro, ele falou suavemente com o animal. O plo do bicho se eriou todo e sua cauda de levantou, mas logo em seguida ele pulou com agilidade da rampa para a rua e foi engolido pela nvoa. 
Roarke no sabia explicar a razo de ter dado a ordem para o gato ir embora em idioma galico... simplesmente sara daquele jeito, sem que ele planejasse. Continuava a refletir sobre isso quando entrou no carro, colocando-se ao lado de Eve. 
 Escute, Roarke, no posso contar com Feeney para xeretar nada nem aprontar nenhum tipo de armao eletrnica dessa vez. Pelo menos at o comandante aliviar um pouco. Posso ter que recorrer  famlia para ter acesso aos registros pessoais de Frank, mas, se fizer isso, vou ter que oferecer alguma justificativa para eles ou contar-lhes algo. 
 E voc prefere no fazer isso. 
 No, pelo menos por enquanto. Enfim, que tal usar um pouco das suas... habilidades para acessar os arquivos pessoais do computador de Frank? 
 Isso depende, tenente.  Seu astral comeou a melhorar quando ele ligou o carro e comeou a descer da vaga elevada, para alcanar o nvel da rua.  Vou ganhar um distintivo para fazer isso? 
 No  disse, e seus lbios se abriram em um sorriso malicioso , mas pode ganhar uma transa com uma policial. 
 Ento eu topo! Posso escolher a policial?  Simplesmente sorriu ao levar um soco no brao.  Eu ia acabar escolhendo voc mesma. Provavelmente... e imagino que voc queira que eu comece a oferecer minha consultoria extra-oficial ainda esta noite. 
 A idia  essa. 
 Tudo bem, mas quero o sexo antes.  Empurrou a bochecha com a lngua, enquanto ela caa na risada.  Por quanto tempo ainda voc acha que Peabody vai estar ocupada? Opa, estou s brincando!  disse ele, depressa, e colocou o carro no piloto automtico, para o caso de Eve ficar violenta.   que ela estava realmente muito atraente com aquela roupa.  Rindo, ele segurou o soco seguinte em pleno ar com uma das mos e com a outra foi subindo lentamente, at apertar um dos seios de Eve. 
 Escute aqui, meu chapa, voc j tem problemas suficientes, no precisa arrumar mais. Tentativa de praticar qualquer ato de natureza sexual dentro de um carro em movimento  uma violao do cdigo municipal de trnsito. 
 Ento me prenda!  sugeriu ele, mordendo-lhe o lbio inferior. 
 Olhe que eu posso mesmo fazer isso! Depois que tiver acabado com voc!  Conseguindo se libertar, ela o empurrou para trs.  Agora, s por causa da piadinha sobre a minha assistente, nada de sexo at depois do trabalho! 
 Quer apostar?  Ele desligou o piloto automtico e retomou o comando do veculo, olhando para ela de lado, com um jeito maroto. 
 Aposto!  Eve encarou o olhar arrogante dele.  Cinqenta fichas de crdito. 
 Combinado!  Ele comeou a assobiar, enquanto entrava pelos portes de ferro de sua casa. 










 



CAPTULO QUATRO





?P
ode pagar!
Eve rolou para o lado e massageou a ndega esquerda, imaginando se ela no ficara ferida por roar no tapete. Ainda vibrando devido ao ltimo orgasmo, tornou a fechar os olhos, gemendo: 
 Ahn?... 
 Cinqenta fichas de crdito!  Ele se inclinou por sobre ela e beijou-lhe o mamilo.  Voc perdeu a aposta, tenente. 
Os olhos dela piscaram um pouco, e ento se abriram, observando o seu rosto lindo com um ar muito satisfeito. Eles estavam esparramados por sobre o tapete da sala privativa e suas roupas, pelo que ela conseguia lembrar, estavam espalhadas por toda parte. A comear pela escadaria principal, onde ele a empurrara de encontro  parede e comeara a... ganhar a aposta. 
 Estou nua  argumentou ela.  Normalmente no carrego fichas de crdito enfiadas na minha... 
 Tudo bem, aceito uma nota assinada por voc, reconhecendo a dvida.  Roarke se levantou, com os msculos retesados e brilhantes, e pegou um carto no console.  Pronto!  s assinar  disse e o entregou a Eve. 
 Voc est curtindo muito tudo isso, no est?  resmungou ela, olhando para o carto e sabendo que sua dignidade desaparecera junto com os crditos. 
 Olhe, voc nem consegue imaginar o quanto! 
De cara feia, ela escreveu no carto e recitou ao mesmo tempo: 
 Devo a voc, Roarke, cinqenta fichas de crdito. Assinado: Tenente Eve Dallas.  E jogou o carto para ele.  Satisfeito? 
 De todas as maneiras possveis.  Ele resolveu consigo mesmo, de forma sentimental, que ia guardar o carto junto com o pequeno boto cinza que guardara, uma lembrana da primeira vez em que haviam se encontrado.  Eu amo voc, tenente Eve Dallas, de todas as maneiras possveis. 
Ela no se agentou e ficou toda comovida. Talvez pelo jeito com que ele dissera aquilo, ou pelo jeito com que olhou para ela, fazendo acelerar a pulsao sob sua pele, que se derreteu de emoo. 
 Ah, no, voc no me ama no... isso  s um papo para conseguir me arrancar cinqenta paus.  Comeou a se levantar, cambaleante, antes que ele comeasse a distra-la novamente.  Mas onde  que foram parar as minhas calas? 
 No fao a mnima idia...  Caminhando at um local na parede, Roarke tocou em um mecanismo oculto. Quando o painel se abriu, ele pegou um robe. Era de seda, finssimo, e fez com que os olhos dela tornassem a se estreitar. Ele vivia comprando coisas como aquela para lhe dar de presente, e elas sempre arrumavam um jeito de aparecer de repente nas partes mais improvveis da casa, de forma bem conveniente. 
 Isso no  roupa de trabalho  disse ela. 
 Podemos continuar pelados, mas voc ia acabar perdendo mais cinqenta fichas de crdito.  Quando ela agarrou o robe da mo dele, Roarke se virou e pegou outro para si.  Isso vai levar algum tempo...  melhor pegar caf.
Enquanto ela ia em direo ao AutoChef para programar caf, Roarke foi para trs do console. O equipamento ali era de primeira linha e no tinha registro. O sistema CompuGuard da polcia, preparado para proteger os arquivos do ataque de qualquer hacker, no conseguia detectar o sistema clandestino de Roarke nem rastre-lo, ou muito menos impedir que ele penetrasse em qualquer sistema que quisesse. Mesmo com todas essas vantagens, porm, encontrar um registro secreto escondido em um arquivo pessoal que podia ou no existir era o mesmo que separar e analisar individualmente cada gro de areia de um balde cheio at a borda. 
 Ligar!  ordenou ele ao equipamento.   mais provvel que esteja no seu computador de casa, voc no acha? 
 Bem, qualquer coisa que estivesse arquivada no computador de Frank na Central de Polcia fatalmente seria transferido automaticamente para o sistema, e todos os registros oficiais so guardados. Se ele queria manter algo s para si, teria que usar um sistema pessoal. 
 Voc sabe o endereo da casa dele? Ah, deixa pra l  disse Roarke, antes mesmo de Eve conseguir responder.  Eu descubro por aqui. Dados de Frank Wojinski... qual era a patente dele? 
 Sargento-detetive, trabalhando no Departamento de Registros. 
 Dados na tela 1, por favor. 
Enquanto as informaes comeavam a rolar pela tela, Roarke olhou para a xcara de caf que Eve segurava e balanou a mo apontando para si mesmo quando o tele-link tocou, dizendo: 
 Atenda para mim, sim? 
Era uma ordem descontrada, dada por um homem habituado a fazer isso. Automaticamente, Eve se encrespou, mas acabou deixando a irritao de lado. A situao exigia que ela fizesse papel de assistente. 
 Residncia dos Roarke... Peabody? 
 Voc no atendeu o seu comunicador. 
 No, eu...  S Deus sabia onde  que ele fora parar, pensou Eve.  O que houve? 
  uma m notcia, Dallas, muito m...  Embora sua voz estivesse firme, seu rosto estava plido como papel e seus olhos, muito sombrios.  Alice est morta. No consegui evitar... no consegui alcan-la. Ela simplesmente... 
 Onde voc est? 
 Na rua 10, entre a Broadway e a Stima Avenida. Chamei os paramdicos, mas no pude fazer nada para... 
 Voc est em perigo? 
 No, no... s que no consegui impedi-la. Fiquei olhando e, de repente... 
 No mexa em nada no local do incidente, policial. Ligue para a emergncia. Estou indo... chame reforos, como manda o regulamento, e me espere a. Compreendeu? 
 Sim, senhora... sim. 
 Cmbio final. Ah, meu Deus  murmurou ela, ao desligar. 
 Eu levo voc at l.  Roarke j estava em p, com a mo no ombro de Eve.
 No,  o meu trabalho. E rezou para que no fosse sua culpa tambm.  Eu agradeceria se voc ficasse aqui, tentando conseguir qualquer dado que puder. 
 Certo. Eve...  Ele segurou-a pelos dois ombros, com firmeza, antes que ela se virasse.  Olhe para mim. Isso no foi culpa sua. 
 Tomara que no tenha sido  disse ela, sem olhar para ele, mas com pesar no rosto. 


No havia muita gente no local e Eve se sentiu grata por aquilo. J passava das duas da manh e s uns poucos curiosos aparvalhados se acotovelavam em volta da tela de isolamento que a polcia j instalara. Ela viu um txi da Companhia Rpido atravessado meio de lado, perto do meio-fio, e um homem sentado ao lado dele com a cabea entre as mos, enquanto um paramdico conversava com ele. 
Na rua molhada, fracamente iluminada pelo foco de uma lmpada de segurana e com a nvoa envolvendo-lhe o corpo, estava Alice. Seu corpo estava estendido, de barriga para cima, os braos e as pernas abertos, como em uma saudao selvagem. O sangue, dela mesma, empapara o fino tecido de seu vestido e se transformara em um amaldioado tom de vermelho. 
Peabody estava ao lado dela, ajudando outra policial a terminar de erguer a tela de isolamento. 
 Policial Peabody?...  Eve a chamou com calma e esperou que ela se virasse, erguesse os ombros e fosse at ela.  Qual  o seu relatrio? 
 Segui a jovem at sua casa, conforme suas ordens, tenente. Vi quando ela entrou no edifcio, e em seguida observei a luz se acender na segunda janela do terceiro andar. Por iniciativa prpria, resolvi montar guarda por um perodo de quinze minutos, para me certificar de que ela permaneceria em casa. Ela no permaneceu. 
Peabody parou de falar de repente e seu olhar se desviou para o corpo. Eve deu um passo para o lado, bloqueando-lhe a viso, e ordenou: 
 Olhe apenas para mim ao fazer seu relatrio, policial. 
 Sim, senhora  concordou Peabody, a contragosto.  A jovem saiu do edifcio aproximadamente dez minutos depois de ter entrado em casa. Parecia agitada, olhava o tempo todo por trs dos ombros enquanto caminhava na direo oeste, a passos rpidos. Parecia estar chorando. Mantive a distncia padro adequada, para no ser notada. Foi por isso que eu no consegui impedi-la.  Peabody sugou o ar com fora.  Por me manter a uma distncia adequada. 
 Pare com isso!  reagiu Eve, sacudindo Peabody.  Complete seu relatrio. 
 Sim, senhora.  Os olhos de Peabody se tornaram subitamente frios e sem expresso ao olhar para Eve.  Ela parou de repente, deu vrios passos para trs e disse algumas palavras. Eu estava a uma distncia muito grande para perceber o que ela dizia, mas tive a impresso de que ela conversava com algum. 
Peabody tentava reviver a cena em sua cabea, etapa por etapa, apoiando-se no rgido treinamento que tivera como se fosse uma muleta. 
 Aproximei-me um pouco, diminuindo a distncia entre ns, para o caso de a jovem estar em alguma situao de perigo. No vi, porm, ningum mais na rua, a no ser ela mesma. A nvoa pode ter atrapalhado um pouco, mas no havia ningum que eu pudesse ver, nem na calada nem na rua. 
 Ento ela ficou parada ali, falando com o vento?  perguntou Eve. 
 Foi o que me pareceu, tenente. Ento, foi ficando cada vez mais agitada. Implorou para que algum a deixasse em paz. Suas palavras foram: Voc j no fez tudo o que queria? J no conseguiu tudo o que queria? Por que no me deixa em paz? 
Peabody tornou a olhar para a calada e reviu toda a cena. Ouviu tudo tambm, com preciso... o som agudo de aflio e desespero na voz de Alice. 
 Pensei ter ouvido uma resposta s suas palavras, mas no posso afirmar isso com certeza  continuou Peabody.  A jovem estava falando muito alto e muito depressa para eu poder fazer uma declarao exata. Decidi chegar mais perto e me deixar ser vista. 
Um msculo no seu maxilar pareceu latejar enquanto Peabody continuava a olhar por sobre o ombro de Eve. 
 Nesse instante  prosseguiu ela , um txi da Companhia Rpido chegou do lado leste e veio se aproximando. A jovem se virou, correu para a rua e pulou bem na frente do veculo que chegava. O motorista tentou parar e desviar, mas no conseguiu fazer isso e atingiu a moa violentamente, de frente. 
Peabody parou mais um instante, apenas para tomar flego, antes de continuar. 
 As condies da rua estavam pssimas e ajudaram a completar o quadro. Na minha opinio, mesmo com timas condies, sem nvoa, chuva ou escurido, o motorista no conseguiria ter evitado a coliso. 
 Compreendi. Continue. 
 Alcancei o corpo em poucos segundos e, embora tenha notado que ela j estava morta, chamei os paramdicos e tentei entrar em contato com a senhora, pelo comunicador. Ao ver que no consegui ach-la, utilizei o tele-link porttil em minha bolsa e procurei a senhora em casa, a fim de relatar o acontecido e coloc-la a par da situao. Seguindo suas ordens, liguei para a emergncia, requisitei um policial para vir ao local de imediato e resguardei a cena do incidente. 
Era um inferno para qualquer um sentir que chegara tarde demais. Eve sabia disso e no adiantava tentar ser solidria, pois isso no aliviava o amargor da culpa. Sendo assim, no demonstrou solidariedade alguma. 
 Muito bem, policial. Aquele  o motorista? 
 Sim, tenente.  Peabody continuava a olhar para a frente e sua voz parecia oca e sem vida. 
 Providencie para que o veculo seja levado para anlise; depois, verifique junto aos paramdicos e descubra se o motorista est em condies de fazer uma declarao. 
 Sim, senhora.  Peabody fechou o punho, formando uma bola ao lado do corpo. Manteve a voz baixa, mas vibrava de emoo quando disse:  A senhora acabou de tomar um drinque com ela, h pouco mais de uma hora. E isso no significa nada! 
Eve aceitou o golpe e esperou at que Peabody se virasse, antes de caminhar at onde estava Alice. 
 Significa sim  murmurou ela , e esse  o problema. 
Abrindo o seu kit de servio, Eve se agachou e deu incio ao trabalho. 


Aquilo no era homicdio. Tecnicamente, Eve poderia ter passado o caso para o Departamento de Trnsito, depois do relatrio de Peabody e da declarao do choroso motorista, confirmando tudo. Mas ela viu o corpo de Alice sendo colocado dentro do carro do necrotrio e soube que no tinha a mnima inteno de fazer isso. 
Deu uma ltima olhada na cena do incidente. A chuva j havia praticamente parado e no ia conseguir lavar todo o sangue. Os poucos curiosos que haviam se reunido para espiar j estavam comeando a se dispersar e seguir em frente, rasgando a fina cortina de nvoa enquanto caminhavam para casa. 
Junto do meio-fio, um reboque do Departamento de Trnsito j estava carregando o txi danificado, a fim de transferi-lo para o depsito da polcia. 
Acidentes, alguns poderiam dizer, aconteciam com muita freqncia. O mesmo, pensou Eve, acontecia com assassinatos. Eram muito freqentes. 
 Voc teve uma longa noite, Peabody. Est dispensada. 
 Preferia ficar, tenente, e acompanhar os procedimentos at o fim. 
 Voc no vai conseguir ajud-la nem a mim, a no ser que consiga manter uma viso abrangente e objetiva. 
 Consigo fazer o meu trabalho, senhora. Os sentimentos pessoais so problema meu. 
Eve recolheu seu kit de servio e deu uma olhada em sua assistente, confirmando: 
 Sim, eles so um problema seu. S no quero que os coloque no meu caminho.  Pegando o gravador em seu kit, entregou-o a Peabody ligado.  J estamos gravando, policial. Vamos examinar a residncia da vtima. 
 Pretende notificar o falecimento  famlia, senhora? 
 S quando acabarmos. 
Encaminharam-se para leste, de volta ao prdio de Alice. Ela no fora muito longe, pensou Eve, pouco mais de um quarteiro. O que a fizera ir novamente para a rua? E o que a fizera se jogar na frente de um txi? 
O prdio era bonito, uma construo antiga, de trs andares, com revestimento de tijolinhos, mas bem restaurada. As portas de entrada eram em vidro bisotado, com as imagens jateadas de um pavo. A cmera de segurana recebera manuteno recentemente e a fechadura era codificada para reconhecer impresses palmares. Eve a desarmou com um carto mestre eletrnico e entrou em um pequeno saguo, muito limpo, com piso imitando mrmore. O elevador tinha um revestimento de bronze to polido que parecia espelhado e subiu com silenciosa eficincia. 
Alice, pensou Eve, tinha bom gosto e recursos financeiros. Havia trs apartamentos no terceiro andar e mais uma vez Eve usou seu carto mestre para entrar. 
 Aqui fala a tenente Eve Dallas e sua assistente, policial Delia Peabody. Estamos entrando neste instante na residncia da falecida, a fim de proceder s investigaes iniciais no ambiente  disse ela, franzindo a testa ao notar que a sala continuou s escuras, apesar do som de sua voz. 
Peabody foi at um interruptor ao lado da porta e o ligou, comentando: 
 Acho que ela preferia deixar o sistema no manual, em vez de ativado por voz. 
A sala tinha muitos objetos e era muito colorida. Lindas mantas e toalhas estavam atiradas casualmente sobre poltronas e mesas. Tapearias exibindo pessoas despidas, muito atraentes, acompanhadas de animais mitolgicos, enchiam as paredes. Havia velas em toda parte, sobre as mesas, nas prateleiras, no cho, bem como tigelas largas cheias de pedras coloridas, ervas e ptalas secas. Pedaos de cristais que cintilavam para todos os lados haviam tomado conta de todas as superfcies lisas do lugar. 
Um telo para relaxamento estava ligado e exibia uma vasta campina maravilhosamente gramada, como flores silvestres que balanavam suavemente na brisa. O fundo musical era composto por pssaros que gorjeavam acompanhados por uma brisa matinal. 
 Ela gostava de coisas belas  observou Eve , e h muitas delas aqui.  Seguindo em frente, examinou os controles do telo e fez sinal de concordncia com a cabea, como se eles estivessem confirmando sua idia.  Ela ligou o aparelho assim que chegou em casa. Queria se acalmar, pelo jeito. 
Deixando Peabody para trs e seguindo em frente, Eve entrou no quarto adjacente. O aposento era pequeno, aconchegante e igualmente cheio de coisas. A colcha sobre a cama de solteiro era bordada, toda trabalhada com imagens de luas e estrelas. Um mbile de vidro preso no teto balanava, movimentando pequenas fadas que danavam esbarrando umas nas outras e emitindo sons musicais na brisa que entrava pela janela aberta. 
 Deve ter sido pela janela desse quarto que voc viu a luz ser acesa. 
 Sim, senhora. 
 Ento ela ligou o telo e veio direto para o quarto, provavelmente para mudar de roupa, tirar o vestido mido. S que no fez isso.  Eve pisou em um pequeno tapete com o rosto sorridente de um sol.  O quarto est entulhado, mas arrumadinho, ao seu jeito. No h sinais de perturbao no ambiente nem de luta. 
 Luta? 
 Voc disse que ela estava muito agitada e chorando quando voltou para a rua. A campina verdejante no conseguiu acalm-la, ou no houve tempo suficiente para isso. 
 Ela nem se deu ao trabalho de desligar o aparelho quando tornou a sair. 
 No  concordou Eve.  Ela no o desligou. Existe a possibilidade de que algum estava aqui quando ela chegou. Algum que a deixou chateada ou a assustou. Vamos verificar nos registros da segurana.  Abrindo o que imaginou que fosse um closet, fez um som musical com os lbios.  Ora, olhe s isso... ela transformou este closet em uma espcie de espao destinado a alguma finalidade. No h muitas coisas aqui dentro. Grave isso. 
Peabody entrou e deu uma panormica no cmodo pequeno com paredes brancas. O piso era de madeira e havia um pentagrama branco pintado sobre ele. Um crculo de velas brancas estava colocado em cuidadosa simetria em toda a volta do pentagrama. Uma mesinha ao lado tinha uma bola de cristal muito clara, uma tigela rasa, um espelho e um punhal com cabo escuro e uma lmina curta e cega. 
Eve cheirou o ar, mas no sentiu nenhum indcio de fumaa ou cera de vela. 
 O que acha que ela fazia aqui?  perguntou a Peabody. 
 Diria que  um tipo de sala de rituais, usada para meditao ou para lanar feitios. 
 Eu, hein!...  Balanando a cabea, Eve deu um passo para trs.  Vamos deixar isso pra l, por enquanto, a fim de verificar o tele-link. Se no havia ningum aqui que tenha deixado Alice to apavorada a ponto de faz-la tornar a sair, talvez ela tenha recebido alguma ligao que conseguiu fazer isso. Ela veio primeiro para o quarto  murmurou Eve, encaminhando-se para o pequeno tele-link ao lado da cama.  Talvez ela estivesse com a idia de ir ali para dentro, a fim de brincar de bruxa, depois de ter mudado de roupa e se acalmado. No estava carregando nada quando tornou a sair para a rua. Acho que no veio at aqui s para pegar alguma coisa e tornar a sair. No... ela estava chateada, queria voltar para casa. 
Eve ligou o tele-link e ordenou a repetio da ltima chamada transmitida ou recebida. O quarto se encheu com o som baixo e ritmado de um cntico. 
 Que diabo  isso? 
 Sei l...  Sentindo-se desconfortvel, Peabody chegou mais perto. 
 Repita mais uma vez!  ordenou Eve. 
Oua bem os nomes. Oua os nomes e os tema. Loki, Belzebu, Bafomet. Eu sou a aniquilao. Eu sou a vingana. In nomine Dei nostri Satanas Luciferi excelsi. Vingana para os que se afastaram da lei. Oua os nomes e tema. 
 Pare!  Eve sentiu um tremor rpido e involuntrio.  Belzebu, isso  um troo que tem a ver com o diabo, no ? Os canalhas estavam brincando com ela, atormentando-a. E ela j estava quase pirada. No  de espantar que tenha sado correndo daqui. Onde  que voc estava, seu filho-da-me, onde  que voc estava? Quero a localizao exata dessa ltima transmisso!  Seus lbios se apertaram ao ler os dados.  Rua 10, esquina com Stima Avenida, bem adiante aqui mesmo nesta rua. Provavelmente, eles usaram um tele-link pblico. Safados! E ela estava indo bem na direo deles. 
 No havia ningum l.  Peabody estava olhando para o rosto de Eve nesse instante e notou a fria que queimava dentro de seus olhos.  Mesmo com a nvoa e a chuva, eu teria visto algum se eles estivessem ali  espera dela. No havia nada na calada, a no ser um gato. 
 Um o qu?  O corao de Eve deu um pulo. 
 Apenas um gato. Deu para perceber que havia um gato em seu caminho, mas no havia ningum na rua. 
 Um gato.  Eve foi at a janela. Subitamente, sentia a necessidade de respirar um pouco de ar puro. Ali, no peitoril, viu uma pena preta, muito comprida.  E um pssaro  murmurou. Pegou a pina e segurou a pena de encontro  luz.  De vez em quando, ainda temos um ou outro corvo passeando  noite por Nova York. Corvo e gralha so a mesma coisa, no so? 
 Mais ou menos... acho. 
 Guarde isso como prova!  ordenou Eve.  Quero que seja analisado.  Esfregou os dedos sobre os olhos, como que para espantar a fadiga.  A parente mais prxima  Brenda Wojinski, me... pesquise o endereo dela. 
 Sim, senhora.  Peabody pegou seu computador de mo e ento ficou simplesmente parada com ele, sentindo-se coberta de vergonha.  Tenente, eu queria me desculpar pelo comentrio que fiz no local do incidente, e tambm pelo meu comportamento naquela hora. 
 No me lembro de nenhum comentrio, Peabody, nem reparei em nenhum tipo de comportamento inadequado de sua parte naquela hora.  Eve pegou o disco no tele-link e o lacrou pessoalmente, para pesquisa, lanando um olhar significativo para Peabody e dizendo:  Aproveite enquanto o gravador continua ligado e d mais uma passada com ele por todo o apartamento. 
Mesmo compreendendo tudo, Peabody inclinou a cabea, afirmando: 
 Sei que o gravador ainda est ligado, tenente. Quero que isto fique registrado. Fui insubordinada e sa da linha, tanto em nvel pessoal quanto profissional. 
Sua cabea-dura!, pensou Eve, e por pouco no soltou um palavro. 
 No houve insubordinao alguma, na minha opinio, policial. No que eu me lembre... 
 Dallas...  Peabody deu um suspiro.  Voc sabe muito bem que agi mal. Ainda estava trmula e com alguma dificuldade para lidar com a situao. Uma coisa  ver um corpo j morto, e outra, bem diferente,  ver uma mulher ser jogada trs metros para cima no ar e cair feito uma boneca de pano na calada. E ela estava sob minha vigilncia. 
 Fui dura com voc. 
 Sim, a senhora foi... e precisava ser. Achei que, pelo fato de a senhora conseguir manter a calma e ser capaz de desempenhar bem o seu trabalho, isso significava que no se importava com a vtima. Estava errada, e sinto muito. 
 Aceito a sua declarao. Agora, registre tambm o que vou lhe dizer, Peabody. Voc seguiu minhas ordens, seguiu os procedimentos adequados. No teve culpa alguma pelo que aconteceu esta noite. No poderia adivinhar o que ia acontecer. Agora, deixe toda essa histria de lado, para podermos descobrir por que ela est morta. 


Eve imaginava que a filha de um policial j sabia que, quando um tira bate na sua porta s cinco da manh,  porque traz as piores notcias. E notou, no minuto que Brenda a reconheceu, que tinha razo. 
 Ah, meu Deus, ah, meu Deus! Foi a mame? 
 No, no foi a sua me, sra. Wojinski.  S havia um modo de dar a notcia, Eve bem sabia, e esse modo era ser direta:  Foi Alice. Podemos entrar? 
 Alice?  Ela piscou os olhos arregalados e se apoiou no portal para no cair.  Alice? 
 Acho que devamos entrar.  Da forma mais gentil possvel, Eve a tomou pelo brao e seguiu com ela para dentro de casa.  Vamos nos sentar um pouco. 
 Alice?  tornou a perguntar. O pesar parecia estar rachando seus olhos vidrados e as lgrimas comearam a escorrer.  No, no a minha Alice. No a minha filhinha!... 
Brenda se desequilibrou e parecia que seu corpo ia se liquefazer, escorrendo at o cho, mas Eve a segurou com firmeza e a encaminhou depressa para a poltrona mais prxima.  Sinto muito. Sinto pela sua perda, sra. Wojinski. Houve um acidente nesta madrugada e Alice foi morta. 
 Um acidente? No, no... deve haver algum engano. Foi outra pessoa. No pode ter sido Alice.  Apertou com fora o brao de Eve, com os olhos em prantos e um ar de quem est implorando.  Voc no pode ter certeza de que o acidente foi com Alice. 
 Mas foi... sinto muito. 
Ela desabou ento, enterrando o rosto entre as mos e depois levando-as at a altura dos joelhos, de modo que o corpo formou uma bola, como defesa. 
  melhor eu preparar um ch para ela  murmurou Peabody. 
 Sim,  uma boa...  Essa era a parte de seu trabalho que deixava Eve se sentindo mais indefesa, mais incapaz. No havia soluo para uma dor repentina como essa.  H algum que eu possa contactar para a senhora? Quer que eu ligue para a sua me? Ou o seu irmo? 
 Mame... Ah, meu Deus, Alice! Como  que ns vamos agentar esse golpe? 
No havia resposta para isso, pensou Eve. No entanto, eles agentariam. A vida exigia isso, pois tinha que seguir em frente. 
 Posso lhe dar um calmante ou entrar em contato com o seu mdico, o que a senhora preferir. 
 Me?... 
Enquanto Brenda continuava a se embalar para a frente e para trs, Eve olhou s suas costas. O menino estava na porta do corredor, piscando de sono e com os olhos confusos, parecendo desnorteado. Seus cabelos estavam em desalinho, da cama, e ele usava um moletom velho com buracos na altura dos joelhos. 
Era o irmo de Alice, lembrou Eve. Ela havia se esquecido dele. 
Nesse momento, o menino focou os olhos em Eve, se mostrou subitamente alerta e muito adulto. 
 O que houve?  quis saber.  O que aconteceu? 
Como era mesmo o nome dele? Eve lutava, tentando se lembrar, mas ento resolveu que no importava no momento. E se levantou. Ele era um menino alto, avaliou ela. Estava com vincos no rosto, causados pelo travesseiro, e seu corpo j estava posicionado para receber o golpe. 
 Aconteceu um acidente. Sinto muito, mas... 
 Foi com Alice.  Seu queixo tremeu um pouco, mas os olhos permaneceram fixos nos de Eve.  Ela est morta. 
 Sim, eu sinto realmente... 
Ele continuava a olhar para Eve no momento em que Peabody voltou com uma xcara de ch e a colocou, meio sem graa, sobre a mesa. 
 Que tipo de acidente?  quis saber ele. 
 Ela foi atropelada por um carro, nesta madrugada. 
 O carro a atropelou e fugiu? 
 No.  Eve o observou com cuidado, um pouco pensativa.  Ela pulou na frente de um txi. O motorista no conseguiu parar a tempo. Ainda estamos processando as informaes e analisando o veculo, mas h uma testemunha que confirma o depoimento do motorista. No acredito que a falta tenha sido dele. Ele no tentou fugir da cena do acidente e seus registros como motorista esto limpos. 
O menino simplesmente concordou, com os olhos secos, enquanto o choro de sua me enchia a sala. 
 Pode deixar que eu cuido dela  disse o menino.  Seria melhor se a senhora nos deixasse sozinhos agora. 
 Certo. Se voc tiver mais alguma pergunta, pode me encontrar na Central de Polcia. Sou a tenente Dallas. 
 Sei quem a senhora ... deixe-nos sozinhos agora, por favor  tornou a pedir, e foi se sentar ao lado da me. 
 Esse garoto sabe de alguma coisa  afirmou Eve, enquanto elas saam para a rua. 
 Tambm me pareceu... talvez Alice se sentisse mais  vontade conversando com ele do que com os outros membros da famlia. Tinham quase a mesma idade. Irmos e irms vivem de implicncia, mas confiam uns nos outros. 
 Eu no saberia dizer...  Deu partida no carro, louca por um caf.  Onde, diabos, voc mora, Peabody? 
 Por qu? 
 Vou deix-la em casa. Pode tirar uma soneca e se apresentar na central s onze da manh. 
 Isso  o que voc vai fazer? Tirar uma soneca? 
 ...  Provavelmente era mentira, mas servia para o que ela pretendia.  Para onde, ento? 
 Eu moro em Houston. 
Eve fez uma careta e disse: 
 Bem, j que vou sair do meu caminho mesmo, tanto faz que seja to longe...  Seguiu para o sul.  Houston?... Peabody, esse  um bairro bomio! 
 Era a casa da minha prima. Quando ela resolveu se mudar de vez para o Colorado, a fim de fazer tapetes de tear, assumi o aluguel. Saiu mais barato... 
 Uma histria interessante a sua... provavelmente voc passa todos os seus momentos livres circulando por bares cheios de poetas e clubes de arte com artistas performticos. 
 Bem... na verdade, prefiro freqentar os bares s para solteiros. A comida  melhor. 
 Provavelmente voc conseguiria transar mais vezes se no pensasse tanto no assunto. 
 No, no funciona, j tentei fazer isso.  De repente soltou um bocejo muito alto.  Desculpe! 
 Voc tem todo o direito de estar cansada. Assim que se apresentar  central, v verificar o resultado da autpsia. Quero ter certeza de que no h nada de estranho no relatrio de substncias txicas. Aproveite que voc vai em casa e troque esse vestido ridculo. 
 No  to ridculo assim...  Peabody se ajeitou no banco.  Alguns caras no Clube Aquarius pareceram gostar muito dele. Roarke tambm... 
 Foi, ele mencionou o fato comigo. 
 Mencionou?  Com o queixo cado, Peabody se virou para olhar Eve.  Verdade mesmo?... 
Conversar abobrinhas, pensou Eve, ajudava a acalmar a mente. 
  verdade  confirmou.  Ele comentou que voc estava muito atraente. E dei um soco nele... s por garantia. 
 Atraente... meu Deus!  Peabody deu tapinhas no peito.  Vou ter que comear a desencavar outras roupas desse tipo entre as que a minha me fez para mim. Atraente...  Soltou um suspiro.  Roarke no tem nenhum irmo, primo ou tio que esteja disponvel? 
 Pelo que sei, Peabody, ele  uma figura nica. 


Ela o encontrou cochilando. No na cama, mas sobre o sof, na sala de estar da sute principal. No momento em que ela entrou no quarto, ele abriu os olhos. 
 J vi que teve uma noite longa e difcil, tenente.  Esticou a mo para ela.  Venha at aqui. 
 Vou tomar uma ducha e me encher de caf. Tenho algumas chamadas a fazer. 
Roarke se conectara  rede da polcia e sabia exatamente com o que ela estivera lidando durante toda a noite. 
 Venha at aqui  repetiu, entrelaando os dedos com os dela e puxando-a, at ela concordar, meio a contragosto.  Vai fazer alguma diferena se essas ligaes forem feitas daqui a uma hora? 
 No, mas... 
Ento ele comeou a pux-la, at que ela caiu no sof, sobre ele. Como sua briga para se desvencilhar dele no foi muito entusiasmada, ele conseguiu coloc-la deitada ao seu lado com um movimento rpido. 
 Durma um pouco...  disse ele, baixinho.  Voc est exausta e no h necessidade disso. 
 Ela era to jovem, Roarke... 
 Eu sei. Deixe esse assunto do lado de fora, desligue um pouquinho. 
 E os dados? Os arquivos pessoais de Frank? Descobriu alguma coisa? 
 Vamos conversar a respeito depois que voc acordar. 
 Uma horinha, ento... s um cochilo de uma hora...  Entrelaando os dedos com os dele, ela se deixou mergulhar no sono.




 



CAPTULO CINCO





D
ormir ajudou muito. Do mesmo modo que a ducha quente e a comida que Roarke pediu. Eve enfiava uma garfada de ovos mexidos na boca, en-quanto analisava na tela os dados que ele desencavara. 
 Isso parece mais um dirio do que um relatrio de investigao  decidiu ela.  Tem um monte de comentrios pessoais e mostra que, obviamente, ele estava preocupado com Alice. No estou certo sobre at que ponto eles influenciaram a mente dela ou a magoaram. Ele estava raciocinando mais como av do que como tira. Voc conseguiu isso no computador particular dele? 
 Exato. Estava tudo codificado, e ainda havia uma senha para entrar. Acho que ele no queria que a mulher esbarrasse por acaso nessa histria. 
 Se estava assim to protegido, como foi que voc conseguiu acessar? 
 Voc no est realmente querendo que eu explique, est, tenente?  Roarke pegou um cigarro em uma cigarreira de madeira entalhada e ficou observando-o com cuidado. 
 No.  Eve deu mais uma garfada nos ovos mexidos.  Acho que no... de qualquer modo, as idias pessoais de Frank e suas preocupaes no vo ser de muita ajuda. O que preciso saber  o quanto ele descobriu e at que ponto levou sua investigao particular, antes de morrer. 
 Ainda tem mais coisa...  Roarke comeou a passar os dados pela tela.  Veja... aqui adiante ele fala em seguir Selina Cross, e faz uma lista com os nomes de alguns de seus... associados. 
 Mas no h nada de mais, a, ele fala de sua suspeita de que ela estava traficando drogas. Acreditava que ela realizava cerimnias inaceitveis em seu clube e talvez em casa. Notou figuras suspeitas entrando e saindo de l, mas tudo isso  baseado em emoes. No h fatos. Acho que Frank ficou longe das ruas por muito tempo.  Eve colocou o prato de lado e se levantou.  J que ele no queria envolver ningum da polcia, por que no contratou um detetive particular, pelo menos, para no gastar as solas dos sapatos em investigaes de rua? O que  isso aqui?... 

Acho que ela me descobriu. No d para ter certeza, mas  quase como se Selina Cross estivesse me levando agora para onde ela quer que eu esteja. Vou ter que dar mais um passo  frente, e bem depressa. Alice est aterrorizada, vive implorando para que eu fique longe de Selina, e longe dela tambm. A pobrezinha passa tempo demais em companhia daquela tal de Isis. Talvez Isis seja s uma esquisitona inofensiva, mas no pode exercer boa influncia sobre Alice. J avisei a Sally que preciso trabalhar at mais tarde por esses dias. Hoje  noite, vou invadir... Selina passa todas as noites de quinta no clube. O apartamento deve estar vazio. Se eu conseguir entrar e encontrar alguma coisa, qualquer coisa que sirva de prova de que Alice viu uma criana ser assassinada, posso mandar um relatrio completo para Whitney, um relatrio annimo. Selina vai pagar caro pelo que ela e seu amante nojento fizeram com a minha menininha. De um jeito ou de outro, ela vai pagar caro. 

 Meu Deus!... Arrombamento, invaso de domiclio, busca ilegal e confisco no autorizado...  Frustrada, Eve passou as duas mos pelos cabelos.  Que diabos ele estava pensando em fazer? Sabia muito bem que qualquer coisa que encontrasse sem um mandado de busca seria descartada no tribunal. Ele jamais conseguiria peg-los desse jeito. 
 Tenho a impresso de que ele no estava muito preocupado com tribunais no, Eve, queria justia. 
 E agora est morto, no est? E Alice tambm. Onde esto os outros dados que voc achou? 
Roarke fez surgir na tela o ltimo registro: 

A segurana era muito forte no prdio, no consegui passar por ela. Acho que andei longe das ruas por tempo demais. Talvez v ter que arrumar algum para me ajudar nisso, afinal. Mas vou conseguir que aquela bruxa pague caro, nem que seja a ltima coisa que eu faa! 

 Isso  tudo. Esse registro foi feito na noite anterior  morte de Frank. Talvez haja mais coisas, sob um cdigo diferente. 
Ento ele no conseguiu que ela pagasse, pensou Eve. E parece que no teve tempo de buscar ajuda, avaliou, sentindo fisgadas de alvio e dor. De qualquer modo, aqueles registros estavam longe de livrar Frank ou Feeney. 
 Voc disse que talvez haja mais coisas  disse Eve , s que no pensa assim. No fundo, voc no est achando que exista... 
 No, no estou. H a questo do tempo, que era curto. E ele tambm no era to esperto assim para lidar com dados eletrnicos  explicou Roarke.  Foi brincadeira de criana descobrir isso a... mesmo assim, vamos dar outra olhada. Vou levar mais algum tempo para vasculhar o sistema e verificar se havia mais alguma coisa, s que isso vai ter que ficar para mais tarde. Tenho vrias reunies marcadas para agora de manh. 
Eve se virou para ele. Engraado, pensou Eve. Por um momento, se esquecera de que ele no estava trabalhando com ela. Os negcios de Roarke e o ambiente deles ficavam em uma esfera muito diferente do trabalho dela. 
 Tantos bilhes para ganhar e to pouco tempo...  disse, olhando para ele. 
 Verdade pura! Mas pode ser que eu consiga um tempinho para brincar um pouco mais com isso,  noite. 
Eve sabia que ele mal olhara as cotaes da Bolsa e no atendera a nenhuma das ligaes matinais que choviam todo dia, logo cedo. 
 Estou tomando muito do seu tempo  disse ela. 
 Est mesmo...  Dando a volta no console, ele se encostou na quina, de frente para ela.  Vou querer como pagamento um bocado do seu tempo tambm, tenente. Um dia ou dois longe daqui, assim que conseguirmos agendar.  E nesse momento seu sorriso desapareceu. Tomou a mo dela e passou o polegar sobre o lindo trabalho entalhado na aliana dela.  Eve, no gosto de interferir em seu trabalho, mas dessa vez quero lhe pedir para ser extremamente cuidadosa ao lidar com esse caso. 
 Uma boa policial sempre  cuidadosa.
 No  disse Roarke, com os olhos fixos nos dela , nem sempre... voc  corajosa, esperta, dedicada, mas nem sempre  cuidadosa. 
 No esquente, porque j lidei com gente muito pior do que Selina Cross.  Deu-lhe um beijo de leve.  Agora tenho que ir, preciso verificar uns relatrios. Vou tentar avisar voc, caso tenha que chegar tarde em casa. 
 Ento avise  murmurou ele, observando-a sair. 
Ela estava enganada, refletiu. Duvidava muito de que ela alguma vez tivesse lidado com gente pior do que Selina Cross. E ele no tinha a inteno de deix-la nisso sozinha. Dirigindo-se ao tele-link, Roarke ligou para sua assistente e conseguiu adiar ou cancelar as viagens para fora da cidade ou para fora do planeta que estivessem marcadas para os prximos trinta dias. 
Pretendia ficar bem perto de casa. E de sua mulher. 


 Nada de drogas  afirmou Eve, analisando o relatrio toxicolgico de Alice.  Nem lcool. Ela no estava sob a influncia de nenhuma substncia. Mas voc a ouviu conversando com algum que no estava ali, e de repente ela pulou na frente de um carro que vinha passando. Ela estava em um estado de completo terror, e o gatilho de tudo foi o cntico que ouviu pelo tele-link. Eles sabiam como atingi-la, como chegar at ela. 
 S que no  ilegal entoar cnticos pelo tele-link. 
 No...  refletiu Eve  ...mas  ilegal fazer ameaas atravs de um tele-link pblico. 
 Voc est forando a barra  retornou Peabody.  Isso  apenas uma contraveno leve. 
 Mas j  um comeo... se conseguirmos provar uma ligao entre essa transmisso e Selina Cross, poderemos perturb-la com isso. De qualquer modo, acho que j est mesmo na hora de ns a conhecermos. Que tal um pequeno passeio ao Inferno, Peabody? 
 Ando louca para dar um pulinho l... 
 Quem no anda?  Mas antes de conseguir se levantar, Feeney entrou como um furaco em sua sala. Estava com olheiras e a barba por fazer. 
 Por que voc foi designada como investigadora principal no caso de Alice, Dallas? Foi um acidente de trfego. Que diabos uma tenente da Diviso de Homicdios est fazendo com um caso de fatalidade nas mos? 
 Feeney... 
 Ela era minha afilhada, e voc nem me comunicou sobre o que aconteceu? Soube pela porcaria do noticirio! 
 Desculpe, eu no sabia... sente-se, Feeney. 
 No quero me sentar!  Puxou o brao com fora, quando Eve tentou tocar nele. Quero respostas, Dallas! Quero a porra de algumas respostas! 
 Peabody  murmurou Eve, e esperou at que sua assistente sasse, fechando a porta em seguida.  Sinto muito, Feeney. No sabia que voc era padrinho dela. Falei com a me dela, com o irmo, e simplesmente imaginei que eles iam contar o que acontecera ao resto da famlia. 
 Brenda est sob sedativos  rosnou Feeney.  Que diabos voc esperava? Ela perdeu o pai e a filha com poucos dias de diferena um do outro. Jamie tem apenas dezesseis anos. Depois que o menino ligou para o mdico, pedindo que viesse cuidar da me e tentou consolar a av, eu j sabia das notcias pelo noticirio. Meu Deus, meu Deus, ela era s uma criana!... 
E se virou para o outro lado, passando as mos nos cabelos, enquanto murmurava: 
 Eu costumava carreg-la nas costas, brincando de cavalinho, e levava doces para ela, escondido... 
Ento era assim que as pessoas ficavam ao perder algum que amavam, pensou Eve. E sentiu-se grata por amar to pouca gente. 
 Por favor, sente-se aqui, Feeney. Voc nem devia ter vindo trabalhar hoje. 
 J disse que no preciso me sentar!  Ele baixou um pouco a voz ao se virar para observar Eve com ateno.  Quero uma resposta, Dallas. Por que voc foi designada para investigar o acidente de Alice? 
Eve no podia hesitar, nem se dar ao luxo de mentir. 
 Peabody foi testemunha do que aconteceu  comeou ela, feliz por ao menos poder lhe dizer isso.  Estava em sua noite de folga, foi a um clube... e viu o que aconteceu. Isso a deixou abalada, Feeney, e ela me ligou. Foi um ato reflexo, imagino. Eu no estava bem certa sobre o que acontecera, ento a orientei para que chamasse a emergncia, protegesse o local do acidente, e fui pessoalmente at o local. J que estava l e tinha todos os dados, notifiquei os parentes mais prximos. Imaginei que seria mais fcil para a famlia se eu mesma cuidasse de tudo.  Levantou os ombros, terrivelmente envergonhada de estar ali usando velhos amigos.  Achei que era o mnimo que poderia fazer, em memria de Frank. 
 E foi s isso?...  perguntou Feeney, sem desviar o olhar do rosto de Eve. 
 O que mais poderia haver? Oua, j peguei o relatrio toxicolgico. Ela no estava usando nada, Feeney. No estava nem bbada. Talvez ainda estivesse muito abalada por causa de Frank ou algo assim. No sei... quem sabe ela no viu a droga do txi?... Era uma noite horrorosa, enevoada, chuvosa. 
 O canalha estava a toda a velocidade, no estava? 
 No.  Eve no podia lhe dar ningum para culpar, no podia nem mesmo lhe dar esse duvidoso conforto.  O motorista estava dentro do limite de velocidade. Sua ficha de trnsito  limpa e ele passou no teste do bafmetro para lcool e drogas, feito no prprio local. Feeney... ela simplesmente pulou na frente do carro e no havia nada que ele pudesse fazer. Quero que voc entenda bem esse ponto. Conversei pessoalmente com o motorista e investiguei toda a cena. No foi culpa dele. No foi culpa de ningum. 
Tinha que ser culpa de algum, pensou Feeney. Ele no aceitava perder duas pessoas chegadas, uma atrs da outra, sem motivo. 
 Quero conversar com Peabody!  avisou ele. 
 D algum tempo para ela, por favor.  Novas camadas de culpa foram se acumulando sobre as que Eve j carregava.  Peabody ficou arrasada. Gostaria de distra-la um pouco com outras coisas, at ela absorver o choque do que viu. 
Feeney respirou fundo e expirou com tremor. Por baixo da dor terrvel, havia um pouco de gratido, pelo fato de algum em quem ele confiava estar cuidando da afilhada. 
 Ento voc vai dar o caso por encerrado, pessoalmente? E depois vai me passar todos os dados? 
 Vou encerrar o caso, Feeney. Prometo a voc. 
 Certo.  Balanando a cabea, passou as mos no rosto.  Desculpe por eu ter pulado em cima de voc assim que cheguei. 
 Tudo bem, no foi nada.  Eve hesitou por um instante, e ento colocou a mo em seu brao, apertando-o com carinho.  v para casa agora, Feeney. No  uma boa voc ficar por aqui hoje. 
 Acho que vou fazer isso.  Colocou a mo na maaneta.  Ela era um doce de menina, Dallas  disse, baixinho.  Ah, meu Deus, eu no agento ir a outro funeral!... 
Quando ele saiu, Eve se atirou na cadeira. Tristeza, culpa e raiva se misturavam em volta de sua garganta, como farpas. Tornando a se levantar, pegou a bolsa. Agora ela estava com o estado de esprito ideal para se encontrar com Selina Cross.

* * *

 Como  que voc prefere fazer, Dallas?  perguntou Peabody ao saltar do carro diante de um elegante prdio antigo, no centro da cidade. 
 Quero ser bem direta. Quero que ela saiba que Alice conversou comigo, e que ela  suspeita de assdio, trfico de drogas e conspirao com fins de assassinato. Se ela tiver um pouco de crebro, vai sacar que eu ainda no tenho nada de slido, mas vou lhe colocar macaquinhos na cabea. 
Saltando do carro, Eve olhou para o alto do prdio, com suas janelas de vidros jateados e grgulas que exibiam caretas. 
 Se ela mora aqui, no deve estar muito mal de grana. Vamos ter que descobrir onde  que ela arruma todo esse dinheiro. Quero que seja tudo gravado, Peabody, e mantenha os olhos bem abertos. Vou querer saber de suas impresses depois. 
 Pois posso lhe dar uma logo de cara.  Peabody prendeu o microgravador no palet de seu uniforme e olhou para a janela redonda do ltimo andar, com um vidro imenso e uma figura trabalhada em jato-de-areia.  Aquela imagem na janela  mais um pentagrama invertido. Um smbolo satnico. E aquelas grgulas no parecem nem um pouco amigveis.  Deu um sorriso fraco.  Se quer saber, elas me parecem at um pouco famintas. 
 Eu quero impresses, Peabody. Tente manter as fantasias em um nvel mnimo  reclamou Eve, aproximando-se da tela de segurana. 
 Por favor, declare seu nome e a finalidade de sua visita  pediu uma voz. 
 Tenente Eve Dallas e auxiliar. Somos do Departamento de Polcia da cidade de Nova York.  Levantou o distintivo, deixando-o ser escaneado.  Queremos ver Selina Cross. 
 Esto sendo aguardadas? 
 No, mas no creio que ela v se surpreender. 
 Um momento, por favor. 
Enquanto aguardava, Eve analisou a rua. Havia muito movimento, tanto de pedestres quanto de trfego. Ela reparou, porm, que quase todas as pessoas que passavam usavam a calada do outro lado da rua, e muitas delas olhavam para Eve e para o edifcio com uma cara desconfiada. 
O mais estranho  que no havia nenhum ambulante vendendo churrasquinho nem camels pelas redondezas. 
 Esto autorizadas a entrar, tenente. Por favor, sigam at o elevador n 1. Ele j est programado. 
 timo!  Eve deu uma olhada para cima e notou a sombra de algum que se movia atrs da janela do ltimo andar.  Parea bem profissional, Peabody  murmurou, enquanto se aproximavam dos portes da frente, fortemente protegidos por grades.  Estamos sendo observadas. 
As grades se afastaram e as fechaduras se abriram com um estalo. A luz em um painel de segurana embutido mudou de vermelha para verde. 
 Tem um bocado de equipamento aqui para um simples prdio de apartamentos  comentou Peabody, e, tentando ignorar a agitao que sentiu no estmago, entrou logo atrs de Eve. 
Mais parecendo uma sala de velrio, o saguo era todo decorado em vermelho. A figura de uma serpente de duas cabeas se espalhava por sobre o carpete vermelho-sangue, e seus olhos dourados pareciam cintilar enquanto o animal observava uma figura coberta por um manto preto que passava uma faca curva em volta da garganta de um bode branco. 
 A decorao  adorvel!  Eve levantou uma sobrancelha ao ver que Peabody dava a volta com todo o cuidado para evitar pisar na cobra.  Peabody, tapete no pica! 
 Nunca se sabe...  Olhou para trs ao entrarem no elevador.   que detesto cobras! Meu irmo costumava pegar uma cobra no bosque e depois ficava correndo atrs de mim com o bicho enrolado na mo. Fiquei com fobia... 
A subida foi tranqila e rpida, mas houve tempo para Eve notar outra cmera de segurana na cabine pequena e toda revestida de espelhos escuros. 
As portas se abriram para um espaoso saguo com piso em mrmore negro. Dois sofs em veludo vermelho estavam um de frente para o outro, junto de um portal em arco, e exibiam, nos braos, entalhes de lobos rosnando, em madeira. Um arranjo floral saa de um vaso que tinha o formato da cabea de um javali. 
 Folhas de acnito, muito venenosas  disse Peabody, baixinho.  Temos tambm beladona, dedaleira, testa-de-caveira, uma planta que provoca convulses, e peiote, o cacto de onde se extrai a mescalina.  Encolheu os ombros diante do olhar espantado de Eve.  Minha me  uma botnica amadora. Posso lhe garantir que esse arranjo  muito especial. 
 Interessante... afinal, a decorao comum  to sem graa, no ? 
Tiveram o primeiro impacto de um encontro face a face com Selina Cross exatamente do jeito que ela queria ser vista. No meio do portal em arco, usando um vestido colante preto que se arrastava no cho, com os ps descalos e as unhas pintadas em um tom violento de vermelho, ela parecia posar para uma foto. Sorriu. 
Sua pele era branca como dentes de vampiro, e o vermelho em seus lbios grossos brilhava como sangue fresco. Os olhos eram verdes, parecendo os de uma gata, e seu rosto, estreito, como era de esperar de uma bruxa, no era exatamente bonito, porm, de forma assustadora, era misterioso e atraente. Os cabelos muito pretos desciam pelos ombros por sobre a roupa preta. Eram repartidos ao meio, mostrando um sulco branco que parecia ter sido feito a rgua, e escorriam at a cintura. 
A mo que estendeu exibia anis em todos os dedos, at no polegar. As correntes de prata que estavam presas a cada um deles tranavam-se e formavam uma intricada rede que lhe cobria as costas da mo. 
 Tenente Dallas e policial Peabody, certo? Que visitas interessantes em um dia to montono. Gostariam de vir para a minha... sala de estar? 
 Est sozinha, sra. Cross? As coisas ficariam mais simples para ns se pudssemos conversar com o sr. Alban tambm. 
 Oh, que pena!  Ela se virou, a roupa de seda farfalhando enquanto passava de volta pelo arco.  Alban est ocupado esta manh. Sentem-se.  Estendeu a mo, fazendo um arco, como que para exibir a sala de generosas propores entulhada de moblia. Todas as cadeiras e poltronas exibiam cabeas, garras ou bicos de algum predador.  Posso lhes oferecer algo para beber? 
 No, ns dispensamos os refrescos.  Achando bem apropriado, Eve escolheu uma poltrona em cujos braos estava representado um co de caa. 
 Mas nem mesmo um caf?  a sua bebida predileta, no ?  Encolheu os ombros, passando a ponta da unha, muito comprida, sobre o pentagrama tatuado acima da sobrancelha.  Sintam-se  vontade, ento.  Com os mesmos gestos estudados, ela se recostou em um pequeno sof curvo que tinha os ps largos e fendidos e deixou os braos estirados ao longo do corpo.  Afinal, em que posso ajud-las? 
 Alice Lingstrom foi morta nesta madrugada. 
 Sim, eu sei.  Manteve o sorriso satisfeito, como se estivesse casualmente discutindo o clima.  Poderia lhe dizer que eu... testemunhei o acidente atravs do meu espelho mgico, mas imagino que vocs no iriam acreditar nisso.  claro que no desprezo a tecnologia, e muitas vezes assisto ao noticirio e a outras formas de entretenimento no telo. A informao j se tornou pblica h horas. 
 A senhora a conhecia, ento... 
 Claro! Ela foi minha discpula, por algum tempo. O que se mostrou uma experincia desagradvel, devo acrescentar. Alice reclamou com a senhora a respeito da minha tutela.  Aquilo no era uma pergunta, mas ela assumiu um ar de quem esperava uma resposta. 
 Se est querendo saber se ela me contou que foi drogada, sofreu abuso sexual e testemunhou uma atrocidade, ento, sim, ela reclamou comigo. 
 Drogas, sexo e atrocidades.  Selina lanou uma gargalhada baixa, que parecia um ronronar.  Quanta imaginao tinha a nossa Alice! Foi uma pena ela no a ter utilizado para ampliar a viso que tinha das coisas. Como  a sua imaginao, tenente Dallas?  Fez um gesto casual, levantando a mo coberta de correntes. Na pequena lareira de mrmore, chamas explodiram e ganharam vida. 
Peabody deu um pulo, sem conseguir evitar o susto, mas nenhuma das outras duas mulheres lhe deu ateno. Continuaram a olhar uma para a outra sem piscar, fixamente. 
 ...Ou talvez eu possa cham-la de... Eve?  perguntou Selina. 
 No. Pode me chamar de tenente Dallas mesmo. Est meio quente para acender a lareira, no est? E  muito cedo para truques de salo. 
  que eu gosto de calor. A senhora tem nervos excelentes, tenente. 
 Sim, e tenho tambm uma baixa tolerncia para artistas de circo, traficantes de drogas e assassinos de crianas. 
 E eu sou tudo isso?  Selina tamborilou com as pontas das afiadas unhas vermelhas no brao do sof, o nico sinal externo de aborrecimento pela falta de reao de Eve s chamas.  Ento prove! 
 Vou provar. Onde estava na noite passada, entre uma e trs da manh? 
 Estava aqui, em minha sala de rituais, em companhia de Alban e um jovem iniciante cujo nome  Lobar. Estvamos envolvidos em uma cerimnia sexual particular que avanou pela noite adentro, de meia-noite at quase amanhecer. Lobar  jovem e muito... entusiasmado. 
 Vou querer conversar com os dois. 
 Poder encontrar Lobar em qualquer noite da semana, entre oito e onze horas, em nosso clube. Quanto a Alban, no sei informar sobre sua agenda, mas geralmente ele est aqui ou no clube quase todas as noites. A no ser que a senhora acredite em magia, tenente, est perdendo o seu tempo. H de convir que eu no poderia estar aqui trepando com dois homens muito interessantes e ao mesmo tempo estar l fora, atraindo a pobre Alice para a morte. 
 Ento  isso o que se considera, sra. Cross, uma mgica?  Eve olhou para o fogo da lareira, que continuava crepitando, e fez cara de deboche.  Aquilo ali no passou de um truque barato, a arte de enganar os olhos da platia. A senhora poderia conseguir na prefeitura, por dois mil crditos ao ano, uma licena para fazer truques como esse no meio da rua. 
Os msculos de Selina se retesaram, enquanto ela se endireitava melhor na ponta do sof. Seus olhos pareciam lanar mais chamas do que a lareira. 
 Sou uma grande sacerdotisa, devotada ao Senhor das Trevas. Somos uma legio de seguidores e tenho poderes que a fariam chorar de dor. 
  muito difcil me fazer chorar, sra. Cross.  Ora, a moa tem chiliques, pensou Eve, com satisfao. E um orgulho muito fcil de atingir.  A senhora no est aqui lidando com uma menina de dezoito anos, facilmente impressionvel, no, nem com seu av assustado. Quem de vocs, dessa legio a, ligou para Alice ontem  noite e tocou uma gravao com cnticos ameaadores? 
 No fao idia de sobre o que a senhora est falando. Alis, sua presena est comeando a me entediar. 
 A pena preta no peitoril da janela foi um toque especial... Alis, devia ser uma pena artificial, na minha opinio, mas Alice no saberia a diferena. A senhora curte andrides de estimao, sra. Cross? 
Com um gesto largado, Selina levantou uma das mos e a passou devagar pelos cabelos, respondendo: 
 Eu no ligo para mascotes... de nenhum tipo. 
 No? Nem gatos, nem corvos? 
 Ai, isso seria to previsvel...  comentou, com ar de enfado. 
 Alice acreditava que a senhora tem o poder de assumir vrias formas  afirmou Eve, vendo que Selina abria um sorriso.  Poderia nos oferecer uma demonstrao desse pequeno talento? 
As unhas de Selina comearam novamente a bater no brao da poltrona. O tom de Eve era to insultante quanto uma bofetada. 
 No estou aqui para diverti-la, tenente. Nem para ser ridicularizada por sua mente pequena. 
 Uma diverso,  esse o nome que d? Ento a senhora estava divertindo Alice com gatos, pssaros e cnticos de ameaa pelo tele-link? A menina no conseguia mais se sentir segura nem dentro da prpria casa. Considerava-a uma ameaa assim to grande? 
 Ela no significava nada para mim, a no ser um lamentvel fracasso. 
 A senhora foi vista vendendo drogas ilegais para Frank Wojinski. 
A mudana brusca de assunto fez Selina piscar. Ao curvar os lbios dessa vez, o sorriso no alcanou os olhos. 
 Se isso fosse verdade, tenente, ns no estaramos tendo esta conversa aqui em minha casa, e sim na sala de interrogatrio. Sou especialista em ervas, tenho licena para comercializ-las e, s vezes, vendo substncias perfeitamente legais. 
 E a senhora tem uma plantao de ervas aqui? 
 Para falar a verdade, sim, tenho, e as uso para destilar minhas poes e preparar medicamentos. 
 Gostaria de ver isso. Por que no me mostra o local onde trabalha? 
 A senhora vai precisar de um mandado judicial para entrar l, e ns duas sabemos que no h motivos para que um juiz lhe conceda um. 
 Tem razo. Acho que foi por isso que Frank no se deu ao trabalho de solicitar um mandado.  Eve se levantou lentamente e falou baixinho:  A senhora j sabia que ele estava na sua cola, mas suspeitava de que ele pudesse entrar aqui dentro? No conseguiu ver isso na sua bola de cristal, no foi?  perguntou Eve, vendo que a respirao de Selina ficou mais curta e ofegante.  O que diria se eu lhe contasse que ele realmente esteve aqui em seu apartamento e documentou tudo o que viu e tudo o que encontrou? 
 A senhora no tem nada. Nada!  Selina se lanou em p como se projetada por uma mola.  Ele era um homem velho, pouco sagaz e com maus reflexos. Saquei que era um tira logo da primeira vez em que tentou me seguir. E ele jamais esteve aqui na minha casa. No lhe contou nada quando estava vivo e no pode contar nada agora que morreu. 
 No? Mas, afinal... a senhora no acredita em conversar com os mortos, sra. Cross? Eu ganho a vida fazendo isso. 
 E acha que eu no reconheo fumaa, espelhos e pistas falsas, tenente?  Seus seios espetaculares se apertaram contra o vestido, enquanto ela tentava voltar  respirao normal.  Alice era uma menina tola que achava que podia flertar com as foras das trevas e depois voltar correndo para sua magia branca pattica e sua linda famlia. Pagou o preo por sua ignorncia e covardia. Mas no nas minhas mos! No tenho mais nada a lhe dizer. 
 Isso basta, por ora. Vamos, Peabody?  Comeou a caminhar em direo ao arco.  Seu fogo est apagando, sra. Cross  disse, com um tom de voz moderado.  Logo, logo, no vamos ter mais nada, s um monte de cinzas. 
Selina continuou onde estava, tremendo de raiva. Quando a porta se fechou e o sistema de segurana foi religado, ela formou duas bolas com os punhos fechados e gritou de dio. 
Um painel na parede se abriu para o lado. O homem que apareceu era alto e bronzeado. Seu peito reluzia e pulsava, com os msculos  mostra. A tatuagem sobre o corao mostrava um bode com grandes chifres. Sua nica vestimenta era um roupo preto aberto, amarrado  altura da cintura de modo frouxo, com um cordo prateado. 
 Alban!  Selina correu em sua direo e o envolveu com os braos. 
 Estou aqui, meu amor.  Sua voz era profunda e transmitia calma. Na mo que acariciava o cabelo de Selina havia um grande anel de prata entalhado com a imagem de um pentagrama invertido.  Voc no deve desequilibrar seus chacras. 
 Fodam-se os meus chacras!  Ela chorava agora, de modo selvagem, socando o peito dele como uma criana batendo em seu tambor de brinquedo.  Eu a odeio, odeio! Ela tem que ser punida! 
Com um suspiro, ele a soltou, deixando-a circular, enfurecida, pela sala, xingando e estilhaando objetos de cermica. Ele sabia que a crise ia passar mais depressa se ele recuasse para ela dar vazo ao dio. 
 Eu a quero morta, Alban! Morta! Quero que ela sofra agonias insuportveis, quero que grite pedindo misericrdia, quero que sangre, padea e sangre ainda mais. Ela me insultou. E me desafiou! S faltou rir na minha cara. 
 Ela no acredita, Selina. No possui a viso. 
 Tiras!  Exausta, como sempre ficava depois de um acesso de clera, ela desabou sobre o sof.  Eu sempre os detestei, a vida inteira! 
 Eu sei.  Pegando uma garrafa estreita e alta, ele lhe serviu um lquido denso e enevoado.  Precisamos ter cuidado com ela...  uma pessoa muito conhecida.  E lhe passou o clice com a bebida.  Mas vamos pensar em alguma coisa, no vamos? 
 Claro que vamos.  Selina tornou a sorrir, bebendo bem devagar a mistura fumegante.  Vamos preparar-lhe algo muito especial. O Mestre gostaria de algo bem... criativo no caso dela.  Ento soltou uma gargalhada esganiada, tombando a cabea para trs. A polcia sempre fora o veneno de sua vida, at que ela descobriu um poder muito maior.  Vamos fazer com que ela acredite, no vamos, Alban? 
 Sim, e ela vai acreditar... 
Selina bebeu o lquido de uma s vez e teve uma sensao maravilhosa; sua mente, enevoada, encobriu todas as emoes conflitantes e ela deixou o clice cair, dizendo: 
 Venha at aqui e me possua!  Com os olhos brilhando, deixou-se escorregar para o cho.  Obrigue-me! 
E quando ele cobriu o corpo dela com o dele, Selina virou a cabea, arreganhou os dentes e os enfiou nos ombros do companheiro, at arrancar sangue. 
 Machuque-me!  exigiu ela. 
 Com prazer  replicou ele. 
E quando se afastaram para o lado, com sua violenta paixo saciada, ele permaneceu deitado, quieto, ao lado dela. Ela ia restaurar suas energias agora, ele bem sabia. Ia esfriar a cabea, se acalmar e pensar. 
 Devemos realizar uma cerimnia esta noite mesmo, Alban. Convoque toda a irmandade para uma missa negra. Precisamos de poder, Alban! Ela no  fraca e quer nos destruir. 
 No vai conseguir.  Com afeto, agora, ele acariciou-lhe o rosto.  No poderia. Afinal,  apenas uma tira sem passado e com futuro curto. Mas voc tem razo,  claro, vamos convocar a irmandade. Vamos realizar o ritual... e acho que devemos oferecer  tenente Dallas um ou dois sustos, para distra-la. Assim, ela no vai ter tempo nem disposio para se preocupar com a pequena Alice por algum tempo. 
Uma nova onda de excitao percorreu-lhe o corpo, uma onda escura que brilhou em seus olhos. 
 Quem vai morrer?  perguntou ela. 
 Ora, meu amor...  Ele a levantou, tornou a penetr-la e suspirou ao sentir seus msculos apertarem-lhe o membro violentamente, com a fora de um torno.  Tudo o que voc tem a fazer  escolher. 


 Voc conseguiu deix-la realmente revoltada!  Peabody tentava ignorar o suor de medo que s comeou a secar em sua pele quando Eve ligou o carro e foi se afastando do prdio. 
 Era essa a idia... agora que eu sei que autocontrole no  o seu ponto forte, vou poder irrit-la novamente sempre que quiser. Ela  feita s de ego  decidiu Eve.  Imagine s... achar que amos nos impressionar com um truquezinho barato como aquele do fogo acendendo sozinho. 
 ...  Peabody conseguiu dar um sorriso, sentindo-se enjoada.  Imagine s que idia... 
Eve empurrou a bochecha com a lngua e ficou decidindo se caoava ou no de sua auxiliar, dizendo: 
 J que estamos no clima para enfrentar bruxas, vamos aproveitar e dar uma passadinha na loja Busca Espiritual, a fim de conhecer essa tal de Isis.  Olhou de lado para Peabody. Bem, talvez ela merecesse ser ridicularizada, afinal.  Quando a gente chegar l, voc vai poder comprar um talism ou algumas ervas  disse, com ar solene.  Sabe como ... para afastar o Mal. 
 No pense que eu no vou fazer isso.  Peabody se ajeitou no banco. Fazer papel de tola era muito melhor do que ficar preocupada com alguma maldio. 
 E depois que sairmos da loja de Isis, podemos ir comer uma pizza... com muito alho. 
 Alho  para afastar vampiros. 
 Ah, ? Ento, podemos pedir emprestado ao Roarke algum daqueles revlveres antigos, com balas de prata. 
 Isso  para lobisomens, Dallas.  Comeando a se divertir com aquilo, Peabody olhou para cima, reclamando:  J vi que voc no vai ajudar muito se tivermos que nos defender de bruxaria. 
 Mas o que  que assusta as bruxas, ento? 
 No sei  admitiu Peabody , mas garanto que vou descobrir










 



CAPTULO SEIS





F
azer compras no era algo que Eve considerasse um dos pequenos prazeres da vida. Ela no gostava de olhar nem de circular em frente s vitrines, e tambm no era de ficar navegando em sites de compras eletrnicas. Evitava, sempre que possvel, as lojas e butiques de Manhattan, fossem elas na superfcie, acima ou abaixo das ruas. Tremia s de pensar em um passeio por um dos shoppings areos que havia na cidade. 
Provavelmente, a sua resistncia visceral ao consumo e s compras em geral foi a responsvel pelo fato de que Isis sacou que ela era uma policial assim que colocou os ps dentro da Busca Espiritual. 
At que, em se tratando de uma loja, Eve a considerou tolervel. No estava interessada nos cristais nem nos cartes, esttuas ou velas, embora reconhecesse que estavam expostos de forma atraente. A msica de fundo era suave, mais um murmrio do que uma melodia, e a luz incidia sobre os cristais em estado bruto, brincando atravs deles e das pedras polidas, formando lindos arco-ris. 
O lugar, sentiu ela, tinha cheiro de florestas, de natureza... de verde. 
Se era com bruxas que estava lidando, decidiu Eve, Isis e Selina no poderiam estar mais dramaticamente opostas no que dizia respeito  aparncia. Selina era plida, magra e felina. Isis era uma mulher do tipo amazona extica, com cabelos ruivos muito cacheados que se moviam como chamas, olhos redondos pretos, alm de malares que pareciam entalhados. Sua pele tinha o tom dourado que atestava uma herana racial mista, e suas feies eram largas e marcantes. Eve estimou sua altura em mais de um metro e oitenta. Seu corpo de curvas generosas e bem distribudas devia pesar cerca de setenta e cinco quilos. 
Usava um manto esvoaante, longo, em um ofuscante tom de branco e preso por um cinto cravejado de pedras. Seu brao direito ostentava um bracelete dourado em espiral que ia do cotovelo at quase o ombro, e suas mos grandes faiscavam e cintilavam com pelo menos uma dzia de anis. 
 Sejam bem-vindas...  A voz combinava com ela, tinha um sotaque diferente e um tom gutural. Seus lbios se abriram, mas foi um sorriso mais de pesar do que de prazer.  Voc deve ser a policial amiga de Alice. 
Eve levantou a sobrancelha ao exibir o distintivo. Pelo jeito, ela tinha mesmo toda a pinta de policial. Alm do mais, desde que conhecera Roarke, seu rosto aparecia na mdia o tempo todo. 
 Sou Dallas. Voc deve ser Isis. 
 Devo ser... voc est querendo conversar comigo. Com licena...  Foi at a porta de entrada. Com graa e leveza, do jeito que uma atleta pode ser graciosa e leve, virou para o lado de fora uma placa onde se lia a palavra Fechada manuscrita em caligrafia antiga, fechou a persiana sobre o vidro da porta e trancou a fechadura. 
Ao se virar, seu olhar parecia mais intenso e sua boca, sombria. 
 Voc traz consigo sombras escuras que incomodam a minha luz.  ela, que deixa sua energia colada nas pessoas como uma espcie de... fedor.  Ao ver a cara feia de Eve, inclinou a cabea para o lado, completando:  Estou me referindo a Selina, tenente. Um momento. 
Foi at uma prateleira e comeou a acender velas e incensos. 
 Isso  para purificar e servir de escudo, a fim de nos proteger e defender. Voc tambm tem suas sombras, Dallas  sorriu de leve para Peabody , e no estou me referindo  sua auxiliar. 
 Estou aqui para falar de Alice. 
 Sim, eu sei. E est impaciente pelo que encara como tolices de vitrine. No me importo. Toda religio deve estar aberta a questionamentos e mudanas. Querem sentar?  Indicou um canto onde havia duas cadeiras junto de uma mesa redonda cheia de smbolos entalhados. Tornou a sorrir para Peabody e disse:  Posso pegar outra cadeira l atrs para voc. 
 No, no precisa... eu fico em p.  Peabody no conseguia resistir; seu olhar vagava em volta da loja e pousava de vez em quando em uma ou outra bugiganga bonita. 
 Por favor, fique  vontade para olhar o que quiser. 
 No viemos aqui para fazer compras  disse Eve, sentando-se e lanando para Peabody um olhar de advertncia.  Qual foi a ltima vez em que falou ou esteve com Alice? 
 Na noite de sua morte. 
 A que horas? 
 Creio que por volta de duas da manh. Ela j estava morta  acrescentou Isis, cruzando as mos grandes e lindas. 
 Voc a viu depois de morta... 
 Seu esprito veio  minha procura. Pode achar isso tolice, tenente, eu compreendo. Tudo o que posso lhe dizer  como as coisas so e como aconteceram. Eu estava dormindo e acordei de repente. Ela estava ali, ao lado da minha cama. Soube ento que a perdera. Ela acha que ficou em falta... consigo mesma, com a famlia, comigo. Seu esprito est agitado e cheio de pesar. 
 E seu corpo est morto, Isis. Essa  a minha preocupao. 
 Sim.  Isis pegou na mesa uma pedra bem polida, em um tom claro de rosa, e a segurou.  Mesmo para mim, com minha f e minhas crenas,  difcil aceitar a sua morte. Era to jovem, to brilhante...  Seus olhos grandes e escuros ficaram rasos dgua.  Eu a amava muito, como a uma irm mais nova. No estava escrito, porm, que eu deveria salv-la nesta vida. Seu esprito vai retornar, ela vai renascer. Sei que tornaremos a nos encontrar. 
 Que timo! Vamos agora nos concentrar nesta vida. E nesta morte. 
Isis piscou depressa para absorver as lgrimas antes que cassem e conseguiu dar um sorriso rpido e sincero. 
 Deve achar todo esse papo um tdio... voc tem uma mente muito prtica. Quero ajud-la, tenente, por Alice. Por mim, talvez, e por voc tambm... eu a reconheci quando chegou. 
 Percebi. 
 No... eu a reconheci de outra poca, de outro lugar... de outro plano.  Abriu as mos.  A ltima vez em que vi Alice com vida foi no dia do funeral de seu av. Ela se culpava pela morte dele, estava determinada a reparar o erro. Andou perdida por algum tempo, foi mal orientada, mas possua um corao forte e radiante. Adorava a famlia. E tinha medo, muito medo do que Selina poderia fazer a ela, tanto ao seu corpo quanto  sua mente. 
 Voc conhece Selina Cross? 
 Sim, j nos encontramos. 
 Nesta vida?  perguntou Eve, com um tom seco, o que fez Isis tornar a sorrir. 
 Sim, nesta vida e em outras. Ela no representa ameaa alguma para mim, mas  muito perigosa. Seduz os fracos, os confusos e aqueles que preferem trilhar o caminho dela. 
 Selina afirma que  uma bruxa. 
 No  bruxa coisa nenhuma.  Isis deu de ombros e levantou a cabea.  Ns, que seguimos esta Arte, o fazemos em plena luz e respeitamos um cdigo rgido: jamais fazer mal a ningum. Ela usa o pattico poder que possui para invocar as trevas, a fim de explorar sua violncia e sua repugnncia. Ns sabemos muito bem o que  o Mal, Dallas. Ns duas j o vimos de perto... No importa a forma sob a qual ele se apresente, isso no muda a sua prpria natureza. 
 Nisso eu concordo. Por que razo ela faria mal a Alice? 
 Porque podia faz-lo. Porque adoraria faz-lo. No h duvida de que ela  a responsvel pela morte da menina. Voc vai ver que no ser fcil provar isso, mas no vai desistir.  Isis manteve os olhos fixos nos de Eve, fitando-a por muito tempo, de forma profunda.  Selina vai se surpreender e se enfurecer por causa da sua tenacidade, da sua fora. A morte ofende voc, e a morte de algum jovem sempre deixa seu corao em pedaos. Voc se lembra muito bem de muitas coisas, mas no de tudo. Seu nome no  Eve Dallas, mas se transformou nela, e ela em voc. Quando toma o partido dos que morreram e fica ao lado deles, nada a demove. Em seu passado, a morte dele foi necessria para que voc pudesse viver, Dallas. 
 Pare!  ordenou Eve. 
 Por que permite que isso a assombre?  A respirao de Isis era curta e pesada, e seu olhar mais profundo e brilhante.  Sua escolha foi acertada. A inocncia se perdeu, mas nasceu a fora em seu lugar. Para alguns, as coisas devem ocorrer desse modo. E voc vai precisar de toda essa fora antes que este ciclo termine. Um lobo, um javali e uma lmina de prata. Fogo, fumaa e morte. Confie no lobo, destrua o javali e sobreviva... 
De repente, ela piscou. Seus olhos pareceram se enevoar quando ela levantou a mo e massageou a tmpora com os dedos.  Desculpe. No tive a inteno.  Soltou um suspiro baixo e tornou a fechar os olhos, com a fronte franzida.  Uma dor de cabea... terrvel. Desculpe-me por um instante  disse e, levantando-se, trmula, foi depressa para os fundos da loja. 
 Caramba, Dallas, isso est ficando pra l de esquisito... voc sabe do que ela estava falando? 
A morte dele foi necessria para que voc pudesse viver. Seu pai, pensou Eve, fazendo de tudo para evitar um calafrio. Um aposento frio, uma noite escura e uma faca manchada de sangue nas mos de uma criana desesperada. 
 No, no sei,  tudo baboseira!  As palmas de suas mos estavam suadas e isso a deixou enfurecida.  Essa gente acha que precisa fazer truquezinhos baratos para manter as pessoas interessadas. 
 Estudei no Instituto Kijinsky, em Praga  informou Isis, voltando para a loja.  Fui examinada l.  Colocou uma pequena xcara de lado e conseguiu exibir um sorriso, enquanto sentia a dor de cabea ceder.  Minhas habilidades psquicas esto oficialmente registradas para aqueles que precisam de documentao. Mas eu lhe peo desculpas, Dallas. No pretendia entrar em transe daquela forma.  muito raro isso acontecer sem que eu controle a ao de forma consciente. 
Voltou a se sentar no mesmo lugar de antes e ajeitou as pontas do manto com um gesto gracioso, continuando: 
 Seria um inferno indescritvel ser capaz de penetrar nos pensamentos e nas lembranas das pessoas sem poder controlar isso ou bloquear o processo. No gosto de bisbilhotar pensamentos pessoais. Isso di...  acrescentou, voltando a massagear a tmpora.  Quero ajud-la a terminar o que Alice pretendia fazer, para que ela possa descansar. Quero tambm, por motivos pessoais e egostas, ver Selina pagar por tudo o que provocou. Farei o que for necessrio e o que quer que voc me permita para ajudar. 
Confiana no era um sentimento fcil para Eve, e ela pretendia conferir com todo o cuidado o passado de Isis. Por ora, no entanto, poderia usar suas informaes. 
 Conte-me tudo o que sabe a respeito de Selina Cross. 
 Sei que ela  uma mulher sem conscincia ou padro moral. O termo que voc usaria  sociopata, mas acho que essa  uma palavra muito simples e muito limpa para o que ela . Prefiro um termo mais direto: diablica.  uma mulher esperta, com um talento especial para descobrir as fraquezas das pessoas. Quanto ao seu poder real, o que ela consegue ver, prever ou fazer, no sei informar. 
 E quanto a Alban? 
 Sei muito pouco ou quase nada a seu respeito. Selina o mantm sempre junto dela. Imagino que seja seu amante, e que ela o considere til, seno j o teria despachado h muito tempo. 
 E quanto a esse clube que ela possui? 
 Eu no freqento estabelecimentos desse tipo.  Isis sorriu de leve. 
 Mas sabe a respeito dele? 
 Ouo rumores, fofocas...  Levantou os ombros largos.  Cerimnias com magia das trevas, missas negras, ingesto de sangue. Estupros, assassinatos, infanticdios, invocao de demnios.  E ento suspirou.  De qualquer modo, voc deve ouvir a mesma coisa a respeito das pessoas ligadas  religio Wicca. Coisas divulgadas por pessoas que no possuem entendimento dos assuntos ligados  Arte; elas enxergam apenas velhas encarquilhadas cobertas de preto e lidando com olhos de salamandra sempre que pensam na palavra bruxa. 
 Alice afirma ter visto uma criana sendo assassinada. 
 Sim, e acredito que viu mesmo. No poderia ter inventado uma coisa dessas. Estava em choque e sentindo-se mal quando veio me procurar.  Isis apertou os lbios e estremeceu, expirando com fora.  Fiz o que pude por ela. 
 Tal como incentiv-la a ir at a polcia, a fim de relatar o que testemunhara? 
 Isso cabia a ela decidir.  Isis tornou a levantar o queixo e encarou os olhos de Eve, que transmitiam uma raiva glida.  Eu estava mais preocupada com a sua sobrevivncia emocional e espiritual. A criana j estava perdida. Minha esperana era salvar Alice do mesmo destino.  Baixou os olhos, que tornaram a se encher de lgrimas.  Arrependo-me profundamente de no ter agido de forma diferente. No fim, falhei com ela, talvez por orgulho...  Tornou a olhar para Eve, dizendo: 
 Voc deve compreender o poder e o erro de se ter orgulho. Eu achava que podia lidar com isso, que era esperta o bastante, forte o bastante. Estava errada. Portanto, Dallas, para reparar minhas falhas, farei tudo o que quiser, colocarei  sua disposio todo o conhecimento e o poder com os quais a deusa me investiu. 
 S as informaes j vo ajudar.  Eve olhou para ela com a cabea meio de lado.  Selina nos deu uma pequena demonstrao do que chamou de poder. Impressionou Peabody. 
 Fui pega desprevenida  resmungou Peabody, observando Isis com cautela. No se sentia preparada para outra demonstrao. Para sua surpresa, e de Eve tambm, Isis lanou para trs a magnfica cabea e deu uma gargalhada. Era como ouvir alegres sinos de bias sinalizadoras em um porto enevoado. 
 Devo invocar a fora dos ventos?  Com uma das mos pressionando o peito, ela deu mais uma risada.  Invocar os mortos ou fazer surgir chamas teatrais? Ora, Dallas, voc no acredita em nada disso, seria um desperdcio de tempo e energia, no? Talvez, porm, vocs estejam interessadas em assistir a um de nossos encontros. Vamos ter um, no fim da semana que vem. Posso providenciar isso. 
 Vou pensar no assunto. 
 Voc faz cara de deboche  comentou Isis, com ar casual.  No entanto, traz no dedo o antiqssimo smbolo da proteo. 
 O qu? 
 Sua aliana de casamento, Dallas.  Com um sorriso calmo, Isis levantou a mo esquerda de Eve.  Tem entalhada nela o velho smbolo cltico para proteo. 
Completamente surpresa, Eve olhou para a linda gravao que enfeitava sua fina aliana, dizendo: 
  apenas um enfeite. 
 No,  um entalhe muito especfico e poderoso, feito para oferecer  pessoa que o usa proteo total contra qualquer mal.  Com ar divertido, levantou as sobrancelhas.  Estou vendo que no sabia disso... est realmente to surpresa assim? Seu marido possui o sangue dos celtas, e voc leva uma vida muito arriscada. Roarke a ama muito, e o que voc usa nada mais  do que um smbolo disso. 
 Prefiro fatos a supersties  disse Eve, j se levantando. 
 E deve preferir mesmo  concordou Isis.  De qualquer modo, ser muito bem-vinda ao nosso prximo encontro... se resolver aceitar o convite. Roarke tambm ser bem-vindo  sorriu para Peabody , bem como a sua auxiliar. Voc aceitaria um presente meu? 
 Isso  contra as normas. 
 E as normas devem ser respeitadas.  Levantando-se, Isis foi at um dos balces de exposio da loja e pegou um vaso, mais parecendo uma tigela, muito claro e com a boca larga.  Ento, talvez queira adquirir isto. Afinal, perdi clientes em potencial por ter fechado a porta, a fim de conversar com voc... vinte dlares. 
 Parece-me justo.  Eve enfiou a mo no bolso, em busca de fichas de crdito.  Para que serve? 
 Chamamos a isso vaso de preocupaes. Voc deve se visualizar colocando aqui dentro todas as suas dores, pesares e preocupaes. Depois, deixe-o em um canto e v dormir sem sombras na mente. 
 Ento  um bom negcio!  Eve colocou as fichas de crdito sobre o balco e esperou enquanto Isis embrulhava o vaso em um papel reforado, para proteg-lo. 


Eve chegou em casa cedo, um fato raro. Achou que poderia mergulhar no trabalho, no sossego de seu escritrio. Ia entrar direto e passar sem dar ateno a Summerset, refletiu, enquanto estacionava o carro no fim da alameda. O mordomo ia simplesmente soltar uma exclamao de desdm e ignor-la. Ela teria ento umas duas horas, pelo menos, para pesquisar os dados sobre Isis, e depois entraria em contato com a dra. Mira, a psiquiatra da polcia, a fim de marcar uma hora para trocar idias. Seria muito interessante, avaliou Eve, ouvir as avaliaes de Mira a respeito de figuras como Selina Cross e Isis. 
Mal chegou  porta e viu seus planos irem para o espao. 
A msica pulsava, os rudos retumbando pela porta da sala de visitas como pequenas exploses nucleares. Quase cambaleando, tentando avanar em meio s ondas sonoras, Eve colocou as mos acima da cabea, bateu palmas com fora e berrou. 
Ningum precisava lhe dizer que era Mavis quem estava ali. Ningum mais em todo o planeta poderia tocar notas conflitantes e dissonantes em um nvel to alto de decibis. Ao alcanar o portal, o volume ainda estava muito alto. Suas ordens berradas para desligar o som no alcanaram o sensor de voz nem os ouvidos da nica ocupante da sala. 
Sozinha, espremida em uma microssaia fcsia ofuscante, que combinava com os caracis espiralados que saam do alto de sua cabea, Mavis Freestone estava deitada no sof, fazendo o impossvel: dormia como um beb. 
 Meu Jesus!  J que os comandos de voz eram inteis, Eve, corajosamente, arriscou os tmpanos e tirou as mos dos ouvidos, saindo em direo da unidade embutida de controle remoto.  Desligar! Desligar! Desligar!  berrou ela, enquanto apertava todos os botes. O barulho parou de repente, no meio de uma exploso, e a fez gemer de alvio. 
Os olhos de Mavis se abriram, arregalados, na mesma hora. 
 Oi, Eve. Como  que esto as coisas? 
 O qu?  perguntou Eve, balanando a cabea com fora para os lados, a fim de espalhar os sinos que sentia repicar dentro do crebro.  O qu?... 
 Esse  um grupo novo que descobri hoje de manh. Mutilao  o nome da banda... eles so mais que demais! 
 O qu?  repetiu Eve. 
Dando uma risada, Mavis se levantou de um salto e foi, pulando, com seu corpinho at o armrio das bebidas, dizendo: 
 Estou precisando de um drinque. Acho que cochilei...  que fiquei acordada a noite toda nos ltimos dias. Queria conversar com voc a respeito de uns... lances. 
 Sua boca est se movendo  observou Eve.  Voc est falando alguma coisa comigo? 
 Ah, no estava to alto assim!... tome um drinque. Summerset falou que no havia problema se eu ficasse aqui esperando. Ele no sabia a hora que voc ia chegar. 
Eve lembrou que, devido a motivos que escapavam por completo  sua compreenso, o mordomo da casa, que andava sempre empinado, duro como um dois de paus, sentia atrao por Mavis. 
 Summerset deve estar em sua jaula, compondo poemas dedicados s suas pernas, Mavis. 
 Ei, no  nada sexual o que ele sente. Simplesmente gosta de mim. E a?...  Mavis brindou, batendo com sua taa contra a de Eve.  Roarke no est na rea, est? 
 Com essa msica explodindo as paredes?  Eve bufou e tomou um gole.  Ele s pode estar na rua. 
 Bem, ento isso  bom, porque eu queria levar um lero com voc.  E sentou girando a taa entre as mos, sem dizer nada. 
 Qual foi o problema? Voc e Leonardo tiveram uma briga ou algo assim? 
 No, no... no d para brigar com Leonardo, ele  um doce de coco. Est passando alguns dias em Milo, participando de um lance ligado ao mundo da moda. 
 E por que voc no foi com ele?  Eve se sentou, colocou os ps, sem tirar as botas, sobre a mesinha de centro de valor incalculvel e cruzou as pernas na altura dos tornozelos. 
 Tenho o meu show na boate Baixaria. No posso deixar Crack na mo, porque ele sempre me deu o maior apoio. 
 Humm...  Eve flexionou a musculatura dos ombros e comeou a relaxar. A carreira de Mavis, que executava canes (era difcil usar a palavra cantora para definir seus talentos vocais), estava decolando. Houve algumas pedras no caminho, mas tudo j fora superado.  Eu no achava que voc fosse continuar a trabalhar l por mais tempo. No depois de ter conseguido contrato com uma gravadora. 
 Pois , esse  o lance. O contrato. Voc sabe, depois de descobrir que Jess estava me usando, e usando voc e Roarke tambm, para seus jogos de mexer com a mente das pessoas,? eu no pensei que aquela gravao demo que fiz com ele fosse me levar a algum lugar. 
 Mas o nmero era bom, Mavis, vibrante, nico. Por isso  que voc foi aprovada. 
 Foi mesmo?  Tornou a se levantar, uma mulher baixa, com os cabelos eriados e selvagens.  Descobri hoje que Roarke  o dono da gravadora que me ofereceu o contrato.  Tomando alguns goles do drinque, comeou a andar de um lado para outro.  Sei que temos uma histria de amizade, voc e eu, Dallas, um lance de muito tempo, e agradeo por voc querer me ajudar colocando Roarke na jogada, mas eu no me sinto bem a respeito. S queria agradecer a voc  virou-se para Eve, com os olhos prateados trgicos e vazios  e lhe dizer que vou rejeitar o contrato. 
 Mavis, no fao a mnima idia sobre o que voc est falando. Est me dizendo que Roarke, o cara que mora aqui nesta casa, est produzindo o seu disco? 
 A gravadora pertence a ele.  a Eclectic. Eles gravam todo tipo de msica, desde clssica at estoura-tmpano.  a melhor gravadora, entende? Totalmente mais que demais! Foi por isso que fiquei to empolgada com a proposta. 
Eclectic, avaliou Eve. A gravadora. Tinha todo o jeito do Roarke mesmo. 
 Olhe, Mavis, no sei de nada a respeito disso. No pedi coisa alguma a Roarke por voc, acredite! 
 No pediu?  Ela piscou e se sentou lentamente no brao da poltrona.  Srio mesmo? 
 Estou falando srio  repetiu Eve.  E ele tambm no me contou.  O que tambm era a cara dele.  O que tenho a lhe dizer, Mavis,  que se a gravadora est lhe oferecendo um contrato  porque Roarke, ou sei l quem ele colocou  frente do negcio, acha que voc vale o investimento. 
Mavis comeou a respirar fundo. Ela se preparara para fazer o sacrifcio da abnegao, no querendo tirar vantagens de uma amizade. Naquele momento, porm, comeou a balanar o corpo, dizendo: 
 Mas talvez ele tenha armado tudo, como se fosse um favor. 
 Para Roarke, negcios so negcios!  Eve levantou uma sobrancelha.  Eu diria que ele deve estar achando que voc vai torn-lo ainda mais rico. E se fez isso como favor, o que duvido, voc vai ter simplesmente que provar a ele que vale o contrato, no  mesmo, Mavis? 
 ...  Soltou um longo suspiro.  Vou ter que botar pra quebrar!  E abriu um sorriso.  Voc bem que podia dar uma passadinha na boate hoje  noite. Tenho umas msicas novas, e Roarke poderia avaliar de perto o seu mais novo investimento. 
 Sou obrigada a dispensar o convite. Tenho um monte de trabalho. Tenho que descobrir tudo sobre o Clube Athame. 
 Que diabos voc anda fazendo por l?  Mavis fez uma careta.  Aquele lugar  ttrico. 
 Voc conhece o clube? 
 S de nome e fama. Saiba que a reputao que ele tem est abaixo da linha da encrenca brava. 
 Tem uma pessoa com quem preciso conversar que trabalha l. Est ligada a um caso que estou investigando.  Eve pensou por um instante. No havia ningum que ela conhecesse e que pudesse ter mais a ver com coisas incomuns do que Mavis.  Voc conhece alguma bruxa, Mavis? 
 Conheo... mais ou menos. Duas garonetes do Esquilo Azul estavam envolvidas com esse lance. Isso ainda foi na poca em que eu enrolava as pessoas. 
 E voc acredita nessas coisas? Cnticos mgicos, feitios e leitura de mos? 
  a maior enganao  respondeu Mavis, virando a cabea e assumindo um ar pensativo. 
 Voc no deixa de me surpreender  decidiu Eve.  Eu jurava que voc sacava tudo a respeito e acreditava nesse tipo de histria. 
 Bem, participei de uma picaretagem dessas uma vez. Trabalhei como guia espiritual. Eu era Ariel, reencarnao de uma rainha do Reino das Fadas. Voc ia ficar de queixo cado se eu lhe contasse sobre a quantidade de pessoas legais que me pagavam para eu entrar em contato com parentes mortos ou prever o futuro delas. 
Para demonstrar, deixou a cabea pender para trs, de repente. Suas plpebras comearam a tremular e ela ficou com a boca mole. Lentamente, seus braos se elevaram, com as palmas das mos voltadas para cima. 
 Sinto uma presena aqui...  comeou ela.   algum forte, que est em busca de contato e sofrendo muito.  Sua voz ficou mais grave e exibiu um sotaque indefinido.  H foras das trevas que esto trabalhando contra voc neste momento. Elas se escondem, esperando o momento certo para prejudic-la. Tenha cuidado! 
Abaixou os braos e sorriu, completando: 
 Nesse momento, voc avisa ao otrio que precisa de toda a sua confiana, a fim de poder oferecer proteo contra as foras do mal. Tudo o que ele tem a fazer  colocar, digamos, mil paus em dinheiro, tem que ser em dinheiro, seno no funciona, em um envelope e depois lacr-lo. No se esquea de dizer que o envelope precisa ser lacrado com uma cera especial, que voc tem ali para vender. Depois,  s entoar uns mantras que voc tambm ensina para o man, aconselhando-o a enterrar o envelope em um local secreto na noite de lua nova. Depois que a lua completar um ciclo, ele pode desenterrar o envelope e entreg-lo a voc de volta. A essa altura, as foras do mal tero desaparecido por completo. 
 S isso? E as pessoas traziam mesmo o dinheiro de volta e o entregavam para voc? 
 Bem, eu tinha que fazer um teatro mais elaborado, fazia uma pesquisa para poder citar nomes de pessoas da famlia dele, eventos e coisas marcantes. Mas, basicamente, era s isso. As pessoas querem acreditar. 
 Por qu? 
 Porque a vida sem essas coisas pode se tornar sacal demais! 


Sim, pensou Eve, quando se viu novamente sozinha... Ela imaginava que a vida podia ser realmente horrvel. A dela certamente fora, por longos perodos. Agora ela estava morando em uma manso, com um homem que, por alguma razo, a amava. Ela nem sempre compreendia sua vida ou o homem com o qual a compartilhava, mas estava se ajustando. To bem, na verdade, que Eve decidiu no se enterrar no trabalho, e sim sair, em plena tardinha de outono e tirar uma hora para si mesma. 
Estava cansada das ruas e caladas, passarelas areas lotadas e esteiras rolantes entulhadas de gente. A amplitude de espao que Roarke tinha condies de possuir ali, em plena cidade, sempre a deixara impressionada. O terreno da casa era imenso, mais se parecia com um parque bem cuidado, calmo e luxuriante, com a folhagem tpica dos ricos assumindo os tons flamejantes do outono. O aroma era fornecido por flores especiais, que espalhavam no ar a suave fragrncia rural dos campos em pleno ms de outubro. 
Acima dela, o cu parecia quase sem trfego areo e o pouco rudo que se ouvia era um murmrio constante e digno. Nenhum dos nibus areos trovejantes nem dos dirigveis tursticos barulhentos ousava invadir o espao areo sobre a propriedade de Roarke. 
E o mundo que ela conhecia, e que a conhecia, ficava do outro lado dos portes, alm dos muros, na escurido desagradvel. 
Ali, ela podia se esquecer de tudo por algum tempo. Podia esquecer que Nova York existia, com suas mortes, frias... e sua arrogncia perptua e atraente. Ela precisava da quietude e do ar puro. Ao caminhar sobre a grama muito verde e densa, rodou a aliana no dedo, olhando para os peculiares smbolos nela representados. 
Na parte norte do terreno, havia um caramancho feito com vares de ferro trabalhado, que parecia quase fluido. As videiras que se entrelaavam nas hastes de ferro e tombavam, penduradas de forma graciosa, estavam carregadas de flores em um tom forte de vermelho. Eve se casara com Roarke naquele local, em uma cerimnia tradicional,  moda antiga, onde votos eram trocados e promessas, feitas. Uma cerimnia, pensava ela naquele momento. Um ritual que inclua msica, flores, testemunhas e palavras que vinham sendo repetidas ano aps ano, em todos os lugares do mundo, atravs dos sculos. 
Do mesmo modo, pensou ela, outras cerimnias tambm eram preservadas, e muitos acreditavam que elas atraam poder. Desde os tempos de Caim e Abel, refletiu. Um plantava e o outro era pastor. Ambos ofereciam sacrifcios. Um deles foi aceito, o outro ignorado. A partir da, podia se dizer que nasceu o Bem e o Mal. Cada um desses dois elementos precisava do equilbrio e do desafio do outro. 
E as coisas continuaram assim, desde ento. A cincia e a lgica os desqualificaram, mas os rituais continuavam a existir, com incenso  cnticos, oferendas, ingesto de vinho, que simbolizava sangue... 
E sacrifcios de inocentes. 
Aborrecida consigo mesma, Eve passou as mos pelo rosto. Filosofar era uma tolice intil. Assassinatos eram praticados por mos humanas. E eram tambm as mos humanas as responsveis por trazer justia. Era esse, afinal, o equilbrio definitivo entre o Bem e o Mal. 
Sentando-se no gramado sob o caramancho e as flores vermelho-sangue que pendiam, Eve respirou fundo, inspirando o aroma quente da noite que chegava. 
 Esse no  um comportamento muito comum em voc.  Roarke chegara por trs dela, sem fazer barulho, de forma to inesperada que o corao de Eve deu um pulo quando ele se sentou na grama ao seu lado.  Est entrando em comunho com a natureza? 
 Talvez eu tenha passado tempo demais em lugares fechados hoje...  Teve que sorrir ao v-lo entregar para ela uma das flores vermelhas. Brincando com ela entre os dedos, ela observou as ptalas que giravam, antes de olhar para ele. 
Roarke parecia relaxado, com os cabelos escuros caindo at perto dos ombros, enquanto se recostava apoiado no cotovelo e esticava as pernas, cruzando os ps na altura dos tornozelos. Eve imaginava que aquele terno lindo e carssimo ia ficar com manchas da grama que acabariam por deixar Summerset horrorizado. Exalava um perfume msculo, igualmente caro. Uma fisgada de desejo atingiu-lhe o estmago. 
 O dia foi um sucesso para voc? 
 Acho que vai dar para colocar o po na nossa mesa por mais um ou dois dias. 
 No se trata do dinheiro, no ?  Ela passou os dedos nas pontas dos cabelos dele, enrolando-as.  O grande lance  o prazer de ger-lo. 
 No, o lance  o dinheiro sim.  Sorriu para ela com os olhos.  Aliado ao prazer de ger-lo.  Em um movimento rpido, que Eve j deveria estar esperando, ele inclinou o corpo na direo dela, segurou sua cabea pela nuca, puxou-a na direo dele e desequilibrou-a, enquanto lhe aplicava um beijo ardente. 
 Espere um instante, segure sua onda  disse ela, mas no foi rpida o bastante para se desvencilhar e acabou embaixo dele. 
 Estou me segurando, querida.  Sua boca se fixou gulosamente na garganta de Eve, enviando pequenos estmulos de calor por todo o seu corpo, at os dedos dos ps. 
 Quero conversar com voc, Roarke. 
 Certo. V falando enquanto eu livro voc dessa roupa toda. Ora... ainda est com a sua arma.  Observou, soltando a correia do coldre.  Planejava atordoar algum animalzinho do jardim? 
 Isso seria contra o regulamento. Roarke...  Ela o segurou pelo pulso no instante em que sua mo cobria, de forma casual, o seu seio.  Eu quero falar com voc. 
 E eu quero fazer amor com voc. Vamos ver quem ganha. O fato de que ele j conseguira abrir sua blusa e deixara seus seios ardendo de desejo deveria deix-la enfurecida. Quando sua boca se fechou sobre aquela poro de pele to sensvel, os olhos de Eve ficaram quase vesgos de prazer. Mesmo assim, nada daquilo ia adiantar, pois ela no ia permitir que ele ganhasse o jogo assim to depressa. 
Deixou o corpo ficar mole, deu alguns gemidos e enterrou os dedos entre os cabelos dele, descendo com fora at seus ombros. 
 Seu palet...  murmurou ela, tentando despi-lo. Quando ele mudou de posio para tambm se livrar das roupas, ela o pegou de jeito. 
Era um princpio bsico da luta corpo-a-corpo: jamais baixe a guarda. Eve fez um movimento de tesoura, lanou a perna sobre ele em um piscar de olhos e o prendeu de costas no cho, com um dos joelhos sobre a rea entre suas pernas e um cotovelo sobre sua garganta. 
 Voc  ardilosa!  Ele calculou que conseguiria escapar do cotovelo, mas do joelho... havia coisas que um homem jamais estaria disposto a arriscar. Ele manteve os olhos nos dela, e ento, lentamente e com todo o cuidado, passou as pontas dos dedos pelo seu torso nu, fazendo crculos em torno do seio.  Admiro essa qualidade em uma mulher. 
 Voc  muito fcil de subjugar.  O polegar dele continuava a acariciar de leve seu mamilo, fazendo sua respirao ficar mais curta.  Admiro isso em um homem. 
 Bem, voc realmente me imobilizou.  Ele desafivelou o cinto e abriu o zper, fazendo com que os msculos do estmago de Eve tremessem.  Agora, seja gentil comigo. 
Ela riu e afastou o cotovelo, envolvendo-lhe o rosto com ambas as mos. 
 Acho que no vou ser gentil no.  Abaixando a cabea, atacou sua boca com a dela. Ouviu a respirao dele ficar densa, quando ele sugou o ar, e sentiu seus braos a envolverem, os dedos apertando-a com fora. Seu gemido aumentou e ressoou na pulsao dela. 
 Seu joelho!  conseguiu ele, afinal, balbuciar. 
 Hein?  Com o desejo no nvel mximo, quase rugindo por dentro, ela levou os lbios e os dentes para a garganta dele. 
 O joelho, querida!  Eve se moveu com fora para atacar sua orelha e quase esmagou a virilidade dele.  Seu joelho  muito eficiente!  falou ele, quase soprando. 
 Oh!... desculpe.  Fazendo uma cara levada, ela abaixou o joelho, amoleceu o corpo e deixou que ele rolasse por cima dela.  Esqueci! 
 At parece, voc podia ter causado algum dano permanente, sabia? 
 Que nada!  Com um riso maroto, ela acabou de abrir as calas dele, puxando-as para baixo.  Aposto que conseguimos superar isso. 
Os olhos dele ficaram escuros quando ela comeou a massage-lo com fora, mas permaneceram abertos e voltados para ela quando seus lbios tornaram a se encontrar. O beijo, surpreendentemente suave, se misturou com a emoo forte e o desejo familiar. 
O horizonte ao crepsculo estava to vermelho quanto as flores que explodiam em cor acima deles. As sombras eram longas e suaves. Eve ouvia pssaros cantando ao longe e tambm o farfalhar do vento por entre as folhas secas. O toque das mos dele sobre seu corpo parecia um milagre, e espantava todo o horror e a dor do mundo no qual ela vivia. 
Ela nem percebeu que precisava ser acalmada, pensou ele, enquanto a penetrava, sentindo-se tambm mais calmo, como se toda a excitao do momento fosse algo lento, quente e lquido. Talvez ele tambm no tivesse percebido que precisava daquilo, at abra-la daquela forma e toc-la to l no fundo. O romance que pairava no ar, a luz que cedia e a submisso gradual de uma mulher to forte eram coisas gloriosamente sedutoras. 
Ele se sentiu  vontade dentro dela, olhando com ateno para o seu rosto quando o primeiro orgasmo a rasgou por dentro. Nesse instante, sentiu seu corpo se retesar, estremecer e, depois, ficar flcido, enquanto o dele continuava bombeando-a e preenchendo-a. 
Ela mantinha os olhos abertos, to fascinada pela intensidade do olhar dele quanto pelas ondas de prazer que se sucediam dentro dela. Tentou acompanhar-lhe o ritmo suave e liso como seda, mesmo sentindo que seu flego fraquejava. E quando viu aqueles escuros olhos de origem celta se nublarem, tornando-se turvos, ela emoldurou seu rosto em suas mos e puxou sua boca de encontro  dela, a fim de saborear seu longo gemido de liberao total. 
Quando seu corpo ficou largado e muito pesado sobre o dela, ele enterrou o rosto em seus cabelos, e ela o envolveu com os braos, de forma carinhosa e amiga. 
 Eu deixei que voc me seduzisse  afirmou ela. 
 H-h...  concordou ele. 
 No queria ferir seus sentimentos. 
 Obrigado. Voc agentou tudo de forma valente tambm. 
  o treinamento. Tiras tm que ser valentes. 
 Aqui est o seu distintivo, tenente  disse ele, depois de apalpar a grama em volta at encontr-lo. 
Ela soltou um riso abafado e deu um tapa no traseiro dele, ordenando: 
 Agora saia de cima de mim! Voc pesa uma tonelada! 
 Continue me tratando assim, com palavras gentis, e s Deus sabe o que pode acontecer...  De forma preguiosa, ele rolou para o lado, reparando que o cu mudara de azul enevoado para um tom de cinza-perolado.  Estou morrendo de fome. Voc me distraiu, e agora j passa muito da hora de jantar. 
 E vai passar ainda mais.  Ela se sentou e comeou a vestir as roupas, de forma desajeitada.  J teve sua sesso de sexo, meu chapa, agora  a minha vez. Precisamos conversar. 
 Podemos conversar enquanto jantamos.  Suspirou ao ver o olhar duro como ao que ela lhe lanou.  Ou podemos conversar aqui, tambm. Problemas?  perguntou, passando o polegar de leve sobre a covinha no queixo de Eve. 
 Vamos dizer apenas que eu tenho algumas perguntas a fazer. 
 Talvez eu tenha as respostas. Pode comear... 
 Em primeiro lugar...  Parou de falar na mesma hora e bufou. Ele estava sentado ali, ainda pelado, se parecendo muito com um gato satisfeito, com aquela pele brilhando.  Vista alguma coisa, est bem? Assim, eu  que vou acabar me distraindo.  Atirou a camisa na direo dele, que se limitou a sorrir.  Mavis estava  minha espera quando cheguei em casa. 
 Ah...  Ele balanou a camisa, notou o estado deplorvel em que ela estava, mas vestiu-a assim mesmo.  E por que no ficou para jantar? 
 Vai se apresentar hoje na boate Baixaria. Roarke, por que voc nunca me contou que era dono da gravadora Eclectic? 
 No  segredo para ningum.  Enfiou as calas, entregando em seguida o coldre a Eve.  Eu possuo um monte de empresas. 
 Voc sabe sobre o que estou falando.  Ela precisava ser paciente naquela questo, lembrou a si mesma, porque era uma rea delicada para todos os envolvidos.  A Eclectic ofereceu um contrato de gravao para a Mavis. 
 Sim, eu sei. 
 Eu sei que voc sabe  rebateu ela, dando um tapa na mo dele, quando viu que ele tentava ajeitar seus cabelos.  Droga, Roarke, voc podia ter me contado! Eu estaria preparada para quando ela viesse me perguntar a respeito disso. 
 A respeito de qu?  um contrato padro. Ela certamente vai arrumar um agente ou representante para dar uma olhada, antes de assinar, mas... 
 Voc fez isso por mim?  interrompeu ela, e seus olhos ficaram fixos no rosto dele. 
 Fiz o que por voc? 
 Ofereceu o contrato de gravao para Mavis?  disse ela, entre dentes. 
 Voc no est planejando abandonar a luta em favor da lei para agenciar artistas, est?  Ele entrelaou os dedos, virando a cabea de lado. 
 No, claro que no, eu s... 
 Bem, se  assim, esse assunto no tem nada a ver com voc. 
 Voc no vai ter agora a cara-de-pau de me dizer que aprecia a msica de Mavis. 
 Msica  um termo que no se aplica aos talentos de Mavis. 
 Isso mesmo!  Cutucou o peito dele com o dedo. 
 No entanto, seus talentos possuem, acredito, um bom potencial comercial. O objetivo da Eclectic  produzir e distribuir o trabalho de artistas com possibilidade de retorno financeiro. 
 Ento  um lance de negcios  disse e se recostou, apoiada nos cotovelos.  Puramente comercial. 
 Naturalmente! Eu levo os negcios muito a srio. 
 Voc tambm pode estar me enrolando  disse, depois de um momento.  Voc  bom nisso. 
 Sou mesmo.  Satisfeito por saber que era um dos poucos que conseguiam enrol-la, ele sorriu.  De qualquer modo, o acordo j foi fechado. Isso  tudo? 
 No.  Soltando um suspiro sibilante, ela se inclinou na direo dele e o beijou.  Obrigada por isso, de qualquer modo. 
 De nada... 
 Agora, o outro problema. Preciso ir at o Clube Athame hoje  noite, para investigar um cara.  Viu as fascas em seus olhos e a tenso em seu maxilar.  Gostaria que voc fosse at l comigo.  Teve que morder a ponta da lngua para impedir o riso ao ver os olhos dele se estreitarem ao se virar para ela. 
 Simplesmente isso?  um assunto de polcia, mas voc no vai criar caso por causa da minha presena? 
 No. Primeiro, porque voc talvez possa me ser til, e segundo, porque economiza tempo. A gente ia brigar por causa desse assunto e voc ia acabar indo comigo do mesmo modo. Fazendo do meu jeito, eu peo para voc ir, voc vai e fica subentendido que quem est no comando sou eu. 
 Muito esperta!  Pegou a sua mo e puxou-a, para coloc-la de p.  Combinado, mas s depois do jantar. Eu no almocei. 
 Tem mais uma coisa... por que voc mandou entalhar um smbolo celta para proteo na minha aliana de casamento? 
 Como  que ?  Ele se sentiu surpreso, mas tentou disfarar o melhor que pde. 
 No, dessa vez voc no conseguiu me enrolar to depressa.  Eve se sentiu satisfeita por ter percebido nele a surpresa diminuta e a tentativa de escond-la.  Voc sabe exatamente sobre o que estou falando. Uma das agradveis bruxas da vizinhana descobriu tudo hoje. 
 Entendo...  Fui pego, compreendeu ele, e tentou ganhar tempo levantando a mo dela, a fim de examinar a aliana.  O design do entalhe  muito atraente. 
 No tente me enrolar, Roarke! Sou uma profissional.  Ela deu um passo  frente, at que seus olhos ficaram no mesmo nvel dos dele.  Voc acredita mesmo nessas coisas, no ? Voc realmente embarcou nessa histria de abracadabra. 
 No se trata disso.  Ele se sentiu embaraado e percebeu que no conseguira esconder o sentimento ao ver que ela juntou as sobrancelhas, dizendo: 
 Voc ficou sem graa!  Sua testa se levantou, tanto pela surpresa quanto por achar aquilo divertido.  Voc jamais fica sem graa, por nada... isso  estranho. Que bonitinho!... 
 No fiquei sem graa.  Mortificado  o termo, no sem graa.  Eu simplesmente... no fico completamente  vontade quando tenho que dar explicaes. Eu amo voc  disse ele, e fez desaparecer o risinho de Eve.  Voc arrisca a sua vida, uma vida que  essencial para mim, s pelo fato de voc ser do jeito que . Isto aqui...  passou o polegar sobre a aliana dela  ... um pequeno escudo, muito pessoal. 
 Isso  lindo, Roarke. De verdade. Mas voc no acredita mesmo nessa maluquice de magia, acredita? 
Seu olhar se levantou para fitar o rosto dela e,  medida que o crepsculo se transformava em noite, seus olhos pareciam brilhar na escurido. Como os de um lobo, pensou ela. 
E era em um lobo, lembrou no mesmo instante, que ela devia confiar. 
 Seu universo  relativamente pequeno, Eve. No diria protegido, mas limitado. Voc jamais viu a dana de um gigante nem sentiu o poder de pedras ancestrais. Jamais passou os dedos sobre uma inscrio em alfabeto Ogham entalhada no tronco de uma rvore petrificada, nem ouviu os ventos que parecem vozes sussurrando pela nvoa que cobre os solos sagrados. 
 De que se trata tudo isso, so tradies celtas?  Espantada, ela balanou a cabea. 
 Se quiser, trata-se disso, embora essas coisas no estejam limitadas a uma determinada raa ou cultura. Voc tem os ps no cho.  Passou as mos pelos braos dela, subindo at os ombros.   quase brutal em seu foco preciso e sua honestidade. Eu j vivi... uma vida mais flexvel, por assim dizer. Preciso de voc, e vou usar o que me cair nas mos para mant-la a salvo.  Levantou a aliana, levando-a aos lbios.  Vamos dizer que isso  uma tentativa de proteger voc por todos os lados. 
 Certo.  Aquele era um aspecto novo dele, que ia levar algum tempo para ela explorar.  Escute, Roarke... voc no tem uma sala assim, tipo... secreta, onde voc dana nu entoando cnticos, tem? 
 Eu tinha  respondeu ele, empurrando a bochecha por dentro com a lngua, para no rir.  S que resolvi transformar aquele espao em um escritrio.  mais verstil. 
 Foi uma boa idia. Muito bem, agora vamos jantar. 
 Graas a Deus!  Ele a tomou pela mo e a foi levando em direo  casa.

















 



CAPTULO SETE





O
 Clube Athame tinha um certo ar de distino que escondia algo de depravado, como um poltico corrupto que sai pela rua beijando bebs. Uma olhada em volta e Eve se convenceu de que preferia passar a noite toda em uma espelunca de baixo nvel, agentando bebida barata e suor fedorento. 
Espeluncas no se davam ao trabalho de usar disfarces. 
Balces giratrios de vidro fum com bordas cromadas dividiam o andar principal em dois nveis; as pessoas que preferiam uma viso mais elevada podiam circular mais lentamente, para conferir o movimento do lugar. O bar, instalado no centro, se lanava para fora em cinco pontos, cada um deles lotado de clientes empoleirados em bancos altos, desenhados para representar uma parte especfica da anatomia masculina em propores exageradamente otimistas. 
Duas mulheres usando microssaias estavam sentadas com as pernas abertas sobre um par de gigantescos pnis, e riam sem parar. Um dos freqentadores, com a cabea raspada, estava ao lado delas, e de vez em quando enfiava a mo por baixo de suas blusas colantes. 
Todas as paredes eram espelhadas e pulsavam com luzes vermelhas que se refletiam infinitamente em meio  nvoa. Alguns dos nichos com mesas junto da pista de dana eram fechados, para oferecer mais privacidade, enquanto outros pareciam encobertos por vidro opaco; silhuetas de casais em vrios estados de fornicao eram lanadas contra o revestimento, a fim de entreter a multido. O piso dos nichos era revestido por uma camada de laca preta, e isso fazia com que eles parecessem flutuar em pequenas piscinas cheias de um lquido escuro. 
Em uma plataforma elevada, a banda atacava, executando um rock pesado e desagradvel. Eve se perguntou o que Mavis ia achar deles, com os rostos pintados com motivos selvagens, os peitos totalmente tatuados e tapa-sexos de couro preto com tachinhas prateadas. Decidiu que sua amiga provavelmente ia consider-los mais que demais! 
 E ento, vamos sentar?  perguntou Roarke, murmurando em sua orelha.  Ou voc vai fechar esta baica? 
 Vamos subir  resolveu Eve , para ter uma viso panormica. Que cheiro  esse? 
Ele pisou na escada rolante logo atrs dela e respirou fundo, respondendo: 
 Maconha, incenso... suor. 
Eve balanou a cabea. Havia algo que dava para sentir por cima de todos os aromas, algo metlico. 
 Sangue!  reconheceu ela.  Sangue fresco. 
Roarke tambm sentira o cheiro, como uma camada densa. 
 Em um lugar como este  explicou , eles devem colocar essa essncia nas sadas de ar para levantar o astral. 
 Encantador... 
Saram no nvel superior. Ali, em vez de mesas e cadeiras, havia almofades espalhados pelo piso, onde os clientes podiam se reclinar enquanto tomavam a bebida de sua preferncia. Os que estavam em busca de companhia se debruavam no gradil cromado, tentando achar algum parceiro ou parceira para levar para uma das salas privativas. 
Havia umas dez dessas salas naquele nvel, todas com pesadas portas pretas que exibiam placas com nomes como Perdio, Leviat e outros menos sutis, na opinio de Eve, tais como Inferno e Danao. 
Dava para imaginar direitinho o tipo de personalidade de algum que pudesse achar esse tipo de convite sedutor. 
Enquanto observava, um homem com os olhos vidrados pela bebida esfregava a mo lambuzada pelos tornozelos de sua acompanhante e veio subindo. Seus dedos desapareceram por entre suas pernas, por trs da saia muito curta, enquanto ela dava risadinhas. Tecnicamente, Eve poderia enquadr-los por atentado ao pudor e prtica sexual em pblico. 
 De que isso ia adiantar?  comentou Roarke, lendo seus pensamentos. Sua voz estava calma. Algum que olhasse para ele veria um homem ligeiramente entediado com o ambiente. Mas ele estava preparado para atacar ou defender, o que quer que se tornasse necessrio.  Voc deve ter coisas mais interessantes a fazer do que levar para o xadrez um casal cheio de teso que veio do subrbio. 
No ia adiantar realmente de nada, pensou Eve, enquanto ouvia o velcro da braguilha da cala do sujeito se abrindo. 
 Como  que voc sabe que eles vieram do subrbio? 
Antes de Roarke ter chance de responder, um homem atraente, com uma cabeleira muito cheia, loura, e ombros nus e brilhantes se agachou ao lado do casal ocupado. O que quer que tenha dito fez a mulher dar outra risadinha e agarr-lo, dando-lhe um beijo babado. 
 Por que no vem com a gente, ento?  perguntou ela, com um sotaque estranho.  Podemos fazer um manage e tro. 
Eve levantou a sobrancelha diante do provinciano massacre do termo francs e da casualidade com que o rapaz louro, que era segurana do clube, conduziu o casal cambaleante para longe dali. 
 Subrbio  confirmou Roarke, com ar de convencido.  Com certeza! E o segurana atuou com muita habilidade.  Ele inclinou a cabea na direo do casal, que estava sendo levado por uma porta estreita.  Agora ele vai acrescentar o preo do quarto privativo na conta e pronto... ningum sai prejudicado.  Ouviu-se uma exploso de risos femininos enquanto o segurana tornava a sair e fechava a porta.  Todos esto felizes. 
 Algum no subrbio no vai estar muito feliz amanh de manh. O preo de um quarto privativo em um lugar como este deve ser de arrasar o oramento. Enfim, o problema  deles.  Eve lanou o olhar pela multido de rostos. As idades variavam de muito jovens (alguns deles deviam ter entrado com carteiras falsas) a muito maduros. O tipo de roupa e as jias, no entanto, bem como os rostos lisos e os corpos sarados que pareciam ter sado de sales de embelezamento mostravam que a clientela era basicamente formada pela classe mdia-alta. 
 Dinheiro no parece ser um grande problema por aqui. J avistei pelo menos cinco acompanhantes autorizadas especiais, daquelas que cobram bem caro. 
 Pois, pelos meus clculos, j vi umas dez. 
Eve levantou uma sobrancelha e acrescentou: 
 Doze seguranas com armas de atordoar portteis. 
 Esse nmero bateu com minhas observaes.  Enlaando a cintura dela, Roarke a levou at o gradil. No andar de baixo, a pista de dana estava lotada, com corpos se esfregando de forma sugestiva em outros corpos. O som de gargalhadas loucas ecoava pelas paredes espelhadas e seguia para o andar de cima. 
A banda continuava tocando em ritmo acelerado. As duas vocalistas estavam sendo amarradas por tiras de couro a correntes de prata que pendiam do teto. A msica continuava a golpear, com o som pesado da bateria. Os clientes danavam, aglomerando-se perto do palco, vidos como uma turba disposta a linchar algum. A participao da platia tornou-se parte do espetculo no momento em que um homem foi convidado e aceitou subir para despir as mulheres dos mantos esvoaantes que usavam. Por baixo estavam nuas, exceto por estrelas brilhantes coladas nos mamilos e na genitlia. 
A multido comeou a entoar um cntico e a uivar, enquanto o sujeito da platia as cobria com um leo grosso e elas se contorciam, gritando e implorando por misericrdia. 
 Eles esto no limite das regras para casas noturnas  murmurou Eve. 
 Trata-se de arte performtica.  Roarke observou o homem aoitar a primeira vocalista com um chicote de vrias pontas.  Eles esto dentro dos limites permitidos. 
 , mas a simulao de um ato de humilhao incentiva esse povo a fazer a coisa de verdade, depois.  Rangeu os dentes ao ver um dos componentes da banda comear a esbofetear de leve a segunda vocalista, enquanto suas vozes cresciam em um dueto ardente.  J era tempo da sociedade ter deixado para trs esse tipo de explorao da imagem feminina. Mas isso no aconteceu. Continuamos na mesma... o que essa gente est buscando? 
 Estmulos. Do tipo mais rasteiro e cruel.  Sua mo acariciou a base das costas de Eve. Ela sabia como era ser amarrada, como era sofrer abusos sexuais. No havia nada de artstico nem de divertido naquilo.  No h necessidade de voc ficar vendo isso, Eve. 
 O que os faz proceder dessa maneira?  perguntou ela, quase para si mesma.  O que leva uma mulher a se deixar ser usada daquela forma, seja em simulao, seja de verdade? Por que ela no chuta o saco dele com toda a fora? 
 Ela no  voc.  Beijando-a de leve na fronte, ele virou-a para o outro lado, com firmeza. 
O gradil estava lotado de gente se espremendo para assistir ao show. 
Quando comearam a circular pelo andar de cima, uma mulher usando um vestido comprido preto e totalmente transparente surgiu diante deles, dizendo: 
 Sejam bem-vindos ao andar do nosso Mestre. Fizeram reserva?
J era o bastante, pensou Eve, exibindo o distintivo, enquanto afirmava: 
 No estou interessada no que voc tem a me oferecer. 
 Estou falando de comida de boa qualidade e vinho  disse a atendente, tropeando de leve nas palavras diante da identificao policial.  Vai descobrir que estamos dentro da lei aqui, tenente. De qualquer modo, se desejar conversar com a dona do clube... 
 J fiz isso. Quero ver Lobar. Onde posso encontr-lo? 
 Ele no trabalha neste andar.  Com a sutileza e a discrio de um matre de restaurante fino, a atendente encaminhou Eve de volta s escadas.  Se a senhora tiver a bondade de se dirigir ao andar de baixo, ser bem recebida, e uma mesa estar  sua disposio ao chegar l. Vou entrar em contato com Lobar e pedir que ele vi procur-la. 
 timo!  Eve a avaliou e viu uma mulher atraente com vinte e poucos anos.  Por que trabalha aqui?  perguntou, e lanou o olhar na direo de um dos teles, onde uma mulher se esgoelava e lutava, tentando escapar enquanto era amarrada sobre uma placa de mrmore.  Como consegue trabalhar nisso? 
A atendente simplesmente olhou para o distintivo e sorriu docemente. 
 Como a senhora consegue trabalhar nisso?  rebateu, olhando para Eve e se retirando em seguida. 
 Estou me deixando envolver demais  admitiu Eve, enquanto seguiam para o andar principal.  Eu devia me controlar. 
A banda continuava a tocar, e a msica era ainda mais frentica agora. A performance passara a ser encenada em um imenso telo que preenchia toda a parede atrs do palco. Bastou uma olhada na cena para Eve descobrir o porqu daquilo. O clube no tinha licena para apresentar sexo ao vivo, mas uma pequena inconvenincia como essa fora resolvida com o vdeo. 
As vocalistas continuavam amarradas, cantando a plenos pulmes, sem sair do ritmo. Mas estavam atrs do palco agora. Suas imagens eram captadas por uma cmera; junto delas estava o sujeito da platia e outro homem que vestia apenas uma mscara de javali. 
 Porcos selvagens.  Foi tudo o que Eve comentou, e ento se viu cara a cara com olhos vermelhos que brilhavam. 
 Sua mesa est reservada. Acompanhem-me, por favor.  O rapaz sorriu, revelando dentes brilhantes, com os incisivos afiados para parecerem presas. Ele se virou. Seus cabelos pretos com pontas vermelhas como chamas desciam-lhe at a cintura por suas costas nuas. Abrindo a porta de um dos corredores privativos, seguiu  frente de Eve, dizendo:  Sou Lobar  e tornou a sorrir.  Estava esperando pela senhora. 
Ele poderia ser considerado um rapaz bonito, se no fosse pelas presas de vampiro e os olhos de demnio. Daquele jeito, mais parecia uma criana crescida demais fantasiada para a noite de Halloween. Se ele j tinha dezoito anos, Eve deduziu que devia ter acabado de completar. Seu peito era fino, sem plos, e seus braos, magros como os de uma garota. Eve, porm, no achava que a tinta vermelha em seus olhos fosse a responsvel pela perda da sua inocncia. O jeito dele olhar, sim... 
 Sente-se, Lobar. 
 Claro.  Ele se largou sobre a cadeira.  Vou pedir um drinque... a senhora paga  avisou a Eve.  Se quer me alugar no horrio de trabalho, tem que me compensar pelas gorjetas que vou perder.  Comeou a apertar alguns botes no cardpio eletrnico e ajeitou a cadeira para poder ver o telo.  Grande show o desta noite. 
Eve olhou para trs. 
 O texto ainda precisa melhorar  comentou, com um tom seco.  Est com a sua carteira de identidade, Lobar? 
Afastando os lbios para tornar a mostrar as presas, em um arremedo de sorriso, levantou as mos espalmadas, respondendo: 
 No, no estou com ela agora. A no ser que a senhora ache que eu tenho bolsos secretos por dentro da pele. 
 Qual  o seu nome verdadeiro? 
 Lobar.  Seu sorriso desapareceu e seus olhos subitamente assumiram um ar de criana contrariada.  E quem eu sou. No sou obrigado a responder s suas perguntas no, sabia disso?... Estou sendo prestativo. 
 Sim, voc  um cidado admirvel!  Eve esperou que o drinque que ele pedira surgisse pela fenda ao lado da mesa. Outro pequeno show, refletiu, ao ver o clice aparecer expelindo fumaa de seu contedo cinza opaco.  Alice Lingstrom. O que sabe a respeito dela? 
 No muito, apenas que era uma piranha burra.  Experimentou o drinque.  Andou em nossa companhia por algum tempo, mas de repente saiu correndo, chorando. Por mim, foi at bom... o Mestre no precisa de gente fraca. 
 O Mestre? 
 Satans.  Tornou a sorrir, tomando mais um gole e saboreando com calma a bebida. 
 Voc acredita em Satans? 
 Claro!  Ele se inclinou para a frente, deslizando a mo, com unhas muito compridas e pintadas de preto, na direo de Eve.  E ele acredita em voc. 
 Cuidado a!...  murmurou Roarke.  Voc  muito jovem e burro para perder a mo. 
Lobar riu com ar de deboche, mas recolheu a mo de mansinho, perguntando: 
 Este  o seu co de guarda? O seu co de guarda muito rico? Sabemos quem voc   disse, fixando os olhos vermelhos em Roarke.  Grande merda!... Voc no tem poder algum aqui. Nem a sua amiguinha policial com cara de enfezada. 
 No sou a amiguinha policial enfezada dele no...  disse Eve, com a voz calma, lanando um olhar de advertncia para Roarke.  Sou a amiguinha enfezada de mim mesma. Quanto ao lance do poder...  ela se recostou  ...eu tenho o poder de arrastar voc at a Central de Polcia, direto para a sala de interrogatrio.  Sorriu, deixando o olhar passear pelo peito nu de Lobar e os piercings de argola que brilhavam em seus mamilos.  O pessoal ia adorar a chance de dar uma boa olhada em voc. Ele  uma gracinha mesmo, voc no acha, Roarke? 
 Com um estilo assim, tipo... aprendiz de diabinho. Voc deve ter um dentista muito... especial.  Como estavam em uma cabine fechada, pegou um cigarro e o acendeu. 
 Gostaria de fumar um desses  disse Lobar. 
 Gostaria?  Dando de ombros, Roarke fez deslizar sobre a mesa, na direo dele, outro cigarro. Quando Lobar o pegou e ficou olhando para Roarke com ar de expectativa, ele sorriu.  Desculpe, mas... voc quer fogo? Imaginei que fosse acend-lo lanando chamas pelas pontas dos dedos. 
 No fao exibies para gente careta.  Lobar inclinou-se para a frente, tragando com fora ao mesmo tempo em que Roarke acendia o cigarro com seu isqueiro.  Olhe, voc quer saber a respeito de Alice, tenente, e no posso ajud-la. Ela no fazia o meu tipo. Era inibida demais, sempre fazendo um monte de perguntas...  claro que eu a comi umas duas vezes, mas era um lance comunitrio, uma suruba, entende? Nada pessoal... 
 E na noite em que ela foi assassinada? 
Ele soltou fumaa e deu mais uma tragada no cigarro. Jamais fumara tabaco puro antes, e a carssima droga o fez ficar com a cabea mais leve, sentindo-se relaxado. 
 Naquela noite eu no a vi. Estava ocupado. Participei de uma cerimnia particular, com Selina e Alban. Ritos sexuais. Depois, continuamos a trepar quase a noite toda. 
Deu mais uma tragada profunda, prendeu a respirao, como se estivesse fumando maconha de boa qualidade, e ento expeliu a fumaa pelas narinas, com visvel prazer. 
 Selina gosta de transar com dois ao mesmo tempo  explicou , e depois que acaba, gosta de ficar olhando e se aliviando sozinha. J estava amanhecendo quando ela se sentiu saciada. 
 E vocs trs ficaram sozinhos a noite toda? Ningum saiu, nem por alguns minutos? 
 Essa  a vantagem de fazer a trs. Ningum precisa ficar esperando.  Moveu os ombros magros, bancando o olhar para os seios de Eve, de forma sugestiva.  Gostaria de tentar? 
 Lobar, voc no vai querer ser preso por assediar uma policial, vai? E eu gosto de homens, e no meninos magricelas com fantasias ridculas. Quem foi que ligou para Alice e tocou a gravao com os cnticos? 
Ele tornou a ficar de cara emburrada, com o ego atingido. Se ela tivesse vindo sozinha, pensou, ele ia lhe ensinar umas coisinhas. Piranha era piranha de qualquer jeito, com distintivo ou no. 
 Cnticos? No sei do que est falando... Alice no representava nada! Todo mundo estava cagando e andando para ela, ningum se importava. 
 O av dela se importava. 
 Sim, e eu soube que ele morreu tambm.  Os olhos vermelhos brilharam ainda mais.  Velho bundo! Um burocrata, apertador de botes. Ele tambm no significava nada para mim. 
 Mas significava o bastante para voc se informar e descobrir que ele era um tira  argumentou Eve.  Um tira que chefiava um departamento. Como foi que soube disso, Lobar? 
Percebendo que cometera um erro, ele apagou a guimba no cinzeiro, com golpes curtos e furiosos. 
 Algum deve ter comentado isso comigo.  Exps novamente as presas em um sorriso largo.  Provavelmente, foi a prpria Alice que contou, na hora em que estava sendo comida. 
 Puxa, deve ser meio desabonador para a sua performance sexual o fato de uma mulher ficar falando a respeito do av bem na hora em que voc a est... comendo. 
 Olhe, ouvi essa histria em algum lugar, falou?  Agarrou o drinque, bebendo em grandes goles.  O que importa o lugar onde ouvi?... De qualquer modo, ele era velho. 
 Voc alguma vez o viu? Aqui? 
 Vejo um monte de gente por aqui. No lembro de nenhum tira velho.  Balanou a mo, em sinal de pouco caso.  Isso aqui fica bombando assim, na maior agitao, quase toda noite. Como  que vou saber quem entra e quem sai? Selina me contratou para manter um ou outro idiota na linha, e no para ficar prestando ateno em rostos. 
 Selina tem um tremendo negcio aqui neste clube. Ela continua fazendo trfico de drogas? Ela vende para voc? 
 Eu obtenho poder atravs da minha crena  afirmou ele, com um olhar maroto.  No preciso de drogas ilegais. 
 Alguma vez participou de sacrifcios humanos? J retalhou uma criana para oferec-la ao seu Mestre, Lobar? 
 Isso deve ser alucinao de algum de fora.  Bebeu de uma vez s o resto do drinque.  Gente como vocs gosta de fazer os satanistas parecerem monstros. 
 Gente como ns  murmurou Roarke, dando uma olhada de cima a baixo em Lobar, passando pelos cabelos com as pontas vermelhas e as argolas que pendiam dos mamilos.  Sim, certamente  preconceito nosso, pois qualquer um pode ver que voc simplesmente  um... devoto. 
 Escute, trata-se de uma religio e existe liberdade religiosa neste pas. Vocs querem empurrar o conceito de Deus por nossa goela abaixo? Pois bem, ns O rejeitamos. Rejeitamos a Ele e a todos os Seus fracos seguidores. E vamos governar quando chegarmos ao Inferno!  Arrastou a cadeira para trs e se levantou.  No tenho mais nada a dizer. 
 Tudo bem  disse Eve, baixinho, olhando fixamente para ele , mas pense bem no assunto, Lobar. Tem gente que j morreu nessa histria. Algum tem que ser o prximo. Pode muito bem ser voc. 
 Ou pode ser voc  replicou ele com os lbios trmulos, que logo se firmaram, e em seguida saiu da cabine. 
 Que rapaz simptico!  comentou Roarke.  Tenho certeza de que ele vai ser uma adorvel aquisio para o Inferno. 
 Pode ser para l que ele est indo.  Depois de dar uma rpida olhada em torno, Eve enfiou o copo vazio em sua bolsa.  O que quero descobrir  de onde ele veio. Posso investigar suas impresses digitais em casa. 
 timo!  Roarke se levantou e a conduziu pelo brao.  S que eu quero tomar um bom banho antes. Este lugar parece que deixa uma espcie de gosma na pele. 
 Ah, nisso eu concordo totalmente com voc. 


 Robert Allen Mathias  declarou Eve, lendo os dados em seu monitor.  Fez dezoito anos h seis meses. Nasceu em Kansas City, filho de Jonathan e Elaine Mathias, ambos diconos da Igreja Batista. 
 Filho de pastor  completou Roarke.  Os filhos de pastores s vezes se rebelam de forma radical. Parece que o nosso Bobby foi um deles. 
 E tem um histrico de problemas  continuou Eve.  Acaba de aparecer na tela a sua ficha policial juvenil. Pequenos roubos, invaso de domiclio, gazetas constantes, assalto. Fugiu de casa quatro vezes antes de completar treze anos. Aos quinze, depois de pegar sem autorizao um veculo para se divertir, foi fichado por furto de carro, e os seus pais o denunciaram como delinqente. Cumpriu um ano em uma instituio estadual para menores. Acabou levando um chute na bunda e transferido para uma priso, depois de tentar estuprar uma professora. 
 Bobby  mesmo um encanto de pessoa  murmurou Roarke.  Sabia que havia uma razo para a vontade que eu tive de arrancar fora os olhinhos vermelhos dele. No desgrudavam de seus seios. 
 ...  De forma inconsciente, Eve passou a mo no peito, como se tentasse limpar algo repugnante.  O perfil psicolgico  bem o que seria de esperar... tendncias sociopticas, perda de controle, impulsos violentos. A figura em questo guarda ressentimentos no resolvidos contra os pais e contra figuras de autoridade em geral, especialmente mulheres. Demonstra medo e m vontade diante de mulheres. Nvel de inteligncia, alto. Nvel de violncia, alto. Demonstra completa falta de conscincia e interesse anormal pelas cincias ocultas. 
 Ento o que est fazendo solto pelas ruas? Por que no est em tratamento? 
 Porque essa  a lei. A instituio tem que coloc-lo para fora ao completar dezoito anos. At conseguir enquadr-lo de novo, j como adulto, ele est limpo.  Eve estufou as bochechas e bufou com fora.   um pequeno canalha e muito perigoso, mas no h nada que eu possa fazer para det-lo legalmente. Ele confirmou a declarao de Selina a respeito da noite em que Alice morreu. 
 Foi instrudo a fazer isso  argumentou Roarke. 
 De qualquer modo,  o que vale... a no ser que eu consiga desmontar esse libi.  Empurrou a cadeira para trs.  Tenho o seu endereo atual. Posso investigar, fazer perguntas pelos arredores e ver se os vizinhos podem me informar algo mais a respeito dele. Se eu conseguir alguma coisa e fizer um pouco de presso, acho que nosso pequeno Bobby pode desmontar. 
 E se no conseguir? 
 Se no conseguir, continuamos cavando.  Ela esfregou os olhos.  Ns vamos conseguir peg-lo. Mais cedo ou mais tarde, ele vai voltar aos hbitos de sempre: vai quebrar a cara de uma pessoa, atacar alguma mulher, cutucar algum que no devia. Nesse dia, a gente o tranca dentro da jaula. 
 Seu trabalho  terrvel. 
 Na maior parte do tempo  concordou Eve, e ento olhou para Roarke, por trs do ombro.  Voc est cansado? 
 Depende...  Tornou a olhar para a tela, onde os dados a respeito de Lobar continuavam surgindo. Teve uma viso de Eve mergulhando mais fundo naquela pesquisa, avanando pela noite adentro atravs da podrido. No se importou de dar um suspiro.  Do que est precisando? 
 De voc.  Ela sentiu o rubor no rosto quando ele alteou uma sobrancelha.  Sei que j est tarde, e foi um longo dia. Acho que eu tipo assim... gostaria de ficar com voc, do mesmo modo que gostei da idia de tomar um banho. Bem que eu precisava de algo para lavar essa imundcie.  Meio sem graa, ela voltou a se virar para a tela, olhando fixamente para o monitor.  Besteira minha... 
Para ela, era sempre difcil pedir, refletiu ele. Pedir qualquer coisa. 
 Para lavar essa imundcie, ?... no foi a proposta mais romntica que j recebi na vida  colocando as mos nos ombros dela, ele comeou a massage-los, lentamente , mas est longe de ser uma besteira. Desligar!  ordenou ele em voz alta e a tela se apagou. Girando a cadeira at coloc-la de frente, Roarke colocou Eve em p.  Vamos para a cama. 
 Roarke...  Ela o enlaou com os braos e apertou com fora. No conseguia explicar como ou por que as imagens que vira naquela noite a deixaram to abalada por dentro. Com ele ali, no precisava se sentir assim.  ...Eu amo voc.  Sorrindo de leve, ela levantou a cabea e fitou os olhos dele.  Est comeando a ficar mais fcil de dizer... acho que estou gostando disso. 
 Vamos para a cama  repetiu ele, dando uma risada curta e beijando-lhe o queixo , e voc vai poder dizer essa frase mais uma vez. 


O ritual era antiqssimo e o objetivo, ttrico. Encapuzados e mascarados, os componentes da conveno se reuniram dentro da cmara privada. O cheiro de sangue fresco era forte. As chamas que se lanavam de velas pretas bruxuleavam e enviavam sombras escorregadias sobre as paredes, como aranhas em busca da presa. 
Selina escolheu ser o altar da cerimnia e jazia nua, com uma vela queimando entre as coxas e uma tigela com sangue de sacrifcio aninhada entre os seios generosos. 
Sorriu ao olhar na direo do recipiente de prata que transbordava de notas e fichas de crdito, contribuies pagas pelos membros que desejavam ter o privilgio de participar. A riqueza deles era, agora, a riqueza dela. O Mestre a salvara de uma vida ganha nas ruas e a trouxera at ali, para um mundo de poder e conforto material. 
Ela teria negociado a alma, com alegria, para obter tudo aquilo. 
Naquela noite, haveria mais. Naquela noite, haveria morte e o poder que se obtinha a partir da submisso da carne e do derramamento do sangue. Eles no se lembrariam de nada, pensou. Ela adicionara drogas ao vinho misturado com sangue. Com as substncias corretas na dosagem certa, todos ali fariam, diriam e seriam qualquer coisa que o Mestre determinasse. 
Somente ela e Alban sabiam que o Mestre exigira um sacrifcio, para a proteo deles, e tal exigncia seria alegremente cumprida. 
O grupo formou um crculo em volta dela, com os rostos cobertos e os corpos balanando para a frente e para trs,  medida que a droga, a fumaa e os cnticos os hipnotizavam. Em p, atrs de sua cabea, estava Alban, com a mscara de javali e o athame. 
 Ns adoramos o nico  disse ele, com uma voz clara e bela. 
 Satans  o nico  respondia o grupo. 
 O que pertence a Ele, pertence a ns. 
 Ns Te saudamos, Satans! 
Quando Alban levantou a tigela, seus olhos e os de Selina se encontraram. Pegando a espada, ele a enfiou nos locais que representavam os quatro pontos cardeais. Os prncipes do Inferno foram invocados, em uma lista de nomes muito longa e extica. O fogo crepitava em um pote largo, escurecido e colocado sobre uma placa de mrmore. 
Ela comeou a gemer. 
 Destri nossos inimigos! 
Sim, pensou ela. Destri! 
 Traz dores e molstias para os que querem nos fazer mal!
Muitas dores. Dores insuportveis. 
Quando Alban colocou a mo em sua carne, ela comeou a gritar: 
 Tomamos o que queremos, em Teu nome. Morte para os fracos! Sorte e riqueza para os fortes! 
Alban deu um passo para trs, e embora fosse um direito seu tomar o altar antes dos outros, gesticulou para Lobar, dizendo: 
 Recompensa para os leais. Possua-a!  comandou.  Conceda-lhe dor e tambm prazer. 
Lobar hesitou por um instante. O sacrifcio deveria acontecer antes. O sacrifcio de sangue. O bode j deveria ter sido trazido e morto. Mas olhou para Selina e seu crebro enevoado pelas drogas se abstraiu. Ali estava a mulher. A piranha! Ela o observava com olhos frios e provocantes. 
Ele ia mostrar a ela, pensou. Ia mostrar-lhe que ele era um homem, afinal. No seria como da ltima vez, no clube, quando ela o usara e humilhara em pblico. 
Dessa vez, era ele quem ia se colocar no comando. 
Despiu o manto, atirando-o de lado, e se aproximou dela.

 



CAPTULO OITO





O
 barulho constante de um alarme que disparara fez Eve se virar na cama, xingando. 
 No pode ser hora de levantar... acabamos de vir para a cama. 
 E no  mesmo... esse alarme  do sistema de segurana. 
 O qu?!  Ela se sentou na cama, com rapidez.  Do nosso sistema de segurana? 
Roarke j pulara da cama e vestia as calas, respondendo com grunhidos. Por instinto, Eve pegou a arma antes e pensou na roupa depois. 
 Tem algum tentando entrar aqui dentro? 
 Pelo jeito, algum j entrou.  Seu tom de voz era muito calmo. Como as luzes ainda estavam apagadas, ela s conseguiu ver a sua silhueta na difusa luz do luar que passava pela clarabia acima da cama. Completando a silhueta, havia o contorno inconfundvel de uma arma em sua mo. 
 Onde  que voc arrumou essa arma? Pensei que as suas pistolas estivessem todas trancadas. Droga, Roarke, isso  ilegal! Guarde essa arma! 
Com toda a calma, ele carregou o tambor da Glock nove milmetros, muito antiga e proibida para uso. 
 No  disse simplesmente. 
 Droga, droga!  Ela pegou o seu comunicador e o enfiou no bolso de trs dos jeans, pela fora do hbito.  Voc no pode usar essa coisa! Deixe que eu vou verificar...  o meu trabalho. Voc pode ligar para a emergncia e relatar a entrada de um possvel intruso. 
 No  repetiu ele, j se encaminhando para a porta. Ela o alcanou com dois passos largos. 
 Roarke, se h algum no terreno ou dentro da casa e voc atirar com essa arma, eu vou ter que prend-lo na hora... 
Tudo bem. 
 Roarke!  Ela o agarrou, enquanto ele alcanava a porta.  Existem procedimentos padres para casos como esse, e existem tambm motivos para esses procedimentos. Chame a emergncia.
Era a sua casa, ele pensou. Era a casa deles. Era a mulher dele, e o fato de ela ser uma policial no pesava em nada naquele instante.
 Tenente, voc no vai ficar com cara de tacho se ligarmos para a emergncia e for apenas um defeito no sistema?
 Nada do que voc possui apresenta defeitos  resmungou ela e isso o fez sorrir, apesar das circunstncias. 
 Ora, obrigado.  Ao abrir a porta, ele deu de cara com Summerset. 
 Parece que algum pulou o muro e encontra-se dentro da propriedade. 
 Onde ocorreu a invaso? 
 Setor 15, quadrante sudoeste. 
 Ligue todas as cmeras e faa uma varredura geral. Acione o controle de segurana total para a casa, depois que sairmos. Eve e eu vamos verificar a parte externa.  De forma distrada, ele passou a mo pelas costas dela.  At que  uma boa coisa morar com uma policial. 
Eve olhou para a arma nas mos de Roarke. Tentar desarm-lo provavelmente no daria certo e eles iam perder muito tempo. 
 Depois vamos ter uma conversinha a respeito disso  ameaou, entre dentes.  Estou falando srio! 
 Claro que est. 
Eles seguiram lado a lado, desceram as escadas e passaram atravs da casa silenciosa. 
 Eles no conseguiram entrar  disse Roarke, ao parar diante de uma porta que dava para um ptio largo.  O alarme que dispara quando algum entra na casa  diferente. Mas conseguiram pular o muro. 
 O que significa que podem estar em qualquer lugar. 
A lua estava quase cheia, mas as nuvens eram espessas e escondiam sua luminosidade. Eve olhou com cuidado, tentando ver atravs do escuro, e notou as rvores frondosas e os imensos arbustos ornamentais. Tudo aquilo fornecia uma cobertura excelente para observao. Ou para uma emboscada. Ela no ouvia nada, a no ser o vento passando pelas folhas que se tornavam frgeis por estarem secas. 
 Vamos ter que nos separar. Pelo amor de Deus, no use esta arma, a no ser que a sua vida esteja em perigo. A maioria dos invasores de domiclio no anda armada. 
E a maioria dos invasores de domiclio, ambos sabiam, no brincava com a sorte invadindo a propriedade de um homem como Roarke. 
 Tenha cuidado  disse ele, baixinho, e desapareceu como fumaa por entre as sombras. 
Ele era bom, pensou Eve, tentando se tranqilizar. Ela podia confiar no fato de que ele saberia lidar com aquilo e sair-se bem da situao. Usando a luminosidade fraca e incerta do luar como guia, ela se dirigiu para o lado oeste do terreno, e ento comeou a circund-lo. 
O silncio era quase assustador. Ela mal conseguia ouvir os prprios passos sobre a grama densa. Por trs dela, a casa sobressaa na escurido, uma estrutura magnfica de pedra e vidro, guardada naquele momento, pensou, por um mordomo esqueltico e esnobe.
Seus lbios se curvaram em um sorriso. Ela adoraria ver um pobre e inocente ladro dando de cara com Summerset. 
Ao chegar ao muro, olhou com ateno, em busca de algum sinal de invaso. O muro tinha dois metros e meio de altura, quase um metro de espessura e era todo preparado com fios prontos para dar um desencorajador choque eltrico em qualquer coisa que pesasse mais de dez quilos. As cmeras de segurana e as luzes estavam instaladas a intervalos de seis metros uma da outra. Eve soltou um palavro, baixinho, ao reparar que os finos raios de luz que varriam o terreno estavam piscando em vermelho, em vez de verde. 
Circuito desligado... filho-da-me... Com a arma na mo e pronta para atirar, ela continuou a circular junto ao muro, indo agora em direo ao sul. 
Roarke, por sua vez, seguia o prprio caminho em silncio, usando as rvores como escudo. Ele comprara aquela propriedade oito anos antes, e a tinha remodelado e reaparelhado por completo, segundo as suas prprias especificaes. Supervisionara pessoalmente o projeto e a implementao do sistema de segurana. De um modo muito verdadeiro, aquela era a sua primeira casa, o local que escolhera para se estabelecer, depois de muitos anos vagando de um lugar para outro. Por baixo do frio controle, enquanto pulava de sombra em sombra, havia uma efervescente e triturante fria por saber que sua casa fora invadida. 
A noite estava fria, clara, calma como uma tumba. Ele se perguntou se estaria prestes a enfrentar apenas um ladro muito audaz. Talvez fosse apenas isso... ou talvez outra coisa muito mais perigosa. Um profissional contratado por um concorrente do mundo dos negcios. Um inimigo, pois ele no galgara toda a distncia at chegar onde estava sem fazer alguns pelo caminho. Especialmente pelo fato de que muitos dos seus interesses j haviam estado do lado mais obscuro da lei. 
Ou talvez o alvo fosse Eve. Ela tambm fizera inimigos, e inimigos perigosos... Olhou por trs do ombro e hesitou. Ento, disse a si mesmo para no subestimar sua esposa. No conhecia nenhuma mulher mais bem preparada para cuidar de si mesma. 
Foi, porm, essa hesitao, essa necessidade instintiva de proteg-la, que fez sua sorte mudar. Ao parar entre as sombras, ele percebeu o som fraco de algum se movendo. Roarke apertou com mais fora o cabo da arma, deu um passo para trs e virou de lado, esperando... 
A figura se movia lentamente, agachada. A medida que a distncia entre eles ia diminuindo, Roarke comeou a perceber um som ofegante de respirao nervosa. Embora no conseguisse ver o rosto do invasor, lhe pareceu que era homem, mais ou menos com um metro e sessenta de altura, e magro. No viu arma alguma e ento, pensando nas dificuldades que sua mulher ia ter de enfrentar para explicar por que seu marido atacara um intruso com um revlver proibido por lei, enfiou a Glock no cs da parte de trs das calas. 
Ele se preparou, j louco por uma pequena luta corpo-a-corpo, e ento se arremessou para a frente, quando a figura passou diante dele. Roarke j estava com o brao em volta do pescoo do invasor, com o punho pronto, j levantado, para o caso de alguma reao inesperada, quando percebeu que ele no era um homem, mas um rapazinho. 
 Ei, seu desgraado, me larga! Vou te matar!  berrou o jovem. 
Um menino muito mal-educado e assustado, concluiu Roarke. A luta foi curta, e travada apenas pelo jovem, que esperneava. Levou poucos segundos para Roarke encost-lo contra o tronco de uma rvore. 
 Como  que voc conseguiu entrar aqui, garoto?  quis saber Roarke. 
A respirao do menino estava ainda mais ofegante, e seu rosto parecia o de um fantasma de to plido. Deu para ouvir o barulho de sua garganta, quando ele engoliu em seco, afirmando: 
 Voc  o Roarke!  Parou de espernear e tentou forar um sorriso.  Voc tem um sistema de segurana irado! 
 Gosto de pensar que sim.  No era um ladro, decidiu Roarke, mas certamente tinha peito para entrar ali.  Como conseguiu passar pelo sistema irado? 
 Eu...  Parou de falar de repente, arregalando os olhos, olhando por cima do ombro de Roarke.  Cuidado! Atrs de voc! 
Com uma calma impressionante, da qual o menino mais tarde ia se lembrar com admirao, Roarke girou nos calcanhares sem solt-lo nem diminuir a fora, dizendo: 
 Peguei nosso intruso, tenente. 
 Estou vendo.  Ela abaixou a arma, ordenando ao corao que voltasse ao ritmo normal.  Meu Deus, Roarke,  apenas um menino. Ele ...  Parou, estreitando os olhos.  Eu conheo esse menino! 
 Ento talvez possa nos apresentar. 
  Jamie o seu nome, certo? Jamie Lingstrom. O irmo de Alice. 
 A senhora tem um bom olho, tenente. Agora, quer pedir a ele para parar de me estrangular? 
 Acho que no...  Ela guardou a arma e se empertigou.  Que diabos voc estava fazendo, invadindo uma propriedade particular no meio da madrugada? Seu av era policial, menino, pelo amor de Deus! Quer acabar em uma instituio para menores? 
 Olhe, saiba que eu no sou o pior dos seus problemas neste momento, tenente Dallas.  Fez uma tentativa de fazer a voz soar forte e valente, mas quase gaguejou.  A senhora est com um cadver do lado de fora do muro... ele est mortinho da silva  acrescentou, e comeou a tremer. 
 Voc matou algum, Jamie?  perguntou Roarke, com calma na voz. 
 Qual , cara? Eu no, sem chance!... Ele j estava ali quando cheguei.  Morrendo de medo de que seu estmago pudesse se revirar mais e faz-lo pagar um mico, Jamie tornou a engolir em seco, com mais fora.  Vou mostrar onde ele est... 
Se aquilo era algum truque, Eve o achou muito bom. Mas no podia se arriscar e disse: 
 T legal, vamos l... e se tentar fugir, meu chapa, mando-lhe um raio de atordoar, ouviu? 
 No faria sentido algum eu tentar fugir depois de ter tido todo esse trabalho para entrar, no acha?  por aqui.  Suas pernas estavam bambas, e ele torcia para que nem Eve nem Roarke percebessem que seus joelhos estavam batendo um contra o outro como duas castanholas. 
 Gostaria de saber como conseguiu entrar  disse Roarke, enquanto caminhavam na direo do porto principal.  Como conseguiu desativar o sistema de segurana? 
  que gosto de brincar com eletrnica.  um hobby. Voc tem um sistema realmente irado. O melhor! 
 Eu tambm achava. 
 Acho que eu no consegui desativar todos os alarmes...  Jamie olhou para ele, tentando exibir um sorriso fraco.  Vocs descobriram que eu havia entrado. 
 E entrou mesmo  confirmou Roarke.  Como? 
 Com isso...  Jamie pegou no bolso um aparelho que cabia na palma da mo.   um misturador de sinais, feito para interferir em transmisses eletrnicas. Estou trabalhando nisso h uns dois anos. Ele decodifica quase todos os sistemas  explicou, franzindo a testa, quando Roarke agarrou o aparelho de sua mo.  Quando voc ativa aqui  continuou, inclinando-se para apontar um boto , ele faz uma varredura no sistema e clona o programa.  s esperar ele copiar tudo, passo a passo. Leva algum tempo, mas  muito eficiente. 
Roarke olhou para o mecanismo. Era do mesmo tamanho que os games eletrnicos portteis que uma de suas companhias fabricava. Na verdade, notou, alarmado, que a parte externa lhe era bem familiar. 
 Voc adaptou um game e o transformou em misturador de sinais? Fez isso sozinho? E conseguiu ler, clonar e quebrar o cdigo do meu sistema de segurana? 
 Bem, basicamente,  isso a...  Os olhos de Jamie se turvaram ligeiramente, mostrando irritao consigo mesmo.  Devo ter deixado escapar alguma coisa, talvez um dos backups. O seu sistema realmente  ultra mais que demais! Gostaria de conhec-lo melhor. 
 Nem em sonho  resmungou Roarke, enfiando o aparelho no bolso. 
Ao chegar  entrada, desarmou o sistema e abriu os portes manualmente, olhando de lado para Jamie, que esticava o pescoo, tentando ver o processo. 
 Muito impressionante!  comentou Jamie.  Saquei que no conseguiria entrar por aqui. Foi por isso que resolvi pular por cima do muro. Precisei de uma escada. 
 Uma escada!  exclamou Roarke, quase que para si mesmo, enquanto fechava os olhos.  O garoto subiu pela escada e pulou... Que gracinha! E as cmeras de segurana?
 Ah, eu as desliguei do outro lado da rua. O aparelho tem um alcance de mais de dez metros. 
 Tenente!  Roarke agarrou Jamie pelo colarinho.  Quero que esse menino seja punido! 
 Depois. Agora, onde est esse tal cadver que voc afirma ter visto? 
 Siga pela esquerda.  O sorriso maroto desapareceu de seu tosto ao dizer isso e ele tornou a empalidecer. 
 Fique aqui segurando esse menino, Roarke. 
 J est bem preso  replicou Roarke que no pretendia ficar ali de jeito nenhum. Empurrou o garoto para fora do porto  frente dele e encarou o olhar irritado de Eve com toda a calma.  A casa  nossa, e o problema  nosso. 
Ela disse algo desagradvel entre dentes e se virou para a esquerda. No precisou ir muito longe. Ele no estava escondido nem disfarado. 
O corpo estava despido, preso a uma estrutura de madeira com o formato de uma estrela. No, reparou Eve... era um pentagrama. Invertido, de forma que a cabea, com os olhos sem vida como os de um boneco, e a garganta cortada estavam junto da calada banhada em sangue. Os braos estavam esticados, e as pernas abertas em um largo V. O centro do peito era um acmulo confuso de sangue preto coagulado, e havia um buraco maior do que o punho de um homem. 
Eve duvidava muito de que o mdico-legista fosse encontrar um corao ali dentro quando abrisse o corpo para fazer a autpsia. 
Ouviu um som abafado atrs dela e se virou a tempo de ver Roarke trocar de brao, a fim de colocar Jamie atrs dele, protegendo o menino e impedindo-o de ficar frente a frente com o corpo. 
 Lobar  foi tudo o que ele disse. 
 ...  Eve chegou mais perto. A pessoa que arrancara o corao da vtima tambm enfiara uma faca que atravessara um pedao de papel e ficara encravada entre suas pernas. No papel estava escrito: 


ADORADOR DO DEMNIO
ASSASSINO DE CRIANAS
QUEIME NO INFERNO!

 Por favor, voc poderia levar o menino l pra dentro, Roarke?  Olhou para a escada que ficara inclinada contra o muro  ...E livre-se disso. Deixe o garoto com Summerset, por ora. No posso abandonar o local.  Ela se virou, com o rosto sem expresso e impassvel. Seu rosto de tira.  Poderia tambm pegar o meu kit de trabalho? 
 Sim. Venha comigo, Jamie. 
 Eu sei quem ele ...  As lgrimas brilhavam nos olhos de Jamie, que piscavam sem parar.   um dos canalhas que mataram a minha irm. Espero que apodrea! 
Ao sentir que a voz do menino ficou entrecortada, Roarke passou o brao em torno de seu ombro, garantindo: 
 Ele vai apodrecer. Venha para dentro. Vamos deixar a tenente fazer o trabalho dela.  Lanando para Eve um ltimo olhar, Roarke recolheu a escada e levou Jamie de volta aos portes. 
Com os olhos ainda fixos no corpo, Eve pegou o comunicador. 
 Emergncia! Aqui  a tenente Eve Dallas falando. 
 Emergncia respondendo, pode falar. 
 Comunicando um homicdio e requisitando ajuda.  Informou os dados necessrios e guardou o comunicador. Virando-se na direo do outro lado da calada, olhou a rua silenciosa e quieta, envolta em trevas e sombras que se misturavam no imenso parque. A leste, o cu comeava a recolher a escurido da noite e as atrelas j perdiam um pouco do seu brilho. 
Assassinatos j haviam aparecido em sua vida antes e tornariam a aparecer. Mas algum ia ter que pagar pela audcia de traz-los para a porta de sua casa. 
Tornou a se virar ao ver que Roarke voltava trazendo no s seu kit de trabalho, mas tambm o surrado casaco de couro. 
 Comea a esfriar quando vai chegando o amanhecer  disse ele, entregando-lhe o casaco. 
 Obrigada. Jamie est bem? 
 Ele e Summerset esto olhando um para o outro com mtua desconfiana e desagrado. 
 Eu sabia que eu ia gostar daquele garoto! Voc pode tornar a entrar e servir de juiz se os dois comearem a lutar  disse-lhe Eve, quanto pegava o spray selante e espalhava uma camada do lquido nas mos e nas botas.  J liguei para a emergncia. 
 Vou ficar.
Como ela j imaginava que ele faria isso, no discutiu e disse apenas: 
 Ento, faa algo de til e grave a cena.  Pegou a cmera seu kit e o passou para ele, cobrindo suas mos com as dela.  Sinto muito. 
 Voc  muito esperta para se sentir culpada por algo que no foi responsabilidade sua. Ele no foi morto aqui, foi? 
 No.  Sabendo que Roarke tinha condies de funcionar como seu auxiliar at a chegada de Peabody, Eve tornou a se aproximar do corpo.  A quantidade de sangue  relativamente pouca... Ele deve ter tido a jugular cortada. Essa foi, provavelmente, a causa da morte. Vamos descobrir com certeza depois, mas os outros ferimentos devem ter sido todos post-mortem. De qualquer modo, se isso tivesse sido feito aqui, haveria poas vermelhas por toda parte e estaramos quase nadando em sangue. Est com a cmera ligada? 
 Sim. 
 A vtima foi identificada como Robert Mathias, tambm conhecido como Lobar. Sexo masculino, branco, dezoito anos. O exame visual preliminar indica morte causada por um instrumento com lmina que lhe cortou a garganta.  Esquecendo-se de todo o resto e concentrando-se no treinamento que tivera, pegou uma pequena lanterna e examinou a ferida do peito.  Leses adicionais incluem um profundo ferimento no peito, provavelmente feito pela mesma arma. O corao da vtima foi removido. O rgo no se encontra no local onde o corpo foi encontrado. Preciso de alguns closes aqui  pediu a Roarke. 
Pegando alguns instrumentos especiais, comeou a medir as leses. 
 O ferimento da garganta tem dezesseis centmetros de comprimento e cinco de profundidade.  De forma rpida e competente ela descreveu, mediu e registrou as outras leses.  Uma faca de cabo preto, com entalhes, foi deixada no corpo, pregada na genitlia e segurando o que parece ser uma nota impressa por computador em papel especial. 
Eve ouviu o som das sirenes ao longe se aproximando. 
 Os policiais vo cercar o corpo e garantir a integridade do local  avisou Roarke.  No h muito trfego por aqui a esta hora da madrugada. 
 Felizmente. 
 O corpo foi amarrado com tiras de couro a uma estrutura em madeira com o formato de um pentagrama. A pequena quantidade de sangue e os padres de coagulao indicam que a vtima foi morta e mutilada em outro local e transportada para c. Dever ser realizada uma varredura na rea. H possibilidade de ter havido uma invaso em uma propriedade privada, atravs do porto e dos muros. O corpo foi descoberto aproximadamente s quatro e trinta da manh pela tenente Eve Dallas e Roarke, residentes no local. 
Virando-se, comeou a caminhar na direo do primeiro carro preto e branco que chegava e freou junto ao meio-fio. 
 Quero que seja erguida uma tela de proteo imediatamente. Bloqueiem a rua nas duas direes, formando um permetro a seis metros do corpo. No quero curiosos por aqui nem a porcaria da mdia. Compreendido? 
 Sim, senhora.  Os dois policiais saltaram do carro, foram para o porta-malas e tiraram a tela de proteo. 
 Vou levar algum tempo aqui  avisou a Roarke. Pegando a cmera da mo dele, passou-o para um dos policiais.  Voc devia entrar, para ficar de olho no garoto.  Com ar cansado, observou os policiais erguerem a tela.  Ele devia ligar para a me ou algo assim. Mas no quero que v embora at ter a chance de conversar novamente com ele. 
 Eu cuido disso. Vou cancelar meus compromissos agendados para hoje. Estarei disponvel. 
 Isso seria timo!  Fez meno de toc-lo, queria muito aquilo, mas ento lembrou que suas mos cobertas com selante estavam manchadas de sangue e as abaixou.  Ajudaria se voc conseguisse mant-lo distrado, para afastar a mente do que viu, por ora. Que droga, Roarke, isso machuca! 
 Um assassinato ritual  murmurou ele, compreendendo como Eve se sentia, colocou a mo sobre seu rosto.  Qual dos dois lados o cometeu? 
 Acho que vou passar muito tempo interrogando bruxas.  Expirou com fora, e ento franziu os olhos ao ver Peabody vindo apressada pela rua, em sua direo.  Onde est o seu veculo, policial? 
O uniforme de Peabody estava impecavelmente limpo e bem passado, mas seu rosto parecia afogueado e sua respirao era curta. 
 No possuo carro, tenente, e uso transporte pblico. O ponto mais prximo deste local fica a quatro quarteires.  Lanou um olhar meio de lado para Roarke, como se ele tivesse culpa desse fato.  Gente rica no anda em coletivos. 
 Bem, requisite a porcaria de um veculo para voc  ordenou Eve.  Vamos entrar assim que terminarmos tudo aqui  disse a Roarke e se afastou.  O corpo est atrs da tela de proteo. Pegue a cmera com aquele policial que est com ela na mo. No confio no olho dele para gravaes, e suas mos esto tremendo. Quero medies da poa de sangue e instantneos das leses, por todos os ngulos. Passe o selante em voc... acho que os tcnicos do laboratrio no vo achar muita coisa aqui, mas no quero que nada fique comprometido. Vou fazer a avaliao preliminar da hora da morte. O legista j est a caminho. 
Roarke a observou sair de perto dele, desaparecer atrs da tela de proteo e percebeu que Eve no tinha mais nada a lhe dizer, por ora. 

* * *

Ao entrar em casa, encontrou Jamie, guardado por Summerset, que estava visivelmente irritado. 
 Voc no tem permisso para circular pela casa  ele avisou o jovem com rispidez.  No toque em nada! Se quebrar alguma pea, mesmo que seja de cermica, ou sujar de terra um centmetro de tecido ou tapete, vou apelar para a violncia. 
Jamie continuava a andar de um lado para outro, colocando a mo nas esttuas que enfeitavam a pequena sala de visitas junto do saguo, pela qual Summerset tinha muita considerao. 
 Nossa, agora estou morrendo de medo! Voc realmente est me fazendo temer a ira de Deus, velhinho...  disse Jamie. 
 Seus modos continuam deixando muito a desejar  comentou Roarke, entrando na sala.  Algum j devia t-lo ensinado a respeitar os mais velhos. 
 ... esse algum tambm devia ter ensinado o seu co de guarda a ser mais educado com os convidados. 
 Convidados no interferem em sistemas de segurana nem pulam muros, a fim de ficar andando de modo furtivo por propriedades particulares. Voc no  um convidado. 
Jamie desmontou. Era difcil encarar aqueles olhos azuis muito frios. 
 Eu precisava ver a tenente. E no queria que ningum soubesse. 
 Da prxima vez, tente usar o tele-link  sugeriu Roarke.  Est tudo sob controle, Summerset. Deixe que eu lido com isso. 
 Como queira...  Summerset lanou um ltimo olhar, seco, na direo de Jamie, e ento saiu do aposento a passos largos, com o corpo perfeitamente ereto. 
 Onde foi que voc encontrou o Conde P-no-Saco?  perguntou Jamie, atirando-se sobre uma poltrona.  No necrotrio? 
Roarke sentou-se no brao do sof, pegou um cigarro e avisou: 
 Summerset  capaz de devorar nanicos como voc no caf da manh.  Acionou o isqueiro.  J o vi fazer isso. 
 T legal...  Mesmo assim, Jamie lanou um olhar cauteloso para a porta por onde Summerset sara. Nada naquela casa parecia ser o que era, ento ele achou melhor no subestimar o mordomo.  Por falar em caf da manh, vai rolar algum rango no pedao? J faz muitas horas desde que comi pela ltima vez. 
 Est querendo dizer que espera que eu o alimente agora?  Soltou uma baforada. 
 Bem, sabe como ... j que vou ficar por aqui mesmo, seria legal comer alguma coisa.
Pivetinho desaforado, pensou Roarke, com certa admirao. S mesmo os jovens, imaginou, eram capazes de sentir fome depois de ver o que estava do lado de fora do muro. 
 E o que tem em mente para o seu desjejum? Crepes, uma omelete, talvez algumas tigelas de sucrilhos com muito acar? 
 Estava pensando mais em algo assim tipo uma pizza ou talvez um hambrguer.  Exibiu um olhar de vitria.  Minha me  fantica por esse lance de alimentos nutritivos. Em casa, a gente s come essas merdas saudveis. 
 So cinco da manh e voc quer uma pizza? 
 Pizza cai bem a qualquer hora. 
 Talvez tenha razo.  E pensou que ele bem que poderia comer alguma coisa tambm.  Vamos  cozinha. 
 Aqui dentro parece um museu...  comentou Jamie, enquanto seguia Roarke atravs do salo, com suas pinturas luminosas e antigidades resplandecentes.  Estou falando isso no bom sentido  explicou.  Voc deve estar nadando em dinheiro! 
 Devo estar... 
 As pessoas dizem que  s voc colocar o dedo em alguma coisa e as fichas de crdito comeam a jorrar. 
 Elas dizem, ?... 
 Dizem, e tambm que voc no deve ter acumulado tudo isso s com lances legalizados, entende? No entanto, j que se enforcou com uma policial como Dallas, acho que deve estar tudo limpeza... 
 Deve estar...  murmurou Roarke, passando por uma porta de vai-e-vem que dava para uma cozinha gigantesca. 
 Uau! Que lance incrvel! Voc tem gente trabalhando aqui, preparando comida manualmente e tudo o mais? 
 Costuma acontecer assim.  Roarke observou o menino circular pela cozinha, olhando os controles do fogo computadorizado e do refrigerador subzero.  Esta manh, no entanto, no vai acontecer.  Foi na direo de um grande AutoChef.  O que vai ser, afinal? Pizza ou hambrguer? 
 Pode ser os dois?  Jamie deu um sorriso.  Acho que tambm conseguiria beber um balde de Pepsi. 
 Vamos comear com uma lata.  Roarke programou o AutoChef e foi pessoalmente at a geladeira.  Pode se sentar, Jamie. 
 Saco!  Mas manteve o olho em Roarke enquanto se deixava escorregar sobre o banco estofado da saleta de caf da manh. 
Depois de pensar um pouco, Roarke se resolveu por duas latas, e as pegou do compartimento, quando elas caram. 
 Voc deve estar louco para entrar em contato com a sua me  disse ao garoto.  Pode usar o tele-link aqui da cozinha. 
 No.  Jamie colocou as mos embaixo da mesa e as esfregou nas calas.  Minha me est dopada. No consegue lidar com o lance de Alice, e a tiraram do ar. Ns... o velrio  hoje. 
 Entendo.  E como realmente entendia, Roarke resolveu deixar o assunto de lado. Entregou a bebida a Jamie e pegou dentro do AutoChef uma pizza grande, com a mussarela ainda borbulhando. Colocou-a sobre a mesa, acompanhada de um hambrguer. 
 Servio classe A!  Com o apetite tpico dos jovens, Jamie agarrou o hambrguer e deu a primeira dentada.  Cara! Caraa, isso  carne!  disse, com a boca cheia.  Carne de verdade! 
Foi difcil para Roarke manter o rosto srio. 
 Voc preferia carne de soja?  perguntou, com educao.  Talvez uma pizza de legumes? 
 Nem pensar!  Jamie limpou a boca com as costas da mo e sorriu.  T bom demais! Obrigado. 
Roarke pegou dois pratos e um cortador de pizza. Comeou a dividi-la em fatias. 
 Imagino que invadir domiclios abra o apetite  comentou. 
 No, estou sempre com fome mesmo...  Sem fazer cerimnia. Jamie transferiu a primeira fatia para o prato.  Minha me diz que isso  comum em idade de crescimento, mas a verdade  que realmente gosto de comer. Ela vive preocupada com as porcarias que devoro, ento sou obrigado a trazer comida de verdade escondida para dentro de casa. Voc sabe como as mes so... 
 No, na verdade no sei, mas aceito a sua palavra.  E por jamais ter tido um esprito assim to jovem quanto Jamie, ou to inocente, Roarke se serviu de uma fatia e se preparou para curtir a imagem do menino devorando todo o resto. 
 Os pais so legais.  Jamie encolheu os ombros, alternando dentadas na pizza e no hambrguer.  Nunca vejo o meu pai, pelo menos j faz alguns anos. Ele mudou de mala e cuia para a Europa. Mora na Comunidade da Manh, perto de Londres. 
 Um lugar bem-estruturado, todo programado e estritamente residencial  completou Roarke.  L  tudo muito organizado. 
 ... e muito sacal tambm. At a grama  programada para crescer. Mas ele curte, ele a nova mulher dele, que  muito gata... J  a terceira com quem ele se casa.  Tornou a encolher os ombros, bebendo a Pepsi.  Ele no curte muito esse lance de ser pai no... Isso deixava Alice muito aborrecida. Para mim, tanto faz... 
No, pensou Roarke. No fundo, no devia ser assim to fcil no... As mgoas estavam ali dentro. Era estranha a quantidade de traumas permanentes que um pai podia provocar em uma criana. 
 Sua me no voltou a se casar? 
 No, ela no est nessa no. Ficou muito pra baixo quando meu pai vazou. Eu tinha seis anos. Estou com dezesseis agora, e ela ainda acha que sou uma criana. Tive que empentelhar a vida dela durante semanas para ela me autorizar a tirar carteira de motorista. Mas ela  legal... S que  meio...  Parou de falar, olhando para o prato vazio, como se estivesse se perguntando como  que toda aquela comida chegara ali.  Ela no merece isso. Faz o melhor que pode. Adorava o meu av. Eles eram muito chegados. E agora Alice. Alice era muito esquisita, mas... 
 Era sua irm...  disse Roarke, baixinho  ...e voc a amava. 
 Isso no deveria ter acontecido com ela.  Levantou o olhar, devagar, olhando para Roarke com uma espcie de fria terrvel.  Quando eu encontrar quem a maltratou, quando descobrir as pessoas que fizeram isso com ela, vou mat-las! 
 Tenha cuidado com o que voc fala, Jamie.  Eve entrou na cozinha. Seus olhos estavam sombrios e o rosto, plido de cansao. Embora tivesse trabalhado com todo o cuidado, havia manchas de sangue em seus jeans.   melhor colocar de lado qualquer plano de vingana e deixar a investigao para os tiras. 
 Eles mataram a minha irm. 
 Ainda no ficou provado que a sua irm foi vtima de homicdio.  Eve seguiu direto para o AutoChef e programou caf.  Voc j se meteu em muita encrenca  acrescentou, antes que o menino tivesse a chance de falar  e no precisa piorar a situao discutindo comigo. 
 Seja esperto  disse Roarke, ao ver Jamie tornar a abrir a boca para falar.  Fique frio! 
Peabody chegou tambm e ficou em p na cozinha silenciosa. Observou o menino e sentiu uma fisgada. Tinha um irmo daquela idade. Com isso em mente, exibiu um sorriso radiante. 
 Pizza no caf da manh!  exclamou, com um tom de voz muito alegre.  Tem mais? 
 Sirva-se!  convidou Roarke, dando um tapinha no banco, como convite.  Jamie, esta  a policial Peabody. 
 Meu av conhecia voc.  Jamie a avaliou com olhos cautelosos e observadores. 
 Conhecia?  Peabody se serviu de um pedao de pizza.  Acho que nunca nos encontramos. Embora eu o conhecesse. Todos na central sentiram muito a sua morte. 
 Ele sabia a respeito de voc. Uma vez, ele me disse que Dallas estava moldando voc. 
 Peabody  uma policial  interrompeu Eve  e no um pedao de argila.  Aborrecida com aquilo, pegou o ltimo pedao de pizza e deu uma dentada, reclamando:  Isso aqui ficou frio. 
  timo frio.  Peabody deu uma piscada para Jamie.  Nada melhor do que pizza fria no caf da manh. 
 Ento coma enquanto tem chance.  Seguindo o prprio conselho, Eve deu mais uma dentada.  Vamos ter um longo dia pela frente...  e pousou os olhos direto em Jamie  ...a comear por agora. At voc estar com um tutor ou representante presente, no posso gravar seu depoimento nem interrog-lo oficialmente. Voc compreende isso? 
 Claro, no sou idiota. E no sou criana. Posso... 
 Pode ficar calado  interrompeu Eve.  Com ou sem representante aqui, posso jogar voc no xadrez do juizado de menores por invaso de propriedade particular... se Roarke resolver apresentar queixa. 
 Eve, acho que, na verdade... 
 E voc fique calado tambm.  Ela se virou para ele, frustrada e fatigada.  Isso no  um jogo,  assassinato. E a mdia j est l fora, sentiram cheiro de sangue. Voc nem vai conseguir colocar o p fora de casa sem que eles pulem em cima. 
 E voc acha que isso me incomoda? 
 Incomoda a mim! Essa droga toda incomoda a mim, e muito! Meu trabalho no deve chegar aqui dentro. Ele nunca deve entrar aqui!  Parou de falar, olhando para o outro lado. 
Era aquilo, compreendeu Eve de repente, que a estava corroendo por dentro e escapando ao seu controle. Havia sangue em sua casa e ela foi a pessoa que o trouxera. 
Mais controlada, tornou a se virar, dizendo: 
 Nada disso vem ao caso agora. Voc tem algumas explicaes a dar  disse e olhou para Jamie.  Quer fazer isso aqui ou l na central, assim que eu entrar em contato com a sua me? 
Ele no disse nada por um momento, simplesmente ficou olhando para Eve como se estivesse medindo foras. Aquele era o mesmo olhar, Eve notou, que ela o vira exibir ao ser comunicado de que sua irm estava morta. Era um ar muito adulto e controlado. 
 Eu sei quem  aquele cara morto. Seu nome  Lobar, um dos canalhas que mataram a minha irm. Eu o vi.



















 



CAPTULO NOVE





O
s olhos de Jamie assumiram um ar cruel e furioso. Eve no tirou os olhos dele ao espalmar a mo sobre a mesa, inclinando-se na direo do menino e dizendo: 
 Voc est me contando que viu Lobar matar a sua irm? 
 No.  A boca de Jamie se remexia como se estivesse mastigando as palavras e as achasse muito amargas.  Mas eu sei. Sei que ele foi um deles. Eu o vi com ela. Vi todos eles.  Seu queixo estremeceu e sua voz ficou entrecortada, fazendo Eve se lembrar de que ele tinha apenas dezesseis anos. Seu olhar, no entanto, continuava a parecer o de uma pessoa muito vivida.  Eu entrei l, uma noite. Naquele apartamento no centro. 
 Que apartamento? 
 O da Selina Assombrao e do Alban Babaco.  Encolheu os ombros, mas o movimento era mais de nervoso do que de arrogncia.  Assisti a um dos shows demonacos deles.  Sua mo j no estava to firme quando ele pegou a lata e engoliu de uma vez o restinho de Pepsi. 
 Eles o deixaram assistir  cerimnia? 
 Eles no me deixaram assistir a nada. Nem sabiam que eu estava l. Pode-se dizer que simplesmente me convidei.  Olhou para Roarke.  O sistema de segurana deles est longe de ser irado como o seu. 
 Essa  uma boa notcia  reagiu Roarke. 
 Voc tem andado muito ocupado  disse Eve, sem baixar o tom de voz.  Planeja seguir a carreira de arrombador e ladro? 
 No  disse sem sorrir.  Quero ser um policial... como voc. 
Eve expirou com fora, passou as mos no rosto e se sentou, avisando: 
 Policiais que tm o hbito de fazer invases ilegais acabam do lado errado das grades. 
 Eles estavam com a minha irm. 
 Como assim? Estavam mantendo Alice l contra a vontade dela? 
 Eles esculhambaram com a mente dela.  a mesma coisa.
rea sensvel, refletiu Eve. Ela no podia voltar atrs no tempo e impedir o menino de invadir uma propriedade particular. Seu av, que sempre fora um policial absolutamente ntegro, lembrou, tambm tentara fazer a mesma coisa. O neto simplesmente conseguira a faanha. 
 Olhe, eu vou lhe fazer um favor porque gostava muito do seu av. Vamos manter isso fora do caso. No que se refere s suas declaraes, voc jamais esteve l. Nunca colocou os ps naquele apartamento, compreendeu? 
 Certo.  Levantou um ombro.  Pode ser, qualquer coisa serve... 
 Conte-me tudo o que viu. No exagere os fatos nem faa especulaes. 
 Vov sempre me dizia a mesma coisa.  Seus lbios sorriram de leve. 
 Isso mesmo. Se quer mesmo ser um policial, tente me oferecer um bom relatrio agora. 
 Combinado, t legal!... Alice andava circulando pela Cidade dos Bizarros, certo? Faltava s aulas e jogava frases soltas, insinuando que ia parar de estudar. Mame estava muito abalada com aquilo. Pensava que era por causa de algum cara, mas eu sabia que no era. No que Alice estivesse me contando alguma coisa, porque deixara de falar comigo. 
Nesse ponto, parou de falar, e seus olhos ficaram sombrios e tristes. Ento balanou a cabea e suspirou, continuando: 
 O lance  que eu a conhecia muito bem. Se fosse um cara, Alice ia ficar toda melosa, com olhar sonhador e abobada. Nesse caso, era bem diferente. A princpio, achei que ela andava experimentando. Estou falando de drogas ilegais. Soube que minha me conversou com meu av e ele levou um papo com Alice, mas ningum estava chegando a lugar algum. Ento achei melhor pesquisar. Segui minha irm algumas vezes. Achei que seria bom, para comear a prtica de ficar vigiando algum, entende? Ela nunca me sacou. Nenhum deles me sacou. Muita gente no se toca com crianas nem as v. Quando vem, acha que so idiotas e inofensivas. 
 Ora, mas eu no acho voc inofensivo, Jamie...  comentou Eve, com os olhos fixos no menino. 
Os lbios dele se torceram, tentando dar um sorriso afetado. Percebeu que a declarao de Eve no era exatamente um elogio. 
 Ento, fiquei na cola dela e fui at aquele clube  continuou.  O tal de Clube Athame. Foi a primeira vez que tive que ficar de fora. No estava preparado para aquilo. Ela entrou s dez horas e saiu por volta de meia-noite, acompanhada pela Patrulha dos Malignos. 
Tornou a rir meio sem graa quando Eve levantou uma sobrancelha. 
 Certo...  Voltou ele, tentando consertar a narrativa.  O objeto da vigilncia evadiu-se do estabelecimento em companhia de trs indivduos, dois do sexo masculino e um do sexo feminino. A Polcia j tem as descries dos suspeitos, ento posso simplesmente dizer que este investigador identificou-os mais tarde como sendo Selina Cross, Alban e Lobar. Eles procederam na direo leste, a p, ento adentraram uma estrutura residencial multiunitria, de propriedade de Selina Cross. Este investigador observou as luzes se acenderem no ltimo andar. Depois de avaliar suas opes, o investigador decidiu entrar no prdio. O sistema de segurana foi ludibriado com um mnimo de esforo tcnico. Posso tomar outra Pepsi? 
Sem dizer nada, Roarke pegou a lata vazia, lanou-a no aparelho para reciclagem e pegou outra para o menino. 
 Estava muito silencioso l dentro  continuou Jamie, abrindo a lata.  Tudo parecia morto... escuro. Tinha uma mini-lanterna comigo, mas no a usei. Subi as escadas internas e contornei as exigncias do sistema de reconhecimento palmar, bem como as cmeras de segurana. As fechaduras tambm no foram muito difceis de abrir. Percebi que eles achavam que ningum ia ter coragem de ir to longe sem convite, entende? Ca dentro, mas o lugar estava vazio. No entendi nada... eu os vira entrar, vira a luz, mas o lugar estava vazio. Ento dei um role pela rea. Havia uns troos meios doidos l dentro. E tudo tinha um cheiro assim... estranho, tipo aquele incenso esquisito que a gente encontra em lojas do pessoal do movimento para a Famlia Livre, s que diferente. Muito esquisito... e havia tambm uma esttua l dentro. Um sujeito com cabea de porco-selvagem, corpo de homem e um pau monstruoso batendo continncia. 
Ele parou e ficou vermelho ao se lembrar de que estava falando na presena de mulheres, ainda que policiais. 
 Desculpe...  disse, baixinho. 
 Eu j vi paus batendo continncia antes  disse Eve, com a voz branda.  Continue. 
 Certo. Ento eu estava ali, olhando para a esttua, e um cara entrou. Merda, me ferrei, pensei na hora, mas ele no me viu. Pegou um troo dentro de uma gaveta, tornou a se virar e vazou. No olhou nem uma vez para o canto onde eu estava.  Jamie balanou a cabea e tomou um gole do refrigerante, enquanto revivia a experincia e o medo que quase o fizeram se borrar nas calas.  Cheguei ao portal a tempo de v-lo atravessando uma parede. Passagem secreta  explicou, com um riso curto.  Pensei que s havia isso em vdeos antigos. Esperei uns dois minutos e fui atrs dele. 
Nesse ponto, Eve simplesmente tornou a colocar as mos no rosto, apertando-o tanto que os ns dos dedos o marcaram. 
 Voc foi atrs dele?  perguntou. 
 Fui. Minha sorte estava em um bom dia... Havia uma escada, muito estreita. Acho que era feita de pedra. Dava para ouvir msica. No exatamente msica, era mais assim, tipo vozes cantarolando alguma coisa sem abrir os lbios. E o cheiro estranho estava mais forte. A escada virava e dava em uma sala que tinha mais ou menos metade do tamanho desta cozinha e paredes espelhadas. Haia um monte de velas e mais esttuas com teso. Estava tudo enfumaado. Havia alguma coisa na fumaa, porque comecei a sentir a cabea leve. Tentei me segurar para no respirar muito fundo. 
Olhou para a bebida em sua mo. Contar essa parte ia ser mais difcil, avaliou. Pior do que ele achou que pudesse ser. 
 Havia uma plataforma elevada, toda entalhada. Os entalhes pareciam palavras, acho, mas no deu para ver direito. Alice estava deitada em cima dela. Estava nua. Os outros trs estavam em p em volta dela, balbuciando alguma coisa. Parecia que estavam cantando, mas no consegui entender as palavras. Estavam fazendo coisas com ela, e uns com os outros tambm. 
Teve que engolir em seco novamente. Seu rosto estava branco como cera, e havia pontos vermelhos nas bochechas. 
 Estavam usando uns brinquedinhos sexuais, e ela... ela os deixava fazer aquilo. Os dois. Ficou ali, deixando-os fazerem tudo, enquanto a piranha da Selina Cross ficou s olhando. Alice simplesmente deixou que eles fizessem tudo... 
Sem perceber, Eve esticou o brao, pegou a mo dele e deixou o menino apertar seus dedos at parecer que ia lhe quebrar os ossos. 
 No consegui mais ficar ali. Estava enjoado vendo tudo aquilo, e havia a fumaa e os sons. Tinha que cair fora!  Seus olhos ficaram molhados quando levantou a cabea.  Ela no teria permitido que eles fizessem tudo aquilo com ela se no estivesse com a mente alterada. Alice no era uma vagabunda, no era... 
 Eu sei. Voc contou tudo isso a algum? 
 No consegui.  Passou as costas da mo sobre o rosto. -Minha me ia morrer s de ouvir essa histria. Eu queria jogar tudo aquilo na cara de Alice, porque fiquei muito revoltado. Mas tambm no consegui. Estava com vergonha por t-la visto daquele jeito, acho. Ela era minha irm... 
 Est tudo bem. 
 Voltei ao clube duas noites depois e consegui entrar. 
 Eles deixaram voc entrar? 
 Arrumei uma identidade falsa. Em lugares como aquele, eles no ligam a mnima se voc tiver cara de doze anos, desde que a identidade afirme outra coisa. A segurana  mais forte l dentro. Eles tm scanners, eletrnicos e humanos, todos com as butucas ligadas e em toda parte. Avistei Alice com aquele tal de Lobar, o medonho. Eles subiram para o andar de cima e foram l para o nvel dos bacanas. No consegui subir, mas cheguei perto o bastante para ver quando eles tornaram a sumir. Saquei que devia haver algum quarto l em cima tambm, como aquele no apartamento. Estava pensando em achar um jeito de entrar l qualquer hora, depois do clube fechar, mas ento Alice caiu fora e se afastou deles. Foi procurar a tal de Isis e ficou l por algum tempo, arrumou um lugar para morar e um emprego. Nunca mais voltou ao clube nem ao apartamento. 
Deu um suspiro e continuou: 
 Pensei que ela tinha se estabilizado, que sacara o tipo de gente do mal e horrorosa que eles eram. Ela voltou a conversar um pouco comigo. 
 E ela lhe contou sobre as pessoas com as quais se envolvera? 
 No exatamente. Falou apenas que cometera um engano, um terrvel engano. Disse que estava tentando pagar pelos erros que cometera limpando o troo que haviam colocado em seu crebro. Vi que ela estava apavorada, mas, quando soube que conversara com o meu av, achei que as coisas todas iam se ajeitar. Foram eles que o mataram tambm? 
 No temos provas disso, e no vou conversar sobre esse assunto com voc  acrescentou Eve ao ver que ele levantou os olhos, assustados, e a fitou.  E voc tambm no deve conversar a respeito de nada disso com ningum! No deve chegar perto daquele clube nem do apartamento. Se fizer isso e eu descobrir, e pode estar certo de que acabo descobrindo, vou lhe colocar um bracelete de localizao e voc no vai conseguir nem arrotar sem o sistema dedurar e eu ficar sabendo. 
 Mas  a minha famlia... 
 Sim, eu sei. E se quer ser um policial,  melhor aprender desde j que se voc no conseguir ser objetivo, no poder fazer seu trabalho. 
 Meu av no conseguiu ser objetivo  disse Jamie, baixinho  e agora est morto. 
Sem resposta para aquela observao, Eve se levantou, dizendo: 
 O nosso problema agora  tirar voc daqui e conseguir manter o seu envolvimento longe da mdia. Os reprteres esto acampados no porto. 
 Sempre existe uma alternativa  comentou Roarke.  Vou providenciar isso. 
Eve concordou com a cabea, sabendo que ele teria uma sada, sem dvida. 
 Preciso trocar de roupa e ir para a central  disse ela.  Peabody...  Lanou um olhar de lado, muito significativo, na direo de Jamie.  Voc fique por aqui, me esperando. 
 Sim, senhora. 
 Ela est querendo lhe dizer para ficar aqui e me vigiar como um co de guarda  resmungou Jamie, quando Eve e Roarke saram da cozinha. 
  mesmo  concordou Peabody, mas lanou para o menino sorriso de cumplicidade.  Quer mais uma Pepsi? 
 Acho que sim. 
Peabody se levantou, foi brincar com o compartimento de onde saam as bebidas da geladeira e se serviu de uma xcara do magnfico caf de Roarke. 
 E ento, desde que idade voc sonha em ser tira, Jamie? 
 Desde que nasci. 
 Eu tambm.  Ela se acomodou para ficar de papo com o menino. 


 Vou tir-lo daqui por via area  Roarke comunicou a Eve, que se lavara e trocava de roupa no quarto. 
 Por via area? 
 Sim, estava pensando em pegar o mini-helicptero para dar uma volta mesmo. 
 Essa regio est fora da rea autorizada para uso de helicpteros particulares. 
 Repita isso quando estiver usando distintivo  disse e, como era esperto, disfarou o riso dando uma tossida forte. 
 Leve-o para casa, sim? Eu agradeceria...  disse ela, resmungando alguma coisa para si mesma, enquanto vestia uma blusa limpa.  Aquele garoto tem  sorte de estar vivo! 
 Ele tem iniciativa,  brilhante e muito focado no que quer.  Sorriu ao pegar o aparelho que confiscara do menino, admirando-o.  Puxa, se eu tivesse um desses aqui com a idade dele... ah, as possibilidades!... 
 Voc j faz maravilhas com seus dedinhos mgicos. 
  verdade.  Enfiou o aparelho no bolso. Ia mandar um de seus engenheiros analisar o brinquedo para fazer um igualzinho.  Acho que a juventude de hoje em dia no sabe apreciar a satisfao de trabalhar com as mos. Se o jovem Jamie desistisse dos seus planos de trabalhar para as foras de combate ao crime, acho que poderia arrumar um bom lugar para ele em meu pequeno mundo. 
 Nem fale nisso! Voc iria corromp-lo. 
Roarke colocou um aparelho no pulso; tinha pouco mais que a espessura de um papel e era todo feito de ouro. 
 Voc se saiu muito bem com ele, querida. Foi firme, mas sem ser fria. Usou de um estilo agradvel, autoritrio e ao mesmo tempo maternal. 
 Hein?!  Ela piscou. 
 Voc  muito boa para cuidar de crianas.  Deu um sorriso ao v-la empalidecer.  Isso me fez imaginar... 
 Sai dessa! Ei, se toca!  aconselhou ela, afivelando o coldre.  Vou para a central agora, fazer meu relatrio e passar para Whitney os dados que no estaro registrados. Oficialmente, o nome de Jamie no vai ficar ligado a isso. Tenho certeza de que, se for necessrio, vocs dois vo inventar uma histria bem plausvel para contar para a me dele. 
 Isso  moleza...  disse Roarke, empurrando a bochecha com a lngua. 
 Humm... pela minha avaliao preliminar, Lobar foi assassinado s trs e trinta da manh. Isso foi mais ou menos uma hora depois de sairmos do clube.  difcil dizer h quanto tempo ele j estava ali, jogado na calada em frente ao muro, mas eu chutaria uns quinze minutos, mais ou menos, antes da chegada de Jamie.  pouco provvel que a pessoa que largou Lobar ali tenha ficado circulando pela rea. Mas se ela ficou e viu Jamie, o menino pode ter se tornado um alvo. Quero aquele garoto sob vigilncia, mas at que Whitney libere, no vou poder usar um tira para fazer isso. 
 Quer que eu coloque um de meus confiveis funcionrios para vigi-lo? 
 No, mas  o que vou ser obrigada a pedir...  Virando-se para o espelho, passou os dedos pelos cabelos, na falta de uma escova.  Estou trazendo esse caso para dentro de casa, de vrias formas... desculpe. 
 Voc no pode separar o que faz de quem voc , nem espero que o faa. Caminhou at onde ela estava, virou-a na direo dele e emoldurou seu rosto com as mos.  O que atinge voc, atinge a mim.  isso que eu espero, e  tambm o que quero. 
 O ltimo caso que me atingiu pessoalmente quase matou voc.  Colocou as mos sobre os pulsos dele, apertando-os em um gesto de carinho.  Preciso demais de voc... e a culpa  sua! 
 Exato!  Ele abaixou a cabea e a beijou.  Isso tambm  exatamente o que eu quero. V trabalhar, tenente. 
 Estou indo.  Seguiu a passos largos para a porta, mas ento parou e olhou para trs.  Olhe, no quero ser informada pelo Departamento de Trnsito que o meu marido andou fazendo firulas pelo cu em seu mini-helicptero. 
 Voc no vai ser informada disso. Eu sei subornar muito bem.
Isso a fez rir, enquanto descia para pegar Peabody e enfrentar a primeira onda de ataque implacvel da mdia. 
Mal acabara de colocar o cinto de segurana quando ouviu o ronronar grave de um motor muito caro. Franzindo ligeiramente as sobrancelhas, olhou para leste e viu o elegante helicptero se elevar, com sua cabine espelhada e o giro constante de suas hlices prateadas. Ele circulou em volta do carro, como se estivesse brincando com ela, e ento, de forma ilegal, afastou-se dali zunindo como uma bala. 
 Uau! Que momento! Que mquina! Aquele era o Roarke? Voc viu s?...  Peabody esticou o pescoo para fora do carro, a fim de dar uma ltima olhada.  Viu s que rapidez?... 
 Cale a boca, Peabody! 
 Nunca andei de helicptero particular.  Com um suspiro longo, Peabody se ajeitou no banco.  Esse a faz os aparelhos que o Departamento de Trnsito usa parecerem carroas voadoras. 
 Voc costumava ficar mais intimidada quando eu a mandava calar a boca. 
 Isso era antigamente.  Sorrindo, Peabody cruzou as pernas nos tornozelos.  Voc lidou com o menino muito bem, tenente. 
  que eu sei como conduzir um interrogatrio, Peabody.  Levantou os olhos com impacincia.
 Nem todo mundo sabe lidar com adolescentes. Eles so meio brutos... e frgeis. Aquele ali j viu mais na vida do que deveria nessa idade. 
 Eu sei.  Acontecera o mesmo com ela prpria, lembrou Eve. Talvez por isso ela o compreendesse.  Prepare-se, Peabody. Os tubares j esto circulando e vindo para cima de ns! 
Peabody fez uma careta ao ver o bando de reprteres se acotovelando do lado de fora dos portes. Havia minicmeras, gravadores e olhares famintos. 
 Nossa, espero que eles peguem o meu melhor ngulo  disse Peabody. 
 Achei que voc estava sentada nele. 
 Obrigada.  que eu ando malhando muito.  De modo automtico, Peabody tirou o sorriso do rosto e assumiu uma expresso profissional e neutra, enquanto murmurava:  No estou vendo Nadine. 
 Mas ela est por a...  Eve acionou o controle para abrir os portes.  Nadine Furst jamais perderia um lance desses.  Calculando o tempo, passou com o carro no instante exato, a tempo de evitar que a frente do carro batesse nas grades de ferro que se abriam. Os reprteres se lanaram na frente do carro, engolfando-o, enquanto miravam suas cmeras e berravam perguntas. Uns dois se mostraram corajosos ou ento idiotas demais para colocar o p dentro do terreno, o que caracterizava invaso de propriedade particular. Eve reparou neles e colocou o volume do alto-falante externo do carro no mximo. 
 A investigao est prosseguindo  anunciou, com a voz amplificada.  Ao meio-dia, ser feito um pronunciamento oficial. Qualquer representante da mdia que invada esta propriedade ser no apenas processado, como tambm perder o acesso a qualquer dos dados que sero divulgados.  Tornou a fechar os portes, quase esmagando alguns ps, que comearam a pular no meio da confuso. 
 Onde  que se enfiaram os policiais que deixei de guarda? 
 Devem ter sido devorados vivos a essa altura.  Peabody olhou para o reprter que estava com a cara esmagada do lado de fora do seu vidro e pediu:  Este aqui at que  bonitinho, tenente. Tente no estragar seu rosto. 
 Quem escolheu foi ele.  Continuou dirigindo. Algum pulou da frente do carro, apoiando-se no pra-choque, e soltou um palavro. O carro deu um solavanco e ouviu-se um grito muito alto. 
 Acho que voc passou por cima do p dele. Dez pontos para a tenente!  exclamou Peabody, discretamente empolgada com aquilo.  Agora, veja se consegue tirar do mapa aquela ali... a mulher com pernas quilomtricas, de tailleur verde. Vai lhe garantir mais cinco pontos. 
A reprter agarrada ao pra-brisa escorregou para fora quando Eve deu um golpe de direo. 
 Droga, essa voc perdeu, Dallas! Tambm, no d para acertar todos... 
 Peabody...  Eve balanou a cabea, pisou fundo no acelerador e seguiu em direo ao centro  ...s vezes voc me preocupa. 

* * *

Eve planejava ver o comandante Whitney logo, mas no se surpreendeu ao avistar Nadine Furst esperando, de tocaia, junto  escada rolante do primeiro andar da Central de Polcia. 
 Noite agitada, hein, Dallas?... 
 Foi mesmo, e continuo agitada e cheia de coisas para resolver. Vai haver uma entrevista coletiva com a imprensa ao meio-dia. 
 Mas voc j podia me adiantar alguma coisa agora...  Nadine conseguiu forar o caminho e entrou na escada rolante logo atrs de Eve. No era uma mulher volumosa, mas era rpida e esperta. No dava para ser a reprter mais famosa dos noticirios ao vivo sem desenvolver reflexos rpidos.  S uma dica, Dallas. Algo que eu possa oferecer ao pblico na minha vinheta de dez da manh. 
 Um cara foi morto  disse Eve, sem muito papo.  A identificao s ser tornada pblica depois que o parente mais prximo for notificado. 
 Ento voc j sabe o nome da vtima. Tem alguma pista de quem rasgou a garganta dele? 
 Na minha opinio profissional, foi uma pessoa com um instrumento cortante na mo  disse Eve, seca. 
 H-h...  Os olhos de Nadine se estreitaram.  H um bochicho por a de que foi deixada uma mensagem na cena do crime. E que foi um assassinato ritualstico. 
Sempre a droga das informaes que vazavam, pensou Eve. 
 No posso comentar nada a esse respeito. 
 Espere um minuto!  Ao chegar ao topo da escada, Nadine pegou Eve pelo brao.  Se quiser que eu segure alguma informao at voc liberar, voc sabe que farei isso. Por favor, me d pelo menos uma dica e me deixe trabalhar. 
Confiar na mdia era algo arriscado, mas ela j confiara em Nadine antes, e isso beneficiara as duas. Como elemento de pesquisa, Eve sabia que Nadine era um instrumento bem afinado. Disse ento: 
 Se foi um assassinato ritualstico, fato que ainda no foi determinado nem deve ser levado ao ar, o meu prximo passo seria reunir todos os dados relacionados com grupos dedicados a seitas ou cultos especiais e que esto estabelecidos nesta cidade, registrados ou no, bem como os nomes de seus membros. 
 Mas existe todo tipo de seita, Dallas. 
 Ento  melhor partir logo para o trabalho.  Soltou o brao, antes de soltar mais uma migalha para Nadine.  Engraado, agora que estou pensando no assunto, culto deve ser a raiz da palavra oculto... ou talvez seja apenas uma coincidncia. 
 , talvez seja...  Nadine entrou rapidamente na escada ao lado, que descia.  Pode deixar que eu tiro a sua dvida. 
 Isso foi muito esperto  decidiu Peabody. 
 S espero que continue assim. Vou direto para a sala do Whitney. Quero que descubra para mim os nomes de todos os policiais que estavam no local onde o corpo foi desovado nesta madrugada. Vou ter um papo particular com cada um deles a respeito de gente que divulga informaes confidenciais da polcia. 
 Ai! Essa vai doer! 
 Pode ter certeza de que sim  murmurou Eve, seguindo em direo ao elevador. 


Whitney no a deixou esperando. Eve reparou, enquanto se sentava diante dele, que o comandante no dormira mais do que ela na noite anterior. 
 O Departamento de Assuntos Internos est reclamando a respeito do caso Wojinski. Esto forando a barra para abrirmos uma investigao oficial a respeito de sua morte. 
 E o senhor no consegue segurar esse inqurito? 
 S at o fim do expediente, logo mais. 
 Meu relatrio talvez ajude.  Eve pegou um disco na bolsa.  No existe prova absolutamente alguma de que o sargento Wojinski estivesse consumindo drogas ilegais. Todas as indicaes apontam para o fato de que ele estava tentando atingir Selina Cross. Seus motivos so pessoais, comandante, mas at mesmo o Departamento de Assuntos Internos vai conseguir compreend-los. Tenho as declaraes de Alice gravadas, j as transcrevi na ntegra e as coloquei no relatrio. Na minha opinio, ela foi drogada e teve a sua... ingenuidade explorada. Foi sexualmente usada. Envolveu-se com a seita fundada por Selina Cross e Alban. Quando rompeu com o grupo, foi ameaada e ficou amedrontada. Por fim, recorreu a Frank. 
 E por que a jovem se desligou deles? 
 Na gravao, ela alega ter testemunhado o assassinato ritualstico de uma criana. 
 O qu?  Os ns dos dedos do comandante ficaram brancos quando ele apertou com toda a fora a borda da mesa.  Ela testemunhou um assassinato, relatou isso a Frank e ele no abriu uma investigao? 
 Alice esperou algum tempo antes de contar ao av, comandante. E no existem provas que sirvam de apoio s suas alegaes. No posso substanci-las neste momento. Tudo o que posso garantir  que Alice acreditava ter presenciado um assassinato. Estava apavorada, temendo por sua vida. Ela tambm se sentia responsvel pela morte do av. Acreditava piamente que ele fora assassinado como represlia s investigaes particulares sobre Selina Cross que estava realizando. Alice alegou que Selina Cross tinha conhecimento tcnico de substncias qumicas e basicamente envenenou Frank. 
 No temos dados concretos para provar uma armao como essa. 
 Ainda no. Alice estava certa de que seria a prxima vtima e morreu na mesma noite em que me apresentou sua declarao. Ela tambm acreditava que Selina Cross conseguia mudar de forma. 
 Como assim? 
 Achava que Cross podia assumir a forma de diversos animais. Um corvo, por exemplo. 
 Ela achava que Selina Cross podia se transformar em um corvo e sair voando? Nossa, Dallas, os rapazes do Departamento de Assuntos Internos vo adorar essa histria. 
 Uma coisa como essa no precisava ser real, bastava ela acreditar. Alice era uma jovem aterrorizada e atormentada por essas pessoas. Encontrei uma pena preta no peitoril de sua janela na noite em que morreu, uma pena artificial, por sinal, e havia mensagens  ameaadoras em seu tele-link. Eles a estavam atormentando muito, comandante, pode ter certeza disso. O que Frank fez foi tentar proteger a famlia. Talvez tenha abordado o problema de modo errado, mas era um bom policial. E morreu como um bom policial. O Departamento de Assuntos Internos no vai conseguir mudar isso. 
 Vamos fazer de tudo para que eles no consigam.  Guardou o disco.  Por ora, esse assunto fica s entre ns. 
 Feeney... 
 No nesse momento, tenente. 
Eve decidiu que no ia ser enxotada daquele jeito, como uma mosca, e trincou os dentes. 
 Comandante, minha investigao, at esse ponto, descarta qualquer conexo entre a investigao particular que o sargento Wojinski estava efetuando e o capito Feeney. No encontrei rastro algum de que Feeney tenha manipulado ou pesquisado irregularmente qualquer registro ou informao, a fim de ajudar Frank. 
 E voc realmente acredita que Feeney iria deixar algum rastro, Dallas? 
 Eu saberia do seu envolvimento.  Eve manteve os olhos fixos em Whitney.  Feeney est sofrendo muito, tanto por seu amigo quanto por sua afilhada, e no sabe de coisa alguma, alm da verso oficial. Ele no sabe de nada, comandante, e tem o direito de saber. 
Aquilo ia deixar marcas no relacionamento dele com Eve, e Whitney sabia. Ia deixar marcas em todos os envolvidos, mas era algo que no podia ser evitado. 
 No posso levar os direitos pessoais do capito Feeney em considerao, Dallas. Pode acreditar, o Departamento de Assuntos Internos no levar. Todos os dados aqui so sigilosos e voc deve divulgar apenas o necessrio. Trata-se de uma questo delicada. Voc vai ter que lidar com ela. 
 Ento vou lidar...  Aquilo abriu um buraco no seu estmago, mas ela concordou, balanando a cabea. 
 Que conexo existe entre tudo isso e o corpo que foi encontrado do lado de fora de sua casa na ltima madrugada? 
Sem outra escolha, ela seguiu o treinamento e divulgou todos os dados. 
 Trata-se de Robert Mathias, tambm conhecido como Lobar, sexo masculino, branco, dezoito anos. Meu relatrio sobre a causa mortis  ferimento profundo na garganta, mas, alm disso, o corpo foi mutilado. A vtima era membro da seita de Selina Cross. Eu tambm o entrevistei ontem em seu emprego no Clube Athame, de propriedade de Selina. 
 As pessoas com quem voc fala acabam morrendo muito depressa, Dallas. 
 Ele era o libi de Selina para a noite em que Alice foi morta. Era o libi dela e de Alban. Ele mesmo confirmou isso durante a conversa que teve comigo.  Abriu a bolsa.  A vtima no foi morta no local, e deixaram o corpo l de uma forma especfica, que indica assassinato ritualstico.  E colocou uma das fotos do morto sobre a mesa de Whitney. 
 A arma do crime foi provavelmente a faca que espetaram em sua genitlia  continuou Eve.  Trata-se de um athame, um punhal ritual. Supostamente, os seguidores da religio Wicca usam um athame sem fio, cego, e o utilizam apenas para demarcar espaos de trabalho e smbolos.  Pegou outra foto, um close da nota.  Esta mensagem parece indicar que o assassinato foi efetuado por um inimigo da Igreja de Satans. 
 Igreja de Satans  murmurou Whitney. A foto do morto no o deixou abalado, provocou-lhe apenas uma sensao de cansao. Ele j vira imagens demais iguais quela.  Este termo  um oximoro perfeito... um paradoxo. Algum se sentiu desgostoso com essas prticas de ocultismo e tirou a vtima de cena. 
 O local em que ele foi encontrado certamente foi preparado para indicar isso. Essa  uma possibilidade, e tambm uma linha de investigao que pretendo seguir. 
 Voc est achando que Selina Cross est por trs disso...  Levantou os olhos da foto.  Suspeita de que ela tenha executado o prprio libi? 
 Ela executaria o prprio filho, se tivesse algum. Acho que  muito esperta  continuou Eve , e acho tambm que  louca. Vou fazer uma consulta com Mira a respeito disso. Tambm acho que ela teve um prazer especial ao cometer o crime e esfreg-lo na minha cara. Ela no precisava mais dele. Essa foi a declarao que fez ao larg-lo l. 
 Converse novamente com ela  concordou Whitney, devolvendo as fotos  e tambm com esse Alban. 
 Sim, senhor.  Ela guardou as fotos.  H mais um problema.  algo... delicado. 
 O que foi? 
 Evitei qualquer referncia a isso no relatrio oficial. Alterei ligeiramente o horrio dos acontecimentos. Segundo o registro, Roarke e eu fomos acordados pelo alarme do sistema de segurana, que disparou no momento em que o corpo foi colocado em contato com o muro que circunda a propriedade. Extra-oficialmente, porm, devo relatar ao senhor que no fomos ns os primeiros a descobrir o corpo. Quem o descobriu foi Jamie Lingstrom. 
 Meu Deus!  reagiu Whitney, aps um longo minuto, e pressionou os olhos com os dedos.  Como aconteceu isso? 
Eve pigarreou e ofereceu um relato rpido e sucinto de tudo o que aconteceu depois do alarme ter disparado. Concluiu tudo com o que Jamie lhe contara  mesa do caf. 
 No sei o quanto dessas informaes o senhor vai querer passar para o Departamento de Assuntos Internos. A declarao de Jamie corrobora a alegao de Alice sobre Frank estar tentando armar uma cilada para Selina. 
 Vou filtrar tudo o que puder.  Continuou a esfregar os olhos.  Primeiro foi a neta, e agora, o neto. 
 Acho que dei uma boa sacudida no menino, o bastante para mant-lo na linha. 
 Dallas, os adolescentes so incrivelmente difceis de se deixar abalar. Eu j passei por isso. 
 Quero que ele tenha alguma proteo, bem como vigilncia constante. Por conta e iniciativa prprias, eu posso arranjar isso. 
 Voc quer dizer que Roarke pode arranjar isso.  Levantou uma sobrancelha. 
 O menino ser vigiado.  Eve cruzou as mos. 
 Vamos deixar isso assim, por enquanto.  Ele se recostou.  Um misturador de sinais porttil, feito em casa, voc disse? Um aparelho que o menino adaptou, a fim de conseguir enganar o sistema de segurana externo daquela fortaleza em que voc mora? 
 Assim parece... 
 E onde est o aparelho? Voc no o devolveu para o menino, no ? 
 No sou idiota  reagiu ela, como se tivesse recebido um tapa.  Roarke ficou com ele.  Ao completar a frase e pensar no fato, seu treinamento transpareceu e ela franziu os olhos sem querer. 
 Roarke ficou com ele...  A despeito da situao, Whitney jogou a cabea para trs e soltou uma gargalhada.  Essa foi tima! Voc entregou a chave do galinheiro na mo da raposa!  Ao perceber a cara feia que Eve fez, Whitney abafou o riso.  Estou apenas tentando ressaltar o lado mais leve e engraado da situao, tenente. 
 Sim, senhor... R-r-r... Vou pegar o aparelho de volta. 
 No quero ofend-la, Dallas, mas se est aceitando apostas, arrisco cem dlares como no vai conseguir arrancar o aparelho de Roarke. De qualquer modo, diga-lhe que, extra-oficialmente, o departamento agradece muito pela sua assistncia e cooperao. 
 Desculpe-me, comandante, mas no vou transmitir esse recado a Roarke. Isso iria subir-lhe  cabea.  Reconhecendo que estava sendo dispensada, ela se levantou.  Comandante, Frank estava limpo. O Departamento de Assuntos Internos vai confirmar isso. Quanto  sua morte ter sido natural ou induzida, isso vai ser mais difcil de estabelecer. Eu bem que poderia usar os servios do Capito Feeney... 
 Voc sabe que no necessita de Feeney neste caso, Dallas, pelo menos no dos dotes investigativos dele. Aprecio os seus sentimentos, mas isso tudo fica apenas entre ns, at eu determinar o contrrio. Talvez voc se veja sentada nesta mesa, um dia  disse ele , e observou as sobrancelhas dela se unirem em sinal de surpresa.  Decises muito difceis devero ser tomadas desta cadeira por voc. E pode acreditar que dar ordens desagradveis  to frustrante quanto receb-las. Mantenha-me informado. 
 Sim, senhor.  Eve saiu, sabendo que no queria a cadeira, nem o posto, nem as responsabilidades dele. 















 



CAPTULO DEZ





A
 primeira coisa que Eve fez foi informar o parente mais prximo sobre a morte de Lobar. Depois de fazer isso, passou alguns minutos pensando sobre o conceito de famlia. Eles nem se importaram. O rosto da mulher na tela do tele-link permanecera impassvel. Era como se Eve estivesse lhe comunicando a morte de um estranho, e no do filho que ela colocara no mundo e criara. Agradeceu pelas informaes, com toda a educao, no fez perguntas e concordou que os restos mortais do filho fossem despachados para casa, assim que liberados. 
Eles lhe dariam, a me declarara, um enterro cristo e decente. 
Eve imaginou que ela faria a mesma coisa pelo co da casa. 
O que ser que calcificara os seus sentimentos a esse ponto?, perguntou-se Eve. Se  que havia algum sentimento, para comear. O que fazia uma me demonstrar tanta dor, como a me de Alice fizera, e outra receber a notcia da morte do filho sem derramar uma lgrima sequer? 
O que ser que sua prpria me sentira quando ela nasceu? Ser que ela ficara feliz ou simplesmente sentira alvio ao ver que a intrusa que morara em seu corpo por nove meses finalmente fora despejada dali? 
Eve no tinha lembrana alguma de sua me, nem mesmo a recordao difusa de uma presena feminina em sua infncia. Lembrava-se apenas do pai, do homem que a arrastara de um lugar para outro e a mantinha trancada em quartos sujos. O homem que a estuprara. E as lembranas dele, depois de tantos anos sendo negadas, eram agora muito mais claras. 
Talvez o destino de algumas pessoas fosse o de viverem sem famlia, pensou. Ou simplesmente conseguir sobreviver a ela. Por se ver tomada por pensamentos sombrios, foi com sentimentos conflitantes que Eve ligou para a dra. Mira, a fim de marcar uma consulta. Depois de intimidar sua secretria, obrigando-a a encaix-la em um dos horrios do dia seguinte, pegou a bolsa, chamou Peabody pelo comunicador e saiu. 
No deixou de reparar a expresso de cautela no rosto da auxiliar ao parar o carro na porta do prdio de Selina, mas ignorou o fato. Estava comeando a chover. Era uma garoa estranha e fria que caa de um cu que subitamente se tornara escuro e pesado. O vento soprava com fora, assobiando ao longo dos desfiladeiros representados pelas ruas, e parecia morder os pedaos de pele que encontrava descobertos. 
Do outro lado da calada, um homem rumava para leste, encurvado sob um guarda-chuva preto. Subitamente se virou e entrou em uma loja onde se via uma caveira sorridente e as palavras O Arcano pintadas na porta. 
 Um dia perfeito para fazermos uma visita  empregadinha de Satans.  Peabody fez uma expresso, obviamente falsa, de quem estava se divertindo e, disfarando, acariciou um galhinho de erva-de-so-joo que enfiara no bolso. Era o conselho que sua me lhe dera para proteg-la de magia negra. A intrpida Peabody descobrira que acreditava em bruxas, afinal. 
Passaram pela mesma rotina da segurana, s que dessa vez a espera foi maior e mais desagradvel, pois a chuva comeou a apertar. Terrveis raios em forma de forcado golpeavam o cu e pareciam ter dentes vermelhos nas pontas. Eve olhou para cima, e ento se virou para a assistente. Seu sorriso foi duro e frio quando ela confirmou: 
 ... um dia perfeito! 
Ao entrar, deixaram um rastro molhado no piso da portaria, depois no elevador e no saguo do apartamento de Selina Cross. Dessa vez, foi Alban quem as recebeu. 
 Tenente Dallas  disse e exibiu a mo, maravilhosamente esculpida e enfeitada por um nico anel de prata ricamente trabalhado , sou Alban, companheiro de Selina. Infelizmente, ela est meditando. No me sinto  vontade para perturb-la. 
 Deixe-a meditar. Voc serve, por ora. 
 Bem, ento, entrem e sentem-se, por favor.  Seus modos eram sofisticados, levemente formais, e no combinavam com a roupa colante de couro preto que usava, e que deixava seu torso totalmente  mostra.  Querem beber alguma coisa? Um pouco de ch, talvez, para afastar o frio? Aconteceu uma mudana brusca e interessante no tempo. 
 No, no queremos nada.  Eve achou que era prefervel uma dose de Zeus a qualquer coisa preparada naquele lugar. 
O ar sombrio do ambiente combinava com o resto, decidiu Eve. A luz indefinida, o chiado da chuva e o chacoalhar das janelas pelo vento. Ento ali estava Alban, com seu lindo rosto de poeta e corpo de deus guerreiro. Um perfeito anjo cado. 
 Gostaria de saber onde voc se encontrava na noite passada, entre trs e cinco horas da manh. 
 Trs e cinco horas da manh?  Ele piscou, como se estivesse com dificuldades para traduzir as palavras.  Na noite passada... ou na madrugada de hoje, melhor dizendo. Ora, eu estava aqui. Acho que voltamos do clube um pouco depois das duas, e ainda no samos de casa hoje. 
 Ns? 
 Selina e eu. Tivemos um encontro de bruxos, que acabou por volta de trs da manh. Abreviamos um pouco o fim da cerimnia, pois Selina no estava se sentindo bem. Normalmente continuamos recepcionando os convidados depois do evento, ou ento seguimos em frente com um grupo menor, em rituais privados. 
 Mas no fizeram isso na noite passada. 
 No. Como disse, Selina no estava se sentindo bem e fomos para a cama cedo. Cedo para ns  explicou ele com um sorriso.  Somos criaturas noturnas. 
 Quem participou do encontro de bruxos? 
O sorriso de Alban se desfez e ele assumiu uma expresso sria, quase calculada, argumentando: 
 Ora, tenente, religio  um assunto privado. Mesmo nos dias de hoje, gente como ns  perseguida. Nossos membros apreciam a discrio. 
 Mas um dos seus membros foi assassinado sem a mnima discrio, ontem  noite. 
 No!  Ele se levantou lentamente, mantendo a mo apoiada no brao da poltrona, como se tentasse manter o equilbrio.  Sabia que alguma coisa horrvel devia ter acontecido. Selina parecia to perturbada...  Respirou fundo, como se para preparar o corpo e a mente.  Quem foi?... 
 Lobar.  Foi Selina quem disse o nome da vtima, ao mesmo tempo em que entrava por uma passagem em arco, muito estreita. Estava terrivelmente plida e os olhos de gata pareciam sombrios. Usava o cabelo preto solto e um decote profundo que exibia boa poro do busto generoso.  Foi Lobar  repetiu.  Acabei de ver na nvoa. Alban!...  Pressionou a mo sobre a cabea, balanando o corpo para a frente. 
 Tremendo show!  murmurou Eve ao ver Alban correr atravs da sala para amparar Selina e abra-la com carinho.  Voc viu na nvoa?  Eve jogou a cabea para o lado.  Isso  muito til... talvez eu tambm devesse dar uma olhada nessa nvoa, para ver se consigo enxergar quem cortou a garganta do rapaz. 
 No vai aparecer nada na nvoa para voc, a no ser a sua ignorncia.  Apoiada em Alban, Selina caminhou muito devagar at o sof. Sentou-se, fazendo o manto farfalhar, e levantou a mo para seu companheiro, dizendo:  Estou bem... 
 Meu amor.  Ele tomou-lhe a mo, levando-a aos lbios.  Vou lhe trazer um calmante. 
 Sim, sim, obrigada. 
Ela abaixou a cabea e colocou-a entre as mos quando ele se retirou sem fazer barulho. Ah, como era difcil segurar o sorriso de gata e no ver as imagens do ritual, to gloriosas que continuavam a aparecer, repassadas em sua cabea junto com as lembranas do sacrifcio e do sangue. 
S ela e Alban saberiam avaliar a excitao e o poder proporcionados pelo momento em que Lobar foi oferecido ao Mestre. 
Apenas ela conseguiria compreender por inteiro a emoo de ter oferecido aquele sacrifcio com as prprias mos. Seu corpo estremeceu com um prazer denso, provocado pela lembrana. O modo como os olhos de Lobar haviam se encontrado com os dela, a forma como o cabo do athame se moldara, frio e firme,  sua mo. E ento o sangue quente que jorrara como uma fonte, quando ela o usou. 
Imaginando o choque e a fria que Eve devia ter sentido ao encontrar Lobar to cuidadosamente posicionado junto  entrada de seu prprio santurio, Selina quase soltou um riso abafado. Pressionou os dedos contra os lbios, como se estivesse sufocando um soluo. 
Alban era um gnio, pensou, pois s mesmo um verdadeiro gnio poderia ter criado uma ironia to maravilhosa. 
 As vises podem ser uma bno ou uma maldio  continuou, com a voz fraca, como se estivesse exausta.  Prefiro pensar nelas como bnos, embora me causem tamanha dor. A perda de Lobar  terrvel! 
 Que grande atriz voc , hein?... 
A cabea de Selina se levantou de repente e seus olhos brilharam mais de dio do que de dor. 
 No deboche dos meus sentimentos, Dallas. Voc acha que poderes como os meus fazem com que eu no sinta as coisas? Pois eu as sinto, as experimento. Eu sangro!  acrescentou e, com um movimento rpido como um raio, enfiou uma das unhas compridas e letais na palma da prpria mo. Sangue surgiu de imediato, escuro e vermelho. 
 No era preciso fazer uma demonstrao  disse Eve, com toda a calma.  Eu sei que voc sangra. Lobar tambm, com certeza!... 
 Sua garganta. Sim, foi isso mesmo o que eu vi na nvoa.  Esticou a mo na direo de Alban, que chegava de volta trazendo uma vasilha rasa, de prata.  Mas eu vi mais, algo alm disso...  E pegou a tigela, levando-a lentamente at os lbios.  Mutilao... Ah, como eles nos desprezam! 
 Eles? 
 Os que fazem magia branca... os fracos. 
Pegando um pedao de pano preto em seu bolso, entregou-o a Alban. Ele levantou a mo ferida de Selina e levou-a at seus lbios. Depois, com invejvel eficincia, amarrou-lhe o pano em volta da palma, fazendo o sangue estancar. Selina sequer se dignou a olhar para ele. 
 Eles... os que vem nosso Mestre com dio  continuou  e praticam a magia dos tolos. 
 Ento, na sua opinio, trata-se de um assassinato com razes religiosas? 
 Claro! No tenho dvidas a respeito disso.  Acabou de tomar o lquido calmante e colocou a vasilha de lado.  ...Voc tem, tenente? 
 Tenho muitas dvidas sim; enfim, sou obrigada a investigar tudo do modo antiquado. No posso ligar para o diabo, a fim de pedir conselhos. Lobar esteve aqui na noite passada? 
 Sim, at pouco antes das trs. Logo a seguir, ele ia receber a marca...  Selina suspirou, passando as unhas pintadas de vermelho para cima e para baixo no brao de Alban.  Um de seus ltimos atos na vida foi unir seu corpo com o meu. 
 Ento voc fez sexo com ele ontem  noite... 
 Sim. Sexo  um fator importante em nossos rituais. Eu o escolhi, ontem  noite.  Ela tornou a estremecer ao lembrar que a escolha fora dela, e a faanha de mat-lo tambm.  Alguma coisa deveria ter me alertado do que estava para acontecer. 
 Um pssaro, talvez. Um pssaro grande e preto.  Levantando uma sobrancelha, Eve analisou o rosto de Alban.  Quer dizer que no h problema algum para voc, Alban, ficar assistindo enquanto outros homens fazem sexo com a sua... companheira? Quase todos os homens so um pouco territoriais e possessivos. E talvez escondam ressentimentos prejudiciais. 
 No acreditamos em monogamia. Achamos isso um conceito limitado e tolo. Sexo  prazer, e no colocamos limites em nossos prazeres. Sexo consensual em um lar particular ou em um clube licenciado para isso no  contra as suas leis, tenente  disse e sorriu.  Estou certo de que voc mesma o pratica. 
 E voc gosta de ficar olhando, Alban? 
 Isso  um convite?  Levantou as sobrancelhas. Ao ouvir o risinho que Selina no conseguiu segurar, chegou mais perto dela e pegou sua mo.  Viu s?... Voc j est se sentindo melhor. 
 Seu pesar passou rpido, no foi, Selina? 
 Tem que ser assim!  concordou ela, balanando a cabea para Eve.  A vida  para ser vivida. V procurar quem fez isso e talvez o encontre. A punio do nosso Mestre, porm,  maior e mais terrvel do que qualquer castigo que voc possa inventar. 
 Seu Mestre no faz parte dos meus interesses. Assassinato sim. J que vocs eram to ligados ao falecido, talvez me deixem dar uma olhada pelo apartamento. 
 Consiga um mandado e ser bem-vinda.  O calmante tornara seus olhos um pouco nublados, mas sua voz estava bem forte quando ela se levantou.  Voc  mais tola do que imaginei a princpio, se acredita que eu possa ter alguma coisa a ver com isto. Lobar era um dos nossos. Era leal.  contra a nossa lei fazer mal a um membro leal da seita. 
 Ele conversou comigo ontem  noite, em uma cabine privativa do clube. A nvoa lhe mostrou as coisas que ele me contou, Selina? 
 Voc vai ter que procurar outras guas para pescar, Dallas.  Seus olhos mudaram e se tornaram ainda mais sombrios.  Estou cansada, Alban. Acompanhe-as at a porta.  Saiu como se deslizasse, passando novamente sob a porta em arco. 
 No h nada que possamos fazer para ajud-la, tenente. Selina precisa repousar agora.  Olhou para o portal por onde ela sara, com preocupao nos olhos.  Tenho que ir cuidar dela. 
 Ela o treinou muito bem, no foi?  Com um leve desdm na voz, Eve se levantou, perguntando:  Voc tambm sabe fazer truques, Alban? 
Com ar entristecido, ele balanou a cabea, dizendo: 
 Minha devoo a Selina  muito pessoal. Ela tem poderes, e os poderosos tm necessidades. Eu as satisfao, e sou grato por isso.  Caminhando de volta at o saguo, abriu a porta.  Gostaramos de pegar o corpo de Lobar assim que ele for liberado. Realizamos uma cerimnia especial para nossos mortos. 
 A famlia dele tambm, e ela vem antes de vocs. 


 Quais os dados que temos a respeito desse tal de Alban?  quis saber Eve no momento em que elas colocaram o p na rua, sob a chuva que se tornara muito forte.  Praticamente nada.  Peabody entrou no carro e na mesma hora comeou a se sentir mais  vontade. Sabia que era tolice alimentar a esperana de jamais precisar voltar quele prdio, mas mesmo assim torcia por isso.  Ele no tem antecedentes e quase nenhum passado. Talvez tenha outro nome de nascena alm desse, mas no consegui achar nada. 
 Mas h mais. Sempre h mais... 
Nem sempre, pensou Eve, tamborilando no volante com os dedos impacientes. Uma vez ela investigara outra figura suspeita e tambm no encontrara quase nada a respeito de seu passado. E o suspeito tambm tinha apenas um nome: Roarke.? 
 Torne a procurar  ordenou a Peabody, saindo com o carro.  Engraado, no ?  continuou, enquanto Peabody comeava a pesquisar no computador do carro.  ...Quase no h movimento aqui neste quarteiro, mas quando viramos a esquina...  Ao fazer isso, foi atingida por uma cacofonia ruidosa e tranqilizadora dos muitos veculos que se movimentavam lentamente pela chuva. Pessoas davam corridas rpidas pelas caladas, fugindo da chuva, seguiam pelas passarelas rolantes e se amontoavam para se proteger sob marquises. Dois vendedores ambulantes atuavam em esquinas opostas, encurvados sob toldos precrios, e trocavam olhares insatisfeitos um com o outro. 
 As pessoas possuem instintos dos quais nem elas mesmas tm noo.  Ainda um pouco desconfortvel, Peabody olhou para trs, como se esperasse que alguma coisa no exatamente humana pudesse estar se arrastando atrs delas.  Aquele edifcio tem uma energia muito pesada. 
  s um monte de tijolos e vidros, Peabody. 
 Sim, mas os lugares costumam assumir a personalidade das pessoas que moram neles. 
Um carro virou a esquina na frente delas, buzinando com estardalhao para o mar de pedestres que atravessavam a rua, garantidos pelo sinal de siga. Insultos verbais e gestos obscenos foram trocados entre o motorista e os pedestres, e algum cuspiu no cho. 
Vapores subiam das grades de ventilao do metr, formando nuvens sujas. A nvoa se juntava  fumaa fedorenta que vinha de uma carroa de churrasquinhos, obviamente ilegal, que tentava abrir caminho pela massa compacta de gente molhada. Acima do nvel da rua, uma passarela area estremeceu c parou de deslizar de repente, provocando uma enxurrada de xingamentos e reclamaes dos usurios. 
Mais ao alto, um dirigvel para turistas transmitia, a todo o volume, uma gravao onde eram exaltadas as vantagens e maravilhas de se viver em um ambiente urbano. 
Peabody respirou fundo como se quisesse se limpar por dentro, satisfeita por se ver de volta s ruas da Nova York arrogante e cheia de gente que ela compreendia to bem. 
 Veja a casa de Roarke, por exemplo  continuou ela, com sua teoria sobre o astral dos prdios.   grande, elegante e intimidadora, mas tambm sexy e misteriosa.  Estava ocupada demais lidando com o computador para perceber o olhar divertido que Eve lhe lanou.  Agora, a casa dos meus pais:  toda aberta, acolhedora, mas um pouco confusa. 
 E quanto  sua casa, Peabody? Como  que ela ? 
 Temporria  respondeu Peabody, sem pestanejar.  Dallas, esse computador do seu carro no est cooperando muito... no estou conseguindo enviar a requisio dos dados para o...  Parou de falar ao ver Eve se inclinar e dar um soco forte no painel, junto da tela. Uma imagem apareceu tremendo e vacilando, como se estivesse com medo.  Ah, melhorou!...  decidiu Peabody, pedindo dados sobre Alban. 

Alban... no tem outro nome nem sobrenome. Nasceu em 22 de maro de 2020, em Omaha, estado de Nebraska. 

 Engraado  interrompeu Eve , ele no tem cara de quem foi alimentado com leite fresco e mingau de farinha de milho. O computador continuou, parecendo soluar: 

Identidade... nmero 31666-LRT-99. Pais desconhecidos. Estado civil: solteiro. No h informaes sobre profisso. No h dados financeiros. 

 Interessante. Pelo jeito, ele est vivendo como parasita de Selina. Dados criminais, todos os registros. 

Sem registros criminais. 

 Grau de instruo?

Desconhecido. 

 Nosso rapaz apagou ou conseguiu algum que apagasse todas os seus registros  disse Eve a Peabody.  Voc no consegue chegar quase aos quarenta anos sem gerar mais dados do que esses. Ele tem contatos importantes em algum lugar... 
Ela ia precisar de Feeney, pensou com mau humor. Feeney poderia vasculhar os arquivos, mesmo os apagados, para conseguir dados adicionais. Em vez de recorrer a ele, porm, ia ser novamente obrigada a pedir a ajuda de Roarke, envolvendo-o ainda mais no caso. 
 Droga!  Estacionou o carro na porta da loja Busca Espiritual e franziu a testa ao ver a placa que dizia Fechada.  V dar uma olhadinha, Peabody. Talvez Isis esteja l dentro. 
 Voc tem uma sombrinha ou uma capa? 
 Est tentando ser engraada?  Eve arqueou uma sobrancelha. 
Peabody simplesmente soltou um suspiro, abriu a porta do carro e saiu correndo pela calada. Patinhando nas poas dgua e enfrentando a chuva forte, olhou para dentro da loja, pela vitrine. Tremendo um pouco, voltou, balanando a cabea ensopada, e deu um gemido quando Eve moveu o polegar, indicando o apartamento que ficava sobre a loja. Resignada, Peabody seguiu, com dificuldade, pela lateral do prdio, subiu um lance de escadas com degraus muito barulhentos e alguns momentos depois estava de volta, com a roupa encharcada e pingando. 
 Ningum atende  disse a Eve.  No h sistema de segurana, a no ser o galhinho de erva-de-so-joo, aparafusado por uma verruma acima da porta. 
 Ela tem um apanhado de verrugas preso na porta? Isso  nojento! 
 Eu no disse apanhado de verrugas, e sim aparafusado por verruma!  Apesar do uniforme encharcado e os cabelos pingando, Peabody no agentou e soltou uma boa gargalhada.   uma planta... erva-de-so-joo.  Com o mesmo ar divertido, enfiou a mo no bolso e pegou o seu raminho.  Como esse aqui.  para proteo. Ele nos resguarda do mal. 
 Voc carrega plantas dentro do bolso, policial? 
 Agora carrego  confirmou Peabody, guardando a plantinha.  Quer um pouco? 
 No, obrigada. Prefiro confiar na minha arma para me resguardar do mal. 
 Pois eu no tiro esse raminho do bolso. 
 Se para voc isso funciona...  Eve olhou em volta.  Vamos dar uma entradinha naquele caf ali do outro lado da rua. Talvez eles saibam nos informar por que a loja est fechada em plena manh de um dia de semana. 
 Talvez preparem um caf decente  comentou Peabody, e deu dois espirros, um atrs do outro.  Se eu pegar um resfriado forte, vai ser de amargar! Levo semanas para ficar boa quando me resfrio. 
 Talvez voc precise de uma plantinha que afaste os germes comuns. Pode carreg-la por a, junto com a outra  e deixando o assunto morrer, Eve saltou do carro, digitou o cdigo para trancar o veculo, atravessou a rua em uma corrida curta e entrou no Caf Ol. 
At que o toque mexicano na decorao do lugar no era mau, decidiu. As cores vibrantes, especialmente o laranja, criavam uma atmosfera ensolarada mesmo em um dia feio como aquele. Talvez ficasse longe, em estilo, da generosa vila que Roarke possua na Costa Oeste do Mxico, mas at que havia um charme peculiar ali, com suas flores de plstico e os touros em papel mach. Uma agitada msica mariachi flua pelos alto-falantes. 
Talvez devido  chuva, ou por causa do ambiente, o fato  que havia uma multido ali dentro. Ao olhar em volta, porm, Eve notou que as pessoas que lotavam o lugar, sentadas s mesas, no estavam devorando pratos de tortilhas. A maioria dos clientes, encurvada sobre pequenas xcaras, consumia algo que cheirava a caf de soja requentado. 
 O campeonato de beisebol est quase acabando, no est, Peabody? 
 Beisebol?  Peabody tornou a espirrar.  Acho que sim... Meu esporte predileto  futebol. 
 H-h... acho que h um jogo importante rolando, uma semifinal ou algo assim. E um monte de grana vai mudar de mos por aqui. 
Peabody estava comeando a sentir as vias respiratrias congestionadas, um mau sinal, mas a cabea ainda estava funcionando, e ela compreendeu o que Eve dissera. 
 Voc acha que essa loja  fachada para encobrir uma casa de apostas? 
 S um palpite... talvez possamos us-lo.  Foi na diagonal, atravessando o salo at o balco, onde viu um sujeito com cara de poucos amigos. Baixo, moreno e com olhar desconfiado. 
 Quer algo para comer aqui ou  para viagem? 
 Nenhum dos dois  comeou ela, mas demonstrou piedade ao ouvir Peabody fungar.  Um caf para minha acompanhante. E algumas respostas. 
 Caf eu tenho...  girou o corpo para servir um lquido denso e escuro em uma xcara pouco maior do que um dedal  ...respostas, no. 
 Talvez fosse melhor ouvir as perguntas antes. 
 Dona, estou com a casa cheia. Sirvo caf. No tenho tempo para papo furado.  Largou a xcara sobre o balco e j estava se preparando para sair da frente delas, mas Eve o agarrou pelo pulso. 
 Quanto a casa est pagando para as apostas no jogo de hoje?  perguntou ela. 
Os olhos dele se moveram com rapidez para a direita e a esquerda antes de se fixarem em Eve. Ento notou Peabody e o uniforme que vestia. 
 No sei do que a senhora est falando, dona. 
 Sabe sim, e se eu e minha auxiliar resolvermos ficar aqui por uma ou duas horas, seus negcios vo escorrer pelo ralo. Pessoalmente, estou cagando e andando para eles, sejam quais forem. Mas eu poderia comear a me interessar, de repente.  Ainda segurando o pulso do homem com firmeza, Eve virou a cabea e olhou fixamente para dois dos homens sentados na ponta do balco.
Levou menos de dez segundos para eles resolverem ir tomar caf em outro lugar. 
 Quanto tempo voc aposta que vai levar para eu esvaziar todo o salo? 
 O que quer de mim? J paguei a minha contribuio deste ms. Estou limpo. 
Eve o largou. Ficou aborrecida ao descobrir que ele contava com a cobertura da polcia. Isso no a deixou surpresa, apenas chateada. 
 No vou interferir com nada do que rola por aqui, a no ser que voc me irrite. Conte-me tudo a respeito da loja do outro lado da rua... a Busca Espiritual. 
Ele bufou e pareceu relaxar. Ela no estava atrs dele, ento. Sentindo-se mais disposto a cooperar, tornou a encher a xcara de Peabody e, em seguida, pegou um trapo, comeando a limpar o balco. Afinal, ele gerenciava um estabelecimento limpo. 
 Quer saber a respeito da bruxa? Ela nunca vem aqui. No bebe caf, se  que me entende. 
 A loja est fechada hoje. 
 Est?  Apertou os olhos para tentar olhar pela vidraa, atravs da chuva.  Isso no  comum. 
 Qual foi a ltima vez em que a viu? 
 Merda, deixe ver...  Coou a nuca.  Parece que eu a vi ontem. Foi na hora de fechar?... Sim, foi isso mesmo! Ela fecha s seis horas, e eu estava lavando os vidros da frente.  preciso lavar os vidros todo dia nesta cidade. A sujeira parece pular da rua para grudar nas janelas. 
 Aposto que sim. Ento ela fechou a loja s seis horas. E depois? 
 Saiu com o cara com quem ela mora. Foram caminhando pela rua. No usam transporte pblico. 
 E no tornou a v-la hoje? 
 Agora que mencionou o fato, acho que no. Ela mora em cima da loja, sabe? Quanto a mim, moro do outro lado da cidade. Vida pessoal e negcios no se misturam, esse  o meu lema. 
 Algum ligado a ela j veio aqui alguma vez? 
 No... alguns clientes, certamente. E alguns dos meus vo at l em busca de algum feitio. Convivemos bem, e ela nunca me trouxe problemas. Chegou at mesmo a trazer um presente de aniversrio para a minha mulher. Um lindo bracelete com pedras coloridas.  meio caro aquele troo, mas as mulheres bem que gostam de um brilho... 
Deixou o trapo de lado e ignorou o pedido de um cliente que pediu caf na ponta do balco. 
 Escute, ela est encrencada? Pelo que sei, ela  legal... Meio esquisita, talvez, mas no faz mal a ningum. 
 O que sabe a respeito da moa que costumava trabalhar l? Uma jovem, com dezoito anos mais ou menos. Loura... 
 A assustada? Claro, eu costumava v-la entrar e sair da loja. Vivia olhando para trs por sobre o ombro, como se estivesse com medo de algum pular em cima dela por trs gritando Boo!. 
Pois algum fez isso, pensou Eve. 
 Obrigada. Se reparar que Isis voltou, d uma ligada para mim.  Colocou um carto sobre o balco, junto com algumas fichas de crdito para pagar o caf. 
 Tudo bem... no gostaria de v-la em apuros. Ela  legal, apesar de pirada. Ei!...  Levantou os dedos quando Eve j se virava para ir embora.  Falando em gente pirada, vi um cara muito doido, anteontem, quando estava fechando a loja. 
 Que tipo de doido? 
 Era s um cara... bem, talvez fosse uma mulher. No deu para ver, porque ele estava todo coberto por um manto preto, com capuz e tudo. Ficou ali parado junto do meio-fio, do lado de c da calada, e olhando para a casa dela, do outro lado. Ficou ali em p um tempo, s olhando... fiquei at arrepiado! Fechei a loja e sa andando na outra direo. Andei o dobro do caminho at o ponto do nibus na outra rua, mas no gostei do jeito esquisito dele. E sabe da maior? Quando olhei para trs, no havia mais ningum l, s um gato. Muito bizarro... uma doideira, no acha? 
 ...  murmurou Eve  ...doideira. 
 Eu tambm vi um gato  disse Peabody, quando elas caminhavam de volta para o carro.  Estava na calada, quando Alice foi morta. 
 Tem um monte de gatos pela cidade. 
Mas Eve se lembrou do que vira na rampa. Tinha plo brilhoso, todo preto e um ar de mau. 
 Vamos tornar a procurar por Isis mais tarde. Quero conferir uma coisa com o mdico-legista, antes de dar declaraes para a mdia  continuou Eve, digitando um cdigo na maaneta para abrir o carro enquanto ouvia Peabody espirrar mais uma vez.  Talvez ele tenha alguma coisa para o seu resfriado l no necrotrio. 
 Prefiro passar em uma farmcia, se voc no se importar  reagiu Peabody, esfregando a mo sob o nariz.  No quero o dr. Morte tratando de mim, a no ser que seja absolutamente necessrio. 


J de volta em sua sala, enquanto Peabody foi colocar um uniforme seco e se encher de remdios que no exigiam receita e haviam lhe custado uma fortuna, Eve analisava o relatrio da autpsia de Lobar. 
Acertara a hora da morte ao fazer o relatrio preliminar, bem como a causa. Tambm, descobrir a causa no representava muita coisa, refletiu, pois era difcil algum deixar de reparar um corte profundo como aquele, com um metro de largura, alm da cratera no peito. E olhe s, quem diria?... Havia traos de um alucingeno, um estimulante e um bloqueador mental, todos ilegais, em sua corrente sangnea.
Ento ele morrera sexualmente saciado e doido. Eve imaginava que algumas pessoas diriam que isso no era um mau negcio. Por outro lado, a maioria delas nunca sentiu uma faca rasgando a sua garganta. 
Pegou a arma lacrada e a olhou com ateno. No havia impresses digitais,  claro, e ningum esperava que houvesse. Tambm no havia sangue, a no ser o da vtima. Observou o cabo preto, todo entalhado com smbolos e letras que no significavam nada para ela. Parecia antiga e rara, mas ela duvidava muito de que esse fato pudesse ajud-la a descobrir o dono. O comprimento da lmina estava dentro dos limites da legalidade, e um punhal daquele tipo no exigia registro. 
Mesmo assim, ela ia conferir em antiqurios, cutelarias e, ela imaginava, lojas de artigos de bruxaria. Aquilo ia demorar s algumas semanas, pensou, contrariada, e provavelmente no levaria a lugar algum. 
J que ela ainda tinha vinte minutos antes de enfrentar a mdia, virou-se para o computador e comeou a pesquisar. Mal se conectara e comeara a informar ao sistema as caractersticas da arma quando Feeney entrou na sala e fechou a porta. 
 Ouvi dizer que voc teve um despertar desagradvel nessa madrugada. 
 Foi...  O estmago de Eve se contorceu, no pela lembrana do que fora deixado em sua casa, mas por saber que ia ter de pesar cada palavra para conversar com Feeney.  Esse no  o tipo de pacote que gosto de receber. 
 Precisa de ajuda no que est pesquisando?  Sorriu, com o rosto cansado.  Estou atrs de trabalho, para me manter ocupado. 
 Est tudo sob controle, mas se eu precisar, aviso voc. 
Ele foi at a estreita janela da sala dela e voltou para a porta. Parecia exausto, pensou Eve. To cansado. To triste... 
 Como foi o lance? Voc conhecia o cara? 
 No exatamente.  Ah, Deus, como  que ela ia fazer?  Havia conversado com ele uma vez, ao investigar um caso no qual estava trabalhando, mas o papo no deu em nada. Talvez ele soubesse mais do que estava contando. Agora, vai ser difcil descobrir ao certo.  Respirou fundo, odiando a si mesma.  Acho que foi algum querendo indiretamente atingir a mim, ou a Roarke. A maioria dos tiras consegue manter o prprio endereo oculto das pessoas. Eu no...  Encolheu os ombros. 
  o preo que est pagando por ter se apaixonado por uma celebridade. Est feliz, Eve?  perguntou, de forma inesperada, virando-se para avaliar a expresso dela. 
 Claro.  Eve se perguntou se o ar de culpa estava estampado em sua testa como um luminoso em non. 
 timo, ento. timo.  Voltou a passear pela sala, balanando o pacote de amndoas aucaradas que sempre trazia no bolso e j no tinha apetite para curtir.   difcil ter este emprego e manter uma vida pessoal decente ao mesmo tempo. Frank conseguiu. 
 Eu sei. 
 O velrio de Alice  hoje  noite. Voc vai l? 
 No sei, Feeney. Vou tentar. 
 Estou arrasado, Dallas, arrasado de verdade. Minha esposa est com Brenda agora. Ela est devastada, simplesmente devastada! No podia mais ver aquilo, por isso vim at aqui. S que no estou conseguindo me concentrar em nada. 
 Por que no volta para casa, Feeney?  Eve se levantou, estendeu a mo e pousou-a em seu brao.  Simplesmente v para casa. Talvez voc e sua mulher devessem viajar por alguns dias. Voc tem folgas e pode us-las. Fuja de tudo isso. 
 Talvez...  Seus olhos, com duas olheiras imensas, ficaram sem expresso.  Como  que se pode fugir de uma coisa que nos acompanha o tempo todo? 
 Olhe, Roarke possui um lugar muito legal no Mxico.  fabuloso l!...  Ela estava sem jeito, desesperada para agrad-lo, e sabia disso.  Tem uma vista inacreditvel e a casa  toda equipada. S podia ser mesmo.  Conseguiu dar um sorriso.  Afinal, pertence a Roarke. Posso arrumar tudo com ele e voc pode ir para l. Leve sua famlia... 
 Levar a famlia  repetiu devagar, achando a idia quase tranqilizadora.  Talvez eu aceite. Parece que nunca temos tempo para passar com a famlia. Vou pensar no assunto  decidiu.  Obrigado. 
 No  nada, a casa  de Roarke e est l sem ningum usar.  Ela se virou para a mesa com a cabea longe, sem conseguir enxergar nada  sua frente.  Agora desculpe, Feeney. Tenho que me preparar para a entrevista coletiva. 
 Claro.  Forou um sorriso para ela.  Sei o quanto voc adora isso. Depois eu a aviso se ns resolvermos ir para esse lugar que voc ofereceu. 
 Sim, por favor.  Ficou olhando para a tela, at ela apagar. Cumprira as ordens, lembrou a si mesma... fizera o que era certo. 
Por que, ento, estava se sentindo uma traidora?
 



CAPTULO ONZE





E
ve foi uma das ltimas pessoas a chegar ao velrio e estava se sentindo grata por Roarke ter ido com ela. Tudo lhe pareceu muito familiar, pois a sala era a mesma do velrio de Frank; os cheiros eram os mesmos e mui-tas das pessoas tambm eram as mesmas. 
 Odeio isso  murmurou.  Morte esterilizada. 
 Serve de conforto. Eve olhou para o lugar onde Brenda estava sendo consolada pela me e pelo filho, enquanto lgrimas lhe desciam lentamente pelo rosto. Exibia o olhar vitrificado e delicado, tpico das pessoas que esto sob o efeito de calmantes muito fortes. 
 Ser que serve de algum conforto? 
 Fecha um ciclo  corrigiu ele, tomando as mos frias de Eve entre as suas.  Para alguns... 
 Quando chegar a minha hora, no faa isso, Roarke. Reaproveite as partes que conseguir, queime o resto e acabou-se! 
 No fale isso  pediu ele, sentindo um aperto no corao e segurando a mo dela com mais fora. 
 Desculpe. Tenho tendncia para pensamentos mrbidos em lugares como este. Olhe ali...  Parou de vagar com o olhar pela sala ao avistar Isis.  L est a minha bruxa. 
Roarke seguiu o olhar de Eve e analisou a mulher imponente com cabelos ruivos, da cor do fogo, que vestia um manto simples, branco como neve. Ela se mantinha em p ao lado do caixo, junto de um homem um palmo mais baixo do que ela. Ele usava um terno simples, em estilo quase conservador, tambm branco. Estavam de mos dadas. 
 Quem  o homem que est com ela? 
 No o conheo. Pode ser um dos membros de sua seita ou algo desse tipo. Vamos conferir. 
Eles se movimentaram atravs da sala e, como se tivessem combinado, se colocaram exatamente ao lado do casal. Eve olhou para Alice, com o rosto agora controlado e finalmente calmo. A morte tinha o dom especial de deixar as pessoas com o rosto relaxado e um ar tranqilo... depois que a agresso passava. 
 Ela no est aqui  disse Isis, baixinho.  Seu esprito continua em busca de paz. Pensei... pensei que fosse encontr-la aqui. Sinto muito por nos termos desencontrado hoje, Dallas. Estvamos reunidos em memria de Alice. 
 Voc no estava na loja nem em casa. 
 No. Resolvemos nos reunir em outro lugar, para realizar nossa prpria cerimnia. O senhor que trabalha do outro lado da rua me contou que voc esteve  minha procura.  Um sorriso leve se insinuou em volta de sua boca.  Ele ficou preocupado quando soube que uma policial andava atrs de mim. Tem um bom corao, apesar de sua falta de estabilidade espiritual  disse e deu um passo atrs para apresentar o homem ao seu lado.  Este  Chas. Meu companheiro. 
Os anos de treinamento ajudaram Eve a manter o rosto sem expresso, mas ela estava muito surpresa. Ele era um homem comum, na mesma medida em que Isis era uma mulher espetacular. Seus cabelos eram louros, meio desbotados e muito finos. Seu corpo era quase frgil, com ombros estreitos e pernas curtas. O rosto quadrado e sem feies marcantes seria demasiado comum se no fosse pelos olhos surpreendentes, em um tom profundo de cinza. Quando sorriu, foi com a doura que obriga as pessoas a sorrir de volta. 
 Sinto muito conhec-la sob circunstncias to tristes. Isis me disse que voc era dona de uma alma muito forte e determinada. Vejo que tinha razo, como sempre. 
Eve quase piscou ao ouvir sua voz. Tinha um tom de bartono, profundo e suave, o tipo de voz que qualquer cantor de pera adoraria possuir. Ela se pegou olhando fixamente para a boca que se movia e imaginando um boneco de ventrloquo. Aquele no era o ripo de voz que algum pudesse atribuir a um corpo e a um rosto como aqueles. 
 Preciso conversar com voc assim que possvel.  Olhou em volta, como se estivesse  procura de um lugar para onde pudesse escapar, a fim de interrog-la de forma discreta, mas viu que ia ter de esperar.  Este  Roarke  apresentou Eve. 
 Sim, eu sei  disse Isis, oferecendo-lhe a mo.  J nos encontramos. 
 J?  reagiu ele, com um sorriso educado, mas curioso.  No me imagino esquecendo o rosto de uma mulher to linda. 
 Foi em outra poca, em outro lugar...  seus olhos se mantiveram fixos nos dele  ...em outra vida. Uma vida que voc certa vez salvou. 
 E fui muito sbio ao fazer isso. 
 Sim, foi. E gentil. Talvez algum dia, ao revisitar o condado de Cork, voc encontre uma pedra que se sobressai em meio a um campo no cultivado... e ento se lembrar.  Tirando do pescoo a cruz de prata que usava, entregou-a a ele.  Voc me deu um talism naquela ocasio, parecido com esta cruz celta. Imagino que tenha sido por isso que senti vontade de us-la hoje. Foi para fechar um crculo. 
O metal, em contato com a sua mo, pareceu-me mais quente do que deveria e remexeu em algumas lembranas enevoadas que Roarke no fez questo de explorar. 
 Obrigado  agradeceu simplesmente, guardando a cruz no bolso. 
 Um dia devo retribuir o favor que me fez  completou ela, virando-se em seguida para Eve.  Estamos  sua disposio para conversar quando quiser, tenente Dallas. No , Chas? 
 Claro que sim, a qualquer hora que lhe for mais conveniente. Teriam interesse em assistir  nossa cerimnia? Gostaramos muito de compartilhar essa experincia com vocs. Est marcada para depois de amanh,  noite. Temos um pequeno lugar no campo.  calmo, muito privativo e, quando o tempo coopera, perfeito para rituais ao ar livre. Espero que vocs... 
Parou de falar de repente e seus impressionantes olhos acinzentados se tornaram mais escuros. Seu corpo magro se mexeu, assumindo uma rigidez que Eve reconheceu de imediato como a postura de algum que acaba de se colocar em guarda. 
 Ele no  um de ns  disse. 
Eve olhou em torno e avistou um homem de terno preto. Seu rosto era incrivelmente plido, emoldurado por um cabelo muito preto, com pontas cuneiformes. O terno caro e a pele descorada emprestavam-lhe a aparncia de algum adoentado e, ao mesmo tempo, bem-sucedido. 
Encaminhou-se na direo do caixo, mas reparou no grupo que j estava l. Em um movimento brusco, girou o corpo nos calcanhares e correu para fora. 
 Vou verificar  anunciou Eve. 
Ela j estava se movendo a passos largos quando Roarke a alcanou, dizendo: 
 Ns vamos verificar. 
 Seria melhor se voc ficasse l dentro, em companhia deles. 
 Vou ficar em companhia de voc. 
 No me venha tolher os movimentos e acabar com o meu estilo  reagiu Eve, lanando-lhe um olhar de frustrao. 
 Nem sonharia em fazer isso.
O homem que se retirava j estava quase correndo para alcanar a porta de sada. Eve s precisou tocar em seu brao para provocar-lhe um susto. 
 O que foi? O que quer de mim?  Ele se desvencilhou dela, empurrando a porta com fora e saindo para enfrentar a noite chuvosa.  Eu no fiz nada! 
 No? Ele parece muito culpado para algum que  inocente, no acha, Roarke?  Tornou a agarr-lo pelo brao, apertando com mais fora dessa vez, a fim de impedir que ele fugisse correndo como um coelho assustado.  Acho que o senhor devia me mostrar a sua identidade. 
 No devo lhe mostrar nada! 
 No  necessrio  disse Roarke com um tom de voz suave, agora que conseguira olhar melhor para o homem.  Thomas Wineburg, no ? Do Grupo Financeiro Wineburg. Voc est segurando uma figura perigosa, tenente. Um banqueiro! Da terceira gerao de uma famlia de grandes capitalistas. Ou ser da quarta? 
 Sou da quinta  disse Wineburg, tentando assumir um ar de desprezo ao olhar para algum que sua famlia considerava um novo-rico, com fortuna obtida de forma no muito decente.  No fiz nada que justifique ser importunado por algum da polcia acompanhada pela escria do mundo das finanas. 
 Eu sou da polcia  afirmou Eve, olhando para Roarke.  A escria do mundo das finanas s pode ser voc... 
 Ele est apenas revoltado pelo fato de eu no usar o seu banco em minhas transaes  reagiu Roarke, lanando-lhe um sorriso de lobo.  No  isso, Tommy? 
 No tenho nada para conversar com voc. 
 Bem, ento pode falar comigo  disse Eve.  Por que tanta pressa? 
 Eu... tenho um compromisso do qual havia me esquecido. E j estou atrasado! 
 Ento uns minutinhos a mais no vo fazer diferena. O senhor  amigo da famlia da falecida? 
 No. 
 Ah, entendi! Simplesmente, ento, o senhor gosta de matar o tempo, em uma noite chuvosa, dentro de uma sala de velrio. Ouvi dizer que essa  a nova onda para os solteiros. 
 Eu... eu entrei no prdio errado. 
 Acho que no... o que veio ver aqui? Ou quem? 
 Eu...  Seus olhos se arregalaram quando Isis e Chs apareceram, saindo pela porta.  Fiquem longe de mim! 
 Desculpe, Dallas  explicou Isis.  Ficamos preocupados quando vimos que vocs estavam demorando a voltar.  Desviou o olhar extico para o rosto de Wineburg.  Sua aura  escura e turva  afirmou.  Tem interesse pelo oculto, sem acreditar por completo. Brinca com poderes que esto alm do seu alcance. Se no mudar de rumo, em breve encontrar a maldio! 
 Mantenha essa mulher longe de mim!  Ainda tentando escapar da mo firme de Eve, Wineburg se encolheu todo. 
 Ela no est machucando ningum. O que sabe a respeito da morte de Alice, sr. Wineburg? 
 No sei de nada.  Seu tom de voz ficou mais agudo.  No sei de coisa alguma a respeito de nada. Errei de endereo. Tenho um compromisso. A senhora no pode me deter! 
No, ela realmente no podia, mas podia pelo menos deix-lo um pouco assustado. 
 No posso prend-lo, mas posso lev-lo para a Central de Polcia e brincar com o senhor por algum tempo, at o seu advogado conseguir chegar l para libert-lo. Isso no ia ser divertido? 
 Eu no fiz nada.  E para surpresa e leve repulsa de Eve, ele comeou a soluar como um beb.  A senhora tem que me deixar ir embora. No fao parte de nada disso! 
 No faz parte do qu? 
 Fui l apenas pelo sexo. S isso. Apenas pelo sexo. No sabia que algum ia morrer. Havia sangue em toda parte. Em toda parte! Meu Deus, eu no sabia! 
 Onde havia sangue? O que o senhor viu? 
Wineburg continuava a soluar, e quando Eve ajeitou o corpo e diminuiu um pouco a presso em seu brao, ele enfiou-lhe o cotovelo ossudo na barriga, o que a fez voar com violncia sobre Roarke, com tanta fora que os dois caram de costas na calada. 
Mais tarde, Eve ia se xingar por ter permitido que ele a pegasse desprevenida, com o seu choramingo. Naquele momento, porm, o que fez foi se levantar com alguma dificuldade. Sugou o ar com fora para recuperar as foras e saiu correndo atrs dele. 
Filho-da-me... era s nisso que Eve conseguia pensar. Ele a deixara sem ar e a impedira de xingar alto ou de lhe dar voz de priso, se ele no parasse na mesma hora. 
Pegou a arma no instante em que ele se virou e entrou em uma garagem subterrnea, desaparecendo em meio ao mar de veculos. 
 Merda!  Pelo menos ela conseguiu ar suficiente para soltar o palavro, e logo em seguida olhou para trs, irritada com Roarke, que chegava correndo logo atrs.  Saia daqui! Que droga, Roarke, imagino que ele esteja desarmado, mas voc eu tenho certeza! Ligue para a emergncia se quiser fazer algo de til. 
 O dia em que vou deixar um banqueiro beb-choro me jogar de bunda no cho e escapar ileso ainda no chegou.  Desviou, entrando em uma passagem entre os carros, circulando para peg-lo pelo outro lado, o que a deixou de cara feia. 
A iluminao do lugar era ofuscante, mas a oportunidade para se esconder era infinita. Os ecos dos passos de algum que corria rebatiam pelas paredes, pelo piso e pelo teto baixo. Confiando em seu instinto, Eve se moveu para a esquerda.
 Wineburg, voc no est se ajudando agindo dessa forma! J vai ser fichado por agresso a uma policial. Se sair por conta prpria, sem que eu precise ir a para desentoc-lo, posso aliviar um pouco a sua barra. 
Agachada, ela seguia ao longo de cada uma das estreitas fileiras entre os carros, se abaixava para olhar por baixo deles e seguia para a fileira seguinte. 
 Roarke, pare de correr por um instante, droga, para que eu consiga localiz-lo.  Os ecos diminuram um pouco, permitindo que Eve escutasse com mais ateno, seguisse em frente e virasse  esquerda, correndo ainda mais depressa. Ele estava subindo a rampa, decidiu ela. Tinha esperana de escapar pelo andar de cima. 
Ao subir a rampa, ela girou o corpo e se preparou, apontando a arma ao ouvir passos atrs dela... era Roarke. 
 Eu devia saber.  Foi tudo o que conseguiu dizer ao v-lo ultrapass-la, correndo. Ela foi em frente e continuou a perseguio.  Ele est pensando em ir para os andares de cima!  gritou na direo de Roarke.  O idiota continua correndo e vai acabar se colocando em um beco sem sada. Tudo o que precisava fazer era parar e se agachar atrs de um pneu... eu ia precisar de um batalho para localiz-lo. 
 Ele est apavorado. Quando voc est apavorado, corre...  Olhou para Eve e se sentiu ridiculamente revigorado quando os dois chegaram  rampa do andar seguinte.  Pelo menos, alguns fazem isso. 
Ento os passos silenciaram. Eve esticou o brao para manter Roarke parado no lugar, prendeu a respirao e aguou os ouvidos. 
 Que diabo de som  esse? 
  um cntico. 
 Minha nossa!  Seu corao deu um pulo. Saiu correndo novamente, no exato momento em que um brado longo e aterrorizante cortou o ar. O grito alucinante parecia continuar, sem fim, muito alto, de forma horrvel e inumana. Ento parou e fez-se um silncio sepulcral. Eve pegou o comunicador, sem diminuir o passo.  Policial precisando de reforo! Policial precisando de reforo! Edifcio-garagem na esquina da rua 49 com a Segunda Avenida. Repetindo: aqui  a tenente Eve Dallas! Estou perseguindo um... ora, que droga, responda! 
 Aqui  da emergncia, tenente Eve Dallas, por favor, repita.
Ela nem se deu ao trabalho de verificar o corpo estendido em uma poa de sangue que comeava a se espalhar sobre o piso de concreto. Uma olhada nos olhos da vtima, arregalados de terror, e o cabo entalhado de um punhal que estava espetado em seu corao j foram o suficiente para determinar a morte. Wineburg correra na direo errada. 
 Preciso de reforo, agora! Acaba de acontecer um homicdio. O criminoso, ou os criminosos, ainda deve estar nas dependncias. Envie todas as patrulhas disponveis para este endereo. Ordene que eles bloqueiem as sadas e efetuem uma busca minuciosa. Preciso tambm de meu kit de servio e de minha auxiliar. 
 Entendido! Patrulhas a caminho! Emergncia desligando! 
 Tenho que fazer uma busca  disse a Roarke. 
 Eu compreendo. 
 No estou com o meu galhinho de proteo, seno eu o emprestaria para voc. Preciso que fique aqui, junto do corpo. 
 Ele no vai a lugar algum  disse Roarke, olhando para Wineburg estendido no cho e sentindo um pouco de pena. 
 Preciso que fique aqui  repetiu ela , caso eles voltem por esse lado. No banque o heri! 
 E voc tambm  disse ele, concordando com a cabea. 
 Droga!  Eve deu uma ltima olhada no corpo e desabafou, com a voz cansada:  Eu devia t-lo segurado com mais fora. 
E se afastou dali, agachando-se e caminhando bem devagar, olhando para os carros e os cantos da garagem, mas sem muita esperana. 


Ele j a vira trabalhar antes, observara e admirara a sua eficincia. Apreciara a rea delimitada e completamente focada que ela criava em torno dos mortos. Roarke se perguntou se ela chegava a compreender o porqu de agir daquela forma, ou como conseguia, ao examinar com objetividade um corpo sem vida e violentamente assassinado, ver atravs do pesar que assombrava os prprios olhos. 
Jamais perguntara nada disso a ela. E duvidava de que algum dia fosse faz-lo. 
Observou-a enquanto ela ordenava a Peabody que gravasse a cena do crime por outro ngulo, e a viu chamar um policial em um canto. Certamente ele era um recruta que no estava agentando muito bem o horror do que via. Eve mandou-o resolver alguma coisa fora dali, e Roarke imaginou que ela fizera isso para que ele se sentisse  vontade para passar mal sem que ningum testemunhasse. 
Alguns daqueles profissionais jamais se acostumavam com o sangue ou o fedor dos intestinos das vtimas, que se aliviavam no momento da morte. 
As luzes eram furiosamente brilhantes e realmente no tinham piedade. A ferida no corao sangrara em profuso. Ela vestira um conjunto preto e colocara saltos altos para ir ao velrio. Agora, tanto os sapatos quanto a roupa ficariam arruinados. Ela estava ajoelhada ao lado do corpo, desfiando as meias no concreto enquanto removia a arma do crime, agora que a cena j fora devidamente gravada. 
Ela colocou a arma em um saco plstico apropriado e o lacrou, para servir de prova, mas Roarke conseguira dar uma boa olhada nela. O cabo era marrom-escuro, possivelmente feito com o chifre de algum animal. No entanto, no havia dvida alguma a respeito da similaridade dessa arma com a que fora deixada cravada na vtima anterior. Um athame. Um punhal ritualstico. 
 Mau sinal!  disse ela. 
Roarke emitiu um som de concordncia, enquanto via Feeney se aproximar, vindo em sua direo. Roarke notou que ele estava com a aparncia fragilizada, o que era incomum. Eve tinha razo por estar preocupada com ele. 
 Sabe alguma coisa a respeito disso, Roarke? No consegui entender muita coisa, ouvi apenas que Dallas estava conversando com um sujeito do lado de fora do velrio quando ele fugiu e acabou morto. 
 Foi o que aconteceu. Ele parecia nervoso por causa de alguma coisa. Aparentemente, tinha motivos para isso.  Roarke no queria se envolver com o problema entre Eve e Feeney e decidiu se manter de fora.  Espero que aceite o convite de Eve para passar alguns dias com a famlia em nossa casa no Mxico. 
 Ainda vou resolver sobre isso com a minha esposa. Muito obrigado.  Levantou os ombros em seguida e afirmou:  Acho que ela no precisa de mim por aqui. Vou para casa.  Mas ficou analisando a cena do crime por mais um minuto. A fadiga em seus olhos ocultava um policial astuto.  Que troo estranho um sujeito ser atacado aqui nessa rea. O punhal sofisticado que cravaram no cara deixado ontem na porta de sua casa era parecido com esse, no era? 
 O outro tinha um cabo preto. E era de metal, acho. 
 . Bem...  Ele se balanou para a frente e para trs sobre os calcanhares.   melhor eu ir para casa. 
Passou por Eve com cuidado, para evitar chegar muito perto da cena do crime sem passar spray selante nos sapatos. Ela olhou para cima, distrada, limpando o sangue das mos com um trapo. Acompanhou a figura de Feeney, at se assegurar de que ele sara de vista. Levantando-se, passou as mos ainda no limpas de todo pelos cabelos. 
 Podem ensac-lo!  autorizou, e foi at Roarke.  Vou at a central para fazer o relatrio, enquanto ainda estou com os fatos frescos na cabea. 
 Tudo bem  disse e pegou-a pelo brao. 
 No, voc deve ir para casa. Vou de carona com algum da equipe. 
 Vou lev-la. 
 Mas Peabody... 
 Peabody pode ir de carona com algum da equipe.  Ela precisava de alguns minutos, ele sabia, para poder relaxar. Apertou um boto em seu aparelho de pulso para emitir um sinal para o motorista. 
 Vou me sentir uma idiota, saltando de uma limusine na porta da Central de Polcia  resmungou. 
  mesmo? Pois eu no.  Foi caminhando com ela at a sada da garagem e deu a volta pela calada at chegar  porta do salo onde ocorria o velrio. A limusine surgiu de imediato, parando junto ao meio-fio.  Voc pode dar uma respirada pelo caminho  sugeriu ao entrar logo depois dela , e posso tomar um conhaque.  Serviu-se de uma garrafa de cristal e, conhecendo bem Eve, programou um caf para ela. 
 Bem, j que vamos ter um tempinho juntos, Roarke, voc pode aproveitar e me contar o que sabe a respeito de Wineburg. 
 Era um daqueles irritantes rapazes riquinhos e paparicados. 
Eve tomou um gole do caf quente e encorpado que lhe foi servido em uma xcara de fina porcelana e lanou um olhar longo e frio para Roarke, para sua limusine luxuosa e para o conhaque carssimo, dizendo: 
 Voc  um rapaz riquinho... 
 Sou.  Sorriu.  Mas paparicado?... Certamente no.  Balanou o conhaque dentro da taa, mantendo o sorriso.  Esse fato evita que eu seja irritante. 
 Voc acha?  O caf ajudou e fez os seus circuitos comearem a trabalhar de forma mais afinada.  Ento ele era um banqueiro. Administrava o Grupo Financeiro Wineburg. 
  pouco provvel... seu pai ainda  forte e saudvel. Tommy era peixe pequeno, uma espcie de subordinado. O tipo de sujeito que recebe do papai um ttulo intil e uma sala imensa. Devia torrar todo o dinheiro que caa em sua conta bancria, encaminhava alguns formulrios na empresa e em seguida saa para a consulta semanal com a esteticista. 
 Entendi, voc no gostava dele. 
 Na verdade, eu nem o conhecia pessoalmente.  Balanou a bebida mais uma vez de forma casual e tomou outro gole.  Simplesmente conheo o tipo. No tenho negcios com os Wineburg. No incio da minha... carreira, precisei de financiamento para alguns projetos. Eram projetos legalizados  acrescentou ao ver o olhar especulativo de Eve.  Eles no me deixaram nem passar pela porta. Eu estava abaixo do padro de sua clientela. Ento arrumei financiamento em outro lugar e consegui me dar bem. As Organizaes Wineburg no aceitaram muito bem o meu sucesso. 
 Ento eles so uma instituio conservadora, fundada e administrada pela famlia. 
 Exato! 
 Seria embaraoso para o pai ver o primognito... ele era o primognito? 
 Se existe algo do tipo primognito de segunda classe, ele era. 
 Bem, seria embaraoso v-lo envolvido com satanismo, alm de no ficar bem na foto do piquenique anual da empresa. 
 A diretoria toda ia ficar branca de choque, e ento, sendo da famlia ou no, o pequeno Wineburg ia levar um p na bunda. 
 Ele no me pareceu o tipo de sujeito que se arrisca a passar por isso, mas nunca se sabe... Sexo, ele disse. Foi s pelo sexo... ele pode ter sido um dos sujeitos que estavam l na noite que Alice descreveu. Sentiu-se culpado e apareceu no velrio. Uma coisa eu garanto: estava apavorado. Ele viu alguma coisa, Roarke, viu algum ser assassinado, eu sei disso! Se eu tivesse conseguido lev-lo para a delegacia, ia acabar arrancando a histria toda dele. Acho que levaria menos de dez minutos para dobr-lo. 
 Pelo jeito, mais algum tambm achava isso. 
 Algum que estava bem ali, de olho no lance. Vigiando-o. Vigiando o velrio. 
 Ou vigiando voc  concluiu Roarke.  O que  mais provvel. 
 Tomara mesmo que estivessem me vigiando, porque, quando menos esperarem, eu me viro, pulo em cima deles e ataco direto na jugular.  Olhou para cima quando a limusine parou na porta da Central de Polcia. Ligeiramente sem graa, ela olhou pela janela, a fim de ver se no havia nenhum tira circulando pela rea. Se eles a avistassem descendo daquele carro, iam ficar de zoao por vrios dias.  Agora, vamos nos ver s em casa. Vou levar umas duas horas. 
 Eu espero. 
 No seja ridculo. V para casa.
Ele simplesmente se recostou no banco e ordenou ao monitor que lhe informasse a lista com as cotaes do dia na Bolsa de Valores. 
 Eu espero  repetiu, servindo-se de mais um conhaque. 
 Cabea-dura!  murmurou ela ao sair, e ento se encolheu toda ao ouvir algum cham-la pelo nome. 
 Dallas... voc resolveu aparecer aqui na favela para trabalhar um pouco em companhia dos pobretes? 
 No enche, Carter!  reagiu, e entrou depressa, antes que a irritao causada pela sua risada a fizesse quebrar-lhe a cara. 


Uma hora depois, ela j estava de volta, com cara de cansada e soltando fagulhas de raiva. 
 Carter acabou de anunciar pelos alto-falantes que minha carruagem j estava  espera. Que idiota! No sei se dou um chute na bunda dele ou na sua. 
 Chute a dele  sugeriu Roarke, e envolveu-a com o brao. Ele j acabara de ver as cotaes e trocara o trabalho pelo prazer. Assistia a um filme antigo na tela do carro. 
Ela sentiu no ar o cheiro de tabaco do mais caro, e gostaria de poder dizer que aquilo a irritava. A verdade, porm,  que a deixava mais calma, bem como o brao dele em seu ombro e o velho filme em preto e branco. 
 Que filme  esse? 
 Humphrey Bogart e Lauren Bacall. O primeiro filme que fizeram juntos. Ela estava com dezenove anos, acho. Preste ateno nessa cena... 
Eve esticou as pernas e ouviu Bacall perguntar a Bogart se ele sabia assobiar, e seus lbios se agitaram. 
 Esperta...  comentou Eve. 
  um bom filme. Precisamos v-lo inteiro, qualquer hora dessas. Voc est tensa, tenente. 
 Talvez. 
 Vamos ter que cuidar disso.  Ele se virou para o lado, servindo-lhe um clice com haste comprida, cheio de um lquido com cor de palha.  Beba. 
 O que  isso? 
 Vinho... apenas vinho.
Ela cheirou a bebida, com ar desconfiado. Era bem capaz de ele ter colocado algum calmante na bebida, e ela sabia disso. 
 Olha l, hein... vou ter que trabalhar um pouco quando chegar em casa, e preciso estar com a mente alerta. 
 Mas voc vai ter que parar para descansar em algum momento... relaxe. Sua cabea pode ficar alerta pela manh. 
Ele tinha razo. Ela estava com dados demais na cabea, e nenhum deles estava adiantando. Com aquela, j eram quatro mortes, e ela no estava nem um pouco mais perto da soluo. Talvez sair do ar por algumas horas a fizesse enxergar melhor. 
 Quem quer que tenha assassinado Wineburg, agiu de forma rpida, silenciosa... e astuta, atingindo-o direto no corao. Corte a garganta de algum e voc vai se cobrir todo de sangue. Atinja o corao e a morte vem depressa, com o mnimo de sujeira. 
 Hum-hum...  Roarke comeou a massagear a nuca de Eve. Aquilo sempre funcionava para acabar com o seu estresse. 
 Chegamos quanto tempo depois? Trinta, quarenta segundos? Foi rpido, muito rpido. Se Wineburg fraquejou, pode haver mais gente na mesma situao. Preciso conseguir a lista dos membros dessa seita. Tem que haver um modo.  Tomou um gole do vinho.  Sobre o que voc e Feeney estavam conversando? 
 Mxico. Pare de se preocupar com tudo. 
 Certo, certo.  Recostou a cabea para trs, fechando os olhos pelo que lhe pareceu trs segundos. Quando tornou a abri-los, eles j haviam passado pelos portes e o carro j estava parando na porta de casa.  Eu dormi? 
 Por mais ou menos cinco minutos.  Aquilo era s vinho mesmo? 
 Pode acreditar. O prximo passo do nosso programa  um banho quente. 
 Um banho agora no tem nada...  Reconsiderou ao pisar dentro de casa.  Bem, na verdade a idia me parece muito boa. 
Dez minutos depois, enquanto a gua enchia a banheira e formava redemoinhos sob o poder dos jatos, a idia comeou a lhe parecer ainda melhor. Mas ela arqueou uma sobrancelha quando viu Roarke comear a se despir. 
 Para quem  o banho, afinal, para mim ou para voc? 
 Para ns.  Deu-lhe um tapa no traseiro, empurrando-a na direo da banheira. 
 Por mim, tudo bem. Vou lhe dar a oportunidade para explicar tudo sobre essa histria de salvar a vida de uma linda mulher. 
 Humm...  Ele deslizou para dentro da gua cheia de espuma, colocando-se de frente para ela.  Bem, no posso me responsabilizar por fatos que aconteceram em uma vida passada.  Entregou a Eve outra taa de vinho que ele tivera a perspiccia de encher.  Ou posso? 
 No sei. No existe aquela teoria segundo a qual as pessoas repetem as coisas que fizeram ou aprendem com elas?  Segurou a taa acima da cabea e submergiu com a cabea para trs, voltando  superfcie logo em seguida, com um gemido de prazer.  Voc acha que era amante dela? 
Pensando bem na resposta que ia dar, ele fez deslizar a ponta do dedo para cima e para baixo da perna de Eve, e disse, por fim: 
 Se ela tinha a aparncia que tem agora, eu espero que sim. 
 Sei...  Lanou-lhe um sorriso azedo.  Voc tem mesmo cara de quem procurava mulheres grandes, lindas e exticas.  Encolhendo os ombros, bebeu mais vinho e brincou com a haste comprida da taa.  Muita gente acha que voc fugiu totalmente do seu estilo, que no tinha nada a ver com o meu. 
 Muita gente? 
 Claro.  Ela bebeu todo o resto do vinho e colocou a taa de lado.  Sinto os olhares e os sussurros quando temos que ficar fazendo sala para alguns dos seus scios ricos e esnobes. No posso culp-los por se perguntarem o que deu em voc. Eu no sou grande, nem linda, nem extica. 
 No, no .  magra, adorvel, forte. No  de admirar que eu tenha cado de quatro. 
Eve se sentiu ridcula e desconcertada. Ele conseguia faz-la ficar assim s com o jeito de olhar para ela. 
 No estou querendo elogios  murmurou. 
 O que me surpreende  voc ter dado alguma importncia ao que algum dos meus scios possa pensar de ns dois. 
 Eu no dou importncia.  Droga, ela ia acabar estragando as coisas.  Estava apenas fazendo uma observao. O vinho deve estar deixando a minha lngua solta. 
 Voc me deixa aborrecido, Eve...  sua voz estava perigosamente fria, um sinal que ela reconhecia bem  ...ao criticar o meu gosto dessa forma. 
 Ah, deixa isso pra l!...  Tornou a mergulhar a cabea, voltando  superfcie depressa, quando as mos dele a seguraram pela cintura.  Ei, o que est tentando fazer, me afogar?  Piscou para fazer escorrer a gua dos olhos e viu que ele realmente parecia chateado.  Escute, Roarke... 
 No, escute voc, e escute bem!  Esmagou sua boca contra a dela, de forma ardente, faminta e apressada, deixando-a tonta e excitada.  Vamos passar para a terceira parte do programa um pouco mais cedo  disse ele, o que deu a ela a chance de sugar um pouco de ar para os pulmes.  Agora eu vou lhe mostrar por que eu no fugi nem um milmetro do meu estilo ao me envolver com voc, tenente, nem um milmetro! Eu no cometo erros. 
Ela lanou-lhe um olhar de deboche, apesar de sentir o sangue fervilhar sob a pele. 
 Esse papo arrogante de sempre no funciona comigo no. J disse que tudo deve ter sido efeito do vinho. 
 Voc no vai poder culpar o vinho pelo que vou fazer com voc  prometeu ele, inclinando as mos de forma que seus polegares se colocaram no espao vulnervel entre a coxa dela e a virilha.  Voc no vai poder colocar a culpa no vinho quando eu a fizer gritar. 
 Eu no vou gritar.  Mas sua cabea tombou para trs quando um gemido saiu dos seus lbios.  Mal consigo respirar quando voc faz isso. 
 Ento no respire.  Ele a levantou pelas costas at que seus seios surgissem acima da linha dgua, enquanto suas mos trabalhavam sem parar na parte de baixo. Abaixando a cabea, cravou os dentes em um ponto onde a gua escorria.  Vou possu-la agora, e voc vai me deixar fazer isso. 
 No quero ser possuda, a no ser que eu tambm possua voc.  Mas no instante em que seus braos tentaram enla-lo, ele provocou-lhe um orgasmo, seu corpo corcoveou e os braos ficaram moles. 
 Dessa vez, no...  Subitamente, ele se sentiu vido por ela, exatamente como ela estava naquele momento, com o corpo mole, aberto e descuidado. 
 Como voc consegue fazer isso?  Suas palavras saram fracas e engroladas. Ele quase riu, embora o desejo estivesse to forte que chegava a doer. Sem dizer nada, ele ficou em p e a pegou no colo. Seus olhos estremeceram, tentando permanecer abertos, enquanto ele a carregava para fora da banheira. 
 Quero voc na cama!  disse.  Quero voc toda molhada, por dentro e por fora. Quero que o seu corpo estremea quando eu toc-lo.  Ele a colocou de costas sobre o lenol, levando a boca direto para a sua garganta.  Quero saborear voc! 
Ela parecia bbada, sem controle e dcil demais para se sentir chocada, enquanto as mos dele voltaram a trabalhar. Ela empinou o corpo, em busca dele, mas ele se deixou escorregar por cima dela e veio descendo pelo seu corpo mido, com as mos geis e a boca apressada. Ela no conseguia acompanhar o ritmo dele. Agora seu corpo ficara rgido, como um punho cerrado, pronto para golpear. Ela gozou de forma violenta e abrupta, sem conseguir ouvir o prprio grito. 
Ele tomava tudo o que queria. Tudo. O sangue dele pulsava mais depressa e se tornava mais quente a cada vez que ele a fazia ultrapassar os prprios limites. A pele dos dois estava molhada e quente, banhada em suor enquanto ele continuava a reger os acontecimentos de forma implacvel. 
Quando a necessidade de estar dentro dela se tornou insuportvel, ele a elevou um pouco e abriu mais as suas pernas, at senti-las dobradas e apertando a sua cintura. E quando os braos dela o enlaaram com fora, seu corpo tremendo de encontro ao dele, ele apertou-lhe os quadris e a penetrou de uma vez s, em uma estocada profunda. 
Sua boca encontrou o seio dela e sentiu a batida selvagem e descompassada do seu corao por baixo da carne mida. Quando ela tornou a alcanar o clmax, apertando-lhe o membro com os msculos como se fossem mos de ferro em luvas de seda, ele se segurou. 
 Olhe para mim!  Ele arqueou o corpo dela, sentindo os quadris que se mexiam e o corpo que estremecia sob o dele. Uma nova onda de excitao o atingiu quando ele se impulsionou mais fundo dentro dela.  Olhe para mim, Eve.  Ele passeava as mos pelo corpo dela, moldando cada curva enquanto continuava com novas investidas, lentas e constantes. A respirao dele se acelerou e seu controle parecia estar sobre um cordo fino que se desfiava. 
Ela abriu os olhos. Estavam vidrados, pesados, mas olhavam para ele. 
 Voc  a mulher certa!  disse ele, colando ainda mais seu corpo com o dela.  Voc  a nica! 
Sua boca tornou a se lanar sobre a dela, encontrando-a aberta e faminta, enquanto ele se esvaziava dentro de seu corpo. 


Pela primeira vez, ele dormiu antes dela. Eve ficou deitada no escuro, ouvindo-o respirar, roubando um pouco do calor do corpo dele enquanto o dela esfriava. J que ele estava dormindo, ela acariciou seu cabelo. 
 Eu amo voc  murmurou ela.  Amo tanto que me sinto uma idiota por causa disso. 
Dando um suspiro, deixou-se acomodar junto dele, fechou os olhos e se obrigou a esvaziar a mente. 
Ao seu lado, Roarke sorria no escuro. 
Ele jamais dormia antes dela.

 



CAPTULO DOZE





E
m seu escritrio em um andar muito alto no centro, que pairava sobre a cidade, Roarke estava dando por encerrada a ltima reunio da manh. Originalmente, fora planejado que ele ia concluir aquela negociao em Roterd, mas ele arranjara as coisas de forma a participar da reunio a-travs de via hologrfca, a fim de permanecer perto de casa. Perto de E-ve. 
Estava sentado  cabeceira de sua reluzente mesa de conferncias e sabia que sua imagem estava sendo projetada em uma mesa similar, no outro lado do oceano. Sua assistente sentava-se  sua esquerda e lhe entregava todos os papis importantes, para a sua aprovao e assinatura. Seu tradutor estava  sua direita, para servir de apoio caso ele tivesse algum problema com o fone computadorizado que usava, programado para decodificar idiomas. 
A diretoria da ScanAir estava sentada nas outras cadeiras em volta da mesa. Ou, melhor dizendo, as suas imagens estavam. Aquele havia sido um ano muito bom para as Empresas Roarke e suas subsidirias. No entanto, no havia sido um ano agradvel para a ScanAir, que vinha de uma srie de anos seguidos no vermelho. Roarke estava lhes fazendo um favor ao encampar a empresa. 
Pelas expresses sisudas nos rostos de vrios dos rostos hologrficos, eles no pareciam muito agradecidos. 
A companhia precisava de ajustes, o que significava que as confortveis posies que algumas daquelas pessoas ocupavam teriam que ser enxutas, com reduo de salrios e responsabilidades. Alguns cargos seriam at mesmo eliminados. Roarke j selecionara vrios homens e mulheres que estavam dispostos a se transferirem para Roterd, a fim de recolocar a companhia area nos eixos. 
Enquanto a traduo era lida em um tom montono por uma voz gerada por computador, ele observava os rostos e a linguagem corporal dos executivos. De vez em quando conferia com o tradutor algumas sutilezas do texto, bem como questes de sintaxe. 
Ele j conhecia cada frase e cada termo do contrato de aquisio do controle da empresa. Roarke no estava pagando o que a diretoria esperava. Os diretores, por sua vez, torciam para que o exame da situao da companhia no tivesse revelado algumas das suas dificuldades financeiras mais delicadas e bem escondidas. 
Roarke no podia culp-los por isso. Ele teria feito o mesmo. Suas avaliaes, porm, eram sempre abrangentes e mostravam tudo. 
Ele assinou seu nome em cada cpia, datou o documento e passou os contratos para sua assistente assinar tambm, como testemunha, e selar o acordo. Ela se levantou e colocou os contratos em um fax a laser. Segundos depois, a cpia j atravessara o oceano e estava sendo assinada pela outra parte. 
 Minhas congratulaes por sua aposentadoria, sr. Vanderlay  cumprimentou Roarke de forma simptica ao ver os contratos j assinados chegando de volta para ele.  Espero que o senhor a aproveite bem. 
Isto foi recebido por um neutro aceno de cabea e um agradecimento formal. Os hologramas se apagaram. 
 As pessoas nem sempre parecem gratas quando recebem grandes quantidades de dinheiro, no lhe parece, Caro?  perguntou Roarke para a secretria, recostando-se na cadeira, com ar divertido. 
 No, senhor.  Ela estava muito bem arrumada, com os cabelos brancos como neve e ofuscantes, que combinavam com um estilo glorioso. Levantando-se, ela pegou os documentos em papel, bem como os discos da transao gravados, para arquiv-los. Seu conjunto elegante, de cor ferrugem, exibia um par de pernas maravilhosamente torneadas.  Parecero ainda menos agradecidos quando o senhor transformar a ScanAir em uma companhia de sucesso. Em menos de um ano, eu diria. 
 Dez meses.  Ele se virou para o tradutor com um ar grato. 
 Obrigado, Petrov, seus servios foram inestimveis, como sempre. 
 O prazer foi todo meu, senhor.  Petrov era um andride, projetado por uma das companhias de pesquisa cientfica de Roarke. Era magro e vestia um terno escuro muito bem cortado. Seu rosto era atraente, mas no tanto a ponto de distrair o interlocutor, e fora projetado para simular um homem de meia-idade com ar confivel. Vrios exemplares daquele modelo haviam sido vendidos para a ONU. 
 Gostaria de fazer uma hora de intervalo, Caro, antes da prxima reunio. Tenho alguns assuntos pessoais para resolver. 
 O senhor est com um almoo marcado para uma hora da tarde com os administradores da Sky Ways, a fim de discutir a compra da ScanAir, bem como estratgias publicitrias. 
 Aqui mesmo ou fora do prdio? 
 Aqui, senhor, na sala de refeies para executivos. O senhor aprovou o cardpio na semana passada  sorriu ela , antes mesmo de conhecer o resultado final das negociaes com a ScanAir. 
 Certo, lembrei-me agora... estarei l.  Saiu por uma porta lateral que dava para a sua sala. Antes de ir para a mesa, trancou todas as fechaduras. No era estritamente necessrio fazer isso. Caro jamais entraria ali sem se anunciar primeiro, mas em certas questes valia a pena ser cauteloso. O trabalho que tencionava realizar no poderia aparecer em seus registros. Seria melhor fazer aquilo em casa, mas ele estava com a agenda apertada. E Eve, lembrou, tambm estava. 
J sentado diante do computador em sua mesa, ligou o campo de interferncia que servia para bloquear qualquer rastreamento que fosse feito pelo CompuGuard, o sistema anti-hackers da polcia. Qualquer atividade nessa rea no era bem-vista pela lei e os castigos eram pesados. 
 Computador!  ordenou ele.  Quero dados sobre os membros da filial nova-iorquina da Igreja de Satans, dirigida por Selina Cross. 

Pesquisando... Os dados esto protegidos pela lei de privacidade e proteo s atividades religiosas. Requisio negada. 

Roarke simplesmente sorriu. Ele adorava um desafio. 
 Bem  disse ele , acho que podemos fazer voc mudar de idia a respeito disso.  Preparando-se para se distrair, despiu o palet do terno, arregaou as mangas e ps-se a trabalhar. 


Tambm no centro, Eve andava de um lado para outro dentro do consultrio da dra. Mira, lindo e projetado para acalmar as pessoas. Ela, porm, jamais se sentia completamente relaxada ali. Confiava nas avaliaes de Mira, sempre fora assim. H alguns meses, passara a confiar na mdica tambm em nvel pessoal... na medida do possvel. Mas isso no a deixava relaxada. 
Mira sabia mais a respeito dela do que qualquer outra pessoa. Mais at, Eve suspeitava, do que ela mesma. Encarar algum com este tipo de intimidade e conhecimento sobre ela no era nada relaxante. 
Mas Eve no fora at ali para falar de assuntos pessoais, e fez questo de lembrar isso a si mesma. Estava ali para falar de assassinato. 
Mira abriu a porta e entrou. Seu sorriso era suave, caloroso e pessoal. Ela sempre parecia to controlada, to... perfeita, decidiu Eve. Jamais espalhafatosa nem desarrumada, a mdica passava uma sensao de calma e competncia. Naquele dia, em vez da roupa de costume, Mira usava um vestido reto, em um tom claro de cor de abbora e um casaco com um nico boto, que combinava e tinha o mesmo comprimento do vestido, um pouco acima do joelho. Seus sapatos eram em um tom ligeiramente mais escuro do que o da roupa e tinham aqueles saltos estonteantemente altos que algumas mulheres usavam por escolha, algo que deixava Eve sempre impressionada. 
Mira ofereceu-lhe as duas mos como cumprimento, um gesto de afeio que deixava Eve confusa e ao mesmo tempo satisfeita. 
 Que bom v-la de volta em boa forma, pronta para a luta, Eve. No teve mais problemas com o joelho? 
 Como?  Com um leve franzir das sobrancelhas, Eve olhou para baixo, lembrando-se ento do ferimento que sofrer ao resolver um caso, recentemente.  Ah, no... os paramdicos fizeram um bom trabalho. At me esquecera a respeito disso.? 
 Um efeito colateral do seu trabalho.  Mira se acomodou em uma das suas aconchegantes poltronas.  Acho que deve ser algo congnito. 
 Como assim? 
 Essa capacidade de esquecer a dor e os traumas, tanto os do corpo quanto os da mente, e seguir em frente, fazendo o mesmo trabalho. Sempre acreditei que as mulheres so boas policiais e boas mdicas por possurem essa resistncia inerente. Por que no se senta, toma um pouco de ch e me diz o que posso fazer para ajud-la? 
 Obrigada por ter me encaixado em seus horrios apertados.  Eve se sentou, remexendo-se um pouco, meio agitada. Sempre se sentira inclinada a escancarar a alma quando se via ali naquela sala, em companhia daquela mulher.   a respeito de um caso no qual estou trabalhando. No posso lhe dar muitos detalhes, pois h restries internas. 
 Entendo...  Mira programou ch no AutoChef.  Conte-me tudo o que puder. 
 Uma das envolvidas  uma jovem de dezoito anos, brilhante e aparentemente muito impressionvel. 
  a idade das descobertas, das exploraes.  Mira pegou o ch que fumegava, servindo-o em delicadas xcaras de porcelana, e ofereceu uma delas a Eve, que aceitou a bebida, embora soubesse que no iria apreci-la, pois no era muito de beber ch. 
 Suponho que sim  concordou ela.  Essa jovem tem uma boa famlia e  muito ligada a ela. Apesar de um pai ausente, ela possui um ncleo familiar grande, com avs, primos, esse tipo de coisa. Ela no era... no   corrigiu Eve  uma pessoa sozinha. 
Mira fez que sim com a cabea. Eve fora uma pessoa sozinha, pensou a psiquiatra. Brutalmente sozinha. 
 Bem, esta moa andava interessada em religies antigas, culturas e cultos ancestrais, e os estava estudando. No decorrer deste ltimo ano, desenvolveu um certo interesse pelas chamadas cincias ocultas. 
 Humm... isso tambm  bem tpico. Os jovens exploram diferentes fs e crenas, a fim de encontrar, construir e consolidar suas prprias doutrinas. As cincias ocultas, com seu misticismo e muitas possibilidades, mostram-se extremamente atraentes. 
 Ela acabou se envolvendo com satanismo. 
 Como amadora, apenas por curiosidade? 
Eve franziu o cenho. Esperava que Mira demonstrasse algum tipo de surpresa ou ar de desaprovao. Em vez disso, continuava a tomar ch com um educado sorriso atento que brincava em sua boca.
 Se est querendo saber se a menina estava apenas brincando com o assunto, eu diria que ela acabou indo mais fundo. 
 Tornou-se uma iniciada? 
 No estou bem certa do que isso significa. 
 Bem, dependendo da seita, pode haver algumas variaes. De um modo geral, isso implica na exigncia de um perodo de espera antes de fazer os votos, momento acompanhado de uma marca fsica, geralmente sobre ou prximo da genitlia. O iniciado seria ento aceito na conveno de bruxas, atravs de uma cerimnia. Tal cerimnia consiste em um altar, um altar humano, provavelmente feminino, colocado dentro de um crculo. Os prncipes do Inferno so invocados e o iniciado, ou iniciados, se ajoelha. O simbolismo que acompanha esse ritual poderia ainda envolver fumaa, o soar de um sino, terra trazida de um cemitrio, de preferncia recolhida do tmulo de uma criana. Nesse momento, o iniciado recebe para beber um pouco de gua, s vezes vinho misturado com sangue ou urina. Nesse momento, o sumo sacerdote ou sacerdotisa marca o iniciado com um punhal cerimonial. 
 Um athame. 
 Sim.  Mira sorriu, como uma professora satisfeita com a resposta de uma aluna brilhante.  Embora seja ilegal, caso o grupo consiga, sacrificaro em seguida um cabrito. Em algumas seitas, o sangue do cabrito  misturado com o vinho e consumido. Depois de feito isso, o grupo se entrega a prticas sexuais. O altar pode ser usado por todos, ou muitos dos reunidos no local. Isso deve ser considerado uma obrigao, mas tambm um prazer. 
 At parece que voc j participou de um ritual desses, doutora. 
 Desse tipo no, mas obtive autorizao para assistir a uma cerimnia do Sab de Litha, certa vez. Foi fascinante... 
 Mas voc no acredita realmente nesses troos, acredita?  Aturdida, Eve colocou a xcara de lado.  ...Invocar o demnio, por exemplo. 
 Acredito que exista o Bem e o Mal, Eve  respondeu Mira, levantando uma sobrancelha suavemente arqueada , e de modo algum descarto a possibilidade da existncia do Bem supremo ou do Mal supremo. Em minha profisso, como na sua, vemos exemplos de ambos em demasia, o bastante para que reconheamos sua realidade. 
Quem cometia o mal eram os humanos, pensou Eve. O Mal era humano. 
 Mas adorar o demnio?  reagiu ela. 
 As pessoas que escolhem dirigir o foco de suas vidas, e podemos dizer de suas almas, para essa crena geralmente o fazem atradas pela liberdade, pela estrutura e pela celebrao do egosmo. Outras so seduzidas pela promessa de poder... e muitas pelo sexo. 
Foi s pelo sexo. Foi exatamente isso o que Wineburg dissera, soluando, antes de morrer, lembrou Eve. 
 Essa jovem, Eve, foi atrada em primeiro lugar pelo intelecto. O satanismo tem sculos de existncia e, como a maioria das religies pagas, persegue o cristianismo. Por que sobrevive e, em certas pocas, chega at mesmo a crescer? Porque est cheio de segredos, pecados e sexo, e seus rituais so misteriosos e elaborados. Essa moa, pertencendo a uma famlia presente e que a protegia, deve ter se perguntado se j no era hora de se rebelar contra o status quo. 
 A cerimnia que voc descreveu foi semelhante  descrita por ela  afirmou Eve.  S que ela estava apenas comeando a observar os rituais, e foi sexualmente usada. Era virgem e suspeito que tenha sido drogada. 
 Entendo. Sempre existem seitas que divergem do que est estabelecido em seus conceitos e leis. Algumas podem at mesmo ser perigosas. 
 A memria da jovem dava uns brancos, e ela se tornou extremamente devotada a dois dos membros, quase a ponto de se tornar sua escrava. Chegou a se afastar da famlia e dos estudos. At o dia em que testemunhou o assassinato ritualstico de uma criana. 
 Sacrifcio humano  uma prtica ancestral e deplorvel.  Mira tomou mais um pouco do ch, de forma delicada.  Se houve envolvimento com drogas,  altamente provvel que ela tenha se tornado dependente dessas pessoas. Isso explicaria os brancos em sua memria. Imagino que ao testemunhar o assassinato ela tenha se chocado a tal ponto que se afastou do culto e de seus rituais. 
 Ela estava aterrorizada. No buscou ajuda na famlia nem denunciou o incidente. Em vez disso, buscou uma bruxa. 
 Uma bruxa ligada  magia branca, decerto... uma devota Wicca? 
 Ela fez algo que poderia ser considerado como uma reviravolta de cento e oitenta graus.  Eve apertou os lbios.  Comeou a queimar velas brancas, em vez de pretas. Vivia em um constante estado de pnico e afirmava que um dos membros se transformara em corvo. 
 Mudana de forma...  Pensativa, Mira se levantou para programar mais ch.  Isso  interessante. 
 Ela acreditava que eles iriam mat-la, e que j haviam feito isso com algum muito prximo dela, embora tal morte esteja oficialmente registrada como devida a causas naturais. No tenho dvidas de que eles a atormentavam, e encontraram uma forma de iludi-la e amedront-la. Acho que um pouco disso foi facilitado por sua prpria vergonha e complexo de culpa. 
 Voc deve ter razo. Emoes influenciam o intelecto. 
 At que ponto?  quis saber Eve.  O bastante para faz-la ver coisas que no estavam l? O bastante para faz-la fugir apavorada de uma viso e se atirar na frente de um carro que a matou? 
 Ela est morta, ento...  Mira tornou a se sentar.  Sinto muito. Voc tem certeza de que ela fugiu de uma imagem ilusria? 
 Tenho. Uma observadora treinada estava no local. No havia nada l, exceto...  Eve acrescentou, torcendo o nariz:  ...um gato preto. 
 A imagem tradicional e familiar. S isso pode ter sido o bastante para jog-la no abismo. Porm, mesmo que o gato tenha sido colocado em seu caminho com a finalidade de assust-la, vai ser muito difcil voc enquadrar isso como assassinato. 
 Eles brincavam com a cabea dela, drogaram-na, possivelmente usaram hipnose. Atormentavam-na com truques e ligaes para seu tele-link. Ento, finalmente, a empurraram. Para mim, isso  homicdio, e vou fazer com que o promotor se convena disso. 
 Levar religies para a sala do tribunal, particularmente religies no reconhecidas em grande escala,  uma tarefa difcil.
 No estou atrs de facilidades. As pessoas por trs desta seita so sujas, e acredito que j mataram quatro pessoas ao todo, s nas ltimas duas semanas. 
 Quatro?  Mira fez uma pausa e pousou a xcara sobre o pires.  O corpo que foi encontrado perto de sua casa... os detalhes que vi na mdia no foram objetivos. H alguma conexo entre os casos? 
 Sim. Ele era um iniciado e teve a garganta cortada por um athame, que foi deixado espetado entre suas pernas com uma nota que condenava o satanismo. Ele estava amarrado a uma placa com a forma de um pentagrama invertido. 
 Mutilao e assassinato.  Mira apertou os lbios.  Se isso foi obra de pessoas ligadas  religio Wicca,  estranho... algo muito afastado de suas crenas. 
 Pois ... mas as pessoas fazem coisas estranhas e contra suas crenas o tempo todo  disse Eve, impaciente.  Nesse momento, no entanto, suspeito de que o crime foi praticado por um membro, ou membros da seita da vtima. Outro homem foi morto na noite passada, tambm por um athame. Seguramos a notcia, para que nada fosse divulgado nos noticirios matinais, mas vai estar estampado em toda a mdia em questo de horas. Eu estava no local, perseguindo a vtima, e no cheguei a tempo. 
 Ele foi morto to depressa assim, sem um ritual? Com uma policial em sua perseguio?  Mira balanou a cabea.  Isso foi um ato de arrogncia ou desespero. Na minha opinio, se foi cometido pelas mesmas pessoas, mostra uma ousadia crescente. 
 E tambm um gostinho especial... o sangue pode ser algo que vicia. Gostaria de saber qual  o tipo de personalidade da pessoa que comanda uma seita como essa. H uma mulher que possui uma extensa ficha criminal envolvendo sexo ilegal e trfico de drogas. Ela  bissexual. Administra um clube e vive bem. Seu companheiro  um homem forte que cuida dela, e ela gosta de se exibir  acrescentou Eve, lembrando-se do truque da lareira.  Esta mulher se diz clarividente,  irritadia e tem um temperamento instvel. 
 O orgulho  provavelmente a sua maior fraqueza. Caso esteja em uma posio de poder e autoridade, provavelmente no admite desrespeito. Ela  realmente uma clarividente? 
 Est falando srio? 
 Eve...  suspirou Mira, baixinho.  Habilidades psquicas existem, sempre existiram. Estudos j provaram isso. 
 Sei, sei...  Eve balanou a mo, afastando a idia.  Os estudos do Instituto Kijinsky, por exemplo. Tenho um relatrio detalhado a respeito da bruxa branca, fornecido por eles, que asseguram que ela est muito acima da mdia em termos de paranormalidade. 
 E voc no concorda com o Instituto Kijinsky? 
 Bolas de cristal e quiromancia? Ora, vamos, voc  uma cientista! 
 Sim, sou, e como tal, aceito que a cincia  algo fluido. Ela muda  medida que aprendemos mais a respeito do Universo e das coisas que o habitam. Muitos cientistas respeitados acreditam que ns nascemos com o que poderamos denominar de sexto sentido, ou de sentido intensificado, se desejar. Alguns de ns o desenvolvem, outros o bloqueiam. A maioria de ns o mantm em algum nvel. Chamamos de instinto, pressentimentos ou intuies. Voc mesma confia nisso. 
 Confio em evidncias e em fatos. 
 Mas tem pressentimentos, Eve, e a sua intuio tambm  um instrumento muito afinado. Roarke tambm...  Sorriu ao ver Eve unir as sobrancelhas em uma expresso de estranheza.  Um homem no consegue subir to alto sem os instintos fortes para fazer o movimento exato na hora certa. A magia, se preferir um termo mais romntico, existe. 
 Voc est me dizendo que acredita ser possvel ler mentes e lanar feitios? 
 Nesse instante, posso intuir perfeitamente o que vai pela sua cabea.  Riu a doutora, terminando de tomar o ch.  A dra. Mira s pode estar de brincadeira comigo! 
 Chegou perto.  Os lbios de Eve se abriram em um sorriso relutante. 
 Deixe-me dizer uma coisa, j que creio que isso  parte do que veio buscar aqui. Feitiaria, negra ou branca, existe desde a aurora da humanidade. E onde existe poder, existem tambm benefcios e abusos. Isso tambm faz parte da natureza humana. No podemos, atravs de todo o nosso conhecimento cientfico e tcnico, destruir um dos lados sem prejudicar o outro. O poder exige cuidados, assim como as crenas, e  por isso que temos nossas cerimnias e rituais. Precisamos da estrutura, do conforto e tambm dos mistrios que eles contm. 
 No tenho problemas com cerimnias e rituais, dra. Mira, a no ser quando eles cruzam as fronteiras da lei. 
 Concordo. Mas a lei tambm pode ser fluida. Ela se transforma e se adapta. 
 Mas um assassinato sempre  um assassinato. No importa se foi perpetrado com uma lana com ponta de pedra lascada ou com uma arma a laser  seus olhos se tornaram sombrios e ferozes  nem se foi feito com a ajuda de fumaa e espelhos. Vou encontrar o assassino e nenhuma mgica no mundo vai me impedir de alcanar isso. 
 No.  Uma pequena sensao de medo, diminuta, porm preocupante, e que poderia ser chamada de pressentimento, fez o estmago da dra. Mira se retorcer.  Concordo com isso. Voc tambm tem poder, Eve, e vai coloc-lo em rota de confronto.  Cruzou as mos.  Posso lhe fornecer um material mais detalhado sobre satanismo e Wicca, se isso ajudar. 
 Gostaria de saber com o que estou lidando, e agradeceria muito por esse material. Voc poderia me fornecer um perfil de um membro tpico das duas seitas? 
 No existe um membro tpico, do mesmo modo que no h membros tpicos na f catlica ou no budismo. O que posso fazer  generalizar certos tipos de personalidade que so com freqncia atrados pelas cincias ocultas. A sacerdotisa Wicca que a jovem procurou tambm  suspeita? 
 No  a principal, mas  suspeita sim. Vingana  um motivo muito forte, e se os satanistas continuarem aparecendo na minha frente com punhais ritualsticos enterrados em rgos vitais, eu no vou poder desprezar a possibilidade de vingana.  Sem conseguir resistir, Eve passou a lngua pela frente dos dentes, completando:  Porm, suponho que era mais provvel ela lanar uma maldio sobre as vtimas. 
 Verifique as unhas e os cabelos das suas vtimas, e tambm das outras que possivelmente aparecerem. Se alguma maldio estiver envolvida no crime, deve haver sinais de unhas e cabelos cortados recentemente. 
 Ah, ?... Vou fazer isso, ento.  Eve se levantou.  Obrigada pela ajuda. 
 Envio-lhe o material at amanh. 
 timo!  Comeou a sair, mas parou.  Voc parece conhecer muitas coisas a respeito desse assunto. Isso  o tipo de coisa que se estuda para ser psiquiatra? 
 Em certa medida, sim, mas tenho um interesse mais pessoal no assunto, e j o estudei bastante.  Seus lbios se abriram em um sorriso.  Minha filha  wiccana. 
 Ah...  O queixo de Eve caiu. O que poderia ela dizer diante disso?  Bem, ento isso explica tudo.  Desconfortvel, enfiou as mos nos bolsos, perguntando:  Sua filha mora por aqui? 
 No, ela reside em Nova Orleans, pois acha que h menos restries por l. Talvez eu no consiga ser muito objetiva nesse assunto, Eve, devido s circunstncias, mas acho que se voc pesquisar a respeito vai descobrir que a religio Wicca  um tipo de f adorvel, muito generosa e ligada  terra. 
 Claro...  Eve foi saindo de fininho em direo  porta.  Vou assistir a um encontro amanh  noite. 
 Depois, quero que me conte o que achou. E se houver alguma pergunta que eu no seja capaz de responder, certamente minha filha ficaria feliz em conversar com voc. 
 Eu lhe conto.  Saiu, dirigindo-se para o elevador e soltando o ar com um sopro. Ento a filha de Mira  uma feiticeira, pelo amor de Deus, pensou. Aquela era uma novidade e tanto! 


Eve foi direto  central com a inteno de pegar Peabody para irem juntas  casa de Wineburg. Ela queria dar uma olhada em seu estilo de vida, seus arquivos e registros pessoais. Tinha o palpite de que um sujeito como ele mantinha uma lista particular com nomes e lugares. 
Os tcnicos j haviam efetuado as buscas de rotina, sem encontrar nada de interessante, mas ela achou que talvez tivesse mais sorte. 
Encontrou Peabody na sala de deteno, ao passar por ali, e lhe disse: 
 Encontre-me no meu carro em quinze minutos. Quero verificar minhas mensagens e fazer umas ligaes. 
 Sim, senhora. Tenente... 
 Mais tarde!  cortou Eve, passando direto, sem perceber o momento em que sua auxiliar contraiu o rosto. 
A razo para isso estava  espera dela, dentro de sua sala. 
 Feeney?  Eve tirou o casaco e o atirou sobre uma cadeira.  Resolveu ir para o Mxico? Se foi isso, vai ter que ligar para Roarke, a fim de combinar os detalhes. Ele deve estar...  Parou de falar na mesma hora, quando viu Feeney se levantar, passar por ela e fechar a porta, deixando-os a ss. Foi preciso apenas olhar para o seu rosto para descobrir. 
 Voc mentiu para mim, Eve!  Havia um tremor em sua voz que vinha tanto da raiva quanto da mgoa. Seus olhos, porm, estavam firmes e frios.  Voc mentiu descaradamente para mim. Eu confiei em voc, que andava investigando Frank pelas minhas costas, por cima do seu cadver. 
No havia como negar nem perguntar como ele descobrira. Eve sabia que ele ia acabar sabendo de tudo. 
 Estava rolando uma investigao interna. Whitney queria que eu limpasse o nome de Frank, e  o que estou fazendo. 
 Investigao interna porra nenhuma! Ningum era mais limpo do que Frank. 
 Sei disso, Feeney. Eu estava... 
 Mesmo assim, investigou. Xeretou em seus arquivos, e fez tudo isso escondido de mim. 
  como deveria ser feito. 
 Papo furado! Fui eu quem treinou voc! Voc ainda estaria usando farda at hoje se eu no a tivesse colocado aqui. E voc me apunhalou pelas costas.  Chegou mais perto dela, com os punhos fechados ao lado do corpo. 
Ela preferia que ele os usasse. 
 Voc abriu uma investigao sobre Alice, com suspeita de homicdio. Ela era minha afilhada e voc nem sequer teve a decncia de me contar que suspeitava de que um filho-da-me a matara? Deixou-me de fora do inqurito e mentiu para mim. Olhou bem na minha cara e mentiu para mim! 
 Sim.  Seu estmago parecia um bloco de gelo. 
 Achava que ela podia ter sido drogada, estuprada e assassinada e me deixou de fora? 
Ele tivera acesso aos relatrios, compreendeu Eve. Os arquivos estavam lacrados e codificados, mas isso no serviria de barreira se Feeney tivesse farejado algo. E pelo jeito foi o que acontecera, devido  morte de Wineburg. 
 Eu no poderia, Feeney  disse ela, com a voz firme.  Mesmo se no estivesse cumprindo ordens, no poderia coloc-lo na investigao. Voc era muito chegado  famlia. No poderia ser objetivo nem dar assistncia em uma investigao envolvendo algum que era quase da sua famlia. 
 E que diabos voc sabe a respeito de famlia?  explodiu ele, fazendo-a se sentir sacudida. Sim, ela preferia os punhos. 
 Estava cumprindo ordens?  continuou ele, com amargura, atacando-a sem d.  Que porra de ordens?  essa a sua desculpa, Dallas? Esse  o motivo para me tratar como um recruta de fraldas? Tire umas frias, Feeney. Aproveite a casa do meu maridinho rico l no Mxico.  Seus lbios se retraram em um risinho sarcstico.  Isso ia ser timo para voc, no , Eve? Tirar-me do caminho, me jogar para escanteio, bem longe de voc, j que eu no ia ter utilidade dessa vez. 
 No. Por Deus, Feeney... 
 J encarei tiroteios junto com voc...  Sua voz subitamente mudou de tom e fez a garganta de Eve arder.  Confiei em voc. Confiaria a qualquer tempo e em qualquer lugar, mas agora... Nunca mais! Voc  boa no que faz, Dallas, mas  fria. V para o inferno! 
Ela no disse nada quando ele saiu, deixando a porta balanando, semi-aberta. No havia o que dizer... ele descobrira e viera com tudo para cima dela. 
 Dallas!  Peabody entrou correndo pela porta.  Eu no consegui... 
Eve a cortou simplesmente levantando um dedo e virando-se de costas. Lentamente, com inspiraes profundas, ela conseguiu acalmar o estmago. Mesmo assim, restara a dor. Ela ainda conseguia sentir o cheiro dele na sala. O cheiro daquela colnia idiota que a mulher sempre lhe comprava. 
 Vamos dar mais uma busca na casa de Wineburg, Peabody. Pegue suas tralhas. 
Peabody abriu a boca para falar alguma coisa, mas desistiu. Mesmo que soubesse o que dizer, achou que qualquer observao que fizesse no seria bem recebida. 
 Sim, senhora  assentiu, simplesmente. 
Eve se virou para ela. Seus olhos estavam sem expresso, frios, controlados. 
 Ento, vamos nessa! 





 



CAPTULO TREZE





E
la estava de pssimo humor quando voltou para casa. Revirara a casa de Wineburg de cabea para baixo, seguindo cada passo e refazendo tudo o que os tcnicos j haviam feito. Durante trs horas, ela e Peabody haviam remexido em closets, gavetas, rodaram arquivos e rastrearam cada uma das gravaes do tele-link. 
Encontraram duas dzias de ternos e sapatos to reluzentes que Eve conseguira ver neles o reflexo de sua prpria cara amarrada, alm de vasculharem uma coleo de discos, todos com msicas incrivelmente chatas. Embora ele tivesse uma espcie de cofre, o contedo no servira de muita coisa. Os dois mil dlares em dinheiro vivo, os dez mil em fichas de crdito e a extensa coleo de vdeos pornogrficos poderiam dar uma idia de como era o sujeito, mas no ajudavam em nada a descobrir quem o matara. 
Ele no mantinha nenhum tipo de dirio, e em sua agenda havia datas e horrios marcados, mas muito pouco a respeito do propsito de cada encontro, pessoal ou profissional. Seus registros financeiros eram ordenados e precisos, como era de esperar em se tratando de algum que fazia do dinheiro a sua ocupao. Todas as despesas e ganhos estavam cuidadosamente registrados. Vultosas quantias eram trocadas de fichas de crdito por dinheiro vivo e retiradas a cada bimestre de sua conta, durante um perodo de dois anos da vida cheia de ostentao de Wineburg. Embora tal movimentao servisse para dar a Eve uma noo slida do elevado padro de vida que Selina usufrua, as retiradas estavam todas registradas como despesas pessoais. 
A coincidncia de datas entre os compromissos noturnos bimestrais e as retiradas em dinheiro nos ltimos dois anos tambm no eram suficientes para estabelecer uma conexo de Wineburg com a seita que Selina dirigia. 
O nome dela no era sequer mencionado em parte alguma. 
Ele era divorciado, sem filhos, e morava sozinho. 
Eve batera de porta em porta, entrevistando os vizinhos. Descobriu que Wineburg no era do tipo socivel. Raramente recebia visitas, e ningum nas redondezas fora curioso o suficiente para prestar ateno a um dos raros visitantes, a fim de oferecer uma descrio deles. 
Ela saiu com as mos abanando, uma sensao de ardncia no estmago e um sentimento de frustrao que aumentava a cada minuto. Sabia, sem sombra de dvida, que Wineburg era um dos membros da seita de Selina, tinha certeza de que ele pagara regiamente a ela por esse privilgio, a princpio com dinheiro e depois com a prpria vida. S que no estava nem um pouco mais perto de conseguir provar isso, alm de sentir que a sua mente no estava to focada no caso quanto deveria. 
Quando ela ia para casa, o rosto zangado de Feeney e suas palavras amargas comearam a aparecer em sua cabea como um filme, e a frustrao se chocou com a dor. 
Ela fizera mais do que simplesmente decepcion-lo, e sabia disso. Ela o trara ao seguir fielmente o treinamento que recebera dele mesmo. Cumprira as ordens, agira como uma boa policial. Fizera o seu trabalho. 
Mas no fora amiga dele, pensou, com as tmporas latejando devido ao estresse. Pesara as suas lealdades e, por fim, escolhera o trabalho, em vez do corao. 
Fria, ele a chamara, lembrava naquele momento, e fechou os olhos com fora. Fria, era o que ela fora. 
O gato veio caminhando silenciosamente na direo dela no instante em que Eve colocou o p em casa, serpenteando por entre suas pernas assim que entrou no saguo. Ela continuou andando, xingando baixinho ao tropear nele. Summerset surgiu de uma porta lateral, informando: 
 Roarke est  sua procura. 
 Ah, ? Pois eu estava ocupada.  Deu um chute leve, com impacincia, em Galahad.  Ele j est em casa? 
 Ainda no. A senhora poder encontr-lo em seu escritrio. 
 Vou falar com Roarke quando ele chegar em casa.  Ela queria um drinque, algo forte e inebriante. Reconhecendo o perigo e a fraqueza representados pela vontade de usar a bebida como muleta, deu meia-volta antes de entrar na sala de estar e tomou a direo oposta.  No estou em casa para mais ningum. Compreendeu? 
 Certamente  respondeu Summerset, todo empertigado. Ao v-la sair apressada, Summerset se agachou, pegou o gato e o acariciou, algo que jamais faria se houvesse algum por perto para observ-lo. 
 A tenente est muito infeliz  murmurou Summerset.  Talvez devssemos dar um telefonema. 
Galahad ronronou e esticou o pescoo, demonstrando gostar dos dedos compridos e ossudos de Summerset. Sua afeio mtua era um pequeno segredo entre os dois. 
Ver o mordomo com o gato teria deixado Eve surpresa, mas ela no estava com a cabea em nenhum dos dois. Subiu as escadas, passou pela rea da piscina e do jardim internos e foi direto para o salo de ginstica. Esforo fsico, ela sabia bem, servia para bloquear problemas emocionais. 
Deixando a mente vazia, vestiu uma roupa de ginstica preta. Programou o aparelho de atividades fsicas para lev-la atravs de uma srie brutal de exerccios de resistncia, rangendo os dentes enquanto a voz curta e direta, gerada por computador, a mandava agachar, levantar, esticar, manter a posio e repetir. 
J fizera um nmero satisfatrio de sries mais pesadas no momento em que resolveu trocar de aparelho, indo para a mquina de aerbica. A unidade composta a levou por uma corrida massacrante, ladeiras muito inclinadas, depois descidas bruscas e, por fim, uma sucesso infindvel de lances de escadas. Ela programara a mquina para lhe oferecer vrios terrenos, e sentiu a mudana de textura na superfcie de corrida, indo do asfalto simulado, passando pela areia, grama e terra. Tudo isso foi muito interessante, mas no estava fazendo desaparecer a dor que sentia na barriga. 
Voc pode correr, pensou, com uma fria sombria, mas no consegue se esconder. 
Seu corao batia depressa, sua roupa estava molhada de suor, mas suas emoes continuavam frgeis como vidro. O que precisava mesmo, decidiu enquanto vestia as luvas macias e protetoras, era socar alguma coisa. 
Ela jamais tentara enfrentar o andride boxeador. Aquele era um dos mais novos brinquedinhos de Roarke. A unidade tinha uma compleio de peso-mdio: um metro e oitenta de altura, oitenta e cinco quilos e msculos firmes. Boa escolha, decidiu Eve, com as mos nos quadris, enquanto o avaliava de cima a baixo. 
Digitou o cdigo no painel. Houve um leve zumbido no momento em que os circuitos foram ligados. O andride abriu os olhos castanhos e perguntou, com um ar educado: 
 Gostaria de uma luta? 
 Sim, meu chapa, eu gostaria de uma luta. 
 Escolha boxe, carat em estilo coreano ou japons, tae kwon do, kung fu, luta de rua. Programas de autodefesa tambm esto disponveis. O contato com o corpo  opcional. 
 Quero um mano a mano direto  disse ela, dando um passo para trs e colocando-se em posio.  Contato total. 
 Deseja rounds cronometrados? 
 Claro que no! Continuamos sem parar at um dos dois cair duro, meu chapa... nocaute!  Curvou os dedos em um gesto de pode vir. 
 Entendido.  Ouviu-se um leve rudo da unidade que se autoprogramava.  Sou aproximadamente trinta quilos mais pesado do que voc. Se preferir, meu programa inclui um handicap de... 
Ela levantou o punho com fora e muito depressa, atingindo-o no queixo e lanando sua cabea para trs. 
 Esse  o meu handicap. Agora, vem! 
 Como queira...  Ele abaixou o corpo em posio defensiva, como ela, e comeou a rode-la.  Voc no indicou se deseja utilizar interjeies vocais no programa. Provocaes, insultos...  Deu um passo para trs, a fim de se equilibrar, pois o p dela alara vo e o atingira bem no estmago.  Cumprimentos ou exclamaes de dor adequados ao golpe tambm esto disponveis. 
  carinha... quer vir para cima de mim, pelo amor de Deus?
Ele foi, com uma fora e rapidez que a fizeram cambalear para trs, quase perdendo o equilbrio. Era disso, decidiu enquanto girava sobre o corpo e o atingia com as costas da mo, que ela estava precisando. Agora sim! 
Ele bloqueou seu golpe seguinte, trocou o peso do corpo de um p para outro e com um movimento rpido enlaou o pescoo dela com o brao. Eve fincou o p no cho, deu-lhe uma cotovelada e o atirou por cima do ombro. Ele mal caiu e j se colocara novamente em p, antes que ela tivesse a chance de pular sobre ele. 
O punho enluvado do andride fez uma slida conexo com o plexo solar dela, forando-a a soltar o ar dos pulmes com toda a fora e provocando-lhe uma fisgada na cabea. Dobrada para a frente, ela caiu de cabea sobre o peito do p do oponente. 
Roarke entrou no salo uns dez minutos depois, exatamente no instante em que sua mulher voava pelo ar e seguia escorregando pelo tatame. Levantando uma sobrancelha, encostou-se no portal e se acomodou para assistir  luta. 
Ela nem teve tempo de se colocar novamente em p, pois o andride j estava em cima dela. Diante disso, ela o agarrou pelos tornozelos, girou o corpo, o levantou no ar e o arremessou. Sua mente agora era um espao em branco, totalmente em branco. Sua respirao estava pesada e dava para sentir o gosto de metal que vinha do seu prprio sangue dentro da boca. 
Ela partiu contra seu adversrio como uma tempestade de granizo, fria e implacvel. Cada golpe, cada soco e cada chute dado ou recebido parecia cantar por dentro de seu corpo com um dio glido e primitivo. Seus olhos estavam sem expresso naquele instante, devido  violncia, e seus punhos impiedosos se concentravam na cabea do andride, fazendo-o recuar e recuar, sem conseguir se manter parado. 
Franzindo o cenho, Roarke se empertigou. Ela estava muito ofegante, quase soluando, mas no parava. Quando o andride cambaleou e caiu de joelhos, ela se agachou para o golpe final. 
 Fim do programa!  ordenou Roarke em voz alta, e segurou o brao rgido de sua mulher que j estava pronta para arrancar a cabea do rob, ligeiramente torta a essa altura.  Assim voc vai danificar a mquina  disse, com a voz calma.  Ela no foi projetada para morrer. 
Eve se inclinou para a frente, apoiando as mos nos joelhos, a fim de retomar o flego. Sua mente estava cheia de imagens vermelhas, raivas e frias com a cor do sangue e que ela precisava clarear. 
 Desculpe  disse ela.  Acho que me empolguei.  Olhou para o andride, que continuava de joelhos, com a boca um pouco frouxa e os olhos sem vida como os de um boneco.  Vou rodar um programa para fazer o diagnstico dele. 
 No se preocupe com isso.  Tentou vir-la de frente para ele, mas ela se desvencilhou e atravessou o salo para pegar uma toalha.  Voc estava a fim de uma luta? 
 Acho que precisava golpear alguma coisa ou algum. 
 Ser que eu sirvo?  Ele estava sorrindo de leve, at o momento em que ela abaixou a toalha. A raiva desaparecera de seu rosto, deixando apenas uma expresso de dor e tristeza nos olhos.  O que foi, Eve? O que aconteceu? 
 Nada. Apenas tive um dia difcil.  Atirando a toalha para o lado, ela foi at a unidade de refrigerao em busca de uma garrafa de gua mineral.  At agora a casa de Wineburg est interditada, mas no havia nada l para nos ajudar. Os tcnicos tambm no acharam nada na garagem, e eu nem esperava que achassem. Acabei de aplicar uns socos em Selina Cross e em Alban, o Magnfico.  Olhou para o andride.  Fui a uma consulta com Mira. A filha dela  uma devota da religio Wicca...  mole ou quer mais? 
No era trabalho, avaliou ele, o que colocara aquela infelicidade dolorosa nos olhos dela.
 O que houve, Eve? 
 J no basta? Vai ser muito difcil conseguir uma avaliao objetiva de Mira, j que a prpria filha anda lanando feitios por a. E ainda tem a Peabody. Pegou um tremendo resfriado e sua cabea deve estar to cheia de catarro que eu sou obrigada a falar tudo para ela pelo menos duas vezes, seno as palavras no alcanam o seu crebro.
Estava falando rpido demais, como ela mesma notou. As palavras estavam se atropelando para fora da boca e ela no conseguia interromper o fluxo. 
 De grande ajuda ela vai ser se continuar tossindo e espirrando o dia todo do meu lado. A mdia j colocou o bloco na rua, com tudo sobre Wineburg, e o fato de que voc e eu estvamos na cena do crime tambm j caiu em boca de Matilde. Meu tele-link est congestionado de tantos recados da porra dos reprteres, alm das informaes confidenciais, que continuam vazando por todo lado. Feeney at j descobriu que eu estava investigando essa histria pelas costas dele. 
Ah, pensou Roarke, chegamos ao foco do problema. 
 Ele bateu muito forte? 
 E por que no deveria?  Sua voz se alterou quando ela se virou e buscou na raiva uma forma de esconder a dor.  Ele confiava em mim. Menti para ele, bem na sua cara. 
 E que escolha voc tinha? 
 Sempre h uma escolha.  Pareceu morder as palavras, arremessando na parede a garrafa de gua, ainda pela metade, fazendo-a cair no cho, quicar e comear a despejar o lquido sobre o piso.  Sempre h uma escolha!  repetiu.  Eu fiz a minha. Sabia como ele estava se sentindo com relao a Frank, com relao a Alice, e mesmo assim o bloqueei, deixei-o de fora de toda a histria. Segui as ordens. Caminhei direitinho sobre a linha, conforme me ordenaram. 
Dava para sentir a dor aumentando como se tentasse ser vomitada, espelhando a gua da garrafa, mas ela fez fora para se segurar, continuando: 
 Feeney estava com a razo em tudo o que jogou na minha cara. Tudo! Podia ter seguido junto com ele, correndo por fora. 
 E foi isso que voc foi treinada a fazer? Foi isso que ele mesmo ensinou a voc durante o treinamento? 
 Foi ele que me fez  disse Eve, com raiva.  Eu devo isso a ele. Devia ter lhe contado tudo o que estava rolando. 
 No.  Deu um passo na direo dela, segurando-a pelos ombros.  No, no devia nem conseguiria. 
 Mas tinha que ter conseguido!  berrou.  Tinha que ter... juro por Deus que desejava ter feito isso.  Cobriu o rosto com as mos e desmontou por completo.  Ah, meu Deus... e agora, o que vou fazer? 
Roarke a abraou com carinho. Eve raramente chorava, s em ltimo caso, e sempre que suas lgrimas finalmente conseguiam romper as barreiras, jorravam em uma abundncia cruel. 
 Ele precisa de algum tempo.  um policial, Eve. Uma parte dele, no fundo, j compreende a sua posio. O resto precisa apenas de tempo para a poeira assentar. 
 No.  As mos dela o agarraram pela camisa e se mantiveram ali.  O jeito como ele olhou para mim... eu o perdi, Roarke. Eu o perdi! Juro que preferia perder meu distintivo. 
Ele esperou at que as lgrimas acabassem de jorrar e notou seu corpo muito trmulo. Havia tantas emoes fortes dentro dela, pensou Roarke, balanando-a para a frente e para trs enquanto suas mos continuavam a apertar e soltar a parte de trs do seu palet. Aquelas eram emoes que ela passara a vida reprimindo, e por isso se tornavam ainda mais potentes sempre que conseguiam se libertar. 
 Droga!  Ela soltou o ar devagar, ainda tremendo. Sua cabea estava dolorida, seus pensamentos pareciam abafados e sua garganta ardia.  Odeio fazer cenas! Isso no ajuda em nada. 
 Ajuda mais do que imagina.  Passou a mo pelos seus cabelos, pegando-lhe a ponta do queixo para levantar o rosto.  Voc precisa comer e desfrutar de uma boa noite de sono para poder fazer o que precisa ser feito. 
 E o que eu preciso fazer? 
 Encerrar o caso. Depois de fazer isso, vai conseguir deixar todo o resto para trs. 
 ...  Apertou as mos sobre as bochechas molhadas e quentes.  Encerrar o caso. Esse  o grande objetivo.  Soltou um suspiro sibilado.  Isso  a porra do meu trabalho! 
 Isso  justia.  Passou o polegar sobre a covinha de seu queixo.  No ? 
 J nem sei mais...  Ela levantou a cabea para olhar para ele com os olhos vermelhos e inchados, sentindo-se exausta. 


Ela no comeu nada, e ele no a pressionou. J passara por momentos de grande pesar na vida e sabia que comida no era a resposta. Pensou em forar a barra para que ela tomasse um sedativo, embora soubesse que convenc-la disso ia ser uma situao difcil de encarar. Sentiu-se satisfeito ao ver que ela resolvera ir para a cama cedo. E saiu do quarto dando uma desculpa para Eve, alegando que ia participar de uma videoconferncia. 
Do seu escritrio, observou pelo monitor a imagem dela se remexendo na cama de um lado para outro, at que finalmente ela parou e pegou no sono. O que ele precisava fazer no ia levar mais de uma ou duas horas. Ele sabia que nesse tempo ela no ia acordar nem dar pela sua falta. 


Roarke jamais estivera na casa de Feeney. O prdio de apartamentos parecia confortvel, embora antigo. Possua um bom sistema de segurana e decorao despretensiosa. Roarke achou que o lugar combinava com o morador. Como no desejava correr o risco de ter sua entrada negada, conseguiu enganar o alarme e abrir a fechadura da porta de entrada do edifcio. 
Isso era algo que combinava com ele. 
Ao entrar na pequena portaria, sentiu o cheiro de uma recente dedetizao. Embora aprovasse a inteno, no gostou do cheirinho leve, porm desagradvel, que permanecia no ar, e fez questo de guardar a informao com cuidado na memria, para lidar com o problema mais tarde. 
Afinal, ele era o dono do prdio. 
Entrou no elevador e pediu o terceiro andar. Ao saltar, reparou que o carpete do corredor precisava ser trocado. O ambiente, no entanto, era bem iluminado e os leds que piscavam nas cmeras de segurana provavam que elas estavam funcionando com eficincia. As paredes estavam limpas e eram grossas o bastante para abafar os sons, com exceo de um ou outro rudo que denunciava movimento por trs das portas fechadas. 
Uma distante batida musical, uma rpida exploso de gargalhadas, o choramingo agitado de um beb. Vida, pensou Roarke, em um estilo agradvel. Tocou a campainha na porta de Feeney e esperou. 
Manteve os olhos com sobriedade na tela de segurana e continuou a olhar fixamente para ela, mesmo ao ouvir a voz irritada de Feeney que surgiu pelo intercomunicador, perguntando: 
 Que diabos voc quer aqui? Anda freqentando favelas agora? 
 No creio que este prdio possa ser qualificado como favela. 
 Qualquer lugar  uma favela, comparado ao palcio em que voc mora. 
 Pretende discutir as diferenas de estilo entre nossas moradias a de dentro ou vai me convidar para entrar? 
 Perguntei o que voc quer aqui. 
 Voc sabe por que estou aqui.  Levantou a sobrancelha, certificando-se de que o insulto a seguir era suficiente, antes de lan-lo:  Voc tem peito para me encarar frente a frente, no tem, Feeney? 
Esta pergunta teve, como Roarke imaginava, um efeito imediato. A porta se escancarou. Feeney estava parado sob o portal, bloqueando a entrada com a massa compacta de seu corpo, j preparado para a briga e com o rosto enrugado brilhando de fria. 
 Esse assunto no  da sua conta, Roarke. 
 Pelo contrrio...  Ele se manteve onde estava, mantendo a voz firme e calma.   especificamente da minha conta, mas no creio que seja da conta de seus vizinhos. 
Rangendo os dentes, Feeney deu um passo para trs, ordenando: 
 Entre, diga o que tem a dizer e caia fora! 
 Sua esposa est em casa?  perguntou Roarke, quando Feeney bateu a porta com fora. 
 Foi a um encontro com amigas.  Inclinou a cabea para a frente, parecendo um touro, e avaliou Roarke, pronto para atacar.  Se quiser quebrar a minha cara, pode tentar, v em frente! Eu no me incomodo de socar de volta esse seu rostinho bonito. 
 Meu Deus, ela  igualzinha a voc!  Balanando a cabea, Roarke circulou pela sala de estar. Parecia aconchegante, decidiu. No muito arrumada... o telo exibia um jogo de beisebol, sem som. O batedor girou o corpo e a bola voou em completo silncio. Quanto est a partida? 
 Os Yanks esto na frente por um ponto e o jogo est no final stima entrada  informou ele. Quase ofereceu uma cerveja a Roarke, mas conseguiu se segurar a tempo e tornou a enrijecer o corpo.  Ela lhe contou tudo, no foi? Para voc ela passou todos os lances, desde o incio. 
 Ela no recebera ordens para no me contar, e achou que eu poderia ajud-la. 
Ele poderia ajudar, pensou Feeney, sentindo um gosto amargo na boca. Seu maridinho rico e badalado poderia ajud-la, mas seu antigo instrutor, seu velho parceiro, no... O homem que trabalhara lado a lado com ela durante dez anos, com muito orgulho e, por que no reconhecer, afeto, esse podia ser deixado de fora. 
 O fato de poder ajudar no o torna menos civil.  Seus olhos cansados mostraram mgoa.  Voc nem mesmo conhecia Frank. 
 No, eu no o conhecia, mas Eve sim. E gostava dele. 
 Fomos parceiros de rua, eu e Frank. ramos amigos, quase como se fssemos da famlia um do outro. Ela no tinha o direito de me chutar para fora desse caso.  isso o que sinto, e foi isso que joguei na cara dela. 
 Tenho certeza de que fez isso.  Roarke se virou do telo e ficou de frente para Feeney, encarando-o olho no olho.  O que quer que tenha dito a Eve, deixou-a arrasada. 
 Ah, feri um pouco os seus sentimentos, apenas...  Feeney se afastou e pegou uma garrafa de cerveja que estava pela metade. Mesmo olhando para ela por trs de uma nvoa muito turva de fria, ele notara a devastao tomar conta de seus olhos quando ele a agrediu verbalmente, e se convencera a no dar a mnima para aquilo.  Ela vai superar...  Bebeu goles longos, sabendo que o sabor da cerveja no ia cobrir o amargor que grudara em sua garganta.  Vai continuar realizando bem o seu trabalho. S que no vai mais fazer isso com a minha ajuda. 
 Eu lhe disse que ela ficou arrasada, e falei srio. H quanto tempo a conhece, Feeney?  A voz de Roarke ficou mais dura, exigindo ateno.  Dez anos, onze?... Quantas vezes voc a viu desmoronar? Imagino que consiga contar com os dedos de uma s mo as vezes em que viu isso. Pois bem, eu a vi desmoronar esta noite.  Respirou devagar. Mostrar-se exaltado no era a melhor ttica naquele momento, para nenhum dos dois.  Se pretendia acabar com ela, pode estar certo de que conseguiu. 
 Eu s disse a ela como  que as coisas eram, simplesmente isso...  A culpa j estava se esgueirando. Matou o resto da cerveja que havia em seu copo de um s gole, determinado a afastar aquela sensao.  Os tiras se apiam, Roarke, precisam confiar uns nos outros ou no chegam a parte alguma. Ela estava investigando Frank a fundo. Devia ter vindo me procurar. 
  isso que voc teria aconselhado que ela fizesse?  argumentou Roarke.  Esse  o tipo de policial que voc ajudou a criar? No foi voc que esteve na sala de Whitney, recebendo ordens diretas e fazendo o trabalho conforme lhe mandavam  continuou, sem dar chance de Feeney responder  ...e sofrendo por causa disso. 
 No.  Uma nova onda de amargor passou por dentro de Feeney.  Realmente, no fui eu.  Ele se sentou, aumentando deliberadamente o som do telo e olhando para a antiga batalha que se desenrolava diante de seus olhos. 
Teimoso, cabea-dura, irlands filho-da-me, pensou Roarke, sentindo ao mesmo tempo fisgadas de solidariedade e impacincia com o homem  sua frente.  Escute, Feeney, voc me fez um favor uma vez  lembrou Roarke.  Foi logo que me envolvi com Eve e a magoei porque eu entendera mal uma situao.? Voc esclareceu as coisas para mim, e por isso estou disposto a lhe fazer um favor do mesmo tipo. 
 No quero nenhum favor seu. 
 Mas vai t-lo mesmo assim.  Roarke se sentou em uma poltrona confortavelmente estofada e se serviu da cerveja quase vazia de Feeney.  O que sabe a respeito do pai dela? 
 Como?...  Confuso diante daquilo, Feeney virou a cabea e olhou para Roarke.  O que isso tem a ver com qualquer outra coisa? 
 Tem tudo a ver com ela. Voc sabia que ele a espancava, torturava e estuprava repetidamente, at ela completar oito anos? 
Um msculo se repuxou no maxilar de Feeney quando ele se virou para o telo e tornou a tirar o som do aparelho. Ele sabia que Eve fora achada em um beco aos oito anos, com o brao quebrado, depois de ter sofrido abusos sexuais. Isso tudo estava em seus arquivos lacrados, e Feeney jamais trabalhara com algum sem conhecer primeiro os dados de seu passado. Mas no sabia que fora o pai dela a pessoa que fizera tudo aquilo. Chegara a suspeitar, certa vez, mas no sabia com certeza. Seu estmago se retorceu e suas mos apertaram o brao da poltrona. 
 Sinto muito em saber disso. Ela nunca tocou no assunto. 
 Ela nem sequer se lembrava de tudo. Ou, o que  mais provvel, se recusava inconscientemente a lembrar. At hoje tem pesadelos e flashbacks. 
 Voc no devia estar me contando isso. No  um assunto que lhe diga respeito. 
 Ela diria a mesma coisa, mas eu estou lhe contando mesmo assim. Ela construiu a si mesma, se transformou no que  hoje, e voc a ajudou a conseguir isso. Ela enfrentaria qualquer coisa por voc, Feeney... e voc sabe disso. 
 Tiras sempre apiam tiras. Esse  o trabalho. 
 No estou falando de trabalho. Eve ama voc, e o amor  um sentimento que no surge com muita facilidade para ela.  difcil para ela sentir afeto, e mais difcil ainda demonstrar. Uma parte dela talvez esteja sempre preparada para receber um golpe, uma traio qualquer. Voc  que vem sendo o pai dela h dez anos, Feeney. Ela no merecia ser destruda por dentro mais uma vez. 
Roarke se levantou e, sem dizer mais nada, foi embora. 
Sozinho, Feeney passou as mos pelo rosto e as levou at o cabelo ruivo, um pouco ralo. Ento simplesmente deixou que elas lhe cassem no colo. 


Eram seis e quinze quando Eve rolou para o lado e piscou, ofuscada pela luz que entrava e batia em seu rosto. Roarke gostava de ser acordado pela luz da manh. A no ser nas vezes em que ela saa de mansinho da cama, antes dele, acabava acordando com o sol na cara, pois no se lembrava de acionar a tela de privacidade das janelas, antes de deitar. 
Sentiu-se letrgica, sem energia, e decidiu que o motivo era ter dormido demais. Lentamente, comeou a se arrastar para fora da cama. 
O brao de Roarke balanou no ar e a segurou. 
 Ainda no!  Sua voz estava rouca e seus olhos continuavam fechados quando ele a puxou de volta para junto dele. 
 J acordei mesmo. Posso aproveitar para comear a trabalhar mais cedo  disse e se desvencilhou.  Estou na cama h mais de nove horas, no vou conseguir dormir mais. 
Ele abriu um dos olhos e foi o bastante para reparar que ela realmente estava com uma aparncia descansada. 
 Voc  detetive  lembrou ele.  Aposto que se investigasse bem, ia acabar descobrindo a espantosa realidade de que existem outras atividades que podem ser feitas na cama, alm de dormir.  Os lbios dela abriram um sorriso quando ele rolou para o lado e se colocou por cima dela, dizendo:  Deixe-me dar uma dica. 
Ela no se surpreendeu ao sentir que ele j estava com o membro rgido, nem com o fato de se sentir pronta para receb-lo com to poucas preliminares. Ele se deixou escorregar lentamente para dentro dela, de forma suave e profunda, e observou o resto de sono desaparecer dos seus olhos, que ficaram subitamente alertas. 
 Acho que j percebi a dica.  Levantou os quadris, acompanhando o seu ritmo preguioso e descontrado. 
 Voc pega as coisas muito depressa...  Abaixou os lbios, apertando-os sobre o espao de pele que ficava abaixo do maxilar.  Adoro este ponto aqui  murmurou ele.  E este aqui tambm...  Sua mo foi subindo lentamente pelas costelas dela at envolver-lhe um dos seios. 
A sensao de excitao foi doce, simples e a fez suspirar. 
 No se esquea de me avisar quando chegar a um lugar que no lhe agrade  pediu ela, enlaando-o com os braos e as pernas. Ele tinha um corpo firme, estava muito quente e as batidas do seu corao de encontro ao dela lhe provocaram uma sensao de conforto. O prazer foi aumentando, se sobrepondo em camadas translcidas que flutuavam em sua mente e se amplificavam atravs do corpo. 
 Quero que voc goze agora, para eu ver...  Mordiscou-lhe os lbios, para a seguir enfiar a lngua, enlaando-a com a dela, enquanto a beliscava com os lbios e sugava.  Goze!  repetiu ele.  Devagarzinho... 
 Bem...  A respirao dela j estava comeando a ficar ofegante, e gemidos leves escapavam-lhe pela garganta.  J que est pedindo com tanto jeitinho... 
O clmax invadiu-a, rolando por cima dela como uma onda imensa e persistente. Ela sentiu quando ele a seguiu, pegando a mesma corrente, e apertou seu rosto contra o dele. 
 Ser que isso  como aquela histria do biscoito? 
 Hein?!... 
 Voc sabe... coma um biscoitinho, voc vai se sentir melhor.  Emoldurou o rosto dele com as mos, elevando-o enquanto ele dava uma risada.  E ento... voc estava tentando fazer com que eu me sentisse melhor? 
 Certamente que sim! Funcionou bem, para mim.  Abaixou a cabea para beij-la docemente.  Estava sentindo desejo por voc. Sempre estou assim... 
  engraado o jeito como os homens conseguem acordar com a cabea de baixo raciocinando melhor do que a de cima. 
  isso que nos faz ser o que somos.  Ainda rindo, ele a girou, colocando-a por cima dele, e deu-lhe um tapa no traseiro, convidando:  Vamos tomar uma ducha... vou lhe dar mais um biscoito. 


Trinta minutos mais tarde, ela saiu cambaleando do chuveiro e entrou no cilindro secador de corpo. Roarke era um mestre na arte de mudar a atmosfera e o astral dela, pensou ainda tonta. Ia do sexo largado para o divertido, depois para o ardente, arrebatador e entorpecedor, tudo no curto espao de uma manh. 
Como o seu organismo ainda parecia estar meio lento, ela apoiou a mo na borda do tubo, enquanto jatos de ar quente eram soprados em torno dela. Quando ele saiu do chuveiro, ela levantou um dedo para ele em sinal de advertncia, dizendo: 
 Fique longe de mim. Se tornar a me agarrar, vou lhe dar um golpe para deix-lo estatelado no cho. Estou falando srio... tenho que ir trabalhar. 
 Gosto de fazer amor com voc de manh.  Cantarolou baixinho, enquanto pegava uma toalha.  Voc s se liga por completo quando  acordada pela emergncia ou quando eu a seduzo. 
 Bem, estou ligada agora.  Saiu do tubo secador, passando os dedos pelos cabelos. Mantendo-se a uma distncia segura dele, esticou o brao para pegar um roupo.  V l para fora, ver as cotaes das aes pelo mundo, ou algo desse tipo. 
 Pretendo fazer isso. E voc vai querer comer  acrescentou ao sair do banheiro.  Vou programar alguma coisa para o nosso caf da manh.
Ela se preparou para dizer que no estava com fome, pois realmente no estava. No entanto, bem sabia que, sem combustvel, no ia conseguir rodar o dia inteiro. 
Ao voltar para o quarto, ele j estava vestindo uma camisa, com os olhos grudados no monitor da mesa de caf, onde sempre via as manchetes do dia e dados financeiros. Passou direto por ele e foi at o closet, onde escolheu calas cinza, simples. 
 Desculpe ter feito aquela cena ontem  noite. 
 Voc estava chateada...  levantou o olhar, vendo que ela estava de costas para ele enquanto vestia uma blusa  ...e tinha todo o direito de estar. 
 Mesmo assim, agradeo por voc no ter feito com que eu me sentisse uma idiota. 
 E como se sente agora? 
 Tenho uma tarefa a cumprir.  Levantou um dos ombros, pois chegara quela concluso enquanto se revirava na cama, tentando pegar no sono.  O que vou fazer  simplesmente cumpri-la. Talvez... bem, talvez se eu conseguir cumpri-la de forma adequada, Feeney no fique com tanto dio de mim quando tudo for solucionado. 
 Ele no odeia voc, Eve. - Ao ver que ela no comentou mais nada sobre aquilo, deixou o assunto de lado. J programara a refeio matinal no AutoChef embutido.  Acho que um pouco de presunto com ovos vai nos fazer bem para comear o dia. 
Pegou o caf primeiro e o levou at a mesa da pequena sala de refeies que havia em um dos cantos do quarto. 
 Isso faz bem para comear qualquer dia.  Assumiu um sorriso de determinao, indo pegar ela mesma a comida. Ordenou ao telo que se ligasse no Canal 75, enquanto comia os ovos mexidos deliciosos. 
Franziu o cenho ao reparar na reprter que estava no ar ao vivo. Ela estava toda maquiada e brilhante como uma boneca de porcelana, e ainda no eram nem sete e meia da manh. Anunciava a morte de Wineburg. 
 Apesar do fato de a tenente Eve Dallas, da Diviso de Homicdios do Departamento de Polcia de Nova York, estar na cena do crime, a poucos metros do local onde aconteceu o assassinato, a polcia continua sem pistas. A investigao prossegue. Esta  a segunda morte por esfaqueamento que tem conexo com a tenente Dallas em apenas dois dias. Ao ser perguntada se os dois casos esto ligados, Dallas se recusou a tecer comentrios. 
 At uma criana de dez anos cega de um olho consegue ver que os crimes tm ligao um com o outro, pelo amor de Deus!  Eve estava comendo de forma automtica, e, de repente, colocou o prato de lado.  Aquela piranha da Selina Cross deve estar sentadinha na filial do inferno onde mora, rindo  toa enquanto assiste a isso. 
Levantando-se de um salto, comeou a andar de um lado para outro. Roarke viu nisso um bom sinal. Ela se mostrava muito zangada e, portanto, no estava com pena de si mesma. Recheou seu croissant com gelia de morango recm-preparada. 
 Vou colocar as mos nela, juro por Deus! Vou colocar as mos naquela vaca, por todos eles! Preciso provar a conexo de Wineburg com ela. Se conseguir fazer isso, vou poder provoc-la mais um pouco. Talvez isso no me garanta um mandado de busca para virar a casa dela pelo avesso, mas posso deix-la com o eu piscando! 
 Bem, ento...  Roarke limpou as pontas dos dedos com um guardanapo de linho azul-claro e o colocou de lado  ...talvez eu possa ajud-la com relao a isso. 
Ao ver que ela continuava a caminhar de um lado para outro, resmungando sozinha, ele se levantou e pegou um disco lacrado em uma gaveta. 
 Tenente!...  chamou, balanando o disco. 
 Que foi?... Estou pensando! 
 Ento no quero interromper o seu fluxo de pensamentos com uma lista banal onde esto os nomes de todos os membros da seita de Selina Cross.  Com um semi-sorriso no rosto, ficou batendo com o disco na palma da mo e esperou os olhos dela ficarem mais brilhantes e se lanarem na direo dele. 
 A lista? Voc conseguiu a lista com os nomes dos membros? Como? 
 Voc no quer mesmo saber, quer?  Ele deixou a cabea tombar para o lado. 
 No!  respondeu ela de imediato.  Acho que no quero saber... diga-me apenas que o nome dele est a.  E fechou os olhos por um instante.  Diga-me simplesmente que Wineburg est nessa lista. 
 Certamente que est... 
 Eu amo voc!  O sorriso dela se abriu, brilhante e quente. 
 Sei que sim...  Roarke entregou-lhe o disco.






 



CAPTULO QUATORZE





F
eeney queria ver Whitney antes de mais nada. Sendo assim, foi  casa dele bem cedo, pois o assunto era pessoal. Eles dois tambm j tinham um longo caminho percorrido juntos, pensou Feeney, enquanto estacio-nava o carro em frente  linda casa de dois andares em um bairro elegan-te. J estivera ali vrias vezes em visitas sociais ao longo dos anos. A mu-lher do comandante adorava dar festas. 
Seu esprito, porm, no estava nada socivel quando ele caminhou pela calada pavimentada com pedrinhas em direo  casa, enquanto a vizinhana ainda despertava. Alguns metros alm, um co ladrava de forma cadenciada e montona. Aquele latido no tinha o leve som metlico de eco, caracterstico dos ces eletrnicos; exibia uma fora e uma vibrao que mostravam que aquele era um co de carne e osso. O tipo de co que fazia coc no jardim, pensou Feeney, balanando a cabea, e logo depois se coava todo para se livrar das pulgas. 
Folhas soltas se agitavam alegremente ao longo da rua, a maioria delas voando direto para os gramados. Gramados que eram, em um bairro como aquele, to bem cuidados que mais pareciam elementos religiosos. 
Feeney, na verdade, no curtia muito a vida em bairros residenciais, pois isso significava que o morador tinha de varrer, cortar a grama, regar as plantas ou contratar algum para fazer tudo isso por ele. Criara a famlia na cidade e utilizara os parques pblicos. Afinal, todos pagavam impostos para t-los, ento por que no us-los? Flexionou os msculos dos ombros, sentindo-se inquieto e desconfortvel com 0 silncio matinal. 
Anna Whitney atendeu s batidas na porta e, embora no estivesse  espera de visitas quela hora da manh, j estava bem apresentvel, vestindo uma roupa de ginstica toda enfeitada. Seus cabelos claros ondulavam com estilo, e sua maquiagem era sutil e perfeita. Seus lbios abriram um sorriso de boas-vindas. Mas seus olhos talvez tenham piscado mais depressa, de surpresa e curiosidade, porm, acostumada ao papel de esposa de policial, ela no fez perguntas. 
 Feeney, que prazer receb-lo! Entre, por favor, e aceite um caf. Jack j embarcou na segunda xcara, ele est na cozinha. 
 Desculpe vir incomod-la em casa, Anna. Preciso tomar alguns minutos do comandante. 
 Claro! E como est Sheila?  perguntou enquanto seguia na frente pelo corredor, levando-o em direo  cozinha. 
 Est bem, obrigado. 
 Ela parecia tima da ltima vez em que a vi. Seu novo cabeleireiro  fantstico. Jack, trouxe-lhe companhia para o caf.  Entrou na cozinha, notando o olhar de surpresa e especulao nos olhos do marido. Sentiu que devia se retirar de fininho.  Bem, vou deixar vocs dois batendo papo. Tenho um monte de coisas para fazer agora de manh. Feeney, d lembranas minhas a Sheila. 
 Farei isso. Obrigado, Anna.  Esperou at que a porta se fechasse, sem tirar os olhos do rosto de Whitney nem por um segundo, e disse:  Mas que droga, Jack! 
 Esse assunto devia ser discutido no trabalho, Feeney. 
 No estou falando com o meu comandante, estou falando com voc, Jack.  Feeney levantou o indicador.  Estou falando com algum que conheo h vinte e cinco anos, algum que conhecia Frank. Por que me deixou de fora desse caso? Por que ordenou a Dallas que mentisse para mim? 
 Essa foi uma deciso minha, Feeney. A investigao precisava ser conduzida por um nmero mnimo de pessoas, apenas as necessrias. 
 E eu no era necessrio... 
 No.  Whitney cruzou as mos grandes.  E no precisava saber de nada. 
 Frank e eu criamos alguns dos nossos filhos juntos. Alice era minha afilhada. Frank e eu fomos parceiros em rondas de rua durante cinco anos. Nossas esposas eram como irms. Quem voc pensa que  para decidir que eu no precisava saber que ele estava sendo investigado? 
 O seu comandante  disse Whitney, de forma rspida, colocando o caf ainda fumegante de lado.  As razes que voc acaba de me apresentar so as mesmas nas quais me baseei para tomar a deciso. 
 Voc me deixou de fora! Sabia muito bem que os recursos da Diviso de Deteco Eletrnica, na qual trabalho, precisavam ser utilizados. Vocs precisavam decifrar dados criptografados. 
 Os dados foram apenas parte do problema  disse Whitney, com a voz firme.  No havia registro de problemas cardacos nos arquivos mdicos, nem o registro de conexo em nvel pessoal ou profissional de Frank com algum traficante de drogas qumicas ilegais com ficha na polcia. 
 Frank no tinha nada a ver com drogas ilegais. 
 Sim, realmente no havia nenhum dado a esse respeito  continuou Whitney.  S que o amigo mais chegado dele  tambm o melhor detetive eletrnico da cidade. 
 E voc achou que eu tivesse adulterado arquivos oficiais?!  Os olhos de Feeney se arregalaram e ele chegou a ficar plido.  Voc colocou Dallas para me investigar tambm? 
 No, no acho que voc tenha adulterado arquivos, mas era uma porta que eu no podia deixar desguarnecida com o Departamento de Assuntos Internos fungando na minha nuca. Quem voc teria escolhido para fazer um trabalho desse tipo, Feeney?  quis saber Whitney, com um gesto de impacincia.  Eu sabia que a tenente Dallas faria um trabalho meticuloso e completo, e que seria capaz de colocar o traseiro na reta para limpar o nome de Frank e o seu. Alm disso, sabia tambm que ela tinha alguns... contatos que poderiam ajud-la a acessar os tais dados criptografados. 
Inundado pela emoo, Feeney se virou e ficou olhando para fora da janela limpssima, vendo o quintal com um gramado cuidadosamente cortado e cheio de majestosas flores outonais. 
 Voc a colocou em uma situao delicada. Ordenou que ela desempenhasse um papel podre, Jack!  isso o que acontece quando as pessoas atingem o comando? Colocam as prprias fileiras contra a parede? 
 Sim,  isso o que acontece.  Whitney passou os dedos pelos cabelos pretos que estavam comeando a ficar grisalhos.  Voc faz o que tem que ser feito e assume os atos. Eu estava com o Departamento de Assuntos Internos me rondando. Minha prioridade era limpar o nome de Frank e proteger a sua famlia de outros traumas. Dallas foi minha melhor escolha. Voc a treinou, Feeney, sabe que ela era a minha melhor escolha. 
 Sim, eu a treinei  concordou Feeney, sentindo-se enjoado. 
 E o que teria feito em meu lugar?  quis saber Whitney.  Seja sincero, Feeney. Algum chega com um tira morto... e ele foi visto comprando drogas ilegais de uma traficante fichada que estava sob vigilncia. Ento voc descobre, pela autpsia, que havia drogas em seu organismo no momento de sua morte. Seu instinto lhe diz que no  possvel e que no havia jeito de ele estar envolvido em algo sujo. Talvez o seu corao tambm esteja lhe dizendo a mesma coisa, porque voc ainda se lembra do tempo em que ambos eram recrutas. O Departamento de Assuntos Internos, no entanto, no lida com instintos e no tem corao. O que voc teria feito em meu lugar? 
Como acabara de passar uma noite em claro pensando no assunto e abordando todos os ngulos, Feeney balanou a cabea, respondendo: 
 No sei o que teria feito. S sei que no queria o seu posto... comandante. 
 Voc teria que ser louco para querer um posto como o meu.  O rosto largo de Whitney relaxou um pouco.  Dallas fez de tudo e conseguiu limpar o nome de Frank, e deixou voc totalmente de fora apenas nas primeiras vinte e quatro horas da investigao. Ela teve pouco mais de uma semana para trabalhar, e j conseguiu abrir um caminho. Com seus relatrios, tenho conseguido segurar os caras do Departamento de Assuntos Internos. Eles no esto muito satisfeitos com o fato de Frank ter armado tudo por conta prpria, mas aliviaram a presso. 
 Isso  bom.  Feeney enfiou as mos nos bolsos, enquanto se virava.  Ela  realmente muito boa em seu trabalho. Minha nossa, Jack, eu peguei pesado com ela! 
 Devia ter vindo a mim antes.  As sobrancelhas de Whitney se uniram em sinal de preocupao.  Cobrar satisfaes dela foi muito errado, Feeney. Fui eu quem deu as ordens. 
 Encarei tudo pelo lado pessoal. Tornei as coisas pessoais.  E se lembrou de como ela olhara para ele, com o rosto plido e os olhos sem expresso. Ele j vira pessoas com aquele olhar antes... vtimas, refletiu naquele momento, gente que j se acostumara a levar socos na cara.  Preciso consertar as coisas com ela. 
 Ela acabou de me ligar, poucos minutos antes de voc chegar. Est seguindo uma nova pista, trabalhando em casa. 
 Gostaria de uma permisso para tirar duas horas para tratar de assuntos pessoais, comandante  pediu Feeney, balanando a cabea como quem sabe o que deve ser feito. 
 Concedida! 
 E gostaria de entrar na investigao. 
 Isso vai depender de Dallas.  Whitney se recostou, considerando o pedido.  Ela  a investigadora principal desse caso. Estamos com as cartas todas na mesa agora, mas  ela quem escolhe a prpria equipe.


 Atenda ao tele-link, por favor, Peabody...  Eve continuava a pesquisar os registros que passavam pela tela, enquanto o tele-link tocava insistentemente. Era espantosa a quantidade de nomes que ela conhecia, a partir dos dados sociais, polticos e profissionais das pessoas. Duvidava muito de que um ano atrs ela reconhecesse tantos daqueles nomes, mas a sua ligao com Roarke lhe ampliara os horizontes. 
 Mdicos, advogados  murmurou ela.  Caramba! Esse cara j veio at jantar aqui em casa. E acho que Roarke j dormiu com essa mulher aqui... essa danarina... est estrelando um musical de sucesso na Broadway, e suas pernas tm um quilmetro de comprimento. 
 Nadine quer falar com voc  anunciou Peabody, perguntando a si mesma se Eve estava falando sozinha ou realmente queria compartilhar aquelas informaes pessoais. Tossiu forte, espirrou e especificou, com a voz spera:  Nadine Furst, do Canal 75... 
 Perfeito!  Eve limpou a tela, s para garantir, e se virou para o tele-link, perguntando:  E ento, Nadine, qual  a histria? 
 Voc  a grande histria, Dallas. Duas pessoas mortas!  perigoso ser apresentado a voc... 
 Ora, mas voc ainda est respirando. 
 At agora, pelo menos. Achei que talvez voc pudesse se interessar em alguns dados que apareceram na minha mesa. Podemos fazer uma troca. 
 Mostre suas cartas, Nadine, e talvez eu mostre as minhas. 
 Quero uma entrevista exclusiva, gravada na sua casa, onde voc aparecer analisando os dois assassinatos a faca, e tem que ir ao ar na edio de meio-dia. 
Eve nem se deu ao trabalho de soltar uma exclamao de desdm e fez uma contraproposta: 
 Entrevista genrica sobre a investigao, gravada na minha sala na polcia, e para a edio da noite. 
 O primeiro corpo foi achado na sua casa, e  por isso que eu queria gravar l. 
 Foi encontrado do lado de fora, na calada, e voc no vai entrar em minha casa. 
Nadine bufou... a reclamao foi para si mesma, pois sabia que aquilo no ia comover Eve. 
 Pelo menos eu quero a entrevista para a edio de meio-dia.
Eve olhou para o relgio e fez clculos, considerando tudo. 
 Posso liberar a sua entrada em minha sala para as onze e quarenta e cinco da manh. Se eu conseguir resolver tudo, estarei l para receb-la. Se no conseguir... 
 Droga, Eve, ns precisamos de tempo para editar a matria. Quinze minutos no d nem para... 
  o suficiente, Nadine, para algum to boa como voc. S quero ver se suas informaes vo compensar o tempo que vou perder. 
 T bom, mas pelo menos se arrume, para no aparecer com cara de catadora de lixo em meu programa  reagiu Nadine.  Faa alguma coisa interessante com o cabelo, pelo amor de Deus! 
Em vez de responder, Eve encerrou a transmisso. 
 Que obsesso  essa que as pessoas tanto tm pelos meus cabelos e pelas minhas roupas, hein?...  Passou os dedos pelos famosos cabelos, com a cara amarrada. 
 Mavis comentou comigo que esse seu corte j passou da validade h muito tempo, e que voc precisa marcar uma hora com a estilista. Leonardo tambm anda reclamando disso. 
 Voc anda de amizade com a Mavis, ? 
 J fui assistir ao seu show duas vezes.  Assoou o nariz com fora. Esses medicamentos liberados para venda sem receita eram pura enganao, decidiu ela.  Gosto de ver Mavis no palco. 
 Bem, eu no tive tempo de marcar hora com estilista nenhuma  resmungou Eve.  Quanto aos cabelos, eu mesma dei uma picotada neles h uns dois dias. 
 , d para notar...  Eve apertou os olhos e, diante disso, Peabody sorriu docemente, completando:  Ficaram lindos! 
 Baba-ovo!...  Eve tornou a ligar o monitor.  Agora, se j terminou com as crticas a respeito da minha aparncia, talvez queira pesquisar alguns desses nomes. 
 Reconheo alguns deles.  Peabody se inclinou por cima do ombro de Eve.  Louis Trivane: advogado bam-bam-bam das celebridades... livra as estrelas de apuros legais. Marianna Bingsley: herdeira de uma rede de lojas de departamentos e devoradora-de-homens profissional. Cario Mancinni, guru do aprimoramento cosmtico,  mdico, mas uma pessoa precisa ser muito rica para que ele sequer considere a possibilidade de fazer escultura corporal nela. 
 J conheo as figuras, Peabody. Agora, preciso de fatos do passado, dados pessoais, financeiros, mdicos e possveis passagens pela polcia. Quero os nomes de seus maridos, mulheres e ces. Quero saber quando e como cada um deles entrou em contato com Selina Cross e o motivo de terem decidido que Sat era um cara legal. 
 Isso vai levar dias!  disse Peabody, com cara de tristeza, fazendo Eve se lembrar de Feeney com pesar.  Vou levar muito tempo, mesmo pesquisando os dados no Centro Internacional de Pesquisas Criminalsticas (CIPC). 
Eve no disse nada. O Centro Internacional de Pesquisas Criminalsticas era a fonte dos maiores orgulhos e alegrias de Feeney. 
 Se ao menos eu conseguisse algum detetive eletrnico para me ajudar, poderamos fazer isso na metade do tempo, talvez em menos ainda...  Peabody encolheu os ombros.  Ento, por onde quer que eu comece? 
 Comeamos por Wineburg. Cave bem fundo a, e tambm em Lobar... Robert Mathias. Depois, passe para o topo da lista e v descendo. Eu pego do final e vou subindo. Tente rastrear grandes retiradas de dinheiro a intervalos regulares. Garanto que vamos ter uma idia do que precisamos quando nos encontrarmos, no meio da lista. 
Eve estreitou os olhos, pensando. Os dados financeiros da seita de Selina talvez estivessem protegidos pela Lei de Privacidade, j que era uma religio registrada. Mesmo assim havia uma chance, mnima que fosse, de ela ser arrogante o bastante para fazer depsitos em sua conta pessoal. 
Era s verificar. Por outro lado, ela teria de decidir se os dados iam poder ser usados, caso conseguisse acess-los. Alm do mais, para acess-los, ela ia precisar de Roarke. 
Era melhor esperar um ou dois dias, decidiu. Uma vez estimada a quantia que os membros depositavam no bolso de Selina, ela poderia tornar a avaliar os valores individualmente. 
Ia ser difcil convencer a promotoria a enquadrar contribuies religiosas como extorso, mas j era um comeo. 
 Se fizermos a conexo de Wineburg com a seita de Selina Cross, posso reboc-la para interrogatrio. Acho que podemos fazer isso, digamos, s onze e meia. 
 Voc est com entrevista marcada com Nadine para as onze e quarenta e cinco. 
 Eu sei.  O sorriso de Eve se ampliou.  Acho que o lance vai funcionar... 
 Hein? 
 No vai ser culpa minha se uma reprter xereta descobrir que estou interrogando Selina Cross enquanto investigo dois homicdios recentes, somar dois mais dois... 
 E jogar a histria no ar. 
 Isso pode balanar alguns desses importantes e refinados satanistas. Tem gente que comea a dar com a lngua nos dentes assim que comeamos a sacudi-los um pouco. Consiga-me alguns dados e vou poder sacudi-los com mais fora ainda. 
 Tiro o meu chapu para voc. 
 No faa isso ainda,  melhor ver se a idia funciona antes. Pode usar este equipamento. Vou usar um dos aparelhos de Roarke para dar o primeiro passo. Computador, copie o disco e imprima esta lista!  Olhou para trs ao sentir que vinha entrando algum e ficou muda.  Cancelar ordem!  murmurou, e se preparou para tomar outra esculhambao de Feeney. 
 Peabody...  Feeney lanou para a auxiliar de Eve um olhar calmo, com os olhos cansados  ...preciso de um instante a ss com a sua tenente. 
 Senhora?...  Mesmo tendo se levantado, Peabody esperou pela autorizao de Eve para se retirar. 
 Tire alguns minutos de folga, Peabody. V tomar um caf. 
 Sim, senhora.  Ela saiu, sentindo fagulhas de tenso no ar. Eve no disse nada, simplesmente se colocou em p. Seu corpo estava preparado, ele notou, no para se defender, mas para absorver o prximo golpe. Seus olhos mantinham-se cuidadosamente sem expresso. A mo que se apoiava na mesa, porm, tremia de leve. Ele olhou para o tremor por um instante, surpreso e envergonhado por ser o causador daquilo. 
 O seu mordomo... Summerset me disse que eu podia subir direto.  Estava quente no quarto, mas ele no tirou o sobretudo amarrotado. Em vez disso, enfiou as mos nos bolsos.  Agi muito mal com voc ontem. Vir para cima de voc no foi correto, Eve. Voc estava fazendo o seu trabalho. 
Ele viu os lbios dela tremerem, como se estivessem prestes a falar ou emitir algum som. Ento ela tornou a firm-los, sem dizer nada. Parecia ter sido aoitada. 
Voc a deixou arrasada.
O pai dela a espancava, torturava e estuprava.
Voc vem sendo o pai dela h dez anos.
Como ele ia conseguir lidar com aquilo? E como poderia ignorar tudo? 
 As coisas que eu falei... eu no devia ter dito nada daquilo.  Tirou as mos do bolso, esfregando-as com fora no rosto.  Nossa, Dallas, eu sinto muito! 
 Voc falou tudo aquilo de corao?  As palavras saram antes de ela conseguir impedi-las. Levantando a mo, ela se virou e olhou para fora da janela, sem conseguir ver nada. 
 Queria ter falado, porque estava revoltado naquela hora.  Foi at ela com as mos balanando no ar, sem finalidade.  Sei que no tenho desculpas para o que fiz  comeou. Ele a tocou, mas afastou os dedos ao sentir que ela se encolheu toda.  No tenho desculpas  repetiu, depois de respirar fundo.  Voc tem toda a razo de se afastar de mim. Eu fui com tudo em cima de voc, e no devia ter feito isso. 
 Agora voc j no confia mais em mim.  Ela passou as costas da mo sobre a face, com vergonha por ter deixado uma lgrima solitria escorrer. 
 Isso no  verdade, Dallas. No existe ningum em quem eu confie mais. Escute aqui, droga...  preciso apontar uma arma a laser para a minha cabea, e s assim eu peo desculpas para a minha prpria esposa. Estou lhe dizendo que sinto muito.  Com impacincia, ele a agarrou pelo brao e a virou de frente para ele. Ela congelou. Seus olhos ficaram brilhantes, com as lgrimas reluzindo, porm, graas a Deus, elas no caram.  No venha com esse olhar feminino para cima de mim no, Dallas. No consigo chutar a minha prpria bunda com mais fora do que j estou fazendo.  Levantou o queixo, apontando para ele com a ponta de um dos dedos.  V em frente! Um direto de direita, pode socar! Vai ficar apenas entre ns o fato de voc ter agredido um oficial superior. 
 Eu no quero agredir voc, Feeney! 
 Droga, eu tenho um posto superior ao seu e estou mandando! Aplique um soco na minha cara! 
A sombra de um sorriso surgiu nos lbios dela. Ele estava com uma aparncia pssima, avaliou ela, com aqueles olhos de camelo cansado brilhando de raiva e frustrao. 
 Talvez eu cumpra essa ordem, mas s depois de voc se barbear. Essa barba toda espetada vai acabar arranhando os ns dos meus dedos. 
 Voc est ficando molenga mesmo...  Uma sensao de alvio o inundou ao notar o leve sorriso nos lbios dela.  Levar essa vida de gr-fina com aquele irlands filho-da-me d nisso... 
 Eu arranquei o couro de um andride boxeador ontem  noite. E ele  um dos melhores do arsenal de Roarke. 
 Srio mesmo?  disse e se inchou todo de orgulho, sentindo-se ridculo. 
 Fingi que ele era voc  provocou ela, cutucando a bochecha por dentro da boca com a lngua. 
Ele sorriu, pegou um saco com amndoas aucaradas no bolso e ofereceu a ela, dizendo: 
 Detetives eletrnicos no precisam usar os punhos. Eles usam o crebro. 
 Voc me ensinou a usar ambos. 
 E a cumprir ordens  acrescentou, com os olhos novamente pousados nela.  Ficaria envergonhado se voc tivesse se esquecido disso. Voc fez o certo, Dallas. Por Frank, pelo departamento... e por mim  afirmou ele, reparando que os olhos dela tornaram a se encher de lgrimas.  No, no faa isso!  Sua voz estremeceu com o pedido.  No comece com essa histria molhada.  uma ordem! 
 No estou fazendo nada  reagiu ela, passando as costas da mo sob o nariz. 
Ele esperou um momento, apenas para ter certeza de que ela no ia abrir a torneira, deixando os dois sem graa. Ao ver que seus olhos estavam secando, concordou com a cabea, aliviado. 
 timo!  Balanou o saquinho de amndoas na mo.  E agora, quando  que voc vai me deixar entrar no caso? 
Ela abriu a boca para dizer algo, mas tornou a fech-la. 
 Estive com Whitney  disse Feeney, quase com vontade de rir. Aquela era a policial que ele treinara. Firme, resoluta e correta.  Fui tirar satisfaes com ele cara a cara, na cozinha de sua casa. 
 Foi mesmo?  Eve levantou as sobrancelhas.  Essa cena eu queria ter visto! 
 O problema  que, depois do papo, fui obrigado a concordar com ele. O comandante pegou a melhor policial para o trabalho. Soube que voc cortou um dobrado para tirar o Departamento de Assuntos Internos de cena e limpar o nome de Frank... e o meu tambm  acrescentou.  E sei tambm que voc est correndo atrs de quem o matou, e Alice tambm.  Nesse ponto, ele teve que tomar flego, porque aquilo ainda machucava muito.  Quero entrar no caso, Dallas. Para ser franco, quero tirar esse peso da minha cabea. Whitney disse que dependia apenas de voc. 
A tenso saiu como um peso retirado dos seus ombros. Ela poderia fazer aquilo por ele, e por ela tambm. 
 Vamos cair dentro ento, Feeney  convidou ela. 


Eve ficou to satisfeita por estar com Selina Cross na sala de interrogatrio que nem se lembrou de que o melhor ainda estava por vir, pois ela estaria sendo representada por Louis Trivane. Ao abrir a porta da sala A, lanou sorrisos luminosos para ambos. 
 Sra. Cross, aprecio muito a sua cooperao. Como vai, dr. Trivane? 
 Tudo bem, Eve... 
 Tenente Dallas, por favor  corrigiu ela, arrancando o sorriso do rosto.  Isto no  uma reunio social, doutor. 
 Vocs j se conheciam?  Os olhos de Selina se mostraram glidos quando ela olhou fixamente para o advogado. 
 Seu representante conhece o meu marido, socialmente. Alis, eu conheo um grande nmero de advogados nesta cidade, sra. Cross, e isso no afeta o meu desempenho no trabalho nem o deles. Vamos gravar o depoimento. 
Eve ligou o gravador e recitou os dados pertinentes ao caso. Depois de informar oficialmente  interrogada sobre os seus direitos de permanecer calada e utilizar os servios de um advogado, ela se sentou. 
 Vejo que resolveu fazer valer o seu direito de ter um advogado presente, sra. Cross. 
 Certamente! J fui por demais assediada verbalmente pela senhora, tenente Dallas. Prefiro continuar a ser molestada diante de um gravador. 
 Eu tambm...  Eve sorriu.  A senhora tinha um relacionamento com Robert Mathias, tambm conhecido como Lobar. 
 Ele era Lobar  corrigiu Selina.  Foi esse o nome que escolheu. 
 Era certamente  a palavra adequada, j que o sr. Mathias se encontra no freezer do necrotrio. Junto de Thomas Wineburg. A senhora tinha algum relacionamento com ele tambm? 
 No, no tive o prazer de ter sido apresentada a este cavalheiro. 
 Ora, mas isso  curioso... ele era um membro de sua seita.
Selina empinou o queixo, afastou Trivane quando ele se aproximou para cochichar algo em seu ouvido e disse: 
 A senhora no pode esperar que eu reconhea os nomes de todos os membros de minha igreja, tenente. Ns somos...  espalmou as mos sobre a mesa  ...legio. 
 Bem, ento talvez essas imagens refresquem a sua memria.  Eve abriu uma pasta, pegou uma foto e a atirou sobre a mesa, na direo de Selina. Instantneos de pessoas mortas sempre eram horrveis. 
Selina pegou a foto e um leve sorriso danou-lhe nos lbios. Um dos dedos, novamente preso a uma pequena rede de correntes nas costas de sua mo, acompanhou a trilha de sangue vermelho-escuro que escorria do corpo na foto, e ela disse: 
 No posso afirmar com certeza. Sempre nos reunimos no escuro.  Seu olhar se encontrou com o de Eve.   o nosso costume... 
 Pois eu posso afirmar com certeza. Tanto ele quanto Lobar eram conhecidos seus, e ambos foram mortos por um punhal no estilo do que  utilizado em seus rituais. 
 Um athame, sim... no somos a nica religio que usa tal instrumento em uma cerimnia. Creio que, depois desses atos de violncia, a polcia deveria estar mais preocupada em nos proteger e no em nos acusar. Obviamente, existe uma pessoa, ou um grupo de pessoas, interessada em nos eliminar. 
 Eu achava que vocs tinham proteo prpria. O seu mestre no cuida de seus seguidores? 
 Seu deboche serve apenas para demonstrar sua ignorncia. 
 E fazer sexo com um delinqente de dezoito anos serve apenas para demonstrar a sua. A senhora tambm fez sexo com Tho-mas Wineburg? 
 J lhe disse que nem sequer tenho certeza se sei quem ele era. Se o conhecia, no entanto, provavelmente fiz sexo com ele. 
 Selina!  Trivane a cortou com a voz firme.  A senhora est conduzindo as declaraes de minha cliente, tenente. Ela j afirmou que no consegue identificar esta vtima. 
 Mas o conhecia sim... vocs dois o conheciam. Ele era um furo. Sabe o que significa furo no jargo da polcia, sra. Cross? Um informante.  Eve se levantou e se inclinou, colocando o seu corpo mais prximo de Selina.  A senhora ficou preocupada com as coisas que ele poderia ter me contado? Foi por isso que arranjou tudo para que morresse? A senhora o estava seguindo?  Lanou o olhar na direo de Trivane por um instante.  Talvez a senhora mande seguir todos os seus... devotos. 
 Vejo tudo o que preciso ver na nvoa. 
 Sei... na nvoa! A verso psquica do voyeurismo. Foi muito arriscado para Wineburg ir at o velrio... por que motivo a senhora acha que ele queria ver Alice morta? Wineburg havia estado l na noite em que ela foi drogada e estuprada? A senhora deixou que ele a possusse? 
 Alice era uma iniciada, de bom grado. 
 Ela era uma criana e muito confusa. A senhora gosta de atrair os jovens, no ? Eles so muito mais interessantes do que os baixinhos idiotas, como Wineburg. Possuem corpos mais firmes e mentes mais maleveis. Gente do tipo de Wineburg ou do tipo do nosso distinto advogado aqui servem apenas para fornecer grana ou pelo toque de classe. Os outros, como Alice, so to macios, no?... To tenros... 
 Ela era mesmo...  Selina levantou a cabea de forma arrogante, olhando atravs dos clios pretos e espessos.  Ela desfrutava e era desfrutada. No precisava ser atrada, Dallas. Foi ela que me procurou. 
 E agora est morta. Trs mortes. Os membros do seu grupo devem estar ficando nervosos...  Eve sorriu com malcia para Trivane  ...eu estaria. 
 Mrtires no so novidade, Dallas. As pessoas vm sendo mortas por causa de sua f h sculos e, mesmo assim, a f sobrevive. Ns sobreviveremos... vamos triunfar! 
 Pois ele no triunfou.  Eve pegou outra foto e a atirou sobre a mesa. 
Era Lobar, com o corpo mutilado bem retratado, sob as luzes brilhantes da cena do crime, o corte em sua garganta aberto como se representasse um grito de pavor. 
Foi para Trivane que Eve olhou. Seus olhos piscaram muito rpido, demonstrando horror. Sua pele ficou plida e seu peito se arqueou, subindo c descendo em espasmos ofegantes. 
 Ele no sobreviveu nem triunfou  disse Eve.  No  verdade, sra. Cross? 
 Sua morte servir de smbolo. Ele no ser esquecido. 
 A senhora possui um athame? 
 Sim. Possuo vrios, naturalmente. 
 Como este aqui?  Pegou mais uma foto, dessa vez um dose da arma que fora espetada no corpo de Lobar. O sangue cobria toda a lmina. 
 Possuo vrios  repetiu Selina , alguns deles muito parecidos com este, como era de esperar. No entanto, no reconheo o objeto que aparece nesta foto. 
 Alucingenos foram encontrados no organismo de Lobar. A senhora usa drogas em seus rituais. 
 Sim, algumas ervas e produtos qumicos. Todos dentro da lei. 
 ?... Nem todas as substncias encontradas no organismo de Lobar estavam dentro da lei. 
 No posso ser responsabilizada pelas escolhas que outras pessoas fazem. 
 Mas ele esteve com a senhora na noite em que morreu. Ele consumiu drogas? 
 Tomou o vinho do ritual. Se ingeriu alguma outra coisa, foi sem o meu conhecimento. 
 A senhora tem antecedentes como traficante... 
 E j paguei meus dbitos com a sociedade. A senhora no tem nada de concreto contra mim, tenente. 
 Tenho trs corpos. De pessoas ligadas  senhora. Tenho um policial morto, e ele tambm estava ligado  senhora. Estou fechando o cerco, sra. Cross. Pouco a pouco... 
 Saia da minha cola! 
 Ou...? 
 Voc conhece a dor, tenente?  A voz de Selina ficou mais grave e baixa.  Por acaso conhece a dor que vai corroendo o estmago como se fossem gotas de cido se espalhando por dentro do corpo? A pessoa implora por piedade, mas ela no chega. A dor se transforma em agonia, e a agonia  mais forte que o prazer. Ela se torna to intensa, to indescritvel, que se uma faca cair nas mos da pessoa ela  capaz de cortar as prprias tripas para se livrar da fonte da agonia. 
 E isso aconteceria comigo?  perguntou Eve, friamente.  Realmente aconteceria? 
 Posso lhe provocar isso. Posso lhe causar muita dor. 
Eve sorriu, mas seu sorriso foi lento e sem humor.
 Agora, finalmente, entramos no nvel de ameaa a uma funcionria do Departamento de Polcia. Isso vai lhe proporcionar algum tempo no xadrez, at seu advogado conseguir libert-la... 
 Sua piranha!  Furiosa ao ver que cara em uma armadilha to bem preparada e de forma to infantil, Selina deu um pulo, colocando-se de p.  No pode me prender por isso! 
 Claro que posso, quer ver?... Selina Cross, a partir deste momento a senhora est presa por fazer ameaas de agresso fsica a uma policial.
Selina foi muito rpida, mas os reflexos de Eve estavam em forma e conseguiram bloquear o primeiro golpe da acusada, que voara em cima dela. O segundo ataque, porm, a atingiu, e sua garganta foi arranhada por unhas afiadas e letais. Eve sentiu o cheiro do prprio sangue e ofereceu a si mesma o prazer de levantar o cotovelo com toda a fora, atingindo em cheio o queixo da oponente. 
Os olhos pretos pareceram rolar para cima e perderam o brilho. 
 Parece que vamos ter que acrescentar resistncia  priso, doutor. O senhor vai ter muito trabalho nas prximas horas. 
Ele no movera um msculo sequer. Trivane continuava sentado, os olhos arregalados, analisando as fotos dos mortos. Quando Feeney abriu a porta, acompanhado por um policial, Eve concordou com a cabea e determinou: 
 Pode fich-la por ameaas verbais e resistncia  priso. 
Selina cambaleou quando Eve a entregou ao policial. Seus olhos, porm, ficaram mais focados e se fixaram no rosto de Eve com um dio borbulhante. Comeou a murmurar algo, entoando um cntico que aumentava e diminua de intensidade, de forma quase musical. Revirando a cabea, ela olhou por trs do ombro enquanto o policial a carregava dali. 
Eve passou os dedos no pescoo, fazendo uma cara feia quando os viu manchados de sangue. 
 Conseguiu entender o que ela estava resmungando, Feeney? 
 Pareceu latim, s que ela maltratou o idioma.  Feeney pegou um leno e o entregou para Eve.  Sei disso porque minha me me obrigou a aprender essa lngua quando eu era pequeno. Tinha esperanas de que eu me tornasse padre. 
 Veja se consegue transcrever cada palavra atravs da gravao. Talvez consigamos aumentar ainda mais o nmero de acusaes contra ela. Merda, isso arde!... Interrogatrio encerrado!  acrescentou, registrando a hora, a data e desligando o gravador.  Dr. Trivane?... Deseja falar alguma coisa comigo? 
 Como?...  Ele olhou para ela, engoliu em seco e balanou a cabea.  Vou cuidar de minha cliente, tenente, assim que ela acabar de ser fichada. Essas acusaes no vo mant-la presa por muito tempo. 
 Pois eu acho que vo...  Estendeu os dedos ensangentados na direo dele.  Olhe s para isso, Louis.  E chegou mais perto dele, esfregando os dedos sob o nariz dele.  Esse sangue pode ser o seu da prxima vez. 
 Vou ver a minha cliente  repetiu, e seu rosto continuava branco como cera quando saiu correndo da sala. 
 Aquela piranha  pirada!  comentou Feeney. 
 Agora me conte alguma novidade, meu amigo.
 Ela odeia a sua raa!  disse ele, com satisfao, feliz por estar novamente em campo.  Acho que voc j sacou isso tambm. Ela jogou um vodu em voc. 
 Hein? 
 Uma praga  piscou ele.  No se esquea de me avisar se comear a sentir alguma elica. Voc est comeando a atingi-la. 
 Ainda no  o bastante  murmurou Eve.  Mas estou apostando minhas fichas no advogado. Vamos mant-lo sob proteo, Feeney. No quero que ele aparea morto antes de abrir o jogo. Reparei bem no jeito que ele olhou para a foto de Lobar. Sentiu choque, e em seguida fez uma expresso de quem reconhecia o morto.  Balanou a cabea.  No podemos perd-lo.  Olhando para o relgio, cantarolou de satisfao, dizendo:  Olhe s... est bem na hora da minha entrevista ao vivo com a Nadine. 
 No quer que algum d uma olhada nesse pescoo ensangentado, Dallas? Voc est horrvel! 
 Depois  disse e saiu, andando a passos largos. Nadine no ia deixar de perceber os arranhes. Nem os olhos da cmera, que tudo captam... 


 Que diabos aconteceu com voc?  quis saber Nadine, parando na mesma hora e olhando para o relgio. 
 Tivemos um pequeno problema na sala de interrogatrio. 
 Voc chegou em cima da hora, Dallas, vamos entrar no ar em dois minutos. No h tempo para limpar isso. 
 timo, ento vamos em frente desse jeito mesmo... 
 Teste de voz e de luminosidade  declarou Nadine  operadora de cmera. Pegou um pequeno estojo de p compacto e retocou a maquiagem enquanto se sentava, comentando:  Pelo jeito, esses arranhes foram feitos por uma mulher... quatro unhas compridas e cruis, pelos sulcos paralelos. 
 ...  Eve apertou as feridas de leve com um leno j manchado.  Se algum ficar curioso para saber quem fez isso, mande-o verificar quem foi fichado esta manh. 
  uma boa idia...  Os olhos de Nadine ficaram mais brilhantes e ela ronronou:  Voc no fez nada com o seu cabelo. 
 Eu o cortei. 
 Quis dizer que voc no fez nada de til... no ar em trinta segundos. Tudo pronto, Suzanna? 
A operadora fez um sinal positivo com o polegar. 
 Esse sangue fresco vai ficar muito bem no ar. Vai dar um toque simptico  entrevista. 
 Puxa, obrigada, Nadine.  Eve se recostou na cadeira e cruzou uma das pernas sobre o joelho.  Agora vamos ver se acabamos logo com isso, Nadine. Voc ainda no me mostrou as suas cartas. 
 Ento aqui vai uma prvia... Que bruxo do pedao  filho do famoso David Baines Conroy, assassino em srie que est atualmente cumprindo pena por cinco homicdios na priso de segurana mxima da Estao mega, sem direito  condicional? 
 Quem... 
 Se liga...  disse Nadine, com um tom doce na voz, feliz por ter captado a ateno de Eve.  ...Quatro, trs...  e contou os dois ltimos segundos com os dedos, abaixo da altura alcanada pela cmera. No momento exato, olhou direto para a lente com um olhar sbrio, dizendo:  Boa-tarde. Aqui fala Nadine Furst, apresentando uma entrevista ao vivo, com exclusividade. Estamos com a tenente Eve Dallas, em sua sala na Central de Polcia... 
Eve estava preparada para as perguntas. Conhecia Nadine muito bem, o bastante para no se deixar abalar pela informao que acabara de ser jogada em seu colo segundos antes de o programa entrar no ar, como imaginava que Nadine gostaria que acontecesse. Respondeu a tudo de forma objetiva e cuidadosa, e sabia que estava fazendo a audincia do Canal 75 e da prpria Nadine subir a cada segundo da entrevista. 
 O departamento est procedendo com a possibilidade de os casos terem ligao uns com os outros, como as evidncias parecem indicar. Embora armas de diferentes tipos tenham sido deixadas no local dos assassinatos, elas possuem similaridades. 
 Poderia descrev-las, tenente? 
 No posso comentar nada a esse respeito. 
 Mas eram punhais. 
 Eram instrumentos pontiagudos e cortantes. No estou autorizada a dar mais detalhes. Fazer isso poderia prejudicar as investigaes. 
 A segunda vtima... a senhora o estava perseguindo no momento de sua morte. Por qu? 
Eve estava preparada para esta pergunta, e decidira explor-la em benefcio prprio, respondendo: 
 Thomas Wineburg nos oferecera indcios de conhecer informaes que poderiam ser teis para a resoluo do caso. 
 Que tipo de informaes? 
Nenhuma, pensou Eve, mas manteve o olhar sereno e firme, repetindo: 
 No estou autorizada a divulgar isso. Posso adiantar apenas que ns conversamos, e ento ele se mostrou agitado e fugiu. Eu o persegui. 
 E ele foi morto. 
 Correto. Fugir no lhe adiantou de nada. 
Parecendo aborrecida pelo fato de seu diretor avis-la pelo fone de ouvido que o tempo estava acabando, Nadine deu por encerrada a entrevista, virando-se para Eve assim que a cmera foi desligada e dizendo: 
 Agora estamos s ns duas. Suzanna!...  Nadine simplesmente gesticulou em direo  porta e a operadora saiu da sala.  Olhe, Eve, no posso revelar a fonte... 
 Tudo bem, solte a lngua. 
 Certo...  Nadine se recostou na cadeira e cruzou as lindas pernas.  Charles Forte assumiu legalmente o nome de solteira de sua me h doze anos, depois de seu pai ter sido condenado pelo assassinato ritualstico de cinco pessoas. Acredita-se que ele matou inmeras outras, mas isso jamais foi provado. Os corpos nunca foram encontrados. 
 Conheo bem a histria de David Baines Conroy, mas no sabia que ele tinha um filho. 
  informao sigilosa, protegida pela Lei de Privacidade. A famlia toda cortou os laos que a ligavam ao nome de Conroy. A me de Charles Forte se divorciou do marido e se estabeleceu em outra cidade alguns anos antes de Baines Conroy ser pego. O menino tinha dezesseis anos quando sua me o pegou e carregou com ela. Acabara de completar vinte e um quando o pai foi julgado e condenado. Minhas fontes afirmam que o filho assistiu a todo o julgamento, sem deixar de comparecer um dia sequer. 
Eve se lembrou do homem baixo e discreto que conhecera no velrio de Alice. O filho de um monstro... quanto dessa herana poderia ser transmitida pelo sangue? Lembrou-se na mesma hora de seu prprio pai e quase estremeceu. 
 Obrigada pelas informaes, Nadine. Se elas trouxerem algum resultado, vou ficar lhe devendo uma. 
 , vai mesmo... levantei um monte de dados sobre todas as seitas espalhadas pela cidade. Nenhum deles  to dramtico quanto a histria que acabei de lhe passar, mas podem levar a alguma coisa. Nesse meio-tempo, se voc estava na sala de interrogatrio com algum revoltado o bastante para voar na sua jugular, devo concluir que temos um suspeito? 
 No posso comentar nada a esse respeito.  Eve ficou observando as unhas. Muita gente devia comentar tambm que ela estava precisando ir  manicure.  Sabe, Nadine, as cmeras externas so proibidas na sala de deteno. 
 No  uma pena?... De qualquer modo, obrigada pela dica, Dallas. Vou manter contato. 
 Certo.  Eve a observou sair da sala, e no teve dvidas de que Nadine estava indo direto para a sala de deteno... e que Se-lina Cross ia ter seu nome divulgado pela mdia antes do noticirio do meio-dia terminar. 
Considerando tudo, decidiu, at que no fora uma manh desperdiada. 
Franzindo o cenho, vasculhou as gavetas em busca de um estojo de primeiros socorros.


 



CAPTULO QUINZE





N
o vou conseguir chegar em casa a tempo de me aprontar.  Eve se comunicava com Roarke pelo tele-link enquanto buscava, no computador, todos os dados sobre David Baines Conroy.  Ser que voc no poderia me pegar aqui no trabalho s seis horas? Podamos ir daqui direto para a festa das bruxas, no campo. 
 Tudo bem, com a condio de que a viagem no seja feita em seu veculo.  Roarke levantou uma das sobrancelhas de modo elegante, e ento apertou os olhos para ver melhor e pediu:  Chegue um pouco mais perto da tela, querida... O que houve com voc dessa vez?  perguntou. 
 O que quer dizer com dessa vez? Estou muito ocupada! 
 Quero saber o que houve dessa vez com o seu pescoo. 
 Ah, isso...  Passou os dedos sobre as feridas, ainda em carne viva. Ela no conseguira achar o estojo de primeiros socorros.  Foi uma pequena diferena de opinies. Eu ganhei... 
 Naturalmente que sim... mas coloque alguma coisa nessas feridas, tenente. Devo chegar a por volta de seis e meia. Podemos jantar a caminho. 
 Certo.  Jantar a caminho?...  Espere um minuto. No me aparea aqui com a limusine. 
 Seis e meia  disse e simplesmente sorriu. 
 Estou falando srio, Roarke, no traga a...  Estalou a lngua em sinal de desaprovao, reclamando:  Droga!  Com um suspiro, voltou ao computador. 
O CIPC era uma boa fonte para aquele tipo de pesquisa, avaliou Eve, passando por vrios arquivos e fazendo pausas ao notar fatos relevantes sobre David Baines Conroy. 

Divorciado, tem apenas um descendente, do sexo masculino, de nome Charles. Esse filho nasceu em 22 de janeiro de 2025, e sua me, Ellen Forte, conseguiu a custdia da criana. 

Grande novidade, refletiu Eve. Assassinos em srie dificilmente mantinham a custdia dos filhos. 
 Vamos direto ao assunto  murmurou ela.  Computador, quero acusaes e condenaes.

Acusado e condenado... Assassinato em primeiro grau, sob tortura, com estupro post-mortem, mutilao e desmembramento de Doreen Harden, sexo feminino, cor parda, com vinte e trs anos. Sentena: priso perptua em penitenciria de segurana mxima, sem direito a condicional. 
Acusado e condenado... Assassinato em primeiro grau, acompanhado de estupro, morte por tortura e posterior desmembramento de Emma Tangent, sexo feminino, negra, com vinte e cinco anos. Sentena: priso perptua em penitenciria de segurana mxima, sem direito a condicional. 
Acusado e condenado... Assassinato em primeiro grau, acompanhado de sodomia, estupro, morte por tortura e desmembramento de Lowell McBride, sexo masculino, branco, com dezoito anos. Sentena: priso perptua em penitenciria de segurana mxima, sem direito a condicional. 
Acusado e condenado... Assassinato em primeiro grau, acompanhado de estupro, morte por tortura e desmembramento de Daria Fitz, sexo feminino, cor parda, com vinte e trs anos. Sentena: priso perptua em penitenciria de segurana mxima, sem direito a condicional. 
Acusado e condenado... Assassinato em primeiro grau, sodomia, estupro post-mortem, morte por tortuta e desmembramento de Martin Savoy, sexo masculino, cor parda, com vinte anos. Sentena: priso perptua em penitenciria de segurana mxima, sem direito a condicional. 
O condenado encontra-se atualmente cumprindo sentena na Penitenciria da Estao mega. 
Suspeito de doze outros assassinatos, casos ainda em aberto. Provas insuficientes para indiciao. Os investigadores principais de cada caso esto  disposio para maiores esclarecimentos. 

 Computador, quero a lista dos investigadores principais de todos os crimes  ordenou Eve, observando a lista de nomes e os dados que iam surgindo na tela.  Voc andou passeando bastante por a, no foi, Conroy?  falou baixinho ao notar que os detetives encarregados de cada caso estavam espalhados por todo o pas. 
Eve ainda era adolescente quando o caso Conroy tomou conta de todos os noticirios, mas se lembrava dos raptos, dos membros da famlia chorosos, diante das cmeras, implorando a Conroy que lhes contasse onde escondera os restos mortais de seus entes queridos. Lembrava-se de policiais com ar sombrio dando declaraes, e visualizou o prprio Conroy, com seu rosto sereno marcado por olhos escuros e ferozes. 
Na poca, todos o chamaram de demnio, recordou. O An-ticristo... esse era o termo usado por todos para descrev-lo em uma tentativa, talvez, de separ-lo da raa humana. 
No entanto, ele fora humano o bastante para conceber um filho. E esse filho estava em sua lista de suspeitos. Talvez ela tivesse se focado demais em Selina Cross. 
O filho demonstrava ter atrao pelo poder, refletiu. E feitiaria tinha tudo a ver com poder, no  mesmo? Ele conhecia, comprova-damente, pelo menos uma das vtimas. E duas outras foram mortas por facas. Conroy se mostrara muito habilidoso no passado com facas. 
Ele tambm se considerava um instrumento de Deus, recordou, analisando os dados. Sim, ali estava uma de suas declaraes incoerentes, notou ela, destacando o arquivo e exigindo: 
 Computador, quero o udio deste arquivo.

Carregando arquivo... 

 Sou uma fora que est acima de todos  afirmava a voz de Conroy, com uma dico maravilhosa e quase musical. A voz do filho, lembrou Eve, era igualmente carismtica.  Sou o instrumento de um deus de vingana e dor. O que fao em Seu nome  grandioso. Tremam diante de mim, pois jamais serei derrotado. Sou Legio. 
 Voc  lixo  corrigiu Eve. Legio... Selina Cross usara o mesmo termo. Interessante... Ser que Conroy enveredara pelo satanismo, perguntou-se, ou pela feitiaria? E ser que o filho fora atrado para as mesmas reas de atuao? 
At que ponto, ponderou ela, Charles Forte sabia das atividades do seu pai? E como se sentia a respeito? 
 Computador, apresente informaes sobre Charles Forte, morador desta cidade e conhecido anteriormente pelo nome de Charles Conroy, filho de David Baines Conroy. 

Pesquisando... 

Quando as informaes surgiram, anunciadas por um bipe, Eve tamborilou com os dedos sobre o tampo da mesa e as avaliou. A me levara o filho para Nova York, o que significava, refletiu Eve, que o rapaz viajara de volta at a sua cidade de origem para assistir ao julgamento. Ele se dera a todo esse trabalho, provavelmente entrando em conflito com a me. Largou a faculdade de farmcia no segundo perodo. Muito interessante. Registrado como atendente especializado em substncias qumicas, trabalhou na fabricao e clonagem de drogas farmacuticas. Pulou de cidade em cidade, notou ela. Como seu querido pai. Finalmente, se estabeleceu em Nova York, como co-proprietrio da loja Busca Espiritual. 
Recostando-se na cadeira, Eve passou os dedos, de forma casual, pela garganta arranhada. No se casara, no tivera filhos e nunca fora preso. Por palpite, solicitou algo a mais: 
 Computador, informe todos os seus dados mdicos. 

Charles Forte teve a mo quebrada aos seis anos. Tambm aos seis anos, sofreu uma leve concusso, acompanhada de leses abdominais. Aos sete, queimaduras de segundo grau nos antebraos. Tambm aos sete, concusso e tbia fraturada. 

A lista continuava nesse ritmo por toda a sua infncia, em um padro to constante que fez o estmago de Eve se apertar. 
 Pare!  comandou ela.  Informe a probabilidade de ele ter sido vtima de abuso infantil. 

Probabilidade: noventa e oito por cento. 

 E por que cargas dgua as autoridades no perceberam este fato? 

Os registros mdicos indicam que os diversos atendimentos foram feitos em vrios hospitais em cidades diferentes, em um perodo de dez anos. No h registro nos arquivos da Agncia Nacional de Preveno de Abusos e Proteo da Criana.

 Idiotas! Idiotas!  Eve passou as mos no rosto, apertando com fora o local onde uma dor de cabea comeava a surgir, em sua fronte. Aquilo era parecido demais com o que acontecera com ela.  Quero uma listagem com os tratamentos psiquitricos ou perfis psicolgicos disponveis  exigiu. 

O objeto da pesquisa cadastrou-se voluntariamente na Clnica Miller, para ser atendido como paciente externo. Seu mdico foi o dr. Ernest Renfrew, de fevereiro de 2045 a setembro de 2047. Os arquivos com dados mdicos esto indisponveis. No h outras informaes. 

 Tudo bem, j temos material para comear a trabalhar. Abra um arquivo novo com o nome de Charles Forte, caso nmero 34299-H, e copie todos os dados. Cruze referncias com Conroy. Desligue-se quando completar a tarefa.  Levantou os olhos ao ver Feeney, que colocara a cabea no portal, avisando: 
 Selina Cross acabou de ser liberada. 
 Sim, o que  bom dura pouco. 
 Algum j examinou esses arranhes de gato a? 
 Vou ao ambulatrio. Voc tem um minuto? 
 Claro. 
 David Baines Conroy. 
 Voc tirou esse nome do fundo do ba  disse Feeney, soltando um assobio curto e sentando-se,  vontade, sobre a ponta da mesa.  Esse canalha era um doente mental! Fatiava as vtimas depois de acabar com elas. Guardava os pedaos em uma geladeira de isopor. Tinha um trailer e viajava por toda parte... pregando. 
 Pregando...? 
 Bem, talvez este no seja exatamente o termo. Ele se apresentava como uma espcie de Anticristo. Falava um monte de baboseiras a respeito de anarquia, liberdade para gozar os prazeres da carne, abrir os portes do inferno, esse tipo de coisa. Parece que pegou a maioria das vtimas na estrada. Quase todas as pessoas que morreram eram acompanhantes autorizados itinerantes. Pelo menos trs delas foram reconhecidas como acompanhantes registradas. Prostitutas sempre foram alvos fceis para tarados. 
 Mas ele foi declarado mentalmente so, pois enfrentou um julgamento. 
 ... conseguiu passar nos testes de sanidade mental. Legalmente, era normal. No fundo, porm, era um pirado total. 
 Mas tinha famlia... 
 Sim, sim, isso  verdade.  Feeney fechou os olhos, como se tentasse se lembrar dos detalhes.  Eu ainda estava trabalhando no Departamento de Homicdios naquela poca e no houve um tira sequer em todo o planeta que no tenha se interessado pelo caso. O acusado jamais cometeu nenhum dos crimes aqui nesta cidade, pelo menos que a gente saiba, mas eu me lembro de que ele tinha uma esposa... Ela era muito plida e tinha cara de assustada. Abandonou o marido, parece que antes de ele ser pego. E havia tambm uma criana... um filho. O garoto era de assustar. 
 Por qu? 
 Tinha os olhos iguaizinhos aos do pai, s que pareciam no ter vida, entende? Lembro que achei, na poca, que qualquer dia a polcia ia se ver perseguindo o filho. O menino tinha toda a pinta de quem ia seguir os passos do pai. Ento ele e a me desapareceram, protegidos pela Lei de Privacidade, e nunca mais se ouviu falar deles. 
 At agora.  Eve manteve os olhos fixos em Feeney.  Vou me encontrar com o filho de Conroy hoje  noite. Em uma conveno de bruxas. 


Roarke chegou de limusine. Ela tinha certeza de que ele faria isso, s para deix-la irritada. E teria continuado irritada se no percebesse, ao entrar, que o AutoChef do veculo tinha um bom estoque de comida italiana. 
Eve j estava devorando um prato de manicotti antes mesmo de eles cruzarem a ponte Jacqueline Onassis. Apesar disso, balanou a cabea para os lados diante do burgundy que Roarke despejou em uma taa. 
 H-h... estou de servio  recusou, com a boca cheia. 
 Pois eu no estou.  Ele provou um pouco e observou seu rosto.  Por que no foi tratar desses arranhes?  perguntou, passando os dedos com carinho sobre as feridas em sua garganta. 
 Fiquei amarrada na cadeira a tarde toda, trabalhando. 
 Amarrada? Ora, isso  algo que ainda no experimentamos.  Sorriu com gosto quando a viu arregalar os olhos.  Foi s uma idia. Assisti  gravao de seu pequeno tte--tte com Nadine, na Central de Polcia. Fiquei surpreso por voc conceder esta entrevista. 
 Foi uma troca, e aproveitei bem a parte que me coube.  Inclinando-se para a frente, levantou a tela de privacidade para separ-los do motorista.   melhor contar tudo a voc antes de nos juntarmos s festividades desta noite.  E explicou-lhe com detalhes a nova linha de investigao que ela estava tomando, experimentando em seguida uma das azeitonas gradas da tigela de petiscos.  Isso tudo fez Charles Forte subir vrios degraus em minha lista de suspeitos  concluiu. 
 Pelos pecados que o pai cometeu? 
 s vezes,  assim que as coisas acontecem. 
Roarke no disse nada por um momento. Ambos tinham motivos para sentir desconforto com esta teoria. 
 Voc  quem sabe, tenente, mas no seria mais plausvel que circunstncias como essa o empurrassem para o plo oposto? 
 Mas ele conhecia Alice e sabe manipular substncias qumicas. O av dela estava com drogas qumicas no organismo ao morrer, e ela sofrer alucinaes. As outras duas vtimas sofreram assassinatos ritualsticos, e Charles Forte pertence a uma seita. No posso ignorar todos esses fatos. 
 Ele me pareceu a anttese do homicida. 
Eve remexeu nos aperitivos e espetou um pequeno pimento marinado, afirmando: 
 Certa vez eu me deixei enganar por uma velhinha simptica, baixinha, que parecia ser a vovozinha predileta de qualquer pessoa. Ela dava abrigo a gatos abandonados e preparava biscoitinhos para as crianas da vizinhana, alm de cuidar de lindos gernios que espalhava sobre os peitoris das janelas da sala.  Saboreando o petisco, Eve pegou mais um.  A doce velhinha atraiu meia dzia de meninos para a sua casa e usou os rgos internos das crianas para alimentar os gatos, antes de conseguirmos agarr-la. 
 Que histria encantadora!  Roarke colocou o prato sobre uma mesinha retrtil.  Voc est certa.  Colocando a mo no bolso, pegou o amuleto que Isis lhe dera na antevspera e o colocou no pescoo de Eve. 
 Para que isso agora? 
 Fica melhor em voc do que em mim. 
 Conversa fiada!  Estreitou os olhos ao olhar para ele.  Voc est sendo supersticioso. 
 No, nada disso...  mentiu ele, colocando o prato vazio de Eve sobre o dele antes de ela conseguir se virar, comeando a desabotoar-lhe a blusa em seguida. 
 Ei, o que est fazendo? 
 Passando o tempo...  Suas mos espertas e geis foram descendo com rapidez at lhe cobrirem os seios.  Temos ainda uma hora pela frente at chegarmos l, indo de carro. 
 Eu no vou transar na parte de trs de uma limusine em movimento!  avisou ela.  Isso ... 
 Uma delcia  completou ele, substituindo as mos pela boca. 


Eve estava se sentindo complacente e relaxada no momento em que a limusine tomou uma via secundria, rural e estreita. Ali as rvores existiam em abundncia, as estrelas pareciam mais brilhantes e a escurido era completa. As rvores altas e quase desfolhadas pelo outono formavam um arco acima da estrada, como se fosse um tnel. Ela notou os olhos brilhantes e dourados de um animal, talvez uma raposa, que atravessou a estrada e desapareceu no bosque. 
 Feeney e Peabody continuam atrs de ns? 
 Hein?  Roarke enfiou a camisa para dentro das calas.  Acho que sim. Querida, voc est vestindo a blusa do avesso  avisou ele com a voz calma enquanto sorria. 
 Droga!  Eve lutou para tirar a blusa, ajeitou-a, revirando as mangas com a mo, e tentou novamente.  No fique com essa cara de convencido no. Eu apenas fingi estar gostando... 
 Querida Eve  ele tomou sua mo e beijou-a , voc  to generosa comigo. 
 Se voc acha...  Tirando o amuleto do pescoo, colocou-o por cima da cabea de Roarke.  Use-o voc...  e antes que ele pudesse fazer alguma objeo, ela completou:  Por favor. 
 Voc no acredita mesmo nisso, no ? 
 No  ajeitando o cordo para dentro da camisa dele, ela deu uma batidinha em seu peito , mas voc parece que sim. Seu motorista sabe o caminho? 
 As informaes que Isis deu sobre o trajeto foram programadas no painel.  Olhou para o relgio.  Pelos meus clculos, devemos estar quase chegando. 
 Pois para mim parece que estamos no meio do nada.  Olhou para fora da janela. Viu apenas escurido, fracas silhuetas de rvores e mais escurido.  Gostaria de estar em meu prprio territrio.  difcil acreditar que estamos a pouco mais de duas horas de distncia de Nova York. 
 Voc  realmente uma tpica moradora de cidade grande. 
 E voc no ? 
 O campo pode ser um lugar interessante para se visitar, por temporadas curtas.  Deu de ombros.  Toda essa quietude pode renovar suas foras. 
 Pois me deixa inquieta.  Eles viraram em outra estradinha sinuosa.  Alm do mais, tudo tem a mesma cara e no acontece nada aqui. No h... ao  decidiu ela.  Quando a gente est cercada por todo esse verde dentro do Central Park, ou do Greenpeace Park, a sim... h grandes probabilidades de topar com um assaltante, no mnimo um traficante, quem sabe uma prostituta sem licena ou um bando de pervertidos.  Ao olhar para Roarke, viu que ele estava rindo dela.  O que foi? 
 A vida junto de voc tem muito mais... cor. 
 Sei...  Ela deu uma risada de deboche, colocando o coldre. 
 At parece que a sua vida era cinzenta e seu mundinho desbotado e sem vida antes de eu aparecer. Todos aqueles vinhos, mulheres e um monte de grana... devia ser um tdio s! 
 A chatice era indescritvel  concordou ele, com um suspiro. 
 Eu poderia ter me afogado em todo aquele enfado se voc no tivesse me jogado na cara as suspeitas de um ou dois assassinatos.? 
 Viu s? Aquele foi o seu dia de sorte.  Ela notou o brilho das luzes por entre as rvores no momento em que o automvel comeou a subir uma ladeira ngreme, com muitos sulcos na pista.  Graas a Deus estamos chegando! E parece que a festa j comeou. 
 Tente no debochar, viu?  Roarke deu um tapinha em seu joelho.  Isso ofenderia nossos anfitries. 
 No vou debochar  disse ela, com uma cara zombeteira.  Quero impresses. No apenas sobre Charles Forte, mas sobre todo mundo. E se voc reconhecer algum dos participantes, avise-me.  Pegando um pequeno aparelho na bolsa, guardou-o no casaco. 
 Um microgravador?  Roarke estalou a lngua.  Acho que isso  ilegal. Sem mencionar a deselegncia. 
 No sei do que est falando. 
 Alm do mais, desnecessrio  acrescentou ele. Virando o pulso para cima, apertou um minsculo boto ao lado do relgio.  Este aqui  muito mais eficiente. Pode ter certeza de que sei o que estou falando, pois fabrico os dois modelos.  Sorriu quando o carro parou junto de uma pequena clareira.  Acho que chegamos. 
Eve avistou Isis logo de cara. Era impossvel no not-la. O manto branco e transparente que ela usava parecia brilhar na escurido como se estivesse iluminado pelo luar. Seus cabelos estavam soltos e eram muito compridos, escorrendo-lhe dos ombros. Uma tiara de ouro cravejada de pedras coloridas envolvia-lhe a cabea. Seus ps longos e estreitos estavam descalos. 
 Abenoados sejam  cumprimentou ela, deixando Eve sem ao ao beij-la nos dois lados do rosto. Recebeu Roarke da mesma maneira, e ento tornou a se virar para Eve.  Voc est ferida.  E antes de Eve ter tempo de responder, ela colocou os dedos sobre os arranhes.  Veneno! 
 Veneno?  Eve teve vises de unhas terrveis embebidas em uma poo de ao lenta que circulava aos poucos atravs de sua corrente sangnea.
 No se assuste, no se trata de veneno fsico, e sim espiritual. Sinto Selina aqui...  Seus olhos permaneceram fixos nos de Eve, enquanto ela abaixava a mo e tocava o seu ombro.  Isso no  bom para nenhum de ns. Mirium, por favor, receba os nossos outros convidados  pediu ela a uma mulher de pele escura e baixa estatura no momento em que o calhambeque de Feeney apareceu sacolejando ladeira acima.  Chas vai cuidar desses ferimentos. 
 Est tudo bem. Vou ao ambulatrio amanh de manh. 
 No creio que isso seja necessrio. Por favor, venha por aqui. No  muito saudvel voc manter vestgios dela em seu corpo, mesmo to pequenos. 
Isis foi  frente, indicando o caminho em volta da clareira. Eve conseguiu avistar um crculo amplo, formado por velas brancas en-fileiradas. Pessoas estavam do lado de fora do crculo, batendo papo, observou Eve, como se estivessem em um coquetel na cidade. As roupas variavam. Havia mantos, ternos, saias longas e curtas. 
Eram umas vinte pessoas, avaliou Eve, que iam dos dezoito ao oitenta anos, em uma mistura de raas e gneros. No havia nenhum tipo especfico. Geladeiras portteis estavam espalhadas em torno, o que explicava o fato de vrios dos membros estarem tomando drinques. A conversa era realizada em voz baixa, com uma ou outra risada ocasional que sobressaa em meio ao murmrio. 
Chas se levantou de uma cadeira ao lado de uma mesa dobrvel e se virou ao ver que eles se aproximavam. Usava uma roupa composta de uma s pea em um tom de azul e sapatos macios na mesma tonalidade. Sorriu ao reparar o olhar desconfiado que Eve lanou para os objetos que estavam sobre a mesa. 
 Instrumentos de trabalho dos bruxos  explicou ele. 
Havia cordes vermelhos, um punhal com cabo branco... um athame, pensou Eve. E viu mais velas, um pequeno gongo de lato, um chicote, uma espada de prata, garrafas coloridas, tigelas e taas. 
 Interessante. 
 Hoje vamos realizar um ritual antigo, que exige ferramentas antigas. Mas a senhora est ferida!  Deu um passo na direo dela, levantando a mo e parando ao notar o olhar de advertncia que Eve lhe lanou.  Desculpe. Isso deve estar doendo. 
 Chas tem o dom da cura.  Isis curvou os lbios, abrindo um sorriso com ar de desafio.  Considere isso apenas uma demonstrao. Afinal, voc veio at aqui para observar, no foi? E seu companheiro est usando uma proteo. 
E eu tambm, pensou Eve, sentindo-se confortada pelo peso da arma que levava. 
 Ento, tudo bem. Faa a sua demonstrao.  Colocou a cabea meio de lado, convidando Chas a examinar os arranhes. 
Os dedos dele eram surpreendentemente frios, incrivelmente suaves e macios, movendo-se sobre sua pele esfolada. Ela manteve os olhos fixos nele, reparou quando ele os focou e pestanejou. 
 A senhora teve sorte  murmurou ele.  O resultado no alcanou as intenes. Poderia agora deixar sua mente relaxar? 
O olhar dele se elevou e se fixou no dela. 
 A mente e o corpo so uma coisa s  continuou ele, baixinho, com aquela voz adorvel.  Um guia o outro, um cura o outro. Deixe-me libert-la disso.
Eve sentiu uma espcie de calor irradiar-se por dentro dela, indo dos pontos em que os dedos dele tocaram at sua cabea, e seguindo por todo o corpo, at que uma espcie de entorpecimento veio chegando. Ela sentiu um ligeiro sobressalto, se colocou em alerta e o viu sorrir suavemente, afirmando: 
 No vou machuc-la. 
Virando-se para o lado, pegou uma garrafa mbar, tirou a rolha e espalhou um lquido claro, com perfume floral, nas mos. 
 Isto  um blsamo, uma antiga receita com ingredientes modernos.  Comeou a esfregar suavemente o lquido, seguindo com os dedos os sulcos que as unhas de Selina haviam aberto.  Isso vai purificar seus tecidos e no haver mais desconforto. 
 Voc manja de produtos qumicos, no ? 
 Isto  feito  base de ervas...  pegou um leno no bolso e o usou para limpar os dedos  ...mas, sim, entendo de substncias qumicas. 
 Gostaria de conversar com voc a esse respeito...  esperou um segundo, com os olhos penetrantes colados nele  ...e tambm sobre o seu pai. 
Ela viu que aquilo o deixou perturbado, pela forma com que suas pupilas se dilataram e depois tornaram a se contrair. De repente, Isis j estava se interpondo entre eles, com uma fria gloriosa estampada no rosto. 
 Voc foi convidada para vir at aqui, tenente Dallas  disse ela , e este lugar  sagrado. Voc no tem o direito de... 
 Isis...  Chas tocou em seu brao.  Ela tem uma misso. Todos ns temos.  Tornou a olhar para Eve, parecendo se recompor.  Sim, tenente, falarei com a senhora, quando desejar. Este, no entanto, no  o momento nem o lugar certo para trazermos sensaes de desespero. A cerimnia est prestes a comear. 
 No queremos atrapalhar. 
 Amanh, s nove da manh, na Busca Espiritual... o horrio e o lugar parecem-lhe adequados? 
 Tudo bem. 
 Agora, desculpe-me. 
 Voc sempre paga gentileza com dor?  quis saber Isis, felando entre dentes com indisfarvel fria, enquanto Chas se afastava. Ento balanou a cabea e lanou um olhar deliberado na direo de Roarke.  Vocs todos so bem-vindos para observar, e esperamos que tanto vocs quanto seus acompanhantes saibam demonstrar o devido respeito pelo nosso ritual desta noite. No  permitido que fiquem dentro dos limites do crculo mgico. Ao se afastar, Eve enfiou as mos nos bolsos e comentou: 
 Bem, agora j so duas bruxas que esto pau da vida comigo.  Olhou para trs, ao sentir que Peabody vinha andando mais depressa at alcan-la. 
 Esta vai ser uma cerimnia de iniciao  sussurrou Peabody para Eve.  Soube disso atravs do bruxo ma-ra-vi-lho-so que est usando aquele igualmente lindo terno italiano.  Sorriu para o outro lado da clareira, na direo de um sujeito com cabelos muitos brilhantes, cor de bronze, que correspondeu exibindo um sorriso de um milho de watts.  Nossa, um homem desses faz at a gente pensar em se converter... 
 Segure sua onda e seus hormnios, Peabody  cochichou Eve, acenando com a cabea para Feeney. 
 Minha santa mezinha ia rezar meia dzia de rosrios hoje  noite se soubesse onde estou  comentou ele, forando um sorriso para disfarar o nervoso.  Que lugar fantasmagrico!... No h coisa alguma em volta desse local, a no ser um monte de espao vazio. 
 Voc e Feeney so realmente da mesma tribo  suspirou Roarke, enlaando a cintura de Eve com o brao e se virando no momento em que o ritual teve incio. 
A jovem que Isis chamara pelo nome de Mirium estava de p do lado de fora do crculo de velas, teve os olhos vendados e foi amarrada por dois homens. Todos, com exceo dos observadores, estavam agora completamente despidos. As peles brilhavam e refletiam tons de branco, cinza e dourado sob o luar que flua. No fundo do bosque, pssaros noturnos gorjeavam de forma ritmada. 
Sentindo-se desconfortvel, Eve deixou a mo escorregar para dentro do casaco, a fim de sentir o peso da arma. 
Os cordes vermelhos foram usados para atar as mos da iniciada e ficaram com as pontas penduradas. No momento em que um dos cordes foi atado ao tornozelo da jovem, Chas disse:  Ps nem presos nem livres. 
Havia um tom inconfundvel de alegria e reverncia em sua voz. Curiosa, Eve observou a formao do crculo e a abertura do ritual. A atmosfera, ela foi obrigada a reconhecer, era de alegria. Acima de todos, a lua flutuava, espargindo luz e cobrindo as rvores com um manto prateado. Corujas piaram ao longe, emitindo sons singulares que lhe pareceram percorrer o sangue. A nudez era completamente ignorada. No havia os olhares furtivos nem de relance que ela sabia que testemunharia se estivesse em qualquer clube de sexo da cidade. 
Chas pegou o athame, e a mo de Eve imediatamente apertou o cabo da arma dentro do bolso ao v-lo apont-lo para o corao da postulante. Falou palavras especficas e sua voz parecia aumentar e diminuir de volume, levada pela brisa enevoada da noite.
 Tenho duas senhas  respondeu Mirium.  Perfeito amor e perfeita confiana.
Chas sorriu e afirmou: 
 Todos os que os tm so duplamente bem-vindos. Dou-te agora uma terceira senha para passares atravs desta misteriosa porta.
Passando o punhal para o homem ao seu lado, ele beijou Mirium. Como um pai beijaria uma filha, pensou Eve, com ar de estranheza. Chas caminhou ento em direo  postulante, abraou-a por trs e ento a empurrou para a frente, com seu prprio corpo, para dentro do crculo. Atrs deles, o segundo homem passou a ponta do athame sobre o espao vazio, como se estivesse fechando uma porta, simbolicamente. 
Havia cnticos agora, enquanto Chas conduzia Mirium em volta do crculo e todos a faziam girar com as mos em volta do seu corpo, em uma espcie de brincadeira infantil de desorientao. Um sino soou trs vezes. 
Ento Chas se ajoelhou, falando algumas palavras e beijando os ps da postulante, a seguir seus joelhos, seu ventre um pouco acima do pbis, seus seios e, finalmente, seus lbios. 
Eve pensou que fosse sentir uma atmosfera de sensualidade, mas o que presenciara foi mais... amoroso do que sensual. 
 Impresses?  murmurou para Roarke. 
 Notei muito charme, poder, um sentimento de religiosidade e...  levantando a mo, cobriu a de Eve, que continuava apertando o cabo da arma, tirando-a dali com delicadeza  ...achei um ato inofensivo. Sexual, certamente, mas de uma forma muito equilibrada e respeitosa. Finalmente, sim, reconheci duas pessoas no grupo. 
 Vou querer os nomes. 
Enquanto o ritual continuava, ela levantou a mo de forma distrada e a passou na garganta. Sentiu a pele lisa, intacta, s e sem dor. 
Ao deixar a mo cair, Chas olhou para ela, fitando-a com firmeza, e tornou a sorrir.












 



CAPTULO DEZESSEIS





A
 loja Busca Espiritual ainda no abrira para o pblico quando Eve chegou, acompanhada por Peabody. Chas, porm, j estava l, aguardando por elas na calada, enquanto bebia alguma coisa fumegante em um copo de papel reciclado. 
 Bom-dia!  O ar esfriara tanto que colocara um pouco de cor em seu rosto.  Ser que poderamos conversar l em cima, em nosso apartamento, em vez de faz-lo na loja? 
 Receber policiais no  bom para os negcios?  perguntou Eve. 
 Bem, podemos dizer que os primeiros clientes talvez se sentissem um pouco confusos. Mas vamos abrir s daqui a meia hora. Acredito que no vamos precisar da presena de Isis. 
 No momento, no. 
 Obrigado. Se pudessem me dar apenas... h... um momento.  Lanou para Eve um olhar meio tmido.   que Isis prefere no ter cafena dentro de casa, e esse  o meu ponto fraco  explicou, tomando mais um gole de caf.  Ela sabe que eu saio de fininho todas as manhs para alimentar meu vcio e finge que no v.  tolice, mas ambos nos sentimos satisfeitos por proceder assim. 
 Fique  vontade e leve o tempo que quiser. Voc pega o caf na loja ali em frente? 
 No, pois a cafeteria  perto demais de casa. Alm disso, para ser honesto, o caf de l  uma porcaria... ali na delicatssen da esquina eles fazem um caf bem decente.  Tomou mais um gole com indisfarvel prazer.  Parei de fumar h anos, at mesmo os cigarros feitos com ervas inofensivas, mas no consigo funcionar direito sem uma xcara de caf todas as manhs. Gostou da cerimnia de ontem  noite? 
 Foi interessante.  Como o vento da manh estava frio e penetrante, Eve enfiou as mos sem luvas nos bolsos. O trfego tanto nas ruas quanto no ar comeava a fluir melhor depois da primeira leva de engarrafamentos do dia.  O tempo no est meio frio para vocs ficarem circulando pelados pelo mato? 
 Sim. Provavelmente no realizaremos mais nenhuma cerimnia ao ar livre este ano, e certamente no despidos. Mirium, porm, estava querendo entrar para o primeiro nvel de iniciao na feitiaria antes do Samhain. 
 Samhain? 
 Halloween  disseram ao mesmo tempo ele e Peabody. A auxiliar de Eve remexeu o p, meio sem graa, enquanto Chas sorria para ela, e explicou:   que meus pais so partidrios da Famlia Livre, lembra?  murmurou. 
 Sim, existem algumas similaridades  confirmou Chas, terminando de tomar o caf, indo em seguida at junto de uma lata de reciclagem, onde cuidadosamente enfiou o copo amassado pela ranhura.  Voc est resfriada, senhorita? 
 Estou, senhor  fungou Peabody, evitando de forma determinada a exploso de um espirro. 
 Tenho algo que poder ajud-la. Um dos nossos membros a reconheceu, tenente. Ela contou que leu sua mo recentemente. Na verdade, na noite em que Alice faleceu.
  verdade. 
 Cassandra  muito talentosa e um doce de pessoa  elogiou Chas, enquanto subia o lance de escadas que levava ao apartamento.  Lamentou no ter conseguido ver as coisas com mais clareza, para avis-la de que Alice esrava em perigo. E ela acredita que a senhora est em perigo nesse momento.  Fez uma pausa, olhando para trs.  Cassandra comentou que tinha esperana de v-la ainda usando a pedra que ganhou dela. 
 , ela est por aqui, em algum lugar... 
Emitindo um som que poderia ser descrito como um suspiro, ele perguntou: 
 E como est o seu pescoo? 
 Novinho em folha. 
 Estou vendo que a cura aconteceu de forma limpa. 
 Sim, e muito rpida. Que troo foi aquele que voc esfregou nos arranhes? 
 Nada no... apenas uma pomada feita com lngua de morcego e olho de salamandra.  Um ar bem-humorado danou em seus olhos, deixando-a surpresa. Em seguida, ele abriu a porta, lanando no ar um tilintar musical dos sininhos da porta.  Por favor, fiquem  vontade. Vou pegar um pouco de ch para aquec-las, j que as obriguei a me esperar. 
 No precisa se incomodar. 
 No  incmodo algum. Esperem um momento, por favor. 
Aproveitando que ele desapareceu por uma porta, Eve deu uma olhada cuidadosa no ambiente. 
Ela no o chamaria de simples. Obviamente, um monte de objetos expostos na loja fora ali para cima. Pedaos de cristais grandes e com muitas pontas decoravam uma mesa oval e tambm estavam dispostos em torno de uma urna de cobre cheia de flores outonais. Uma tapearia com desenho complicado fora pendurada atrs do sof azul em curva. Havia homens e mulheres representados nela, bem como sis, luas e um castelo com chamas que escorriam das ameias. 
 Aquelas so imagens dos Arcanos Maiores  explicou Peabody, ao ver que Eve se aproximava da tapearia para ver melhor. Deu um espirro violento e pegou um leno de papel.  Tar... Essa pea parece bem antiga, e foi feita  mo. 
 Deve ter custado caro...  decidiu Eve. Arte daquele tipo no era nem um pouco barata. 
Havia algumas estatuetas em peltre e outras entalhadas em pedra lisa. Magos e drages, ces de duas cabeas, mulheres sinuosas com delicadas asas. Outra parede estava cheia de smbolos atraentes representados em cores berrantes. 
 So smbolos tirados do Livro de Kells.  Peabody levantou os ombros diante do olhar de curiosidade que Eve lhe lanou.  Minha me gosta de bordar estes smbolos em almofades e paninhos. Fica muito legal! Esta sala  simptica.  O lugar no lhe provocava arrepios, como o apartamento de Selina Cross.   meio excntrica, mas agradvel. 
 Os negcios devem andar bem  para eles terem condies de comprar essas antigidades, obras em metais nobres e objetos de arte. 
 Os negcios realmente vo muito bem  disse Chas ao voltar com uma bandeja onde havia um bule de cermica enfeitado com motivos florais e xcaras.  Eu tambm tinha alguns recursos prprios antes de abrirmos a loja. 
 Herana? 
 No.  Colocou a bandeja sobre uma mesinha redonda para caf.  Economias e investimentos. Tcnicos da rea qumica so muito bem pagos. 
 Mas voc abriu mo do alto salrio para trabalhar no comrcio... 
 Abri mo apenas  disse ele, com simplicidade.  Estava me sentindo infeliz com o trabalho que realizava. Estava infeliz com a vida. 
 A terapia no ajudou? 
Ele tornou a olhar para ela, embora aquilo parecesse difcil. 
 Pelo menos, mal ela no fez...  respondeu.  Por favor, sentem-se. Vou responder s suas perguntas, tenente. 
 Ela no pode obrigar voc a passar por isso, Chas  disse Isis, surgindo na sala sbita e silenciosamente, como uma cortina de fumaa. Seu manto era cinzento, naquela manh, com a cor de nuvens carregadas, e girava em torno de seus tornozelos enquanto ela se movia em direo a ele.  Voc tem direito  sua privacidade, um direito legal. 
 No posso obrig-lo a responder s minhas perguntas  corrigiu-a Eve.  Estou investigando casos de assassinato aqui. Ele tem,  claro, direito a um advogado. 
 No  de um advogado que ele precisa, e sim de paz.  Isis girou o corpo, com os olhos vividos de emoo; Chas tomou suas mos, levou-as aos lbios e em seguida passou o rosto sobre elas. 
 Eu tenho paz  disse, baixinho.  Tenho voc... no se preocupe tanto comigo. V... est quase na hora de descer para abrir a loja e eu tenho que atender a tenente. 
 Deixe-me ficar. 
Ele balanou a cabea com determinao e a troca de olhares que aconteceu entre eles surpreendeu Eve. Era embaraoso imaginar o relacionamento fsico que havia entre os dois, mas o que Eve notou no olhar no foi sexo. Foi amor... e devoo. 
Poderia ser uma cena cmica a forma com que Isis teve de inclinar o corpo de deusa para baixo, a fim de encontrar os lbios dele. Em vez disso, porm, foi algo comovente. 
 Basta chamar  disse-lhe ela.  Basta desejar que eu aparea e eu virei. 
 Eu sei.  Deu-lhe um rpido aperto na mo, que demonstrou intimidade e cumplicidade, antes de mand-la embora. Isis lanou para Eve um ltimo olhar de fria mal controlada e se retirou. 
 Dificilmente eu teria sobrevivido se no fosse por ela  comentou Chas, olhando para a porta pela qual Isis sara.  A senhora  uma mulher forte, tenente. Seria difcil compreender esse tipo de carncia, esse tipo de dependncia. 
H algum tempo, ela teria concordado com ele. Agora, j no estava to certa. 
 Gostaria de gravar a nossa conversa. 
 Sim,  claro.  Ele se sentou e, enquanto Peabody preparava o gravador, serviu o ch de forma quase mecnica. Ouviu sem levantar os olhos o texto tradicional que Eve recitava, falando das normas judiciais. 
 Compreendeu bem quais so os seus direitos e obrigaes? 
 Sim. Deseja usar algum adoante? 
Eve olhou para o ch, demonstrando um pouco de impacincia. O cheiro era muito parecido com o que Mira insistira em servir em sua sala. 
 No  respondeu, seca. 
 Acrescentei um pouco de mel ao seu, policial.  Lanou um sorriso doce para Peabody.  Coloquei tambm um pouquinho de... uma substncia especial. Acho que a senhorita vai achar a bebida um pouco calmante. 
 O cheiro est muito bom!  Com cautela, Peabody tomou um golinho e, reconhecendo o sabor, sorriu de volta, dizendo:  Obrigada. 
 Qual foi a ltima vez em que esteve com o seu pai? 
Pego de surpresa pela pergunta abrupta de Eve, Chas olhou para cima na mesma hora. A mo que segurava sua xcara estremeceu uma vez, com fora. 
 Foi no dia em que ele ouviu a sentena ser anunciada. Fui  sesso do jri e o observei com ateno quando era levado para a priso. Eles o mantiveram o tempo todo com as mos e os ps algemados, e, ao sair dali, fecharam e trancaram a porta de sua vida aqui fora. 
 Como voc se sentiu diante disso? 
 Envergonhado. Aliviado. Desesperadamente infeliz. Ou talvez apenas desesperado. Ele era meu pai...  Nesse momento, Chas tomou um grande gole de ch com a mesma determinao que alguns homens usariam para beber usque.  Eu o odiava de todo o corao e com toda a minha alma. 
 Pelo fato de ele ter assassinado aquelas pessoas? 
 No. Pelo fato de ele ser meu pai. Magoei muito a minha me por ter feito tanta questo de acompanhar o julgamento de perto. Ela, porm, estava muito abalada emocionalmente para me impedir de fazer o que quisesse. Ela jamais conseguira impedi-lo, tambm, embora, depois de muito tempo, o tivesse abandonado. Um belo dia, ela me pegou pelo brao e me carregou com ela, deixando-o para trs. Isso foi, creio, uma grande surpresa para todos ns. 
Ele olhou para sua xcara, como se estivesse analisando o padro dos pedaos de folha que repousavam no fundo. 
 Eu a odiava tambm  continuou ele.  Isso aconteceu por muito, muito tempo. O dio tem o poder de definir uma pessoa, no  verdade, tenente? Pode transform-la em algo horrvel. 
 Foi o que aconteceu com voc? 
 Quase. O nosso no era um lar feliz. Ningum imaginaria que pudesse ser, pois era um lugar dominado por um homem como meu pai. Eu temia que pudesse me tornar uma pessoa como ele.  A voz sensual de Chas permaneceu calma, mas seus olhos pareciam um redemoinho de emoes. 
Os olhos eram o detalhe principal, aquilo que um bom policial devia avaliar em uma entrevista ou interrogatrio, lembrou Eve. As palavras em si representavam relativamente pouco. 
 E voc se tornou uma pessoa como ele?  perguntou ela, bem direta. 
 O sangue fala mais alto. Esta frase  de Shakespeare?  Balanou um pouco a cabea.  No tenho certeza. Mas no  com essa idia que os filhos convivem? O medo de que, no importa o que os pais faam, o sangue acabe falando mais alto? 
Eve convivera com aquela idia e a temia, mas no podia se permitir ser abalada por isso. 
 Foi grande a influncia que ele exerceu em sua vida?  perguntou ela. 
 No poderia ter sido maior. A senhora  uma investigadora eficiente, tenente. Tenho certeza de que analisou todos os registros dele at hoje. Deve ter rodado os discos e assistido aos vdeos. Deve ter encontrado um homem carismtico e de uma forma terrvel. Um homem que se considerava acima da lei, toda e qualquer lei. Este tipo de arrogncia feita de ao , por si s, irresistvel. 
 O Mal pode ser irresistvel para algumas pessoas. 
 Sim,  verdade.  Seus lbios se curvaram em um sorriso amargo.  A senhora deve saber disso, pelo que v em sua rea de atuao. Ele no era um homem contra o qual algum possa... lutar, tanto em nvel fsico quanto emocional. Ele era forte, muito forte. 
Chas fechou os olhos por um momento, revivendo o que ele lutava constantemente para deixar adormecido. 
 Sempre tive medo de que pudesse ser como ele, e considerei at mesmo devolver o mais precioso presente que recebi... a vida. 
 Voc tentou se autodestruir? 
 No cheguei a tentar suicdio, mas o planejei. A primeira vez, tinha apenas dez anos.  Tomou mais um pouco de ch, determinado a se acalmar.  Consegue imaginar uma criana de dez anos considerando a possibilidade de se matar? 
Sim, ela conseguia, bem demais at. Era ainda mais nova na primeira vez em que pensara nisso. 
 Ele abusava de voc? 
 Abuso  um termo muito fraco, no acha? Ele me espancava. Jamais parecia estar enraivecido ao faz-lo. Simplesmente me agredia em momentos totalmente inesperados, quebrando um osso do meu brao ou me aplicando um soco no rosto com a calma quase distrada que outra pessoa exibe ao atingir uma mosca com a mo, para afast-la. 
Os punhos de Chas estavam fechados sobre os joelhos. De forma deliberada, abriu as mos e analisou os dedos que se afastavam. 
 Ele atacava como um tubaro, de forma rpida, inesperada e em completo silncio. Jamais havia avisos nem critrios. Minha vida e minha dor eram totalmente dependentes do seu capricho. Cumpri pena no inferno, tenente  disse ele com a voz suave, quase em tom de orao. 
 Ningum o ajudou?  perguntou Eve.  Ningum tentou intervir? 
 Ns nunca ficvamos durante muito tempo no mesmo lugar, e ramos proibidos de formar laos de amizade ou nos ligarmos a algum de algum modo. Ele explicava que era necessrio estarmos sempre mudando de lugar, para que ele pudesse espalhar suas mensagens. E assim, quebrava um osso meu, levantava o punho contra mim, e em seguida me levava pessoalmente a um centro de tratamento... como um pai preocupado e responsvel. 
 Voc no contava o que acontecia a ningum? 
 Ele era o meu pai, e aquela era a minha vida.  Chas levantou as mos e tornou a larg-las no colo.  A quem deveria contar? 
Ela tambm no contara para ningum, pensou Eve. Nem havia ningum a quem pudesse ter contado. 
 Durante um certo tempo, acreditei quando ele dizia que aquilo era justo...  os olhos de Chas pestanejaram  ...e certamente acreditava quando ele me dizia que haveria dores e punies ainda maiores se eu contasse alguma coisa a algum. Tinha treze anos quando ele me sodomizou pela primeira vez. Era um ritual, disse-me ele, quando amarrou minhas mos e chorei. Um rito de passagem. Sexo era vida, portanto, era necessrio suport-lo. E ele me levaria por esta jornada, como era seu direito e dever. 
Serviu-se de mais ch, e ento colocou o bule de lado, com todo o cuidado. 
 No sei dizer se foi estupro. Eu no me debati. No implorei para que ele parasse. Simplesmente chorei sem lamentos e me submeti. 
 Foi estupro  disse Peabody, quase em um sussurro. 
 Bem...  Chas sentiu que no ia conseguir beber o ch que acabara de servir; mesmo assim, levantou a xcara e a manteve no ar.  No contei a ningum. Mesmo depois, anos depois, quando ele j estava atrs das grades, no contei  polcia. No acreditava que eles conseguissem mant-lo preso. Simplesmente no acreditava nisso. Ele era forte demais, muito poderoso, e todo o sangue que havia em suas mos parecia apenas confirmar isso. Por estranho que parea, foi o sexo que impeliu minha me a fugir e me levar com ela. No foi a violncia, nem o menininho com o brao quebrado, nem mesmo as mortes que acho que ela desconfiava de que eram obra sua. Foi a imagem dele ajoelhado em cima de mim, em seu altar, com as velas pretas acesas. Ele no a viu, mas eu vi. Vi seu rosto no instante em que ela entrou no quarto. Ela me deixou ali, deixou que ele terminasse o que estava fazendo comigo, mas naquela mesma noite, depois que ele foi para a rua, ns fugimos. 
 E nem assim ela procurou a polcia? 
 No  disse ele, olhando para Eve.  Sei que a senhora acredita que se ela tivesse feito isso, muitas vidas poderiam ter sido salvas. O medo, porm,  uma emoo muito pessoal. Sobreviver era seu nico objetivo. Quando ele foi preso, fui assistir ao julgamento, no faltei a um dia sequer. Estava certo de que ele ia interromper as engrenagens da justia, de algum modo. Mesmo quando disseram que ele iria ficar encarcerado para sempre, continuei no acreditando. Deixei de usar o sobrenome dele e tentei levar uma vida normal. Procurei um emprego que me interessava, e para o qual eu tinha algum talento. E no me permiti aproximar-me de mais ningum. Havia uma fria presa em mim. Olhava para um rosto e na mesma hora o odiava porque parecia feliz. Ou triste. Detestava todos que no levavam uma existncia cercada de sombras. E, como meu pai, no permanecia em um mesmo lugar por muito tempo. Quando me vi contemplando mais uma vez a idia de suicdio com calma e seriedade, amedrontei-me o bastante para buscar ajuda. 
Nesse momento, Chas conseguiu tornar a sorrir, continuando: 
 Aquele foi, embora eu no tivesse conscincia disso na ocasio, o comeo de uma nova vida para mim: dar esse passo e me permitir falar sobre o indescritvel. Aprendi a aceitar a minha prpria inocncia e a perdoar a minha me. A raiva, porm, continuava l, como um n apertado e secreto dentro de mim. Foi quando conheci Isis... 
 Atravs de seu interesse pelas cincias ocultas  afirmou Eve. 
 Bem, eu diria que foi atravs dos meus estudos a respeito, como parte da minha terapia.  Bebeu um pouco de ch nesse instante, j mais  vontade, e seus lbios abriram um sorriso.  Eu estava zangado e era desrespeitoso. Religies de qualquer tipo eram uma abominao para mim, e eu detestava tudo o que Isis representava. Ela me parecia to linda, to cheia de luz, e eu a odiei por isso. Foi quando ela me desafiou e me convidou a assistir a uma cerimnia, apenas para observar, da mesma forma que vocs fizeram ontem  noite. Preferia pensar em mim como um cientista. Iria apenas, pensei comigo mesmo, para provar que no havia nada de real naquela crena, apenas palavras antigas repetidas por tolos. Da mesma forma que no havia nada nas crenas de meu pai, a no ser um pretexto para machucar e dominar. 
Mantive-me a distncia, explicou ele, separado do grupo, com um olhar ctico e secretamente enraivecido. Odiei a todos por sua simplicidade e devoo. Pois ento eu j no vira o mesmo olhar arrebatado nos rostos daqueles que se reuniam para ouvir as pregaes de meu pai?... No queria ter nenhum tipo de ligao com aquilo nem com o grupo, mas me vi atrado de volta. Por trs vezes retornei e assisti s cerimnias. Embora no soubesse, meu processo de cura j havia comeado. Por fim, uma bela noite, no Alban Eilir, ou Rito de Eostre, que acontece no equincio da primavera, Isis me convidou para ir at a sua casa. Quando nos vimos a ss, ela disse que me reconhecera. Entrei em pnico. Tentara durante tanto tempo enterrar o passado e tudo o que se relacionasse com ele. Ela explicou, porm, que no estava se referindo a esta vida, embora eu pudesse ver em seus olhos que ela sabia de tudo. Sabia quem eu era e de onde vinha. Disse-me que eu possua uma grande capacidade para promover a cura, e descobriria isso assim que conseguisse curar a mim mesmo. Em seguida, ela me seduziu.
Chas deu uma risada curta e havia calor e afeto nela. 
 Imagine s a minha surpresa  continuou ele  ao ver uma mulher linda como aquela me levando para a sua cama. Fui seguindo como um carneirinho, um pouco vido e um pouco amedrontado. Ela foi a primeira mulher com quem fiz sexo, e a nica com quem estive at hoje. Naquela noite do equincio da primavera, o segredo fechado e o n cego que haviam dentro de mim comearam a se dissolver. 
Ela me ama, e o milagre desse fato me fez acreditar em outros milagres. Transformei-me em um wiccano, abracei e fui abraado pela Arte. Aprendi a curar a mim mesmo e aos outros. A nica pessoa a quem eu fizera mal em toda a minha vida tinha sido eu mesmo. Compreendia, porm, e melhor at do que Isis, com todos os seus insights, o encanto da violncia, do egosmo, e a sensao de se curvar a um outro Mestre. 
Eve acreditou nele, embora muita coisa do que ele contou fosse um espelho de seu prprio passado, e isso fazia com que ela no confiasse em seus instintos. 
 Voc despendeu um grande esforo para esconder todas as ligaes que pudessem existir entre voc e seu pai  afirmou ela. 
 E a senhora no faria o mesmo? 
 Alice sabia de tudo isso? 
 Alice representava a inocncia. Era a juventude encarnada. No houve um David Baines Conroy em sua vida... at ela conhecer Selina Cross. 
 E ela  uma mulher inteligente e vingativa. Se tivesse descoberto o seu segredo, poderia ter usado Alice, ou outras pessoas, para chantage-lo. Ser que os membros de sua seita confiariam em voc se conhecessem a sua histria? 
 Bem, j que isto jamais ocorreu, no sei responder. Preferia, certamente, manter a minha privacidade. 
 E na noite em que Alice foi assassinada voc estava aqui, a ss com Isis... 
 Sim, e tambm estvamos aqui, a ss, na noite em que Lobar foi morto. A senhora sabe tambm que eu estava por perto no momento do ltimo assassinato, novamente em companhia de Isis. Finalmente, sim...  Sorriu de leve.  No tenho dvidas de que ela mentiria por mim. No entanto, embora ela consiga viver com o filho de um assassino, jamais conseguiria viver com o assassino em pessoa. Isso vai de encontro a tudo o que ela representa. 
 Ela ama voc. 
 Sim. 
 E voc a ama. 
 Sim.  Ele piscou uma vez e um ar de horror surgiu em seus olhos.  A senhora no pode acreditar que ela tenha alguma coisa a ver com tudo isso! Alm de tudo o que lhe contei, ela amava Alice e tinha cuidados com ela, como uma me tem cuidados com um filho doente. Isis seria incapaz de machucar algum. 
 Sr. Forte...  disse Eve, solene  ...todos so capazes. 


 Voc no acha realmente que ele possa estar envolvido, acha?  perguntou Peabody no instante em que elas estavam descendo as escadas em direo  rua. 
 Existe a histria pregressa de aberrao comportamental em sua famlia. Ele possui um conhecimento de perito em substncias qumicas, incluindo alucingenos e fitoterpicos. No tem libi algum para as noites dos dois incidentes. Tinha ligao com Alice, uma relao to prxima que ela bem poderia ter descoberto os segredos que ele ocultara durante anos e que, uma vez expostos, poderiam destruir sua seita. 
Parou de falar, batendo com os dedos sobre a grade da escada enquanto repassava os fatos mentalmente antes de continuar: 
 Ele tambm tinha bons motivos para odiar Selina Cross e os membros de sua seita, bem como para desejar puni-los do modo como ele no conseguiu fazer com o seu pai. Estava perto quando Wineburg comeou a desmontar, poderia ter dado a volta pelo outro lado do estacionamento com facilidade, a fim de mat-lo. Tudo isso lhe d motivos e oportunidades, e, com o seu passado, potencial para comportamento violento. 
 Mas ele construiu para si mesmo uma vida decente, depois dos pesadelos da infncia  protestou Peabody.  Voc no pode conden-lo pelas coisas que o pai fez. 
Eve olhou fixamente para a rua e tentou lutar com seus prprios demnios, afirmando: 
 Eu no o estou condenando, Peabody... estou apenas investigando todas as possibilidades. Considere isto: se Alice soube de tudo e contou a Frank, sua reao pode muito bem ter sido a de exigir que ela cortasse essa ligao. E bem provvel, seguindo esta linha de especulao, que ele tenha entrado em confronto pessoal com Charles Forte, talvez at mesmo o ameaado de contar tudo em pblico se ele no acabasse com a influncia sobre a sua neta. Frank trabalhava no Departamento de Homicdios quando Conroy foi preso, saberia e se lembraria muito bem de todos os detalhes srdidos. 
 Sim, mas... 
 Alm disso, Alice se mudou para um apartamento s dela. Continuava a trabalhar em meio expediente para Isis, mas no morava mais aqui neste local. Por que razo ela se mudaria para longe daqui exatamente no momento em que comeou a sentir medo? 
 No sei  admitiu Peabody. 
 E ns no podemos mais perguntar isso a ela.  Eve desviou o olhar, tornou a se fixar nos degraus  frente e ento praguejou ao ver o menino encostado em seu carro.  Ora, mas que inferno!... Tire essa bunda do capo do meu carro, ... moleque!  disse ela, andando mais depressa e direto na direo de Jamie.  Este  um veculo oficial. 
 Um cagalho oficial  corrigiu ele com um sorriso rpido e maroto.  O governo coloca os tiras dentro de um monte de lixo reciclado. Uma detetive com alto prestgio como voc devia receber um carro melhor para trabalhar. 
 Vou comunicar ao secretrio de Segurana que voc no est satisfeito com o estado da minha viatura na prxima vez em que estiver na torre da Secretaria. O que faz aqui? 
 T apenas circulando...  Seus olhos tornaram a brilhar.  Despistei a sombra que voc colocou na minha cola. O cara era bom...  Jamie enfiou os polegares nos bolsos.  S que eu sou melhor. 
 E por que no est na escola? 
 No precisa ligar para a Brigada Antigazeta no, tenente, porque hoje  sbado. 
 Ah, ?...  Como  que ela podia saber que dia era?  Bem, ento, por que no est barbarizando em um dos shoppings areos, como qualquer delinqente normal? 
 Odeios shoppings areos.  Seu sorriso tornou a se abrir.  So to ultrapassados... Vi voc no Canal 75. 
 Ah, ento foi por isso que veio aqui? Para pegar meu autgrafo? 
 Se voc autografar uma ficha de crdito, posso envenenar esse seu calhambeque e fazer com que ele arrebente!  Olhou para trs, na direo da loja.  Dei uma boa olhada na bruxa atravs da vitrine. A loja est com um bom movimento hoje. 
Eve olhou na direo para onde ele apontara e notou um grande nmero de clientes circulando l dentro. 
 Voc j a conhecia, Jamie? 
 Sim, eu a vi algumas vezes, quando seguia Alice. 
 E em alguma dessas vezes notou algo de interessante? 
 No. Todo mundo est sempre coberto de roupas ali dentro.  Levantou as sobrancelhas.  Enfim, a gente aprende a esperar. J estudei a religio Wicca. Eles gostam de andar pelados. Uma vez, vi a bruxa-chefe expulsar um cara da loja. 
  mesmo?...  Foi a vez de Eve se encostar no carro.  Por qu? 
 No saquei no... s sei que ela estava muito puta com ele. Deu para ver o bate-boca quando o tempo esquentou. Achei que ela ia bater nele de cinto, sabe qual ?... especialmente quando ele a empurrou com fora. 
 Ele a empurrou... 
 Foi. Pensei at em entrar l, embora ela fosse muito maior do que ele. De qualquer modo, um cara no pode ficar por a agredindo as mulheres. S sei que ela disse alguma coisa que o fez recuar. Foi recuando at sair de costas pela porta afora. E ento vazou correndo, com uma pressa danada... 
 E como era a aparncia desse sujeito? 
 Um cara magrinho, com cerca de um metro e sessenta, e mais ou menos sessenta quilos. Tinha s uns dois anos a mais do que eu. Cabelos pretos, compridos, com pontas vermelhas. Rosto longo, com os incisivos serrados, parecendo presas, e olhos vermelhos. Tinha uma compleio delicada. Quando se virou, vi que usava um colante de couro preto, sem camisa, e tinha algumas tatuagens, mas eu estava meio longe para poder sacar o desenho delas. 
Nesse momento, o jovem lanou um sorriso ligeiramente amargo para Eve e completou: 
 A descrio no lhe  familiar? A ltima vez em que o vi, no estava parecendo nem um pouco exuberante. 
Lobar, pensou Eve, trocando olhares com Peabody. O menino lhe oferecera uma descrio consistente e quase profissional. 
 Quando foi que isso aconteceu, Jamie? Em que dia voc presenciou este incidente? 
 Um dia...  Sua voz falhou ligeiramente e ele pigarreou para limpar a garganta.  Um dia antes de Alice morrer. 
 E o que Isis fez, depois que Lobar foi embora? 
 Fez uma ligao. Alguns minutos depois, o cara com quem ela vive chegou correndo. Os dois conversaram por alguns minutos, um papo muito agitado; ento ela colocou a placa de Fechada na porta da loja e foi com ele para a sala dos fundos. Isso me deixou injuriado  acrescentou ele.  Eu devia ter seguido o cara com roupa de couro. 
 Quero que voc pare com essa mania de ficar na cola das pessoas, Jamie. Se elas perceberem que esto sendo seguidas, podem ficar muito irritadas. 
 Gente que eu sigo no consegue me sacar no... sou muito bom nisso. 
 ?... Pois eu jurava que a sua especialidade era arrombar portas, pular muros e invadir domiclios  lembrou-lhe Eve, com um tom seco, notando seu rosto ficar vermelho. 
 Aquilo foi diferente. Escute, aquele outro cara que foi apunhalado estava no velrio de Alice. Ele devia ter alguma ligao com ela e com esse tal de Lobar Arrepio, e eu tenho o direito de saber. 
 Ento voc quer ser informado a respeito do andamento das minhas investigaes,  isso?  perguntou ela, empertigando-se. 
 ,  isso mesmo...  Jogou os olhos para cima, em sinal de impacincia, imitando o tom dela:  Por favor, tenente, informe-me a respeito do andamento de suas investigaes. 
 Esto em andamento!  rebateu ela, sem dar margem para resposta e sacudindo o polegar para trs.  Agora, cai fora! 
 Eu tenho o direito de saber  insistiu ele.  Sou parente de duas das vtimas e tudo o mais... 
 Voc  neto de um tira  lembrou-lhe Eve.  Sabe muito bem que eu no vou lhe contar nada. Alm disso, voc  menor de idade. No tenho obrigao nenhuma de lhe comunicar nada a respeito das investigaes. Agora saia da minha cola e v brincar em outro lugar, garoto, antes que Peabody e eu arrastemos voc para uma instituio de apoio  infncia, por vadiagem. 
 No sou mais criana!  Os msculos de seu maxilar pareciam pulsar.  Se voc no pegar o assassino de Alice, quem vai peg-lo sou eu! 
 No passe dos limites, Jamie!  disse-lhe Eve, baixinho, agarrando-o pela manga do casaco, antes que ele sasse correndo. Mantendo o rosto perto do dele, ela o forou a olhar fixamente para seus olhos e disse:  Se quer justia, voc vai consegui-la. Juro por Deus que vou consegui-la para voc. Porm, se quer vingana, eu coloco voc atrs das grades! Pense bem nos valores que Frank defendia, lembre-se do que a sua irm era e torne a pensar em tudo isso antes de fazer qualquer coisa. Agora, se manda daqui! 
 Eu os amava!  Puxou o brao para trs com fora, para se libertar de Eve, no sem antes mostrar que havia lgrimas em seus olhos.  Foda-se a sua justia. E foda-se voc! 
Ela o deixou ir embora, porque, apesar da linguagem ser a de um adulto, as lgrimas eram de uma criana. 
 O menino est muito ferido por dentro  murmurou Peabody. 
 Eu sei.  Ela tambm estava se sentindo da mesma forma.  V atrs dele, por favor, Peabody, s para nos certificarmos de que no vai se meter em encrencas. Espere uns trinta minutos at ele se acalmar, passe um bipe para mim indicando sua localizao e eu irei apanh-la. 
 Voc vai conversar com Isis, agora? 
 Vou. Quero descobrir o que ela e Lobar tinham tanto a dizer um ao outro. Ah, e... Peabody, v com todo o cuidado... Jamie  um garoto muito esperto. Se ele conseguiu filmar um dos homens de Roarke,  bem capaz de sacar que voc est atrs dele. 
 Acho que consigo seguir um menino por alguns quarteires sem ser notada.  Lanou um sorriso para Eve. 
Sabendo que sua auxiliar ia conseguir manter Jamie longe de problemas, Eve entrou na Busca Espiritual. O ar parecia leve ali dentro, com o aroma do incenso e das dezenas de velas aromticas que queimavam. O sol de outubro estava to forte que cintilava em cores vibrantes atravs de prismas pendurados. 
O olhar que Isis lhe lanou no transmitia o ar de boas-vindas exticas que havia no resto da loja. 
 J acabou com Chas, tenente? 
 Por ora, sim. Gostaria de tomar alguns minutos do seu tempo. 
Isis se virou para responder  pergunta de um cliente a respeito de uma mistura de ervas que prometia melhorar a memria.
 Deixe em infuso por cinco minutos  disse-lhe Isis , e ento use um coador. Voc deve beber a mistura diariamente, durante uma semana, pelo menos. Se no funcionar, torne a me procurar.  Ela se virou para Eve.  Como pode ver, tenente, este  um mau momento para conversarmos. 
 Vou ser rpida. Estou apenas curiosa a respeito da visita que Lobar lhe fez aqui na loja, poucos dias antes de aparecer com a garganta cortada. 
Eve manteve a voz baixa, mas deixou suas intenes bem claras. Elas iam falar sobre o assunto, a ss ou em pblico. O local dependia de Isis. 
 No creio que a tenha julgado de forma errnea  disse Isis, tambm baixinho , mas a verdade  que voc faz com que eu duvide de minha intuio.  Fez um sinal para uma jovem, que Eve reconheceu do ritual de iniciao.  Jane vai cuidar dos clientes  disse Isis, dirigindo-se para a sala nos fundos da loja , mas no quero deix-la sozinha por muito tempo. Ela ainda  muito nova no atendimento de balco. 
 Voc substituiu Alice por ela?
 Ningum poderia substituir Alice, tenente.  Os olhos de Isis pareceram queimar. 
Eve a seguiu, entrando em um lugar que parecia uma mistura de escritrio e depsito de mercadorias. Sobre as prateleiras de plstico reforado, estavam grgulas, velas, latinhas lacradas com ervas secas, garrafas claras tampadas com rolhas e cheias de lquidos em vrias tonalidades. 
Na pequena escrivaninha, havia uma aparelhagem muito moderna que consistia em um computador de ltima gerao acompanhado por um avanado sistema de comunicaes. 
 Equipamento sofisticado, hein?...  comentou Eve.  Topo de linha! 
 Ns no evitamos a tecnologia, tenente. Estamos sempre nos adaptando e utilizando o que existe de mais moderno  nossa disposio. Sempre foi assim.  Gesticulou na direo de uma cadeira de madeira com espaldar entalhado e escolheu para si mesma uma outra, com braos em forma de asas.  Voc disse que ia ser rpida. Antes, porm, preciso saber se pretende deixar Chas em paz. 
 Minha prioridade  resolver um caso de homicdios, e no resguardar a paz de esprito de um dos suspeitos. 
 Como pode suspeitar dele?  Suas mos agarraram os braos da cadeira com fora, enquanto ela se inclinava para a frente.  Voc, de todas as pessoas,  a que sabe melhor das coisas que ele teve que superar. 
 Em casos como este, em que o passado dele  um fator relevante... 
 E o seu passado tambm  relevante, tenente?  quis saber Isis.  O fato de voc ter sobrevivido a um terrvel pesadelo conta a seu favor ou  um fator contrrio? 
 Meu passado  um assunto pessoal  disse Eve, mantendo a voz firme.  Voc no sabe de nada a respeito dele. 
 As coisas que chegam a mim chegam em imagens avulsas e impresses. Em alguns casos, as imagens aparecem com mais nitidez do que em outros. Sei que voc sofreu muito, e sei tambm que era inocente. Como Chas... Sei ainda que carrega cicatrizes e alimenta dvidas. Como Chas... Da mesma forma, sei o quanto voc lutou para alcanar um pouco de paz. Vejo tambm um quarto... 
Sua voz mudou, tornando-se mais profunda, assim como seus olhos. 
 Vejo um quarto pequeno e frio, banhado por uma luz vermelha embaada. Vejo uma criana espancada, sangrando, toda encolhida em um canto do aposento. A dor  insuportvel, alm do que  possvel descrever. E vejo um homem. Ele est coberto de sangue. Seu rosto est... 
 Pare!  O corao de Eve estava disparado, e ela se sentia sufocada. Por um momento, se vira de volta naquele lugar, dentro do corpo daquela criana que se arrastava pelo cho, choramingando como um animalzinho, at chegar ao canto, com as mos cobertas de sangue.  Mas que droga! 
 Sinto muito.  Isis levantou a mo e a apertou junto do peito para apaziguar o corao que batia descompassado.  Sinto muitssimo. No costumo agir desse modo. Deixei a raiva me dominar.  Fechou os olhos com fora.  No sei como me desculpar.





 



CAPTULO DEZESSETE





E
ve se levantou da cadeira de um salto. No havia espao para caminhar de um lado para outro, nem para descarregar os resduos indesejveis da memria. 
 Estou plenamente ciente  comeou Eve, com a voz fria  de que voc possui o que  chamado pela cincia de Percepo Extra-Sensorial. A PES ainda est sendo estudada. Tenho relatrios a respeito disso sobre a minha mesa, neste exato momento. Portanto, reconheo que voc possui um talento especial, Isis. Meus parabns! Agora, tenha a bondade de permanecer fora da minha mente! 
  claro...  Uma sensao de pena surgiu em seus olhos sob a forma de lgrimas e ela no conseguiu segur-las. Vira mais do que esperava ou pretendia.  Tudo o que posso fazer  me desculpar mais uma vez. Uma parte de mim desejava mago-la, e eu no consegui controlar isso. 
 Deve ser algo difcil de controlar, quando a pessoa est com raiva. Quando se sente ameaada. Quando descobre uma fraqueza e sabe que pode explor-la. 
Isis respirou uma vez, profundamente. Seu organismo ainda estava abalado, em desequilbrio, no apenas pelo que vira, mas pelo que fizera. 
 Eu no sou assim  repetiu.  Isso vai contra os fundamentos da minha f. No devo causar mal algum a ningum.  Levantou as mos, passando as pontas dos dedos sob os olhos, a fim de sec-los.  Vou responder a todas as suas perguntas. Voc quer saber a respeito de Lobar. 
 Algum a viu discutindo com ele na loja, um dia antes de Alice morrer. 
 Discutindo?...  Ela conseguiu se recompor e usou a dignidade como um manto em volta de si.  Sim, ele esteve aqui, e trocamos algumas palavras. 
 A respeito de...? 
 Alice, especificamente. Ele era um rapaz muito mal orientado, e imaginava ter uma importncia que no possua realmente. Ele se autovalorizava e se julgava poderoso. No era... 
 Alice no estava aqui nesse dia, no estava trabalhando na loja? 
 No. Eu tinha a esperana de que ela estivesse passando algum tempo com a famlia, juntando-se aos entes queridos depois da morte do av. Este foi o principal motivo de eu a ter incentivado a se mudar daqui e ir para um lugar s dela. Cheguei a lhe pedir para que no viesse na loja por alguns dias. Lobar esperava encontr-la aqui. No acredito que tenha sido enviado, acho que veio por conta prpria... talvez para provar algo a si mesmo. 
 E vocs brigaram. 
 Sim. Ele me disse que eu no conseguiria escond-la e que Alice jamais escaparia. Afirmou que ela quebrara as regras, as leis que Selina Cross e seus seguidores respeitavam. Disse tambm que a punio dela seria a tortura, a dor e a morte. 
 Ele a ameaou de morte e voc no me contou nada! Estive aqui antes e lhe perguntei sobre isso. 
 No, eu no lhe contei nada. Considerei aquela exploso apenas como um choque de personalidades, um teste... a fora dele contra a minha. Ele era apenas um joguete, e no era necessrio percepo extra-sensorial para perceber isso. Tudo o que desejava era me aborrecer, para provar sua superioridade. Sua forma de fazer isso foi me descrever, com detalhes, o que fizera com Alice, sexualmente.  Tornou a respirar fundo.  Disse-me tambm que eu havia sido prometida a ele. Afirmou que quando eu fosse subjugada e tivesse meus poderes destrudos, ele seria o primeiro a colocar as mos em mim. Descreveu o que pretendia fazer comigo e o quanto eu apreciaria. Chegou a me convidar a experimentar alguns de seus talentos sexuais ali mesmo, naquele momento, para que eu pudesse descobrir como ele era muito mais viril do que Chas. Eu ri na cara dele. 
 Ele a atacou? 
 Empurrou-me. Estava muito zangado. Eu deliberadamente o levara quele ponto de fria, e ento usei um encanto, um antigo feitio  explicou ela, balanando a mo de forma casual.  Utilizei o que voc poderia chamar de espelho, ou feitio-bumerangue, de forma que tudo o que ele estava enviando para mim: toda a escurido, o dio e a violncia, voltasse para ele e, ao refletir, se ampliasse.  Sorriu de leve.  Ele saiu bem depressa, e parecia muito assustado. No voltou mais. 
 E voc, ficou assustada? 
 Em nvel fsico, sim. 
 E mandou chamar o sr. Charles... 
 Ele  meu companheiro  afirmou Isis, elevando o queixo.  No guardo segredos e dependo dele. 
 Ele deve ter ficado muito zangado. 
 No...  Com os olhos firmes, balanou a cabea.  Preocupado ele realmente ficou. Marcou um crculo, executou um ritual de proteo e purificao. Ficamos satisfeitos. Eu devia ter visto...  continuou ela, com um ar de arrependimento tomando-lhe a voz  ...devia ter imaginado que Alice era o objetivo deles. O orgulho me fez acreditar que eles se virariam contra mim e que no ousariam tocar nela enquanto a menina estivesse sob a minha proteo. Talvez no tenha sido to honesta com voc como deveria ter sido, Dallas. Se meu orgulho no tivesse me cegado, sei que talvez Alice ainda estivesse viva. 


A culpa estava estampada ali, decidiu Eve enquanto seguia de carro para pegar Peabody. E a culpa podia levar  represlia. Frank e Alice haviam sido mortos por mtodos diferentes dos utilizados para eliminar Lobar e Wineburg. As mortes tinham ligao umas com as outras, disso ela estava certa, mas essa conexo no significava que os crimes haviam sido todos cometidos pelas mesmas mos. 
Ela queria ir at a Central de Polcia, a fim de rodar o programa de avaliao de probabilidades. Havia dados suficientes para isso agora. E se tivesse o apoio dos nmeros, poderia ir at Whitney e requisitar uma fora-tarefa para ficar de tocaia vinte e quatro horas por dia, vigiando os dois grupos de suspeitos. 
As restries oramentrias que se danassem!, pensou Eve, enquanto avanava lentamente pelo trfego pesado. Ela precisava de uma probabilidade alta para justificar as quantidades adicionais de tempo, dinheiro e mo-de-obra. Peabody e Feeney no eram suficientes para vigiar todos os envolvidos o dia inteiro e a noite tambm. 
Vigiar todos, inclusive Jamie, lembrou. O garoto andava atrs de encrencas, e Eve sabia que ele era esperto o bastante para consegui-las. 
Peabody entrou no carro assim que Eve parou junto ao meio-fio na Stima Avenida, quase na esquina da rua 47. Do outro lado da calada, o barulho escandaloso e computadorizado de armas de guerra saa pela porta de uma loja de jogos com realidade virtual. O barulho do estabelecimento estava quase ultrapassando os limites da lei de represso  poluio sonora, mas Eve imaginava que os proprietrios estavam dispostos a correr o risco de receber uma ou duas multas, a fim de atrair os turistas, os entediados e os desocupados. 
 Ele est l dentro? 
 Est, senhora.  Peabody olhou esperanosa para o vapor que vinha de uma carrocinha de lanches. Dava para sentir o cheiro de hambrgueres de soja recm-preparados e batatas fritas. J estava quase na hora do almoo, seu estmago estava roncando e seu corao se apertou ao lembrar que ia ter de encarar a gororoba servida na lanchonete da central.  Voc se incomoda se eu pegar alguma coisa para comer na carrocinha? 
 Voc no devia comer algo mais saudvel, para acabar com o seu resfriado?  Eve lanou um olhar impaciente para o lado de fora, pela janela. 
 Eu no consigo fazer isso mesmo.  Respirou fundo, testando o nariz.  De qualquer modo, me sinto tima. Aquele chazinho funcionou... 
 Sei, sei... v l ento, mas volte logo e coma o sanduche pelo caminho. 
 Voc no quer aproveitar para comer alguma coisa?  perguntou Peabody, olhando por cima do ombro ao sair do carro. 
 No, pegue logo esse troo e vamos  luta. 
Drogas, sexo, Sat e poder, refletiu Eve. Uma guerra religiosa? Afinal, os homens no lutaram e morreram por suas crenas desde o incio dos tempos? Animais brigavam para defender seu territrio; pessoas lutavam pelo territrio tambm. E por ganhos, por paixes, por crenas... pelo prazer de brigar. 
E matavam, pensou, exatamente pelas mesmas razes. 
 Peguei tudo em dobro  anunciou Peabody, enquanto colocava a caixinha de papelo fino cheia de comida sobre o banco, entre as duas , s para garantir. Se voc no quiser, acho que agento comer tudo sozinha.  a primeira vez que sinto fome em dois dias. 
Deu uma mordida com vontade no hambrguer incrementado, enquanto Eve esperava uma brecha no fluxo de carros para sair de junto da calada. 
 O garoto me obrigou a dar a maior volta  comentou Peabody.  Andou por mais de dez quarteires, pau da vida, resolveu pegar um bonde eltrico indo para o norte, e, quando saltou, rumou para o lado oeste. E tem um apetite de leo! Parou em uma carrocinha como esta, na Sexta Avenida, e devorou dois cachorros-quentes de carne de porco, e era carne de verdade, alm de uma megaporo de batatas fritas. No quarteiro seguinte, parou para beber um refrigerante de laranja de uma marca que, por acaso, tambm  a minha favorita. E antes de entrar na loja de jogos em realidade virtual, parou em um vendedor ambulante e comprou trs barras de chocolate. 
 O menino est em idade de crescimento  comentou Eve, de repente dando partida no carro, para aproveitar uma brecha no fluxo. Buzinas soaram em sinal de protesto.  Enquanto ele continuar nessa, comendo porcarias pela rua e jogando videogames, vai conseguir se manter longe de problemas. 


Dentro da loja, em meio ao barulho e aos assobios agudos do salo de jogos, Jamie fez uma cara de deboche diante da tela. Ouvia todo o dilogo que era travado naquele momento, dentro do carro de Eve, graas ao fone sem fio que usava no ouvido e ao gravador-localizador porttil que instalara no veculo. 
Sim, correr aquele risco valera a pena, decidiu, manejando os controles do jogo virtual, enquanto sua mente divagava. Claro que fazer aquilo no representara um desafio to grande assim. O carro da polcia era no apenas um calhambeque antiquado, como tambm tinha um sistema de segurana ridculo, especialmente diante de um gnio da eletrnica como ele. 
Dallas no lhe contaria nada do que estava rolando mesmo, pensou com ar sombrio, enquanto destrua a imagem hologrfica de um grandalho de gangue que o atacava naquele momento. Ele ia rastrear as coisas ao seu modo, e lidar com elas do seu jeito tambm. 
Quem quer que tivesse assassinado a sua irm, era melhor se preparar para morrer tambm.


Eve rodou o programa de clculo de probabilidades e obteve resultados dbios. O computador concordou e apresentou noventa e seis por cento de chance de os quatro casos estarem interligados. O nmero baixou em dez pontos percentuais quando o sistema respondeu  possibilidade de eles terem sido cometidos por pessoas diferentes. 
Charles Forte conseguiu uma porcentagem alta no ndice que ajudava a identificar o autor dos crimes, da mesma forma que Selina Cross. Quanto a Alban, Eve continuava a bater de frente com a barreira da insuficincia de dados. 
Frustrada, conectou-se com Feeney. 
 Escute  disse ela assim que o viu , estou com alguns dados que quero passar para voc e preciso de um fator de probabilidade. Voc pode me ajudar com os nmeros? 
 Voc quer que eles aumentem ou diminuam?  perguntou ele, levantando as sobrancelhas. 
 Quero que aumentem  riu ela, balanando a cabea , mas quero que seja algo plausvel. Talvez eu esteja deixando de perceber alguma coisa importante. 
 Pode mandar que eu dou uma olhada. 
 Obrigada. E tem mais uma coisinha...  que eu entro em um beco sem sada toda vez que tento acessar os dados desse tal de Alban. O cara tem trinta e tantos anos!... Tem que haver mais registros a respeito dele por a... no consegui descobrir o seu grau de instruo, dados familiares nem histrico mdico. No h ficha criminal, nem mesmo uma simples multa por estacionamento em local proibido. Meu palpite  que ele conseguiu apagar todos os registros do sistema. 
  preciso muito talento e um bocado de grana para apagar tudo desse jeito. Alguma coisa sempre aparece em algum lugar. 
Eve pensou em Roarke e nos pouqussimos dados que havia a seu respeito nos arquivos. A verdade  que ele tinha muito talento, lembrou a si mesma. E um monte de grana. 
 Bem, Feeney,  que eu andei pensando que se existe algum que seja capaz de encontrar alguma coisa... 
 Isso, pode continuar a encher a minha bola, garota  disse e piscou um olho para ela.  Eu lhe dou retorno assim que conseguir algo. 
 Obrigada, Feeney. 
 Aquele na tela era o Feeney?  Mavis surgiu na sala aos pulos, literalmente, usando tnis novos, com os solados sustentados por uma camada interna de ar, saltos altos e um tom amarelo non.  Droga, voc desligou? Eu queria falar com ele. 
Eve passou a lngua sobre os dentes da frente, analisando a amiga, que estava arrumada no clssico estilo Mavis. Seus cabelos exibiam a mesma cor dos tnis, e o tom era de deixar qualquer um cego. As pontas encaracoladas desciam em massas espiraladas que pareciam explodir para cima e para baixo. Suas calas eram feitas de tecido sinttico brilhante, que moldava seu corpo por inteiro. O cs ficava muito abaixo do umbigo, local onde se via uma pedra brilhante. A blusa, se  que se poderia cham-la por esse nome, era constituda apenas por dois pedaos do mesmo tecido das calas, que mal lhe cobriam os seios. 
Por cima de tudo, usava um manto transparente. 
 Algum tentou prender voc na entrada do prdio? 
 No, mas acho que o sargento do balco da recepo teve um orgasmo quando me viu  disse Mavis, piscando com fora os olhos com clios longos cor de esmeralda e jogando-se sobre uma cadeira.  Grande roupa essa minha, no acha? Acabou de sair da tela de desenho de Leonardo. E a, voc j est pronta? 
 Pronta? Para qu? 
 Temos hora no salo. Trina conseguiu encaixar voc. Deixei um recado no seu tele-link. Dois recados, alis...  Estreitou os olhos para Eve.  No me diga que no recebeu os recados, porque eu sei que recebeu. Deve ter apagado as mensagens. 
E apagara mesmo, lembrou Eve. Apagara e as ignorara por completo. 
 Mavis, no estou com tempo para brincar de ir ao cabeleireiro. 
 Voc ainda no saiu para almoar. Perguntei ao sargento no balco da recepo  disse Mavis, toda convencida.  Foi pouco antes de seu orgasmo... Vamos l... Voc pode comer enquanto Trina d um jeito no seu cabelo. 
 Eu no quero que ningum mexa no meu cabelo. 
 No estaria to medonho se voc no tivesse tesourado tudo por conta prpria.  Mavis se levantou e pegou o casaco de Eve.   melhor vir bem pianinho ou vou empentelhar sua vida at voc desistir. Desligue-se da tomada durante o intervalo de almoo e tire uma hora para voc. Pode estar de volta quando for uma e meia da tarde, linda e pronta para tornar a nossa cidade mais segura. 
Como era mais fcil aceitar do que argumentar, Eve pegou o casaco e o vestiu. 
 Vou s dar uma aparada no cabelo, hein... no vou deix-la espalhar aquela coisa gosmenta na minha cara nunca mais.?
 Ai, relaxe, Dallas!  exclamou Mavis, puxando-a para fora da sala.  Curta um pouco a sua poro mulher. 
Eve fechou os seus arquivos, anotou a hora, olhou para a bunda rebolativa de Mavis, coberta pelo colante emborrachado, e comentou: 
 Acho que curtir ser mulher tem significados diferentes para ns duas. 


Talvez fossem os vapores  o cheiro das poes, loes, leos, tinturas e laqus to tpicos dos sales de beleza , mas a verdade  que Eve sentiu a inspirao chegar assim que recostou a cabea no apoio da cadeira especial. 
No estava bem certa de como elas haviam conseguido tirar suas roupas e submet-la  indignao de ter seu corpo massageado, o rosto espetado e cutucado. Ela s conseguiu colocar o p para baixo  agora descalo e j com as unhas pintadas  no instante em que a conversa desviou para tatuagens temporrias e piercings corporais. 
Tirando o controle que ainda exercia sobre o p, Eve se sentiu como uma refm, cheia de gosma no corpo e com os cabelos cobertos pelo creme parecido com esperma que Trina espalhara generosamente, entre um palavro e outro. Secretamente, estava profundamente aterrorizada pelas tesouras de Trina, que estalavam junto de seus ouvidos, e pela pasta pegajosa, meio verde. Foi por isso que manteve os olhos fechados durante todo o processo, para no se imaginar levantando-se da cadeira e se vendo no espelho como um clone de Trina, com os cabelos frisados pintados de fcsia e os peitos empinados, parecendo dois torpedos. 
 Voc demorou muito a voltar, Dallas  ralhou Trina.  Eu lhe disse que voc precisa de tratamento regular. J tem o bsico, um equipamento muito bom, mas se no fizer nada para turbin-lo, ele acaba perdendo o pique. Se viesse aqui com mais regularidade, no levaramos tanto tempo para traz-la de volta assim, maravilhosa... 
Ela no queria parecer maravilhosa, pensou Eve. Queria era ficar em paz. Tentou evitar um tremor ao sentir algo zumbindo em volta dos olhos. Trina estava lhe aparando as sobrancelhas, imaginou Eve, lutando para manter a calma. A esteticista no estava tatuando uma carinha risonha em sua testa, era o que esperava. 
 Preciso voltar ao servio. Tenho um monte de trabalho. 
 No me apresse! Fazer mgica leva tempo. 
Mgica, pensou Eve, girando os olhos, o que fez com que Trina fizesse um rudo spero com os lbios. Todo mundo vivia obcecado com mgica, era o que parecia. 
Franziu os olhos, ouvindo Mavis tagarelar a respeito de um creme polidor corporal que produzia um brilho dourado ao ser passado sobre a pele. 
 O produto  mais que demais, Trina! Qualquer dia desses vou passar no corpo inteiro. Leonardo vai querer lamber tudo... 
 Voc pode comprar do tipo comestvel, sabia? H seis sabores no mercado agora. Damasco  o mais popular. 
Poes e loes, pensou Eve. Fumaa e espelhos. Liturgias e rituais. Abriu os olhos de leve, para ver por entre os clios, e notou que Trina e Mavis estavam entretidas com um frasco de lquido dourado. Mavis com seu cabelo non, pensou, sentindo uma estranha sensao de afeto, e Trina com seu fucsia frisado. 
Estranhas irms. 
Estranhas irms, tornou a pensar, e se sentou. Trina bufou novamente, ordenando: 
 Volte a se recostar, Dallas. Ainda faltam dois minutos. 
 Mavis, voc me disse que j trabalhou em uma arapuca, fazendo trapaas psquicas. 
 E foi mesmo...  Mavis fez trepidar as unhas recm-pintadas de amarelo non.  Madame Electra v tudo, sabe tudo... Ou Ariel, o esprito com olhos tristes.  Deixou tombar a cabea, conseguindo parecer delicada e abandonada ao mesmo tempo.  Acho que tenho umas seis armaes com variaes sobre o mesmo tema. 
 Voc acha que conseguiria sacar se visse algum usando uma dessas variaes? 
 Qual , est brincando? D para perceber a trs quarteires de distncia e de culos escuros. 
 Voc devia ser boa naquilo...  lembrou Eve.  Nunca vi voc fazendo esses tipos, mas  muito boa nos outros papis que encarna. 
 Mas foi voc mesma que acabou com a minha festa de fingir ser mdium. 
  que eu era melhor do que voc nisso...  Eve lanou-lhe um sorriso e sentiu a gosma escorrer pelo rosto.  Escute s... tem um lugar que voc poderia averiguar para mim  comeou a propor, quando Trina chegou cheia de autoridade e a empurrou de volta para a posio horizontal.  Vocs duas, alis...  acrescentou, olhando para Trina. 
 Qual ?... Algum lance de ao policial? 
 Talvez. 
 Beleza!...  reagiu Trina, e empurrou a cabea de Eve em direo  bacia para enxaguar os cabelos. 
 Vocs podiam ir at l para descobrir certas coisas.  Eve apertou bem os olhos enquanto a gua escorria.  Tentem ver se conseguem fazer a balconista, que se chama Jane, falar. Depois me dem todo o servio. Esse pessoal no abre o jogo com policiais. 
 Algum abre?  quis saber Trina. 
 Quero impresses sobre o local  continuou Eve.  Podem dizer que esto interessadas em ervas, expanso da mente, poes de amor, estimulantes sexuais e calmantes. 
 Substncias ilegais?  Mavis percebeu logo.  Voc acha que eles podem ser traficantes? 
  uma possibilidade que preciso confirmar ou eliminar. Acho que vocs poderiam descobrir isso mais depressa do que algum policial disfarado. E voc conseguiria sacar alguma armao tambm, Mavis... saber se eles esto enrolando os clientes e fazendo teatro para arrancar dinheiro deles. A grana est saindo de algum lugar. 
 Vamos detonar, Mavis!  Sorriu Trina.  Eu e voc, j pensou? Uma dupla de detetives, tipo assim Sherlock e dr. Jekyll. 
 Legal, s que eu acho que o companheiro dele era o dr. Holmes. 
Eve tornou a fechar os olhos. 
Isso s pode ser efeito dos vapores, decidiu. 


Ao chegar em casa, Mavis e Trina estavam na sala, divertindo Roarke ao contar suas faanhas. Eve pegou o gato no colo e seguiu o barulho das gargalhadas. 
 Eu trouxe uma loo para passar no corpo  comentava Trina.  Ela faz surgir o animal que existe em cada homem. Tipo feromnios...  Passou o brao comprido por baixo do nariz de Roarke.  Em que animal isso transformaria voc? 
 Se eu no fosse casado com uma mulher que anda armada, poderia...  e parou de falar na mesma hora, sorrindo.  Oi, querida! 
 Pode terminar a frase  disse-lhe Eve, atirando Galahad em seu colo. 
  melhor esperar at voc estar desarmada. 
 Dallas, foi tudo muito legal, mais que demais!  Mavis se levantou com um pulo, balanando o clice de vinho at o lquido cor de palha respingar pelas bordas.  Mal posso esperar para chegar em casa e contar tudo a Leonardo. O problema  que Trina e eu queramos comer alguma coisa antes, entende, ento viemos direto para c, para apresentar nosso relatrio. Voc precisa ver o monte de troos que a gente comprou. 
E mergulhou a mo em uma das vrias sacolas de compras que estampavam o logotipo da Busca Espiritual. Eve resistiu  vontade de berrar e segurou o brao de Mavis, pedindo: 
 Fale agora e mostre depois. No sei onde eu estava com a cabea para mandar duas malucas como vocs at l... Quer saber?  perguntou ela, virando-se para Roarke.  Esse  o resultado daqueles vapores e cheiros do salo de beleza.  isso o que faz com que pessoas normais se sentem ali e se deixem ser raspadas, pintadas e depois ainda saiam pela rua com um piercing pendurado em algum lugar. 
Os olhos dele se turvaram por um segundo. 
 Colocaram um piercing em voc? Em que lugar, exatamente? 
 Ah, ela no quis colocar no mamilo  reclamou Trina, abanando a mo.  Disse que ia me atingir com a arma de atordoar se eu chegasse perto dela com o aparelho. 
 Boa menina  murmurou Roarke.  Sinto-me orgulhoso pela sua firmeza e controle. 
Como sua cabea estava comeando a latejar, Eve se serviu de um clice de vinho e perguntou: 
 Vocs duas fizeram mais alguma coisa l, alm de gastar um monte de fichas de crdito? 
 Fizemos leitura de aura  contou-lhe Mavis.  Um barato! Eu tenho uma alma aventureira e meu narcisismo  equilibrado por um corao generoso. 
Eve no conseguiu evitar e caiu na risada, afirmando: 
 No  preciso ter poderes paranormais para descobrir isso, Mavis, basta ter olhos. Vocs foram at l vestidas exatamente desse jeito, no foram? 
 Claro.  Mavis balanou o tnis amarelo non.  Jane, a balconista, foi muito atenciosa, e parecia conhecer tudo sobre ervas. Ns achamos que ela estava sendo honesta, no foi, Trina? 
 Sim, totalmente honesta  concordou Trina, com olhos srios.  Meio desenxabida a moa... poderia dar um jeito nela em duas sesses. Um realce aqui e ali... um pouco de escultura de corpo. Agora a outra, a deusa... nossa, naquela  difcil de se conseguir melhorar alguma coisa! 
 Isis.  Eve se sentou.  Ento ela estava l... 
 Surgiu de uma sala nos fundos da loja, quando estvamos escolhendo as ervas  disse Mavis.  Eu estava dizendo o quanto gostaria de algo para melhorar minha performance no palco e aumentar um pouco o meu nvel de energia.  que quando voc est aprontando algum golpe, atua melhor se acreditar no esquema. Quando a gente consegue transmitir que a coisa  pra valer, fica mais que demais! 
 Pois eu estava em busca de produtos sexuais  sorriu Trina, balanando o corpo sinuoso.  Coisas para atrair os homens e melhorar o desempenho sexual. Contei a ela o quanto o meu trabalho era estressante, e como vivo tensa e ansiosa. Remdios vendidos sem receita j no adiantam nada para mim. Ento, disse que estava em busca de alguma coisa mais potente, e no me importava com o preo. 
 Eles tinham um monte de misturas  disse Mavis, dando continuidade  histria.  No vi nada de estranho l, na verdade, ela at chegou a dizer que drogas no eram a resposta para nada disso, e que precisvamos seguir os caminhos naturais, tipo... holsticos. 
 Sim, holsticos, foi o termo que ela usou  concordou Trina.  Ns bem que foramos a barra, acenamos para ela com grana e fichas de crdito, mas ela no comprou o nosso peixe, ou, melhor dizendo, no vendeu o peixe dela. 
 Ento a Rainha das Amazonas retirou-se para os fundos da loja  continuou Mavis, assumindo a histria  e voltou com um mix.  Com os cabelos esvoaando, Mavis enfiou a mo no fundo de uma das sacolas e atirou um pacote pequeno cheio de substncias claras e sementes para Eve.  Ela me disse que isso era apenas uma amostra, que eu podia experimentar e ela no ia cobrar nada. Tudo o que quer  saber se funcionou para mim. Pode testar, mas acho que esse negcio est limpo. 
 E quem fez a leitura de aura? 
 Isis. Ela no pareceu muito empolgada na hora em que chegou  comentou Mavis, balanando o copo.  Ns estvamos fazendo nosso papel, entende? Entrei com os olhos esbugalhados, fiz um monte de ohhs e ahhs o tempo todo. 
Eve desviou o olhar para as sacolas. 
 Estou vendo que levaram a farsa at o fim. 
 Eu gostei do lance.  Sorriu Mavis, sem demonstrar arrependimento.  Nesse ponto, a sra. RA, isto , a Rainha das Amazonas, comeou a ir fundo nas coisas. Dei umas sacadas em uma bola de cristal divinrrima que havia l, uma verde... Como  que ela chamou aquilo, Trina? 
 Turma-de-alguma-coisa. 
 Turmalina  ajudou Roarke. 
 Sim, foi isso mesmo! Turmalina. Mas ela me levou para longe dali, e disse que aquela era para relaxar e acalmar, e se o que eu estava querendo era adquirir mais energia, devia tentar a bola laranja, para conseguir vitalidade. 
 E essa era a mais cara?  foi a concluso de Eve. 
 No... era mais barata. Muito mais barata! Ela disse que a verde no servia para mim. Disse tambm que eu tinha uma amiga que poderia fazer bom uso dela, uma pessoa muito prxima que carregava um caminho de estresse. Mas disse que essa tal amiga ia ter que escolher esse caminho por si mesma, quando estivesse pronta. 
Eve soltou um grunhido e franziu o cenho. 
 Ento ela fez a leitura de nossas auras. Megademais! Disse que estava muito feliz de termos ido at l, e comentou que estava mesmo precisando da nossa energia positiva. No final, disse que nem ia cobrar pelas leituras. Eu gostei dela, Dallas. No me pareceu ter olhos de quem est fingindo ou armando alguma coisa. 
 Certo, ento. Obrigada s duas. Vou mandar examinar o contedo do saquinho.  Uma das maneiras mais certas de fazer dinheiro, refletiu Eve, era incentivar o cliente a voltar. E uma forma segura de faz-los voltar era viciando-os em alguma coisa. 
 Vamos nessa, ento.  Mavis se levantou, recolhendo as sacolas.  Comprei uma vela para incrementar o clima de romance e quero ver se funciona mesmo. A gente se v na tera  noite. 
 Tera? 
Mavis bateu com os tnis-plataforma no cho, parecendo irritada. 
 Nossa festa de Halloween, Dallas! Voc prometeu que iria... 
 Devia estar bbada. 
 No, no estava no... Nove da noite, l em casa. Todo mundo vai. Convidei at Feeney. A gente se v... 
 Relaxe!...  aconselhou Trina ao sair.  E no se esquea da fantasia. 
 Nem morta!  murmurou Eve.  Enfim...  Balanou na mo o saquinho de folhas e sementes.  Isso tudo provavelmente foi uma monumental perda de tempo. 
 Mas elas se divertiram, e voc vai se sentir melhor depois de mandar analisar essa mistura. 
 Acho que sim. No estou chegando a lugar algum.  Eve atirou o saquinho sobre a mesa de centro.  Estou seguindo um monte de caminhos errados. D para sentir... 
 Voc segue um monte de caminhos errados, mas, normalmente, acaba sempre chegando ao lugar certo.  Roarke se inclinou na direo dela e colocou as mos sobre seus ombros, massageando-os.  Quer dizer ento que Mavis tem uma amiga muito chegada que carrega um caminho de estresse.  Trabalhou nos ns que sentiu nos msculos retesados de Eve.  Quem ser essa amiga? 
 Cale a boca! 
Ele riu e beijou-lhe a nuca, dizendo: 
 Voc est com um cheiro maravilhoso. 
 Foi aquela gosma que Trina espalhou em mim. 
 Ela comentou que fizera isso. Disse que eu ia curtir muito o resto que ela aprontou...  fungou novamente atrs do seu pescoo, fazendo-a rir  ...e estou curtindo, mesmo. Ela me contou tambm que conseguiu segurar voc por tempo suficiente para lhe dar um tratamento completo. E avisou que devo prestar uma ateno particular ao olhar para o seu traseiro. 
 Bem, ela certamente fez isso. Tentou at me convencer a aplicar uma tatuagem temporria na ndega direita... um boto de rosa...  Comeou a suspirar, mas, de repente, deu um pulo, agarrando a ndega direita.  Minha nossa! Ela me manteve em cima da mesa com a bunda pra cima por mais de dez minutos. Ser que me aplicou uma tatuagem aqui? 
Roarke levantou uma sobrancelha e sorriu suavemente enquanto se levantava, dizendo: 
 Vou ter que pesquisar bem no local com toda a ateno para descobrir.










 



CAPTULO DEZOITO





E
la estava com um boto de rosa tatuado na bunda, e no ficou nem um pouco satisfeita com isso. Em p, nua, Eve ajustou o espelho triplo do ba-nheiro at conseguir dar uma boa olhada. 
 Acho que vou mandar prender Trina por causa disso  murmurou. 
 Sob que acusao? Decorar o traseiro de uma policial sem autorizao?  sugeriu Roarke, ao entrar.  Reproduo criminosa de uma imagem floral? 
 Voc bem que est curtindo, no ?  Com ar ofendido, Eve pegou o roupo que estava pendurado. 
 Querida Eve, pensei ter deixado bem claro na noite passada que estava totalmente do seu lado com relao a esse assunto. No fiz o melhor que pude para tentar arrancar essa tatuagem com os dentes? 
Ela no ia rir, ordenou a si mesma, mordendo a lngua com fora. No havia nada de engraado ali. 
 Preciso resolver esse problema de algum modo  disse ela.  Qualquer coisa que algum faa para arrancar isso fora. 
 Por que tanta pressa?  uma coisa... doce. 
 E se eu tiver que entrar na cmara de desinfeco? Precisar tomar um banho ou trocar de roupa no trabalho? J imaginou o tipo de zoao que uma tatuagem na bunda vai provocar? 
 Mas voc no vai para o trabalho hoje...  Enlaou-a com os braos, colocando-os de forma esperta por dentro do roupo. 
 Preciso ir at l. Tenho que verificar no meu computador, para ver se Feeney conseguiu alguns dados que pedi a ele para pesquisar. 
 No vai fazer diferena alguma se fizer isso na segunda de manh. Estamos com o dia de folga. 
 Para fazer o qu? 
Ele simplesmente sorriu e foi descendo com as mos, at alcanar o boto de rosa. 
 No acabamos de fazer isso?  perguntou ela. 
 Eu agento repetir  refletiu ele , mas isso pode esperar mais um pouco. Por que no passamos o dia sem fazer nada, na beira da piscina? 
 Bem... talvez.  Ficar sem fazer nada, na beira da piscina, at que tinha um certo apelo. 
 S que vai ser na Martinica. Nem se preocupe em fazer as malas  disse-lhe ele, plantando um beijo rpido em seus lbios.  Voc no precisa vestir nada, s a tatuagem. 


Eve passou o dia inteiro na Martinica, vestindo apenas um sorriso e um boto de rosa. Talvez por isso estivesse se arrastando ainda com mais dificuldade do que de hbito quando chegou ao trabalho na segunda-feira. 
 Parece cansada, tenente.  Peabody pegou um pacote em seu kit de trabalho e colocou duas rosquinhas recheadas sobre a mesa. Ainda sorria ao lembrar que conseguira passar com os doces escondidos pela sala de registros e queixas sem que os colegas os farejassem.  Est um pouco bronzeada tambm.  Olhou mais de perto.  Passou maquiagem no rosto? 
 No.  que peguei um pouco de sol, ontem. 
 Mas choveu o dia todo! 
 No no lugar onde eu estava  murmurou Eve, enchendo a boca com a rosquinha.  Tenho que rodar o programa de probabilidades para apresent-lo ao comandante. Feeney trabalhou com alguns nmeros, ainda estamos com pouca base, mas vou pedir um grupo de vigilncia para os principais suspeitos, trabalhando dia e noite. 
 Acho que voc no vai querer saber qual  a probabilidade de conseguir isso, na minha opinio. Uma circular acabou de ser emitida agora de manh, reclamando do excesso de horas extras. 
 Pois que se dane a circular! No se trata de excesso quando as horas extras so necessrias. Whitney pode explicar isso ao secretrio de Segurana, e o secretrio pode ir at o prefeito. Temos nas mos duas mortes de pessoas importantes, que esto provocando um bocado de agitao na mdia. Precisamos de mais mo-de-obra para encerrar esses casos e diminuir o calor dos debates. 
 Parece at um ensaio do que vai dizer ao comandante  comentou Peabody, com um sorriso. 
 Talvez seja mesmo.  Expirou com fora.  Se os nmeros do programa de probabilidade fossem um pouquinho mais altos, eu no ia precisar forar tanto a barra. H gente demais envolvida no caso, esse  que  o problema.  Levantando as mos, pressionou os olhos com os dedos.  Temos que pesquisar os nomes de cada um dos membros das duas seitas. So mais de duzentas pessoas! Mesmo que eliminemos metade delas a partir dos dados e do perfil de cada uma, ainda vo sobrar umas cem para investigar e verificar libis. 
 So dias e dias de trabalho  concordou Peabody.  O comandante provavelmente vai oferecer uma dupla de policiais para bater de porta em porta e eliminar os obviamente no envolvidos. 
 Acho que no h ningum nessa histria que seja obviamente no envolvido.  Eve se afastou da mesa, empurrando a cadeira para trs.  Foi necessria mais de uma pessoa para transportar o corpo de Lobar e para amarr-lo no pentagrama de madeira. Tambm foi preciso um veculo para tudo isso. 
 Nenhum dos principais suspeitos possui um veculo grande o bastante para carregar um cadver e um pentagrama imenso sem chamar a ateno. 
 Talvez um dos membros tenha. Precisamos pesquisar os nomes atravs das placas dos veculos. Se isso no der em nada, podemos comear a verificar em locadoras de carros e veculos roubados na noite do crime.  Eve apertou a cabea.  Ainda por cima,  bem capaz de a pessoa que o descarregou na minha porta ter usado um veculo daqueles que ficam meses parados em um estacionamento aberto. Se isso aconteceu, ningum notou a sada do carro. 
 E vamos verificar tudo, mesmo assim? 
 Sim, vamos verificar mesmo assim. Talvez Feeney possa nos emprestar algum da Diviso de Deteco Eletrnica para fazer o trabalho mais chato. E voc vai  luta enquanto eu imploro ao comandante por mais gente.  Atendeu o tele-link, que estava tocando.  Tenente Dallas, da Homicdios. 
 Preciso falar com voc. 
 Louis?  Eve levantou uma sobrancelha.  Se quer falar a respeito das acusaes  sua cliente, por ela ter resistido  priso, procure o promotor. 
 Preciso falar com voc  repetiu. Eve notou que ele levou a mo  boca, como se estivesse disfarando, e reparou em suas unhas muito bem cuidadas.   uma conversa particular, a ss. Tem que ser o mais rpido possvel. 
 E sobre que assunto voc quer conversar?  Eve abaixou a mo ao lado do corpo, sinalizando na direo de Peabody para que ela permanecesse no fundo da sala e fora do campo de viso, da cmera. 
 No posso falar pelo tele-link. Estou usando meu aparelho de bolso, mas mesmo assim  arriscado. Preciso que voc se encontre comigo. 
 Venha voc at aqui! 
 No, no, eles podem estar me seguindo. No sei se esto, no posso saber ao certo, mas estou sendo cuidadoso. 
Ser que ele percebera o policial que Feeney designara para segui-lo, perguntou-se Eve, ou estava apenas sendo paranico? 
 Quem poderia estar seguindo voc?  perguntou. 
 Preciso que voc se encontre comigo!  insistiu ele.  Venha ao meu clube, o Luxury, perto do Central Park. Estarei no quinto andar. Vou deixar o seu nome na recepo. 
 Ah, mas voc tem que me oferecer algum incentivo para ir at a, Louis... estou atolada de servio. 
 Eu acho... acho que presenciei um assassinato. Venha sozinha, Eve. No vou conversar com mais ningum. E cuidado para no ser seguida. Corra! 
Eve apertou os lbios diante da tela que apagara. 
 Bem, esse  um bom incentivo. Acho que encontramos uma rachadura na muralha, Peabody. Veja se consegue convencer Feeney, usando o seu charme, para lhe emprestar algum da Diviso de Deteco Eletrnica para ajud-la. 
 Voc no pode ir se encontrar com ele sozinha!  protestou Peabody ao ver Eve agarrar a bolsa. 
 Acho que consigo lidar com um advogado apavorado.  Eve se agachou para se certificar de que estava com a arma extra presa ao tornozelo.  De qualquer modo, temos um homem do lado de fora do clube. E vou deixar meu comunicador ligado. Fique monitorando. 
 Sim, senhora. Tenha cuidado. 


No quinto andar do Clube Luxury, havia vinte sutes privativas, para uso dos membros. Reunies de natureza pessoal ou profissional podiam ser realizadas ali. Cada uma das sutes era decorada de acordo com uma era diferente, e continha uma central completa de comunicaes e entretenimento. 
Festas podiam ser dadas ali, tanto grandes como ntimas. O servio de buf era insupervel, mesmo para os padres elevados de uma cidade to preocupada com comida e bebida. Acompanhantes autorizadas estavam  disposio dos membros atravs do atendente e por uma pequena taxa adicional. 
Louis sempre reservava a sute 5-C. Apreciava a opulncia da decorao em estilo francs do sculo dezoito, com sua nfase no requinte. Os caros tecidos do estofamento das cadeiras de espaldar curvo e os assentos em veludo agradavam o seu interesse pelas formas e texturas. Ele gostava dos cortinados volumosos em cores escuras e do dourado nas molduras dos espelhos bisotados. J recebera sua esposa ali, bem como uma grande variedade de amantes, com quem compartilhava a cama larga e alta, acima da qual ficava um dossel elegante preso por quatro colunas. 
Em sua opinio, aquele perodo da histria, em especial, representava o hedonismo, a auto-indulgncia e a devoo aos prazeres materiais. 
A realeza governava e fazia apenas o que lhe proporcionava satisfao. E a arte, ento, no florescera com tudo isso? Se os camponeses passavam fome do lado de fora dos muros privilegiados, isso era apenas porque a sociedade espelhava em sua estrutura a seleo natural exibida pela natureza. Os poucos escolhidos viviam intensamente. 
E ali, no centro de Manhattan, trezentos anos depois, ele podia usufruir dos frutos da indulgncia do passado. 
Porm, ele no estava apreciando nada daquilo naquele momento. Andava de um lado para outro, bebendo usque puro em goles longos e nervosos. O terror formava gotculas de suor em sua testa, que teimavam em surgir sem parar. Seu estmago se contorcia e seu corao batia disparado. 
Ele presenciara um assassinato. Tinha quase certeza disso. Tudo lhe parecia enevoado e surreal, como um programa de realidade virtual com alguns elementos faltando. 
A sala secreta, a fumaa, as vozes  a sua prpria voz entre elas  elevadas em um cntico... o gosto de vinho quente e maculado travando-lhe a lngua. 
Tudo isso lhe era familiar, e j fazia parte de sua vida h trs anos. Ele se filiara  seita por acreditar em seus princpios bsicos sobre a busca do prazer, e gostava dos rituais: os mantos, as mscaras, as palavras repetidas sem parar, enquanto as velas derretiam, formando poas de cera preta. 
E o sexo sempre fora incrvel. 
Algo, porm, estava acontecendo. Ele se via inquieto, obcecado pela chegada das reunies e desesperado pelo primeiro gole do vinho cerimonial. E tinha lapsos de memria, verdadeiros buracos em alguns perodos de tempo. Na manh seguinte s cerimnias, sempre ficava com a cabea confusa e raciocinava mais devagar. 
Recentemente, encontrara sangue seco debaixo das unhas, e no se lembrava de como aquilo aparecera ali. 
Mas estava comeando a se lembrar. As fotos das cenas dos crimes que Eve lhe mostrara fizeram com que alguma coisa se destravasse em sua mente. E a porta que se abriu mostrava cenas horrorosas e chocantes. Imagens giravam diante de seus olhos. A fumaa subia em redemoinhos, juntando-se s vozes que entoavam cnticos. Peles lisas brilhavam, suadas, fazendo sexo, e havia gemidos e grunhidos provocados por cpulas violentas. Cabelos midos e pretos balanavam no ar, enquanto quadris magros se moviam para a frente e para trs. 
E ento ele via um respingar de sangue que esguichava com fora, como o jorro que acompanha o grito primal do sexo saciado. 
Selina com seu sorriso de fera, um ar felino e a faca pingando sangue em sua mo. Lobar... Meu Deus, aquele era Lobar, escorregando do altar com a garganta aberta, como quem solta um grito de pavor. 
Assassinato... nervoso, abriu uma fresta entre as cortinas pesadas e deixou os olhos assustados pesquisarem a rua l embaixo. Ele vira um sacrifcio de sangue, e no foi o sangue de um bode, mas de um homem. 
Ser que ele enfiara os dedos naquela garganta aberta? Ser que lambera a ferida com a lngua, para saborear o sangue fresco? Ser que participara de aberraes como essas? 
Meu Deus, meu bom Deus, ser que havia outras? Outras noites, outras mortes? Ser que ele testemunhara tudo e bloqueara as lembranas terrveis em sua mente? 
Ele era um homem civilizado, disse a si mesmo, puxando as cortinas e tornando a fech-las. Ele era um bom marido e pai de famlia. Era um advogado respeitado, e no um acessrio para ser usado em assassinatos. No podia ser... 
Com a respirao cada vez mais curta e ofegante, serviu-se de mais um pouco de scotch e olhou para si mesmo refletido nos espelhos com molduras trabalhadas. Enxergou um homem que no dormia, no comia e no via a famlia h vrios dias. 
Tinha medo de pegar no sono. As imagens poderiam surgir com mais nitidez nos sonhos. Tinha medo de comer, pois decerto a comida ia ficar presa em sua garganta, matando-o. 
E estava mortalmente preocupado com sua famlia. 
Wineburg estava na cerimnia. Estivera ao lado dele e testemunhara as mesmas coisas que ele. 
E agora estava morto. 
Wineburg no tinha esposa nem filhos, mas Louis tinha... se ele estava em perigo e resolvesse ir para casa, ser que eles no iriam atrs dele? Comeava a descobrir, durante as noites longas e insones que passara ali, tendo a bebida como nica companheira, que ele tinha vergonha de que seus filhos pudessem descobrir os atos dos quais participara. 
Precisava proteger a eles e a si mesmo. Ali estava a salvo, assegurou a si mesmo. Ningum poderia entrar naquela sute, a no ser que ele abrisse a porta... talvez estivesse reagindo com exagero a tudo aquilo. Tentou enxugar a testa molhada com o leno j encharcado de suor. Estava estressado, andava trabalhando demais, muitas noites acordado at tarde... Talvez estivesse tendo um colapso nervoso. Devia procurar um mdico. 
Faria isso. Iria procurar um mdico. Pegaria a famlia toda e viajaria para longe, por alguns dias. Tiraria umas pequenas frias, um tempo para relaxar, para reavaliar as coisas. Abandonaria a seita. Obviamente, aquilo no estava lhe fazendo bem. S Deus sabia que participar dos rituais estava lhe custando uma pequena fortuna em doaes a cada dois meses. De algum modo, ele se envolvera demais com aquilo, esquecendo-se de que entrara para a seita por simples curiosidade... por sede de sexo livre e egosta. 
Ingerira vinho demais e respirara muita fumaa, talvez, e isso estava fazendo com que imaginasse coisas. 
Mas vira sangue seco debaixo das unhas. 
Louis cobriu o rosto, tentando retomar o ritmo da respirao. No importava, pensou. Nada daquilo importava. No devia ter ligado para Eve, no devia ter entrado em pnico. Ela ia consider-lo louco; ou pior... cmplice! 
Selina era uma cliente. Ele devia aos seus clientes toda a lealdade, alm das aptides profissionais. 
Mas conseguia ver a imagem dela com um punhal na mo, enquanto cortava carne humana exposta. 
Louis cambaleou em volta da sute, entrou no banheiro suntuoso e, despencando sobre a pia, vomitou usque e terror. Quando as clicas estomacais passaram, tentou se recompor. Debruou-se sobre a pia e exigiu, em voz alta, gua a cinco graus. O lquido escorreu na mesma hora da torneira curva moldada em ouro, e se despejou sobre a cuba muito branca, esfriando sua pele febril. 
Ele chorou por um momento, com os ombros tremendo e os soluos ecoando nos azulejos brilhantes. Ento levantou a cabea e se forou a olhar novamente para o espelho. 
Ele realmente testemunhara tudo o que lhe vinha  lembrana. Era hora de encarar isso. Ia relatar tudo a Eve, para tirar aquele peso dos ombros e coloc-lo nas mos dela.
Sentiu alvio por um momento, to intenso que chegava a ser doce. Queria ligar para casa, falar com sua mulher, ouvir a voz de seus filhos e ver seus rostos. 
Um movimento refletido no espelho o fez girar o corpo, assustado, com o corao quase pulando fora por sua garganta. 
 Como conseguiu entrar aqui? 
 Servio de quarto, senhor.  A mulher negra, com seu impecvel uniforme preto e branco, segurava uma pilha de toalhas macias, e sorriu. 
 No pedi servio de quarto.  Passou a mo trmula sobre o rosto.  Estou esperando uma pessoa que vai chegar a qualquer momento. Simplesmente deixe as toalhas a e...  Sua mo escorregou lentamente para o lado do corpo.  Eu conheo voc. Conheo voc!... 
Vi seu rosto em meio  fumaa, lembrou ele, em meio  glida sensao de terror renovado. Esse era um dos rostos que eu vi no meio da fumaa. 
 Claro que voc me conhece, Louis...  Seu sorriso no perdeu a intensidade nem por um momento enquanto ela deixava as toalhas carem e revelava o athame que segurava por baixo delas  ...ns trepamos na semana passada. 
Ele s teve tempo de sugar o ar para soltar um grito, antes de ela enfiar o punhal em sua garganta. 


Eve saiu do elevador rangendo os dentes de irritao. O andride da recepo a deixara esperando por mais de cinco minutos, enquanto conferia a sua identificao. Reclamara que ela estava entrando armada no clube. Eve j estava considerando a idia de us-la contra ele para calar-lhe a boca quando o gerente diurno surgiu, desmanchando-se em desculpas. 
O fato de ambos saberem que as desculpas eram dirigidas  esposa de Roarke e no  policial Eve Dallas s serviu para deix-la ainda mais furiosa. 
Ela ia cuidar dele depois, prometeu a si mesma. Queria ver se o Clube Luxury conseguiria escapar ileso de uma inspeo em larga escala feita pelo Departamento de Vigilncia Sanitria, seguida por uma verificao na validade das licenas das acompanhantes autorizadas que trabalhavam no local. Era s ela puxar algumas cordinhas e o gerente ia enfrentar vrios dias de puro inferno em sua vida. 
Ela se virou na direo da sute 3-C e apertou a campainha, que ficava bem debaixo da tela de segurana. Seu olhar notou a luz verde do sistema de segurana, indicativa de que a porta estava destrancada. 
 Peabody?  Eve pegou sua arma. 
 Sim, senhora.  A voz de sua auxiliar saiu abafada do aparelho guardado no bolso de dentro do casaco. 
 A porta da sute est destrancada. Vou entrar... 
 Deseja reforo, tenente? 
 Ainda no. Fique comigo, acompanhando tudo. 
Eve entrou sem fazer rudo e fechou a porta s suas costas. Na mesma hora se agachou, em posio defensiva, balanando a arma de um lado para outro, enquanto vasculhava o vestbulo com os olhos. 
Moblia sofisticada, feia e exagerada para o seu gosto, um palet de terno todo amarfanhado, uma garrafa pela metade, cortinas cerradas e silncio total. 
Deu mais um passo dentro do aposento, ainda agachada, mas se manteve junto  parede, guardando as prprias costas, enquanto circulava pelo saguo. No havia ningum escondido junto dos mveis nem atrs das cortinas. A pequena cozinha estava vazia e aparentemente no havia sido usada. 
Ao chegar junto da porta do quarto, novamente se agachou e balanou a arma nas duas direes. A cama estava feita, cheia de almofadas decorativas e, aparentemente, ningum dormira nela. Seu olhar se moveu na direo do closet, com portas duplas entalhadas e fechadas. 
Andou de lado na direo dele. Foi quando ouviu sons no banheiro. Sons de respirao ofegante, gemidos de quem est fazendo um grande esforo e uma risada feminina bem ntida. Passou pela sua cabea que Louis talvez estivesse dando uma rapidinha com uma das acompanhantes autorizadas do clube e rangeu novamente os dentes, enfurecida. 
No relaxou a guarda, porm. 
Trocou o peso do corpo para a outra perna, foi mais um pouco para a esquerda e pulou diante da porta. 
Percebeu o cheiro de imediato, dcimos de segundo antes da imagem. 
 Jesus! Meu Deus! 
 Tenente?  A voz de Peabody, cheia de preocupao, saiu do fundo do seu bolso. 
 Para trs!  Eve apontou a arma para a mulher, segurando-a com as duas mos.  Largue o punhal, levante da e d um passo para trs. 
 Estou enviando reforos. Informe a sua situao, tenente. 
 Temos um homicdio... acabou de acontecer. Eu mandei voc se levantar e dar um passo para trs! 
A mulher simplesmente sorriu. Estava sentada sobre o corpo de Louis, ou o que restara dele, com uma perna para cada lado. O sangue cobria todo o piso, as paredes azulejadas estavam cheias de res-pingos vermelhos; as mos e o rosto da assassina estavam molhados com ele. O fedor de sangue comeando a coagular era quase palpvel. 
Para Louis, Eve notou, no havia mais esperanas. Ele fora morto, suas vsceras estavam espalhadas e a mulher continuava a tir-las de dentro dele, lentamente. 
 Ele j est morto  disse a mulher, com ar prazeroso. 
 D para ver. Largue esse punhal!  Eve deu um passo para a frente, balanando a arma.  Largue esse punhal e se afaste dele... Bem devagar! Coloque o rosto no cho e as mos atrs das costas! 
 Isso tinha que ser feito.  Passou uma das pernas por cima do morto e ficou ajoelhada ao lado dele, como uma viva ao lado de um tmulo.  Voc no me reconhece? 
 Sim.  Mesmo atravs da mscara de sangue, Eve sabia de quem era aquele rosto. Lembrava da voz e do seu jeito meigo e doce.  Mirium, no ? Bruxa do primeiro nvel de iniciao. Agora, largue a droga do punhal e beije o cho. Mos atrs das costas! 
 Certo.  Obedecendo, Mirium colocou o punhal de lado, nem olhou quando Eve pisou nele com o salto da bota e em seguida o chutou para longe, bem fora de alcance.  Ele mandou que eu fosse rpida.  s entrar e sair, ordenou, mas eu perdi a noo do tempo. 
 Ele?...  Eve pegou as algemas no bolso traseiro da cala e prendeu os pulsos de Mirium.  Ele quem? 
 Chas. Disse-me que este eu podia executar sozinha, mas tinha que ser rpida.  Soltou um suspiro.  Acho que no fui rpida o bastante. 
Apertando os lbios, Eve olhou para Louis Trivane. No, pensou ela. Quem no foi rpida o bastante fui eu. 
 Captou todo o dilogo, Peabody? 
 Sim, senhora. 
 V buscar Charles Forte para interrogatrio. Faa isso pessoalmente, e leve mais dois policiais como reforo. No chegue perto dele sozinha! 
 Afirmativo! A situao a est sob controle, tenente? 
 Sim...  Eve deu um passo para trs, deixando um rastro no sangue que continuava escorrendo em direo s suas botas.  Est tudo sob controle.
Eve tomou um banho de chuveiro e trocou de roupa antes de ir para a sala de interrogatrio. Os dez minutos que perdeu fazendo isso foram necessrios. Ela estava coberta pelo sangue de Louis Trivane no momento em que liberou o corpo para os legistas. Se algum no vestirio reparou na pequena e elegante flor estampada em sua ndega, no fez comentrios. 
O bochicho a respeito da terrvel cena daquele crime j se espalhara por toda a central. 
 Vou falar com Mirium antes  disse Eve a Feeney, enquanto avaliava a atraente mulher que a aguardava do outro lado do vidro espelhado por dentro. 
 Voc podia descansar um pouco, pelo menos, Dallas. Os caras do laboratrio esto comentando que a cena do crime foi uma das mais horrendas que eles j viram. 
 Voc sempre acha que j viu de tudo  murmurou ela.  Mas sempre existe algo ainda pior.  Expeliu o ar com fora.  Quero interrog-la agora. Quero encerrar este caso! 
 Certo. Quer trabalhar sozinha ou em dupla? 
 Sozinha. Ela vai falar... est ligada...  Balanou a cabea.  Talvez seja apenas louca, mas acho que est sob o efeito de alguma droga. Vou lev-la para passar pelo scanner qumico, e quero tambm um exame laboratorial completo. O promotor no gosta de confisses obtidas quando o assassino ainda est drogado. 
 Vou providenciar. 
 Obrigada, Feeney.  Eve passou por ele e entrou na sala. O rosto de Mirium havia sido limpo e j no mostrava vestgios de sangue. Usava um camisolo descartvel, bem largo, em tom bege-claro com o logotipo da polcia, mas mesmo assim parecia uma fada jovem e alegre. 
Eve colocou o gravador sobre a mesa, ligou-o e s ento se sentou. 
 Voc sabe que foi pega em flagrante, Mirium, ento no precisa ficar de enrolao. Voc matou Louis Trivane. 
 Sim. 
 O que est usando? 
 Usando? 
 No me parece Zeus em estado puro, voc est dcil demais. Concorda em fazer um exame para deteco de drogas em seu organismo? 
 No quero!  Fez um biquinho com os lbios; seus olhos pretos assumiram um ar aborrecido.  Talvez mais tarde eu mude de idia.  Apertando os lbios, beliscou o fino tecido do camisolo com os dedos, reclamando:  No posso usar uma das minhas roupas? Isso aqui espeta, alm de ofender a vista. 
 Sim, nesse momento essa tambm  a minha preocupao principal. Por que matou Louis Trivane? 
 Ele era um demnio. Foi Chas quem disse. 
 Esse Chas a quem est se referindo  Charles Forte? 
 Sim, mas ningum o chama de Charles. E apenas Chas... 
 Ento, Chas lhe disse que Louis Trivane era um demnio. Ele lhe pediu para assassin-lo? 
 Disse apenas que eu podia fazer isso. Das outras vezes, eu fiquei apenas olhando. Dessa vez, porm, consegui fazer tudo sozinha. Havia muito sangue...  Levantou a mo e olhou para ela com todo o cuidado. Agora, tudo acabou. 
 Que outras vezes foram essas, Mirium? 
 Ora, as outras vezes.  Encolheu os ombros.  O sangue purifica. 
 Voc participou dessas outras vezes? Testemunhou outros assassinatos? 
 Claro. A morte  apenas uma transio. Tive que fazer esta. Foi um ato muito poderoso. Arranquei o demnio para fora dele. Demnios existem, e ns os combatemos. 
 Assassinando as pessoas nas quais eles habitam. 
 Sim. Bem que ele me disse que voc era uma mulher esperta  sorriu Mirium, olhando para Eve com os olhos semicerrados.  S que jamais vai conseguir peg-lo. Ele est muito acima de sua lei. 
 Voltemos a Louis. Conte-me tudo. 
 Bem, eu tenho um amigo que  funcionrio do Luxury. Tudo o que precisei fazer foi trepar com ele, e essa parte at que foi legal. Gosto de trepar. Depois, peguei o carto mestre dele e o escondi no bolso. Voc pode entrar em qualquer lugar do prdio com o carto mestre. Ento, vesti uma das roupas de arrumadeira, para que ningum me incomodasse, e fui direto at a sute de Louis. Levei-lhe toalhas. Ele estava no banheiro. Acabara de vomitar, dava para sentir o cheiro. Ento eu o esfaqueei. Fui direto na garganta, como devia fazer. Nesse momento, acho que me deixei levar pela empolgao. 
Moveu os ombros e lanou um sorriso travesso para Eve, continuando: 
 Acho que  como enfiar a faca em um travesseiro, entende? E faz um barulho engraado... ento, tirei o demnio de dentro dele, e foi quando voc chegou. Acho que eu j havia acabado mesmo... 
 Sim, acho que sim. H quanto tempo conhece Chas? 
 Humm... tem uns dois anos. Gostamos de trepar no parque, em plena luz do dia, porque nunca sabemos se algum vai passar e nos pegar no flagra. 
 E o que Isis pensa a respeito disso? 
 Ah, ela no sabe...  Mirium girou os olhos.  No ia gostar nem um pouco... 
 E o que ela pensa a respeito dos assassinatos? 
As sobrancelhas de Mirium se uniram e seus olhos pareceram perder o foco por um momento. 
 Os assassinatos?  perguntou ela.  Isis tambm no sabe deles. Ou sabe?... No, ns no contaramos nada disso a ela. 
 Ento as coisas so apenas entre voc e Chs? 
 Entre mim e ele...  Pestanejou, pensativa, deixando em seguida os olhos sem expresso.  Acho que sim... so. 
 Contou sobre isso a mais algum que estava na conveno das bruxas? 
 Na conveno?  Bateu com os dedos sobre os lbios.  No, no, esse  o nosso segredo. Nosso pequeno segredo... 
 E quanto a Wineburg? 
 Quem? 
 No edifcio-garagem. O banqueiro. Lembra dele? 
 No, esse no fui eu, no...  Mordeu o lbio inferior e balanou a cabea.  Esse quem fez foi ele. Era para ele me trazer o corao, mas no trouxe. Disse que no houve tempo... 
 E Lobar? 
 Lobar, Lobar...  Seus dedos continuavam batendo nos lbios.  No, esse foi diferente. No foi? No consigo me lembrar direito... estou ficando com dor de cabea.  Sua voz se tornou petulante:  No quero mais conversar, agora. Estou cansada!  Cruzou os braos, abaixou a cabea sobre eles e fechou os olhos. 
Eve a observou por um momento. No havia por que forar a barra agora, decidiu. J tinha o suficiente, e fez sinal para o policial. 
Mirium reclamou baixinho quando Eve recolocou as algemas e ordenou: 
 Leve-a para o Setor de Psiquiatria. Pea  dra. Mira para fa-zer-lhe uma avaliao, se possvel. Solicite tambm um exame toxi-colgico. 
 Sim, senhora. 
Eve foi atrs deles at chegar  porta e apertou um boto de comunicao, ordenando: 
 Tragam o sr. Forte para a sala de interrogatrio C. 
Nesse momento, lhe ocorreu que ela bem que gostaria de abaixar a cabea em cima dos braos tambm. Em vez disso, virou-se para a rea de observao, no corredor. Peabody estava ao lado de Feeney. 
 Quero voc comigo agora, Peabody. O que achou dela, Feeney? 
 Est doidona!  Pegou o saquinho de amndoas aucaradas.  Se cometeu o crime porque  maluca ou porque estava sob o efeito de drogas, isso eu no sei... acho que  um pouco dos dois. 
 Tambm acho... como  que ela pde parecer to normalzi-nha na outra noite?  Passou as mos pelos cabelos, caindo na risada.  No acredito que tenha dito isso! Ela estava em p, nua, no meio do mato, e deixou Forte beij-la entre as pernas... em pblico!  Abaixou as mos, pressionando os olhos com elas por um instante e deixando-as cair, em seguida, ao lado do corpo.  O pai dele nunca usou parceiros... jamais desconfiaram de que ele tivesse usado. Sempre trabalhou sozinho. 
 Ento, ele tem um estilo diferente  disse Feeney.  Drogada ou no, a garota complicou a vida de Forte. 
 H algo errado nessa histria...  murmurou Peabody, e Eve se virou para ela com um olhar vagamente interessado. 
 O que h de errado, policial? 
Mesmo detectando o leve trao de sarcasmo no tom de Eve, Peabody levantou o queixo e afirmou: 
 Wiccanos no matam. 
 Pessoas matam  lembrou-lhe Eve , e nem todo mundo leva seus valores religiosos a srio. Tem comido carne vermelha ultimamente, Peabody? 
O rubor cobriu o rosto de Peabody, parecendo subir do seu colarinho impecvel. Os partidrios da Famlia Livre eram estritamente vegetarianos, e jamais consumiam produtos de origem animal. 
 Isso  diferente  argumentou Peabody. 
 Entrei em um aposento onde um assassinato acabara de ser cometido  disse Eve, de forma seca.  A mulher com o punhal na mo identificou Charles Forte como seu cmplice. Isso  um fato. No quero levar nada alm de fatos concretos para a sala de interrogatrio. Compreendeu? 
 Sim, senhora  Peabody enrijeceu os ombros , perfeitamente.  Mas permaneceu no lugar por um instante a mais, depois que Eve passou. 
 Ela teve uma manh muito pesada  disse Feeney, consolando Peabody.  Dei uma rpida olhada nas primeiras fotos da cena do crime. A coisa no podia ser pior. 
 Eu sei.  Ela balanou a cabea ao ver, atravs do vidro, Charles Forte sendo levado para a sala de interrogatrio.  Mas h algo de errado nessa histria.  Caminhou at a porta, entrando na sala de interrogatrio no momento em que Eve recitava para Charles Forte os seus direitos. 
 Eu no compreendo  dizia ele. 
 No compreende os seus direitos e obrigaes legais? 
 No, no, isso eu entendo. O que no entendo  o motivo de eu estar aqui.  Havia um ar de perplexidade e uma vaga sensao de desapontamento quando desviou o olhar na direo de Peabody. 
 Se a senhora precisava conversar comigo, era s marcar. Teria ido me encontrar com a senhora ou vindo at aqui de forma voluntria. No era necessrio enviar trs policiais fardados at a minha casa. 
 Pois eu julguei necessrio  afirmou Eve, sem outros comentrios.  Deseja aconselhamento jurdico a partir desse ponto, sr. Forte? 
 No.  Ele se remexeu na cadeira, um pouco agitado, tentando ignorar o fato de que estava dentro de um recinto policial. Como seu pai...  Simplesmente me diga o que deseja saber. Vou tentar ajud-la. 
 Fale-me de Louis Trivane. 
 Sinto muito...  Balanou a cabea.  No conheo ningum com esse nome. 
 E normalmente manda as suas empregadas assassinarem pessoas estranhas? 
 Como?!...  Seu rosto ficou branco e ele se colocou em p.  Do que est falando? 
 Sente-se!  ordenou Eve, com rispidez.  Louis Trivane foi assassinado, duas horas atrs, por Mirium Hopkins. 
 Mirium? Isso  ridculo.  impossvel! 
 Pois saiba que  bem possvel sim. Entrei no local do crime no momento exato em que ela estava esquartejando o fgado da vtima. 
 Deve haver algum engano.  Chas cambaleou e se jogou sobre a cadeira.  No pode ser! 
 Acho que o engano foi seu.  Eve se levantou, circulou pela sala e ento se inclinou por trs dos ombros dele.  O senhor deveria escolher suas armas com mais cuidado. Quando elas tm algum defeito, podem se virar contra quem as usa. 
 No sei o que quer dizer. Posso tomar um pouco dgua? No estou compreendendo nada... 
 Mirium me contou tudo, Chas!  Fez um sinal com o pole-gar para Peabody, pedindo um pouco dgua.  Ela me contou que vocs eram amantes, que voc no levou o corao de Wineburg para ela, como prometera, e que permitiu que ela executasse Trivane sozinha, porque o sangue purifica. 
 No!  Ele segurou o copo com gua usando as duas mos, mas mesmo assim deixou entornar um pouco pelas bordas.  No! 
 Seu pai tambm gostava de fatiar as pessoas. Ele lhe ensinou como fazia isso? Quantas outras armas defeituosas voc usou em sua carreira? Tambm as dispensou depois de t-las usado? Mantinha algum suvenir dos mortos? 
Eve continuava a atac-lo com palavras e ele continuava sentado, apenas sentado, balanando a cabea lentamente de um lado para outro. 
 Essa  a sua verso de guerra religiosa, Chas? Eliminar o inimigo? Remover os demnios das pessoas? Seu pai era um satanista com estilo prprio e fez da sua vida um inferno. Voc no conseguiu mat-lo naquela poca, e agora no tem condies de chegar at onde ele est. Mas h outros por a... eles so substitutos? Quando voc os mata, est matando a ele, cortando-os em pedaos porque foi o que seu pai fez com voc? 
 Deus, meu Deus.  Apertando os olhos com fora, comeou a balanar o corpo para a frente e para trs.   Senhor!... 
 Voc pode ajudar a si mesmo agora. Conte-me por qu. Conte-me como. Explique-me tudo, Chas. Talvez eu consiga aliviar um pouco a sua barra. Fale-me de Alice. Fale-me de Lobar. 
 No... no!  Ao levantar a cabea, seus olhos estavam cheios de lgrimas.  Eu no sou o meu pai! 
Eve nem piscou e no desviou o olhar do apelo desesperado que viu em seus olhos. Simplesmente deu um passo para trs, deixou-o soluar e perguntou: 
 Tem certeza de que no ?...






 



CAPTULO DEZENOVE





E
ve trabalhou com ele, sem parar, por uma hora, apertando-o de forma incessante, para depois recuar e mudar de ttica. Manteve as fotos das mortes sobre a mesa o tempo todo, expostas em leque como um baralho apavorante. 
Quantas mais, perguntou ela diversas vezes. Quantas imagens de mortos alm daquelas deveriam estar ali? 
Durante todo o interrogatrio, ele derramou lgrimas e negou, chorou muito e manteve silncio. 
Ao devolv-lo para a deteno, os olhos dele se mantiveram fixos nos dela, at ele ser levado embora. Foi o que viu no olhar de Peabody, porm, que atraiu a sua ateno, e Eve esperou at as duas ficarem a ss para perguntar: 
 Algum problema, policial? 
Acompanhar o interrogatrio foi como observar um lobo brincando e destruindo uma presa j ferida. Peabody respirou fundo e se preparou para responder. 
 Sim, senhora, h um problema. No gostei da linha que seguiu em sua tcnica de interrogatrio. 
 Ah, no gostou? 
 Pareceu-me extremamente pungente. Cruel! Usar o pai dele, o tempo inteiro, e obrig-lo a olhar para as fotos. 
O estmago de Eve ardia e seus nervos estavam  flor da pele, mas manteve a voz fria, controlada, e as mos firmes enquanto recolhia as fotos sobre a mesa. 
 Talvez eu devesse ter perguntado a ele educadamente se poderia ter a bondade de confessar, para que todos ns pudssemos voltar logo para o conforto de nossas casas. No sei por que no pensei em usar essa ttica... vou anotar sua sugesto para tentar fazer do seu jeito na prxima vez que estiver com um suspeito de crime na sala de interrogatrio. 
Peabody teve vontade de se encolher, mas conseguiu resistir e replicou: 
 Foi apenas uma opinio, tenente, especialmente se lembrarmos de que o suspeito no estava acompanhado por um advogado... 
 Mas eu li os direitos dele, no li, policial? 
 Sim, senhora, mas... 
 Ele no confirmou ter compreendido seus direitos e obrigaes? 
 Sim, senhora.  Peabody recuou um pouco, balanando a cabea para a frente, lentamente. 
 Consegue lembrar, policial Peabody, quantos interrogatrios voc j conduziu em casos de homicdio? 
 Senhora, eu... 
 Eu no consigo  atirou Eve, e seus olhos foram do glido ao quente em uma frao de segundo.  No me lembro de quantas vezes foram, mais sei que foram muitas! Quer dar mais uma olhada nessas fotos, policial? Quer ver mais imagens desse cara com as tripas para fora espalhadas sobre o piso do banheiro? Talvez isso ajude a endurecer um pouco o seu corao, porque se as minhas tcnicas de interrogatrio a deixam melindrada, Peabody, voc est na profisso errada.
Eve caminhou at a porta a passos largos, e ento girou o corpo para trs, vendo que Peabody continuava no lugar em que estava, rgida e atenta. 
 Minha expectativa  de que a pessoa que me serve de auxiliar me d tambm apoio total, no que fique me questionando pelo simples fato de ter uma simpatia especial por bruxas. Se no consegue segurar essa barra, policial Peabody, posso aprovar o seu pedido de transferncia assim que voc o trouxer para a minha avaliao. Compreendido? 
 Sim, senhora.  Peabody soltou um suspiro entrecortado, enquanto as botas de Eve iam fazendo um barulho ritmado pelo corredor afora.  Compreendido  repetiu para si mesma e fechou os olhos. 
 Voc foi rgida demais com ela  comentou Feeney, acompanhando os passos de Eve. 
 E voc tambm no comece!... 
 Isis acabou de chegar, voluntariamente  disse ele, levantando a mo em sinal de defesa.  Coloquei-a na sala de interrogatrio B. 
Virando a cabea de repente, Eve mudou de direo e abriu a porta da sala B com violncia. Isis parou de andar de um lado para outro e se virou para Eve, dizendo: 
 Como pde fazer isso? Como pde traze-lo at aqui? Ele tem pavor de lugares como este. 
 Charles Forte foi detido para interrogatrio relacionado com a morte por esfaqueamento de Louis Trivane, entre outros.  Contrastando com a voz alta e furiosa de Isis, a de Eve estava baixa e fria.  Ele ainda no foi oficialmente indiciado. 
 Indiciado?  Sua pele dourada empalideceu.  Voc no pode acreditar que Chas tenha alguma coisa a ver com um assassinato. Trivane? Ns no conhecemos nenhum Louis Trivane. 
 Voc conhece todas as pessoas com quem o sr. Forte mantm relaes de qualquer tipo, Isis?  Eve jogou a pasta sobre a mesa e manteve as mos sobre ela, como se para lembrar a si mesma do que havia ali dentro.  Voc sabe de tudo o que ele faz, pensa e planeja? 
 Somos to unidos quanto dois corpos, mentes e almas humanas podem ser. No existe maldade nele.  Sua raiva desapareceu por completo e sua voz estremeceu.  Deixe-me lev-lo para casa. Por favor... 
Eve enfrentou os olhos suplicantes de Isis fixamente, forando-se a no sentir a dor que eles transmitiam. 
 J que vocs so assim to unidos quanto  humanamente possvel, era do seu conhecimento que Forte decidiu se tornar tambm to ntimo, fisicamente, de Mirium? 
 Mirium?  Isis piscou uma vez, e ento quase riu diante da idia.  Isso  ridculo. 
 Ela me contou isso, pessoalmente. E sorriu ao me contar...  Lembrar daquilo, trazer a imagem de volta  cabea, ajudou a acabar com qualquer simpatia que Eve pudesse demonstrar.  Mirium sorriu para mim, Isis, sentada com as pernas abertas sobre o que restou do corpo de Louis Trivane, com o sangue dele espalhado em suas mos e em seu rosto, enquanto segurava um punhal. 
Ao sentir as pernas bambas, Isis esticou o brao, tentando alcanar s cegas as costas de uma cadeira para apoiar a mo. 
 Mirium matou uma pessoa? Isso  impossvel... 
 Pois eu achava que todas as coisas eram possveis em sua rea de atuao, Isis. Peguei Mirium em flagrante, pessoalmente, enquanto ela executava a sua pequena cerimnia mortal.  Eve sentiu uma comicho nos dedos, mas no abriu a pasta com as fotos. Sentia pena, por trs de tudo, pela mulher que amara e acreditara em seu amor.  Mirium cooperou muito conosco e me contou, alegremente, que Charles Forte permitiu que ela matasse Trivane por conta prpria. Ao contrrio dos outros crimes, dos quais participou apenas como observadora. 
Utilizando as mos para manter o equilbrio, Isis andou em volta da cadeira, sentindo-se tonta, e se largou sobre ela, afirmando: 
 Ela est mentindo.  Havia uma lana espetada em seu corao, e era como se a girassem para aumentar a dor.  Chas no tem nada a ver com isto. Como pude deixar de perceber esta faceta dela?  Fechando os olhos, Isis balanou-se para a frente e para trs, lentamente.  Como  que eu no notei? Ns a iniciamos na Arte, a aceitamos no seio do nosso grupo. Ns a tornamos uma das nossas. 
 Parece que voc no consegue ver tudo, no ?  Eve olhou para Isis com a cabea meio de lado.  Acho que deveria estar ainda mais preocupada com a sua percepo visual em relao a Charles Forte. 
 No.  Isis tornou a abrir os olhos. Havia dor neles, mas, por trs do sentimento, havia uma determinao de ao que Eve reconheceu.  No h ningum que eu veja e conhea com mais clareza do que Chas. Ela est mentindo. 
 Mirium ser devidamente testada. Nesse meio-tempo, talvez voc queira pensar novamente a respeito de ter se deixado usar como libi dele. Ele traiu a sua confiana  afirmou Eve, chegando mais perto de Isis.  A vtima podia ter sido voc. Mirium  mais jovem, provavelmente mais influencivel. Fico me perguntando por mais quanto tempo ele ia fingir que deixava voc conduzir o espetculo. 
 Como pode deixar de compreender o que existe entre mim e Chas, quando tem o mesmo em sua prpria vida, Eve? Voc acha que a palavra de uma mocinha perturbada consegue lanar dvidas sobre o homem que eu amo? Apenas isso j seria o bastante para faz-la duvidar de Roarke? 
 No  a minha vida pessoal que est na ponta da corda aqui  afirmou Eve, sem vacilar.   a sua! Se voc se preocupa tanto assim com ele, coopere comigo... essa  a nica maneira de impedi-lo de continuar com isso e ajud-lo. 
 Ajud-lo?  A boca de Isis se torceu, irnica.  Voc no quer ajud-lo. Quer que ele seja culpado... quer v-lo punido, por causa de sua origem. Por causa do pai dele. 
Eve olhou para a pasta que estava embaixo de sua mo, e para a fina capa que escondia as imagens terrveis de uma morte pavorosa. 
 Voc est errada, Isis  disse Eve, baixinho, quase como se falasse consigo mesma.  Eu queria provar que ele era inocente. Por causa do pai dele. 
Ento levantou o olhar, encarou Isis com determinao e informou: 
 O mandado de busca e apreenso j deve ter sido emitido. Vamos revirar a sua loja e o seu apartamento. Qualquer coisa que encontrarmos tambm poder ser usada contra voc. 
 No importa.  Isis se obrigou a ficar em p.  Vocs no vo achar nada l que possa ajud-los. 
 Voc tem o direito de permanecer no local durante a busca. 
 No. Ficarei aqui. Quero ver Chas. 
 Voc no  parente dele nem legalmente casada, e portanto... 
 Dallas  interrompeu Isis, baixinho , voc tem um corao. Por favor, oua a voz de seu corao e permita que eu me encontre com ele. 
Sim, Eve tinha um corao. Ele estava doendo ao ver o ar de splica nos olhos de uma mulher to forte. 
 Posso autorizar cinco minutos, atravs do vidro de segurana.  Ao escancarar a porta com fora, completou, entre dentes: 
 E diga-lhe para arranjar um advogado, pelo amor de Deus! 


No almoxarifado da Busca Espiritual e em uma sala de trabalho no apartamento que ficava sobre a loja, havia dezenas de garrafas, pacotes e caixas. Os recipientes estavam cheios de lquidos, ps, folhas e sementes. Eve encontrou registros organizados detalhando o contedo e a indicao de uso de cada um deles. 
Ordenou que tudo aquilo fosse levado para o laboratrio, a fim de ser analisado. 
Encontrou punhais e athames diversos, alguns com cabos entalhados e outros lisos, com lminas longas e curtas. Pediu a um dos tcnicos do laboratrio para pesquisar vestgios de sangue em tudo. 
Mantos cerimoniais e roupas comuns tambm foram igualmente examinados. 
Eve tentou filtrar as vozes altas  sua volta  os tcnicos jamais conseguiam trabalhar em silncio , e procurou realizar o seu trabalho com foco e eficincia. 
E ento, no fundo de um ba, debaixo de uma pilha de mantos cuidadosamente dobrados, perfumados por ramos de alecrim e raspas de cedro, ela encontrou um manto preto todo embolado e ensangentado. 
 Aqui!  Fez sinal para uma das jovens que trabalhava com os tcnicos.  Passe o aparelho nisto aqui. 
  uma boa amostra  comentou a profissional, mastigando chiclete e passando o bocal do aparelho que trazia preso ao ombro sobre o pano.  A maior parte do sangue est nas mangas.  Por trs dos culos protetores, os olhos da jovem pareciam ligeiramente entediados.  Sangue humano  confirmou ela.  Tipo A negativo. No d para dizer mais usando apenas um aparelho porttil como este aqui. 
 J  o bastante.  Eve colocou o manto em um saco, lacrou-o e etiquetou-o, para ser usado como prova.  O sangue de Wineburg era A negativo.  Olhou para Peabody ao entregar-lhe o saco lacrado.  Que falta de cuidado a dele, no? 
 Sim, senhora.  Cumprindo o seu dever, Peabody guardou o saco com todo o cuidado no kit de provas.   o que parece... 
 Lobar era O positivo.  Foi at outro ba, levantando a tampa curva.  Continue a procurar. 
O crepsculo j se aproximava com sua luz difusa e brisa fresca quando elas entraram de volta no carro. Como a tenso entre Eve e Peabody continuava grande, a tenente no se deu ao trabalho de pedir e acionou pessoalmente o tele-link do veculo. 
 Aqui  a tenente Dallas. Gostaria de falar com a dra. Mira. 
 A dra. Mira est atendendo um paciente  disse a recepcionista, de forma educada.  Ficarei feliz em registrar sua mensagem, se desejar. 
 Sabe se ela j fez testes com Mirium Hopkins? 
 Um momento, por favor, enquanto verifico os registros.  A recepcionista desviou o olhar para a tela ao lado, e ento tornou a se virar de frente para Eve.  Esta sesso foi remarcada para amanh de manh, s oito e trinta. 
 Remarcada? Por qu? 
 O registro indica que a paciente reclamou de terrveis dores de cabea, e, depois de ser examinada pelo mdico de planto, foi medicada. 
 E quem era o mdico de planto?  perguntou Eve, j rangendo os dentes de irritao. 
 Dr. Arthur Simon. 
 S podia ser...  Com mau humor, Eve ultrapassou um gigantesco nibus lotado que se arrastava  frente dela.  Esse cara  capaz de lhe receitar um tranqilizante duplo s por causa de uma cutcula mal cortada pela manicure. 
 Sinto muito, tenente.  A recepcionista fez cara de triste, tentando ser solidria com Eve.  A paciente j havia sido medicada antes de os testes de avaliao serem realizados. A dra. Mira no pode atend-la at amanh de manh. 
 timo! Fabuloso! Pea para ela entrar em contato comigo assim que terminar a avaliao.  Desligou, resmungando:  Que mdico filho-da-me! Vou at l dar uma olhada nela eu mesma. Leve o material que recolhemos para o laboratrio, Peabody, e exija urgncia, mesmo que no adiante nada. Depois disso, est dispensada por hoje. 
 A senhora vai tornar a interrogar o sr. Forte ainda hoje? 
 Exato. 
 Senhora, peo permisso para estar presente durante o interrogatrio. 
 Permisso negada  afirmou Eve, secamente, enquanto estacionava na garagem da Central de Polcia.  J disse que voc est dispensada por hoje!  Saiu do carro, bateu a porta e foi caminhando para longe da ajudante. 


J era meia-noite e sua cabea tambm doa terrivelmente. A casa estava calma quando ela entrou e se arrastou lentamente escadaria acima. No ficou surpresa ao ver Roarke ainda acordado e falando com algum pelo tele-link do quarto. Olhou para o monitor ao passar e reconheceu o rosto jovem e empolgado de um dos engenheiros designados para a construo do Olympus Resort. 
Isso a fez se lembrar dos ltimos dias de sua lua-de-mel, que passara no resort ainda no inaugurado. Eve tambm enfrentara a morte, l.? Grande novidade, pensou com amargor, enquanto se debruava sobre a pia do banheiro e jogava um pouco de gua fria no rosto. Ela jamais conseguia escapar daquilo mesmo. 
Enxugou o rosto e foi andando at a cama, para se sentar e tirar as botas. Assim que elas caram no cho, o esforo de continuar a se despir lhe pareceu por demais intenso. Foi se arrastando, at colocar o corpo todo atravessado na cama, de bruos. 
Roarke ouvia o engenheiro; olhava para ele com um olho enquanto observava Eve com outro. Reconhecia os sinais, os olhos cheios de olheiras, a pele plida, os movimentos lentos e deliberados. Ela trabalhara novamente at a exausto, um hbito que o deixava fascinado e tambm frustrado. 
 Amanh eu torno a ligar para saber a respeito disso  anunciou Roarke, encerrando a ligao e desligando em seguida.  J vi que teve um dia dos bravos, tenente. 
Ela nem se mexeu quando ele se sentou sobre ela com uma perna de cada lado e comeou a massagear-lhe a nuca e os ombros. 
 Devo ter passado por dias piores  murmurou.  S que no consigo me lembrar de quando foi... 
 O assassinato de Louis Trivane j apareceu em todos os noticirios. 
 Malditos urubus. 
Ele desafivelou o coldre, puxou-o para tir-lo debaixo dela e o colocou de lado. 
 Quando um advogado proeminente  retalhado em um clube privativo de alta classe, o fato sempre acaba virando notcia.  De forma competente, apertou os polegares sobre a coluna de Eve, subindo devagar.  Nadine j ligou um monte de vezes. 
 Sim, ligou para a central tambm. No tenho tempo para ela. 
 Humm...  Ele puxou a blusa de Eve para fora das calas e passou a usar a base da palma da mo para fazer massagem.  Voc realmente entrou no momento do crime ou isso foi acrescentado pela mdia para tornar a histria mais interessante? 
 No, eu realmente cheguei na hora. Se aquele andride idiota no tivesse me atrasado, eu...  Parou de falar e balanou a cabea.  Na verdade, cheguei tarde demais. A assassina j abrira a barriga dele. Ainda estava trabalhando em suas vsceras, at parecia uma aluna aplicada executando um projeto para a aula de cincias. Ela acusou Charles Forte. 
 Sim, isso tambm foi noticiado. 
 Claro que foi  disse ela, soltando um suspiro.  No d para evitar o vazamento de informaes. 
 Voc est com ele sob custdia? 
 Sim, estamos fazendo interrogatrios... eu estou!... Ele nega tudo. Encontrei provas de um dos crimes em seu apartamento, mas ele continua a negar tudo. 
Ele nega, pensou ela, e parece chocado, deslocado, aterrorizado. 
 Ai, droga!  Virou o rosto, apertando-o contra a colcha.  Que droga! 
 Vamos l...  Ele beijou o alto de sua cabea de leve.  Vamos trocar de roupa e ir para a cama.
 No me trate feito criana! 
 Tente me impedir. 
Ela comeou a se mexer para o lado, mas ento se moveu com rapidez, sem nem mesmo perceber as prprias carncias e intenes. De repente, j estava com os braos em torno dele e o rosto enterrado em seu ombro, com os olhos fechados e bem apertados, como se desejasse afastar da mente imagens indesejveis. 
 Voc est sempre aqui para me consolar, mesmo quando no est... 
 No estamos mais sozinhos. Nenhum de ns.  Sentindo que ela precisava daquilo, levantou-a, colocando-a no colo, e pediu:  Vamos l, conte-me tudo. Na sua cabea, h mais do que um crime e algumas provas encontradas. 
 No sou uma pessoa boa... A frase saiu antes que ela conseguisse impedir.  Sou uma boa policial, mas no sou um bom ser humano. No posso me dar ao luxo de ser. 
 Isso no faz sentido, Eve. 
 Faz sim... e  verdade. Voc  que no quer enxergar essa realidade.  Eve se afastou para poder olhar de frente para ele.  Quando a gente ama algum, consegue relevar os pequenos defeitos, mas se recusa a ver os grandes. Ningum gosta de admitir que a pessoa que est a seu lado seja capaz de fazer coisas horrveis, ento finge que no v... 
 E o que voc  capaz de fazer e eu sou to cego a ponto de no ver?... 
 Arrasei com Forte, fiz um pur dele. No fisicamente  continuou ela, tirando os cabelos da frente do rosto.  Era to fcil fazer isso, to prtico e limpo. Eu o esquartejei emocionalmente, queria que fosse assim! Queria que ele me contasse tudo o que fizera, para poder acabar com o assunto e encerrar o caso. E quando Peabody teve peito bastante para questionar minhas tcnicas de interrogatrio, eu a trucidei. Depois, dispensei-a para poder voltar l sozinha e continuar a atac-lo. 
Roarke ficou calado por um momento, e ento se levantou para puxar as cobertas debaixo de Eve, colocando-as ao p da cama. 
 Deixe-me recapitular essa histria  disse ele.  Voc deu de cara com uma mutilao no momento em que ela estava sendo executada, levou a assassina presa, uma assassina que implicou o nome de Charles Forte nesse e em outros assassinatos. Isso tudo poucos dias depois de termos encontrado outro corpo mutilado junto ao porto de nossa casa. 
 As coisas no podem ser levadas para o terreno pessoal. 
 Desculpe-me, tenente, mas isso  conversa fiada! Agora, continuando...  disse ele, dando a volta na cama para desabotoar a sua blusa.  Voc leva Charles Forte para interrogatrio, um homem que suspeita, por bons motivos, ser o responsvel por vrias mortes violentas. Joga pesado, algo que sua ajudante, a quem voc est treinando, desaprova; uma ajudante que, embora altamente competente, tem muito menos experincia nesses assuntos; uma policial novata, que no passou pela experincia de entrar em um aposento e dar de cara com uma mulher que est alegremente fazendo picadinho de um homem. Como v, as notcias foram muito especficas  disse-lhe ele. 
 Em seguida  acrescentou, antes que Eve tivesse chance de falar  voc repreende essa mesma auxiliar por ela ter questionado o seu procedimento e a dispensa para poder retomar o interrogatrio. Essa  a histria toda? 
Franzindo o cenho, ela observou o alto da cabea de Roarke quando ele se abaixou na frente dela, puxando-lhe as calas, e argumentou: 
 Voc est colocando as coisas em preto e branco, e elas no so assim. 
 Nunca so.  Ele colocou as pernas dela na cama e a empurrou para baixo com carinho.  Vou lhe dizer em que tudo o que me contou a transforma, tenente. Isso a faz uma boa policial, uma profissional dedicada... e humana.  Ele se despiu e se enfiou na cama, ao lado dela.  Portanto, j que  assim, talvez seja melhor eu me divorciar de voc e tocar minha vida em frente.  Puxou-a para perto dele, at sentir que a sua cabea se aninhara em seus ombros.  Obviamente, at agora eu tenho estado cego para as suas terrveis falhas de carter. 
 Do jeito que voc fala, me faz sentir uma idiota. 
 timo, era o que eu pretendia.  Beijou-a na testa e ordenou s luzes que diminussem.  Agora, durma. 
Ela virou a cabea um pouco de lado para poder sentir o cheiro da pele dele, enquanto deslizava para o mundo dos sonhos. 
 Acho que no vou deixar voc se divorciar de mim no...  disse ela, com um suspiro. 
 No? 
 H-h...  Balanou a cabea.  No quero abrir mo do caf, de jeito nenhum. 


Eve entrou em sua sala s oito da manh. Antes disso, passara no laboratrio para tentar apressar os tcnicos, e isso, em parte, a havia deixado mais animada. Seu tele-link estava com a luz de mensagens piscando, conforme notou assim que abriu a porta. Peabody estava em p, atenta, ao lado de sua mesa. 
 Chegou cedo, Peabody?  Eve foi at o tele-link, digitou uma senha e esperou as mensagens serem apresentadas.  Voc s vai entrar em horrio de servio s oito e meia. 
 Queria falar com a senhora, tenente, antes de comear meu turno. 
 Certo.  Eve deixou as mensagens em modo de espera e se virou para Peabody, dando-lhe toda a ateno e comentando:  Voc est com uma aparncia horrvel. 
Peabody manteve os olhos firmes. Sabia bem como estava a sua aparncia. No conseguira comer nada nem dormir. Sintomas que ela sabia serem embaraosamente semelhantes aos que algum sente ao terminar um romance. S que aquilo, conforme percebera durante a longa noite, era pior do que qualquer rompimento com um homem. 
 Gostaria de me desculpar formalmente junto  senhora, tenente, pelas afirmaes que fiz aps o interrogatrio do sr. Forte. Fui insubordinada e procedi de forma incorreta ao questionar seus mtodos. Espero que meu erro de julgamento nesse assunto no a influencie na deciso de me afastar desse caso, ou dessa diviso. 
Eve sentou-se na cadeira que rangeu, pedindo por leo. 
 Isso  tudo, policial Peabody? 
 Sim, senhora. Bem... gostaria de dizer tambm que... 
 Se tem mais alguma coisa a dizer, tire o cabo de vassoura que espetou na bunda e desmonte essa pose de soldadinho de chumbo. Voc est em horrio de folga e nossa conversa no  oficial. 
Os ombros de Peabody pareceram relaxar um pouco, mais por defesa do que por despreocupao. 
 Desculpe, tenente. Ver o sr. Forte desmontar daquele jeito me afetou muito. No consegui me manter emocionalmente afastada da situao para ter uma viso objetiva. Eu no acredito, isto , no quero acreditar  corrigiu-se  que seja ele o responsvel. Isso prejudicou a minha avaliao profissional. 
 Objetividade  essencial em nosso trabalho. Tambm , mais freqentemente do que gostaramos de admitir, algo impossvel. Eu tambm no fui totalmente objetiva, e devido a isso reagi de forma exagerada aos seus comentrios, Peabody. Peo desculpas por isso. 
Surpresa e alvio a inundaram. Peabody sentiu no mesmo instante que j estava mais fcil respirar e engolir, livre da preocupao e do medo. 
 A senhora vai me manter como sua auxiliar? 
 Estou investindo em voc, Peabody...  Deixando as coisas nesse p, Eve tornou a se virar para o tele-link. 
Atrs de Eve, Peabody fechou os olhos com fora e tentou manter a compostura. Respirou fundo, engoliu em seco e exultou por conseguir novamente fazer as duas coisas. 
 Ento, isso quer dizer que fizemos as pazes, Dallas? 
 Depende... por que razo estou sem caf at agora?  Eve olhou de lado para Peabody e apertou o teclado para ver as mensagens. A primeira delas mal havia aparecido na tela quando Eve percebeu ao seu lado uma xcara fumegante que Peabody acabara de lhe servir. 
Qual , Dallas? Vamos l, me d um tempo!... Pode me ligar a qualquer hora do dia ou da noite, mas responda! S quero alguns detalhes. 
 Isso no vai acontecer, Nadine  murmurou Eve, passando pelas trs mensagens seguintes, tambm deixadas pela reprter, em um nvel crescente de desespero. 
Em seguida, havia um comunicado do mdico-legista com o relatrio da autpsia. Eve copiou o arquivo e mandou o computador imprimi-lo. Por fim, havia uma transmisso do laboratrio, confirmando que o sangue encontrado no manto era de Wineburg. 
 Eu no consigo enxergar  disse Peabody, baixinho.  Por que ser que eu no quero enxergar? As provas esto todas a, na minha cara.  Levantou os ombros e tornou a abaix-los.  Esto bem na minha cara! 
 Vamos indici-lo oficialmente e fich-lo.  Eve esfregou o dedo para cima e para baixo da testa.  Homicdio em primeiro grau no caso de Wineburg. Vamos segurar a acusao de conspirao com o intuito de cometer homicdio no caso de Trivane, at Mira terminar a avaliao da acusada. Traga-o novamente para a sala de interrogatrio, Peabody. Vamos ver de quantos crimes mais podemos acus-lo. 
 Por que Alice?  perguntou Peabody.  Por que Frank? 
 Forte no cometeu estes. No foi ele... 
 Casos independentes? Voc ainda acha que Selina  a responsvel por essas duas mortes? 
 Sei que ela . Mas ainda estamos longe de provar. 


Eve passou a manh revendo relatrios dos outros e preparando o dela. Ao meio-dia, ao se encontrar mais uma vez com Chas na sala de interrogatrio, estava disposta a tentar uma ttica diferente. 
Avaliou a representante que ele escolhera, uma mulher jovem, com olhos tristes, que Eve imaginou que mal tinha idade para prestar exame da Ordem dos Advogados. Nem se deu ao trabalho de suspirar ao reconhec-la da cerimnia de iniciao  qual assistira. 
Uma advogada que tambm  bruxa, refletiu. E se perguntou se isso poderia ser considerado uma redundncia. 
 Essa  a representante que escolheu, sr. Forte? 
 Sim.  Seu rosto exibia um tom doentio de cinza, e suas olheiras haviam aumentado.  Leila concordou em me ajudar. 
 Muito bem... o senhor foi acusado de assassinato, sr. Forte. 
 Acabei de solicitar uma audincia e entrei com pedido de liberdade sob fiana  afirmou Leila, e passou a papelada para Eve analisar.  Est marcada para hoje, s duas da tarde. 
 Vocs no vo conseguir fiana.  Eve entregou os papis a Peabody.  E tambm no vo atrasar em nada o processo. 
 Eu nem mesmo conhecia o homem que foi assassinado  comeou Chas.  Jamais o vi antes daquela noite, no velrio. E estava com a senhora. 
 O que o coloca na cena do crime e na hora do crime, e lhe d a oportunidade. Quanto ao motivo...?  Eve se recostou.  O senhor estava no local, sabia que ele estava quase falando, prestes a entregar os pontos. O sangue dele no foi o primeiro a ser derramado, foi, sr. Forte? 
 No sei de nada a respeito disso.  Sua voz estremeceu. Ele respirou fundo e colocou a mo sobre a de Leila, como quem precisa de apoio. Seus dedos se entrelaaram e sua voz saiu mais forte:  Jamais fiz mal algum a outro ser humano em toda a minha vida. Isso vai contra tudo em que acredito, contra tudo o que eu me tornei. J lhe disse. No escondi nada da senhora, e achava que seria compreendido. 
 O senhor possui um manto preto? Ele  feito de seda natural, envolve todo o corpo e vai at o cho. 
 Possuo muitos mantos. Nenhum preto. 
 Ento, o senhor no reconhece isto?  Estendeu o brao, esperando Peabody colocar o saco com a vestimenta em sua mo. 
 No  meu.  Ele pareceu relaxar um pouco.  Este objeto no me pertence. 
 No? No entanto, foi encontrado em um ba no apartamento que o senhor divide com Isis. Foi escondido de modo descuidado, talvez s pressas, sob uma pilha de outros mantos. H sangue nesta vestimenta, sr. Forte. Sangue do falecido Wineburg. 
 No!  Ele recuou.  Isso no  possvel. 
 Pois  um fato. Sua advogada pode analisar o teste executado pelo laboratrio, se desejar. Ser que Isis reconheceria este manto? Talvez v-lo sirva para... refrescar sua memria. 
 Isis no tem nada a ver com isto. No tem nada a ver com esse assunto.  Uma onda de pnico pareceu atac-lo.  A senhora no pode suspeitar de que ela seja... 
 Seja o qu?  Eve jogou a cabea para o lado.  Uma cmplice? Ela vive com o senhor, trabalha com o senhor e dorme com o senhor. Mesmo que esteja apenas protegendo-o, isto j a torna cmplice. 
 Ela no pode ser arrastada para esse lodo... no merece passar por isso. Deixe-a em paz!  Ele se inclinou para a frente, colocando as mos trmulas sobre a mesa.  Deixe-a em paz... prometa-me isso e eu lhe conto seja o que for que quiser saber. 
 Chas...  Leila se levantou e colocou a mo com firmeza sobre o seu ombro.  No diga mais nada! Meu cliente no tem mais nada a declarar no momento, tenente. Preciso conversar com ele e exijo privacidade nesse momento para fazer isso. 
Eve olhou bem para ela. A mulher j no parecia jovem e triste, mas fria e determinada. 
 No adianta propor um acordo, porque ns no vamos aceitar, doutora, no nesse caso  avisou Eve, levantando-se e fazendo um sinal para Peabody.  O que posso lhe adiantar  que uma confisso completa talvez o ajude a conseguir internao em uma clnica psiquitrica em vez de ir para a priso de segurana mxima. Pensem a respeito... 
Eve xingou baixinho assim que se viu fora da sala, reclamando: 
 Essa advogada vai colocar uma mordaa nele. Ele vai fazer tudo o que ela mandar, porque est apavorado demais para agir diferente.  Foi caminhando pelo corredor, mas acabou voltando.  Vou procurar Mira. Ela j deve ter acabado a avaliao. Entre em contato com a promotoria. Precisamos de algum do departamento deles aqui. Talvez consigamos descobrir mais coisas se um promotor conversar com a advogada de Forte. 
 A ameaa a Isis o deixou abalado.  Peabody olhou em direo  porta, enquanto elas se afastavam dali.  Ele a ama de verdade. 
 O amor existe sob vrias formas, no ? 
 No consigo entender o porqu de ele ter feito sexo com Mirium. 
 O sexo tambm existe sob vrias formas. Manipulao pura e simples  uma delas  disse e entrou em sua sala, a fim de ligar para Mira.






 



CAPTULO VINTE





P
aciente com desiluso, sofrendo de sociopatia, com uma personalidade facilmente influencivel e facilidade para adquirir vcios. Eve jogou o relatrio de Mira para o lado. No precisava de uma psiquiatra para lhe confirmar que Mirium era uma luntica de carteirinha, sem conscincia alguma. Ela j descobrira isso por si mesma. 
Tambm no precisava que lhe dissessem que a jovem demonstrava tendncia para as cincias ocultas, baixo quociente de inteligncia e possibilidade de se tornar violenta. 
A recomendao final de Mira, para que a paciente se submetesse a testes mais minuciosos e recebesse tratamento como mentalmente incapaz, podia ser sensata, mas no mudava em nada os fatos. 
Mirium retalhara um homem a sangue-frio, e provavelmente iria cumprir a sua sentena nos sossegados quartos de uma instituio para doentes mentais. 
O detector de mentiras tambm no servira para muita coisa. Indicou que a acusada estava dizendo a verdade  a verdade como ela a via. Apareceram falhas, pontos em branco, lapsos de memria e idias confusas. 
Tudo isso tambm se justificava, notou Eve, olhando para os testes de ingesto de drogas, que provava que havia meia dzia de substncias ilegais passeando pela sua corrente sangnea. 
 Tenente?  Peabody entrou e esperou at que Eve levantasse a cabea.  Schultz, da promotoria, acaba de me colocar a par da situao. 
 E como esto as coisas? 
 A advogada est irredutvel. Quer solicitar um teste com o detector de mentiras, mas Forte continua recusando. Schultz acha que ela est querendo atrasar o processo, diz que ela quer quarenta e oito horas para estudar todos os relatrios e provas. Vamos manter Forte preso, j que a fiana foi negada, mas ela continua insistindo. Schultz acha que Forte est pronto para entregar o ouro, mas a advogada o est mantendo sob rdeas curtas. 
 Foi Schultz quem lhe passou todas essas informaes? 
 Sim... bem, acho que ele est tentando ser gentil. Divorciou-se h pouco tempo. 
 Ah...  Eve levantou uma sobrancelha  ...e aprecia mulheres que usam farda. 
 Bem, nesse momento em especial, acho que ele aprecia qualquer ser humano que tenha seios. Enfim, o fato  que Schultz acha que no vamos conseguir mais nada por hoje. A advogada exigiu os direitos que seu cliente tem para um pequeno intervalo de tempo, antes de o processo seguir em frente. Schultz concordou em conversar mais sobre esse assunto amanh de manh e foi embora. 
 Certo. Talvez seja mesmo uma boa idia dar-lhes um pouco mais de tempo, para a poeira assentar. Vamos at a casa de Isis. Talvez consigamos sacudi-la um pouco. 
 Voc amarrou bem o caso por todos os lados  comentou Peabody, acompanhando o passo de Eve.  Talvez agora consiga relaxar um pouco na festa de logo mais. 
 Festa?  Eve parou na mesma hora.  A festa de Mavis?  hoje  noite? Ai, que inferno!
 Reao tpica de uma mulher louca por festas...  comentou Peabody, secamente.  Por mim, mal posso esperar. Os ltimos dias tm sido podres... 
 Essa histria de Halloween  para crianas, coisa inventada para os filhos fazerem chantagem com os pais, a fim de se entupirem de balas e lixo. Um monte de homens e mulheres adultos andando de um lado para outro fantasiados...  embaraoso. 
 Na verdade  uma tradio antiga e muito reverenciada, que tem razes nas religies ligadas  terra. 
 No comece!...  avisou Eve, enquanto elas se dirigiam  garagem, lanando um olhar desconfiado para Peabody.  Voc no vai realmente vestir uma fantasia, vai? 
 De que outra forma posso garantir a minha poro de doces?  disse Peabody tirando um fiapo da parte da frente de seu uniforme. 


A loja estava s escuras, e o apartamento tambm. Ningum atendeu s batidas na porta. Eve avaliou a situao e olhou o relgio. 
 Vou ficar aqui de vigia por umas duas horas. Quero falar com ela ainda hoje. 
Provavelmente ela est na cerimnia do sab. 
 No creio que ela esteja com astral muito bom para danar pelada, devido s circunstncias. Vou ficar na rea. Pode arrumar conduo daqui e ir embora, se voc quiser. 
 Tambm posso ficar. 
 No  necessrio, Se ela no aparecer em uma ou duas horas, vou direto para a festa de Mavis. 
 Vestida assim?  Peabody olhou para Eve de cima a baixo, analisando seus jeans desbotados, as botas muito gastas e o casaco surrado.  No pretende vestir algo mais... festivo? 
 No. A gente se v l.  Eve entrou no carro e abaixou o vidro da janela.  E voc, que roupa vai usar? 
  segredo  afirmou Peabody com um sorriso, e foi embora pensando em ir para casa de bonde eltrico. 
 Embaraoso isso...  decidiu Eve, recostando-se no banco e ligando o tele-link. O sistema a conectou automaticamente com Roarke, que estava em seu escritrio no centro. 
 Por pouco voc no me pega mais aqui  disse-lhe ele, reparando no pedao do volante que aparecia em seu monitor.  Obviamente voc no est em casa se aprontando para as festividades desta noite. 
 Obviamente no... vou ficar mais umas duas horas por aqui, e depois me encontro com voc no apartamento de Mavis. Podemos sair de mansinho da festa, mais cedo? 
 D para ver que voc est ansiosa por uma noite empolgante. 
 Halloween...  Olhou para um fantasma, um coelho rosa com dois metros de altura e um transexual mutante que naquele momento atravessavam a rua na frente do seu carro.  No consigo entrar no clima. 
 Querida Eve... para algumas pessoas, esta noite  apenas um pretexto para se comportarem de forma tola. Para outras, porm,  um dia muito importante e sagrado. Samhain, o incio do inverno celta... o incio do ano, a transmutao, com tudo o que  velho morrendo e o novo ainda por nascer. Nesta noite, o vu entre os dois mundos  muito tnue. 
 Puxa...  Fingiu um calafrio.  Agora fiquei assustada! 
 Esta noite, ns vamos usar a data como desculpa para sermos tolos. Quer ficar bbada e se entregar a uma sesso de sexo selvagem? 
 Sim  respondeu ela, sorrindo de leve.  Isso me parece muito bom... 
 Podamos comear agora. Que tal um pouco de sexo via tele-link? 
 Isso seria ilegal, pois esta aqui  uma linha exclusiva da polcia. Alm do mais, nunca se sabe quando o setor de emergncias vai entrar na ligao, comunicando algo urgente. 
 Ento pode deixar que eu no vou descrever o quanto queria passar as mos em voc... ou passear com a minha boca sobre o seu corpo. Nem vou falar no quanto me excita sentir voc por baixo de mim, nem na emoo que sinto quando estou dentro de voc, que arqueia as costas para trs tentando respirar, ofegante, e puxa meus cabelos com as mos. 
 No, nem mencione nada disso...  disse-lhe ela, sentindo os msculos das coxas se retesarem e depois relaxarem.  Vou estar com voc em menos de duas horas. Ns... ahn... podemos realmente ir mais cedo para casa. Ento voc vai poder me falar de todas essas coisas. 
 Eve... 
 Sim? 
 Eu adoro voc!  Com um sorriso satisfeito e carinhoso, ele desligou. 
 Quando ser que vou me acostumar com isso?  murmurou ela, soltando um suspiro longo, bem devagar. 
O sexo mexia muito com a sua cabea. Eve jamais encarara o ato como alguma coisa alm de uma liberao fsica necessria e ligeiramente agradvel... at conhecer Roarke. Ele conseguia deix-la com a boca seca e carente s com o olhar. Pior ainda era a fora que exercia em seu corao, uma garra firme e possessiva que s vezes era reconfortante e outras vezes aterradora. 
Ela jamais compreenderia o nvel de exigncia do amor. 
Franzindo o cenho, olhou para trs, para o apartamento que ficava do outro lado da rua. No fora isso o que ela vira ali? Poder e amor? Isis era uma mulher forte e poderosa. Ser que o amor a deixara completamente cega? 
No era impossvel, refletiu Eve. Mas era... desapontador, admitiu. Por experincia prpria, ela sabia que Roarke j passara muito tempo de sua vida quase ultrapassando os limites da lei. Ora, reconheceu, ele na verdade arrombara as portas da lei, diversas vezes. 
Sabia que ele havia roubado, sonegado e trapaceado. Sabia que ele j matara... o menino que sofrer abusos nas ruas cruis de Dublin fizera o que fora necessrio para sobreviver e, a partir da, passara a fazer o que bem queria para lucrar. Ela no podia culp-lo por nenhuma das duas coisas. 
No entanto, se ele aproveitasse hoje em dia o enorme poder que tinha nas mos e o usasse para matar, o que ela faria? Deixaria de am-lo? No estava certa, mas tinha certeza de que reconheceria seus sentimentos. E o cdigo sob o qual vivera at ali no permitiria que ela fizesse vista grossa para um assassinato. 
Talvez o cdigo pelo qual Isis pautava sua vida no fosse to rgido. 
No entanto, sentada ali no escuro, sentindo os dentinhos afiados do vento mordiscando as frestas da janela do carro, Eve reparou que no conseguia equilibrar os fatos. 
Forte praticamente confessara tudo, lembrava a si mesma. No momento em que se viu confrontado com o manto, com a prova palpvel, dera sinais de que ia se render s evidncias. 
Na verdade, isso no era inteiramente verdadeiro, pensou. Foi quando ela trouxe Isis para o cenrio que ele mudara de direo. 
Protegendo-a. Servindo de escudo para ela. Sacrificando-se por ela. 
Com uma idia nova danando em sua cabea, saiu do carro e atravessou a rua. 
Um grande nmero de pessoas circulava pela calada, muitas delas usando fantasias. Ao chegar ao outro lado, viu passar um bando de adolescentes ruidosos que emitiam gritos capazes de acordar os mortos. Ningum prestou ateno a uma mulher sozinha, usando um casaco de couro, que subia as escadas para chegar a um apartamento s escuras. 
Parou no alto da escada por um momento, olhando a rua em volta e os edifcios prximos. Aquela era uma regio em que as pessoas cuidavam apenas de sua prpria vida, decidiu. Alm do mais, talvez os vizinhos j estivessem acostumados a ver pessoas, e pessoas muito fora do comum, subindo aquelas escadas e entrando no apartamento. 
Para testar sua teoria, Eve tentou abrir a porta. Encontrando-a fechada, simplesmente pegou no fundo do bolso um carto mestre. Conseguiu abrir a porta em questo de segundos, mas esperou um pouco antes de entrar, preparada para ouvir o disparo de um possvel alarme. 
Havia, porm, apenas silncio l dentro. 
No havia sistema de segurana algum, avaliou, resistindo  tentao de entrar no domiclio. Uma pessoa comum no teria acesso a um carto mestre, mas havia outras formas de abrir fechaduras no protegidas por sistemas de segurana. 
E o apartamento no estivera vazio na vspera? Com Forte e Isis na Central de Polcia, no seria fcil algum entrar e plantar um manto sujo de sangue em um local bem bvio? 
Eve tornou a trancar a porta e ficou ali em p, argumentando sozinha. Mirium o acusara. Dissera o nome de Forte ao se ajoelhar no cho, com sangue ainda escorrendo pelas mos. 
Tinha deluses, era sociopata e facilmente influencivel. 
Droga. Eve tornou a descer as escadas, caminhando de volta para o carro. A prova era essa, afinal, no  mesmo? Havia tambm o motivo e a oportunidade. Tudo conforme ensinava o manual. Ela j estava at com o alegado cmplice em custdia. 
Um cmplice com o qual Mirium andava dormindo escondido, transando com ele em pleno Central Park e usando sua influncia para lev-la  conveno, bem debaixo do nariz de sua rival. 
Tudo combinava, disse a si mesma... e era esse o problema. Todas as peas se encaixavam to bem em seus lugares que at parecia que algum preparara as arestas para isso. Mas o amor precisava ser deixado de fora da equao... um amor altrusta, devotado e incondicional. Acrescentando esse elemento, as peas comeavam a raspar nas bordas e j no se encaixavam mais. 
Se havia uma possibilidade mnima que fosse de tudo aquilo ser uma grande armao e Eve estar sendo usada para fazer as contas baterem no final, ela ia descobrir, ah, mas com certeza!... Pensou em ligar para Peabody, e chegou a esticar o brao pela janela do carro para alcanar o tele-link, quando ouviu o grito. Na mesma hora, pulou com a arma na mo e avistou uma figura com manto preto arrastando uma mulher para dentro das sombras de um beco. 
 Polcia!  Ela correu para salvar a mulher, gritando:  Para trs! 
Ele fez mais do que isso... fugiu. Quando Eve alcanou a mulher, ela estava de bruos, com o rosto no cho e gemendo muito. Colocando a arma no coldre, ela se agachou, perguntando: 
 Ele a machucou muito?  Ao virar a mulher de barriga para cima, viu o brilho de uma lmina. Ela estava pressionando sua barriga e parecia bem amolada e pontiaguda. Ao levantar os olhos, viu o rosto de Selina. 
 Tudo o que tenho a fazer  empurrar um pouquinho.  Sorriu Selina.  Bem que eu gostaria de fazer isso, mas por ora...  Sua mo atingiu a garganta de Eve. Ela sentiu a presso e a pon-tada um segundo antes de sua viso tornar-se embaada. 
 Agora voc vai me ajudar a chegar ao carro. Pelo menos vai parecer isso, se algum reparar em ns.  Sorrindo, Selina colocou os braos em volta de Eve, mantendo-a to junto do corpo que parecia que era ela que estava sendo carregada.  Se no fizer exatamente o que eu mandar, suas tripas vo se espalhar por toda a calada e vou estar longe antes mesmo de voc compreender que morreu. 
A cabea de Eve estava zonza e suas pernas pareciam feitas de borracha enquanto Selina a carregava pela calada em direo ao carro. 
 Entre  ordenou Selina , e v para o lado do passageiro.
Eve se viu obedecendo mansamente, enquanto uma parte de sua mente gritava em protesto. 
 Voc no  to esperta, afinal de contas, no  verdade, tenente Dallas? Nem to cabea-fria... ns a trouxemos exatamente para onde a queramos. Sua idiota! Como se coloca essa droga de carro no piloto automtico? 
 Eu...  Eve no conseguia nem pensar. O medo no conseguia ultrapassar a barreira de nvoa que havia em sua cabea, e o mesmo acontecia com a raiva e com tudo o que aprendera nos treinamentos. Olhou sem expresso para os controles e repetiu:  Automtico? 
Sua voz foi o suficiente. O veculo estremeceu, o motor entrou em movimento e zumbiu de leve. 
 Acho que voc no est em condies de guiar, tenente.  Selina lanou a cabea para trs e soltou uma gargalhada.  Informe o endereo. Vamos para o meu apartamento. Temos uma cerimnia muito especial preparada para voc. 
Mecanicamente, Eve repetiu o endereo e olhou para a frente, enquanto o veculo entrava em movimento, lentamente. 
 No foi Forte  conseguiu balbuciar, lutando para voltar ao normal.  No foi ele! 
 Aquele arremedo pattico de homem? Ele no conseguiria nem mesmo matar uma mosca pousada em seu pinto... se  que ele tem um... mas ele e aquela bruxa Wicca de araque vo pagar caro. Voc j preparou tudo para isso, no?... Eles achavam que podiam salvar a pobrezinha da Alice. Seu vovozinho burro tambm pensou assim. Veja s onde foram parar... ningum me desafia e vive para contar a histria! Voc vai descobrir a dimenso do meu poder em pouco tempo. E vai implorar para que eu a mate logo, para acabar com a agonia. 
 Voc matou todos eles. 
 Todos! Cada um deles...  Selina se inclinou mais para perto de Eve.  E outros... muitos outros. Os que eu gosto mais de matar so as crianas. Elas so to... macias. Ataquei primeiro o av, e usei sua maior fraqueza, que era defender as mulheres. Solucei muito, disse-lhe que temia por minha vida... disse-lhe que achava que Alban ia me matar. Ento, despejei um pouco das minhas drogas especiais em seu drinque e o matei. Eu queria ver sangue, mas enfim... ver seus olhos no momento em que compreendeu que estava morrendo foi quase to satisfatrio quanto isso. Voc j reparou como os olhos morrem primeiro, Dallas? Pois ... eles morrem antes do resto. 
 Sim.  A nvoa estava se movendo para os cantos de sua mente. Comeava a sentir as pernas e os braos formigando enquanto os nervos voltavam lentamente  atividade.  Sim, eles morrem antes... 
 E Alice... quase fiquei com pena quando fomos obrigados a acabar com aquilo. Atorment-la dia aps dia era to excitante! E os pulos de susto que ela dava diante de um gato ou de um pssaro... andrides. Facilmente programveis. Usamos o gato naquela noite, fizemos com que ele falasse com a minha voz. Estvamos esperando por ela, tnhamos planos para quando ela chegasse, mas a tola saiu correndo para o meio da rua e se matou... bem, agora vamos fazer com voc o que havamos planejado para ela. Veja, j chegamos... 
Quando o carro se aproximou do meio-fio, Eve testou a mo, formando um punho com ela. Em seguida, empurrou-a para a frente com fora e sentiu o agradvel contato com carne e osso. Ento a porta se escancarou por trs dela e mos poderosas apertaram-lhe a garganta. 
E o mundo escureceu de repente... 


 Ela j devia ter chegado...  Embora seu apartamento estivesse cheio de gente, barulho e luzes que giravam loucamente, Mavis fez um biquinho com os lbios.  Ela prometeu! 
 Ela j deve estar chegando  disse Roarke, conseguindo escapar de ser espetado no traseiro por um touro de roupa vermelha; levantou uma sobrancelha ao ouvir o grito manaco que avisava: Toro! Um anjo passou diante dele em seguida, danando de forma agitada com um cadver sem cabea. 
 Estou louca para ver a reao dela diante da nova decorao que Leonardo e eu fizemos aqui no nosso ninho.  Orgulhosa, Mavis girou o corpo formando um crculo completo.  Aposto que Eve no vai nem reconhecer seu antigo apartamento, voc no acha? 
Roarke olhou em torno para as paredes pintadas em magenta e complementadas por desinibidas listras cor de cereja e azul forte. A moblia consistia em pilhas de almofades de tecidos metlicos e cilindros de vidro. Para combinar com o evento, detalhes em laranja e preto estavam espalhados por toda parte. Esqueletos danavam, bruxas voavam e gatos pretos arqueavam as costas, arrepiando os plos. 
 No.  Roarke foi capaz de concordar com toda a honestidade.  Eve jamais reconheceria o seu velho apartamento. Vocs fizeram... maravilhas. 
  que adoramos este lugar. Alm disso, temos o melhor senhorio do planeta.  Ela o beijou de forma entusiasmada. 
 E voc  a minha inquilina predileta.  Sorriu ele, torcendo para que o batom roxo que Mavis usava no tivesse sido transferido para o seu rosto. 
 Voc no quer ligar para Eve, Roarke?  Com as unhas pintadas no mesmo tom, Mavis cutucou o brao dele.  Ponha um pouco de pilha para anim-la. 
 Claro. V bancar a anfitri e no se preocupe que eu a trago at aqui. 
 Obrigada, ento.  Saiu espargindo brilhos pelo ambiente, em seus sapatos vermelhos de salto alto. 
Roarke se virou para o outro lado, pensando em procurar um lugar calmo para fazer a ligao, e ento piscou surpreso diante de uma apario. 
 Peabody?  perguntou. 
 Ah... voc me reconheceu...  A elaborada maquiagem que aplicara no rosto formou uma expresso triste. 
 Mas quase no percebi que era voc.  Com um leve sorriso, deu um passo para trs, para poder analis-la de corpo inteiro. 
Cabelos louros e compridos caam em cascatas por sobre os ombros at o meio das costas e sobre o pequeno suti formado por duas formas cncavas representando conchas. Da cintura para baixo, a cor da roupa era verde-gua cintilante, e no se via seus ps dentro da cauda. 
 Voc est adorvel, parecendo uma sereia. 
 Obrigada.  Voltou a se animar.  Levei sculos para conseguir me aprontar. 
 Como consegue andar com os ps presos nessa roupa? 
 H um corte pequeno para os ps sarem, e as dobras da cauda cobrem essa fenda.  Deu uma risadinha.  Isso restringe muito os movimentos. Onde est Dallas?  Esticou o pescoo para procurar em volta.  Quero ver sua reao ao olhar para essa roupa. 
 Ela ainda no chegou. 
 No?!...  Como no levara relgio para a festa, deu uma olhada no relgio de Roarke.  J so quase dez horas. Ela ia ficar de vigia em frente  casa de Isis por umas duas horas e depois vinha direto para c. 
 Eu ia ligar nesse instante para ela. 
 Boa idia.  Peabody tentou ignorar a fisgada de nervoso que sentiu.  Provavelmente, est fazendo hora... ela detesta eventos como este. 
 Sim, tem razo...  Mas ela no deixaria de aparecer, por causa de Mavis, pensou Roarke, encontrando um canto um pouco mais calmo. E por causa dele tambm. 
Quando ningum atendeu ao tele-link, ele invadiu a freqncia exclusiva da polcia e tentou entrar em contato com ela atravs do comunicador. Ouviu um zumbido leve que indicava que o aparelho estava ligado, mas continuou sem resposta. 
 H algo errado...  comentou ele ao voltar para o lugar onde Peabody estava.  Ela no est atendendo. 
 Deixe-me pegar a minha bolsa para tentar falar com ela pelo comunicador. 
 J tentei isso tambm...  disse ele j com pressa  ...e ela tambm no responde. Ela estava de vigia em frente  Busca Espiritual? 
 Sim, estava querendo conversar novamente com Isis... deixe-me sair dessa fantasia que vou procur-la com voc. 
 No vai dar para esperar por voc no.  Foi abrindo caminho por entre a multido, enquanto Peabody se movia com dificuldade a passos curtos, procurando por Feeney. 


A princpio, Eve achou que fora um sonho, quando acordou meio grogue e com calor. Virou a cabea para o lado e, ao tentar levantar a mo, viu que no conseguia mov-la. 
Entrou em pnico. Estava com as mos amarradas. Ele muitas vezes amarrava as mos dela em criana. Prendia-a na cama e tapava-lhe a boca com a mo para abafar seus gritos quando a estuprava. 
Ela experimentou pux-las e sentiu a dor vaga e distante das tiras que cortavam seus pulsos. Sua respirao ficou entrecortada quando lutou para se soltar. Suas pernas tambm estavam presas, amarradas pelos tornozelos, e suas coxas estavam afastadas uma da outra. 
Girou a cabea para trs, tentando enxergar. Sombras enchiam o cmodo, perseguidas pelas chamas bruxuleantes de dezenas de velas. Conseguiu ver o prprio reflexo na parede espelhada, uma imensa superfcie de vidro escuro que duplicava as imagens e luzes  sua volta. 
Ela no era mais uma criana, e no fora o seu pai que a amarrara. 
Tentou fazer o pnico diminuir, mas no adiantou. Nunca adiantava. Ela fora drogada, disse a si mesma. Algum a levara para ali, tirara todas as suas roupas e a amarrara, completamente nua, sobre uma placa de mrmore, como um pedao de carne. 
Selina Cross pretendia mat-la, e talvez fazer coisas piores com ela, a no ser que ela conseguisse manter a mente calma para reagir. Continuava tentando arrancar as tiras que prendiam seus pulsos, girando, empurrando e puxando enquanto forava a mente a se focar no problema. 
Onde ela estava? No apartamento de Selina, era o mais provvel, embora no conseguisse se lembrar das coisas muito bem. O clube seria perigoso demais, muito cheio de gente. Era mais privativo ali, naquela sala. A sala onde Alice vira uma criana ser sacrificada. 
Que horas eram? Deus, h quanto tempo ser que ela estava ali? Roarke ia ficar pau da vida. Mordeu o lbio com tanta fora ao se movimentar, histrica, que chegou a se cortar com os dentes. 
Eles iam dar por falta dela e se perguntar aonde fora? Peabody sabia qual era a sua ltima localizao e iriam procur-la no local. 
E de que adiantaria? 
Eve fechou os olhos e esperou at ficar um pouco mais calma. Ela estava por conta prpria, mas disposta a sobreviver. 
A parede espelhada se abriu para o lado e Selina, envolta em um roupo preto aberto na frente, entrou no aposento. 
 Ah, voc despertou! Queria que estivesse acordada e bem esperta antes de comearmos. 
Alban entrou logo atrs. Usava um manto igual ao de Selina e uma horrenda mscara de javali, com presas  mostra. Sem dizer nada, pegou uma vela grossa e a colocou entre as coxas de Eve. Deu um passo para trs, pegou um athame com cabo em marfim entalhado em cima de uma almofada negra e o levantou com as duas mos, dizendo: 
 Vamos comear! 


No momento em que Roarke abriu a porta do carro, seu tele-link porttil tocou e ele o atendeu depressa. 
 Eve? 
 No, aqui  o Jamie. Eu sei onde ela est. Eles a pegaram! Voc tem que correr. 
 E onde ela est?  enquanto perguntava, Roarke se posicionava atrs do volante. 
 Com aquela piranha da Selina Cross. Elas a levaram para o apartamento. Pelo menos eu acho que sim. Perdi contato no momento em que eles a arrancaram do carro. 
 Perdeu contato...?  Roarke no esperou pela resposta e acelerou o carro, voando sobre o trfego. 
 Eu grampeei o carro dela. Queria saber o que estava rolando. Instalei um transmissor e ouvi um monte de coisas agora  noite. Selina mandou que ela colocasse o carro no piloto automtico e ordenasse o endereo da casa dela. Dallas devia estar drogada, ou algo assim, porque a voz dela estava estranha. Cross contou como matou meu av e Alice.  Sua voz comeou a se engasgar por causa das lgrimas.  Ela matou os dois... e mais um monte de crianas... nossa! 
 Onde voc est? 
 Na rua, na porta do prdio de Selina. Vou entrar. 
 No, fique longe de l. Droga, faa o que estou lhe dizendo... Fique fora de l! Chego a em dois minutos. Chame os tiras. D um alarme de incndio, ladro, qualquer coisa, mas faa com que eles cheguem a. Voc me compreendeu? 
 Ela matou minha irm...  a voz de Jamie de repente se tornou calma e fria  ...e eu vou mat-la. 
 Fique fora de l!  repetiu Roarke, xingando quando o menino desligou. Tentando se controlar, ligou para Mavis, e mandou chamar Peabody no instante em que a ligao foi atendida, em meio a gargalhadas. J estava estacionando na entrada do edifcio de Selina quando Peabody atendeu. 
 Roarke, Feeney e eu estamos indo para a Busca Espiritual neste... 
 Ela no est l, Selina a capturou! Eve deve estar em seu apartamento. Acabei de chegar e vou entrar. 
 Caramba, Roarke, no cometa nenhuma loucura! Vou mandar uma patrulha para a... Feeney e eu j estamos indo. 
 H um menino l dentro tambm.  melhor vocs correrem.
Sem arma alguma, a no ser a sua sagacidade e a sua coragem, Roarke correu em direo  porta do prdio. 


Eles entoavam cnticos em volta de seu corpo. Alban acendera o fogo debaixo de um caldeiro preto e a fumaa que saa dele era densa e exageradamente doce. Selina se livrara do manto e espalhava leo por todo o corpo. 
 Alguma vez voc j foi estuprada por uma mulher, Dallas? Vou machuc-la quando fizer isso. E ele tambm. E no vamos querer que voc morra depressa, como fizemos com Lobar, ou do jeito que mandamos Mirium matar Trivane. Vai ser lento e indes-critivelmente doloroso. 
A mente de Eve estava clara agora, brutalmente clara. Seus pulsos ardiam e as tiras cortavam-lhe a prpria carne, enquanto ela continuava tentando se soltar. 
  assim que invoca seus demnios? Sua religio  uma fraude. Voc simplesmente gosta de estuprar e matar, e isso a transforma em uma degenerada, como qualquer um dos vermes que rastejam na sarjeta. 
Selina levantou a mo e esbofeteou Eve com fora, gritando: 
 Quero mat-la agora! 
 Logo, meu amor  cantarolou Alban.  No vamos deperdiar esse momento por causa da pressa. 
Pegou uma caixa e tirou l de dentro um galo jovem, todo preto. O animal cacarejou e guinchou, batendo as asas quando foi seguro pelas patas sobre o corpo de Eve. Em seguida, Alban comeou a falar algo em latim, com a voz ligeiramente musical, enquanto pegava a faca e cortava fora a cabea do animal. Sangue esguichou, cobrindo o busto de Eve. Ao lado dela, Selina gemia, em xtase. 
 Sangue para o Mestre  entoou ela. 
 Sim, meu amor.  Alban se virou para Selina.  O Mestre precisa de muito sangue.  Nesse momento, com determinao, em um movimento rpido e inesperado, enfiou a faca na garganta de Selina.  Voc tem sido to... entediante  murmurou ele, vendo-a cair para trs, a respirao borbulhando de sangue, enquanto agarrava a garganta com as mos.  Muito til, mas enfadonha. 
Quando ela despencou, imvel, Alban passou por cima do seu corpo sem vida, tirou a mscara do rosto e a colocou de lado, dizendo: 
 Chega de pompa e de rituais. Selina  que gostava disso. Acho todo esse cerimonial sufocante e restritivo.  Sorriu, cheio de charme.  No pretendo faz-la sofrer. No h necessidade. 
O fedor de sangue era nauseante. Usando toda a sua fora de vontade, Eve se concentrou no rosto dele, perguntando: 
 Por que voc a matou? 
 Ela j deixara de ser til. Era insana demais, entende? Acho que vivia com muitas substncias qumicas na cabea, alm de ter uma personalidade defeituosa. Imagine que ela gostava que eu batesse nela antes de fazermos sexo.  Balanou a cabea.  s vezes, eu at que gostava daquilo... pelo menos das surras que lhe dava. Ela tinha muito talento com elementos qumicos.  Com ar distrado, passou a mo para cima e para baixo pela barriga da perna de Eve.  Descobri que, com o incentivo apropriado, encaminhando-a na direo certa, ela era tambm uma mulher de negcios especial. Conseguimos juntar uma enorme quantidade de dinheiro ao longo dos ltimos dois anos. Alm,  claro, das contribuies dos membros. Tem gente disposta a pagar quantias absurdas de dinheiro por sexo e pela possibilidade de imortalidade. 
 Ento, tudo no passava de uma armao. 
 Ora, fala srio, Eve... invocar demnios, vender a alma.  Gargalhou, deliciado.  Foi o melhor golpe que eu j apliquei na vida, mas atingiu o seu pico e estava comeando a ficar decadente. Quanto a Selina...  olhou para baixo, passando o polegar de forma distrada pelo queixo  ...ela comeou a levar tudo aquilo muito a srio. Realmente acreditava que tinha poderes.  Olhou para o corpo esparramado no cho com um ar de pena e diverso.  Acreditava que conseguia ver as coisas na nvoa e invocar o demnio.  Tornou a sorrir, girando o indicador diante da tmpora, no clssico sinal para descrever gente luntica. 
Uma armao desde o princpio, pensou Eve, nada alm de uma fraude, um golpe produzido com sofisticao, visando unicamente ao lucro. 
 A maioria dos pilantras no usa sacrifcios humanos em seus esquemas e armaes. 
  que eu no sou como a maioria dos pilantras, e algumas cerimnias realsticas serviam para manter Selina na linha. Ela acabou tomando gosto pelo sangue. E eu tambm  admitiu.  Acho que isso tem o poder de viciar... tirar a vida de uma pessoa  algo poderoso, uma coisa excitante!  Deixou o olhar passear pelo corpo de Eve, apreciando suas linhas esbeltas e sutis. Selina tinha curvas voluptuosas, quase no limite do exagero.  Parece que vou possuir voc, afinal. Seria um desperdcio no faz-lo. 
Tudo dentro dela reagiu com revolta diante daquela idia. 
 Foi voc que fez sexo com Mirium, foi voc que a mandou matar Trivane, depois de ela ter se infiltrado entre os wiccanos. 
 Mirium  a mais malevel das mulheres. Alm disso, sob induo qumica e com o auxlio de sugestes hipnticas, a sua memria se torna admiravelmente seletiva. 
 No era Selina... nunca foi. Esse foi o meu grande erro de avaliao. Voc no era o seu cozinho ensinado... ela  que era o seu. 
 Sim, agora voc acertou em cheio. Ela estava perdendo o controle das coisas. Eu j percebera isso h algum tempo. Matou o tira por conta prpria.  Apertou os lbios, demonstrando irritao.  Aquilo  que levantou a lebre, e foi o comeo do fim de tudo, o comeo do fim dela. Ele jamais conseguiria nos pegar. Selina devia t-lo deixado rodando a esmo, at desistir. 
 Nesse ponto, voc se engana. Frank jamais desistiria. 
 Agora nada disso importa, no ?  Ele se virou para o lado, e pegou um pequeno frasco e um aparelho de injeo por presso.  Vou lhe aplicar s um pouquinho para no deix-la to agitada. Voc  realmente um teso... posso faz-la curtir o momento em que vou estupr-la. 
 No existem drogas no mundo capazes disso. 
 Voc est enganada...  murmurou e caminhou em sua direo. 


Roarke teve que se controlar para no entrar correndo no apartamento. Se Eve estava ali dentro e em perigo, sua pressa poderia fazer mais mal do que bem. Fechou a porta silenciosamente atrs de si. Como o sistema de segurana fora desativado, ele sabia que Jamie j entrara. 
Mesmo assim, ao sentir um movimento quase imperceptvel ao seu lado, pulou com a rapidez de um gato e agarrou algum pela garganta, apertando-a. 
 Sou eu!  sussurrou uma voz.  Jamie! No consegui entrar na sala onde eles esto. Devem ter instalado algum sistema novo. No consegui desativ-lo. 
 Onde? 
 Bem ali, na parede. No ouvi nada, mas eles devem estar l dentro. Tm que estar! 
 V l para fora! 
 No vou... voc est perdendo o seu tempo. 
 Ento recue, fique atrs de mim  ordenou Roarke, decidindo no perder nem um minuto a mais. 
Aproximou-se da parede e passou os dedos de leve sobre a superfcie, obrigando-se a ser metdico e cuidadoso, enquanto todos os seus instintos pareciam gritar para que fosse rpido. 
Se havia algum aparelho eletrnico ali, estava bem escondido. Enfiando a mo no bolso, pegou uma agenda de mo e digitou um cdigo. Pensou ter ouvido o som de sirenes ao longe. 
 Que  isso?  quis saber Jamie, aos sussurros.  Caraca, isso  um misturador de sinais eletrnico? Nunca vi um assim to pequeno! 
 Voc no  o nico por aqui que manja de eletrnica.  Roarke comeou a pass-lo ao longo da parede, xingando a lentido do aparelho e sua ineficincia. De repente, ele emitiu um zumbido baixo e emitiu dois bipes.  Achei a fechadura safada! 
Quando a porta se abriu para o lado, ele se agachou e, rangendo os dentes, preparou-se para saltar. 


Eve se remexeu para o lado, tentando se afastar do aparelho injetor; sentiu a leve presso em seu brao e notou que ele foi removido logo em seguida, sem ser acionado. 
 No.  Com uma risada curta, Alban deixou o aparelho de lado.  No vou usar isso para o sexo. Seria injusto com voc e um golpe para o meu orgulho masculino. Depois que acabarmos, vou coloc-la em sono profundo, para voc no sentir a faca.  o mnimo que posso fazer. 
 Mate-me logo, seu filho-da-puta!  Com um ltimo puxo forte, ela arrebentou a tira de um dos pulsos, libertando um dos braos, e lanou o punho com fora contra o rosto dele. Quando esticou o brao para pegar o punhal que estava ao seu lado, porm, a arma caiu no cho. 
Ento, por um momento, Eve achou que libertara todos os demnios do inferno. 
Roarke apareceu, transfigurado, parecendo um lobo ao dar o bote, com os dentes arreganhados. A fria de seu ataque sobre Alban o fez voar para o outro lado do aposento e lanou velas para o ar, atirando-as sobre poas de sangue. 
Levantando ligeiramente o corpo, Eve tentava libertar a outra mo, e seu pnico era to grande que no deu lugar ao medo no instante em que avistou Jamie. 
 Corra at aqui, pelo amor de Deus! Pegue o punhal e me solte! Depressa! 
O estmago do jovem estava se retorcendo, mas ele pulou sobre o corpo de Selina e pegou a faca. Mantendo o olhar fixo no pulso de Eve, cortou a tira que prendia o outro brao. 
 Agora me d esse punhal, que eu posso fazer o resto.  Seu olhar estava grudado em Roarke e na luta corpo-a-corpo desesperada que se desenrolava sobre o cho ensangentado. O fogo estava comeando a tomar conta do ambiente, espalhado pelas velas e se transformando em chamas vorazes.  A polcia chegou!  exclamou ela, ao ouvir as sirenes.  V at l para traz-los aqui, Jamie. 
 A porta est aberta  disse ele, com toda a calma, indo para junto dos ps dela, a fim de cortar as tiras dos tornozelos. 
 Faa alguma coisa para apagar aquele fogo ali no canto  disse ela, arrastando-se de quatro para sair de cima da placa de mrmore. 
 No!  reagiu Jamie.  Deixe este lugar maldito lamber todo! 
 V apagar a porcaria do fogo!  Tornou a repetir, e ento pulou como uma louca furiosa nas costas de Alban, gritando:  Seu canalha, filho-da-puta!  Quando puxou a cabea dele para trs, o punho de Roarke voou e atingiu os ossos do rosto do homem, provocando um estalo. 
 Saia de cima dele!  ordenou Roarke.  Ele  meu! 
Os trs giraram em um confuso embaralhar de pernas, at descobrirem que apenas dois deles estavam conscientes. 
 Ele machucou voc?  Os olhos de Roarke ainda estavam esbugalhados quando ele a agarrou pelos braos.  Ele colocou as mos em voc? 
 No.  Ela precisava demonstrar calma, percebeu, pois ele estava fora de si. Eve no tinha muita certeza do que Roarke era capaz de fazer quando ficava naquele estado.  Ele no conseguiu me tocar... graas a voc. Estou bem. 
 Mas voc j estava cuidando muito bem de si mesma no instante em que entrei, como sempre.  Levantou a mo dela, olhando para o sangue que porejava pela pele toda esfolada de seus pulsos e levou-a at os lbios.  Eu era capaz de mat-lo apenas por isso, se ele tivesse conseguido o que queria. 
 Pare... isso faz parte do meu trabalho. 
Ele estava lutando consigo mesmo para aceitar aquele fato. Seu palet estava arruinado, uma massa amorfa e ensangentada, mas ele o despiu e envolveu-a com ele, avisando: 
 Voc est nua. 
 Sim, j reparei. No sei onde eles enfiaram minhas roupas, Mas parece que eu ia estar com algo mais em volta do corpo alm da pele quando a polcia chegasse.  Ela se levantou, descobrindo que ainda no se sentia completamente firme.  Eles me drogaram  explicou, balanando a cabea com fora para clarear as idias, enquanto Roarke a empurrava com delicadeza, obrigando-a a se sentar em um ponto do cho que ainda estava limpo. 
 Fique aqui e respire fundo e devagar. Vou apagar aquele fogo. 
 Boa idia.  Eve respirou uma ou duas vezes para limpar o organismo, enquanto ele usava um dos mantos para apagar as chamas que cintilavam por todo o piso. Ento ela se lanou em p com um pulo, gritando:  No, Jamie, no faa isso!  Tentou dar alguns passos e correr em direo ao rapaz, mas j era tarde demais. Com o rosto plido, Jamie se levantou do cho, a lmina do punhal ainda molhada pelo sangue de Alban, e disse: 
 Ele matou a minha famlia!  Seus olhos estavam imensos e as pupilas se retraram tanto que pareciam cabeas de alfinete no momento em que entregou a arma para Eve.  No me importo com o que voc vai fazer comigo, mas ele nunca mais vai matar a irm de ningum. 
Eve ouviu o som dos passos que aumentava de intensidade, at que algum entrou correndo pela porta. Seguindo seu instinto, segurou o athame firmemente pelo cabo, a fim de imprimir as prprias impresses digitais na arma. 
 Cale a boca. No d um pio! Oi, Peabody...  Eve olhou para a ajudante que entrava na sala com a arma abaixada.  Arrume algo para eu vestir, por favor? 
 Sim, senhora.  Peabody bufou trs vezes, de forma instvel, para conseguir soltar o ar ao olhar a carnificina em volta.  A senhora est bem? 
 Sim, estou legal... Selina Cross e Alban prepararam uma emboscada, me drogaram e me trouxeram para c. Os dois confessaram o assassinato de Frank Wojinski, Alice Lingstrom, Lobar, Wineburg e a conspirao para matar Trivane. Alban assassinou Selina, por motivos que vou descrever em detalhes em meu relatrio. Alban foi morto na luta que se seguiu para cont-lo. Foi tudo muito confuso, no estou bem certa de como aconteceu em detalhes, mas no acho que isso importe agora. 
 No.  Feeney chegou, ficou em p ao lado de Peabody, olhou para o rosto de Jamie, em seguida olhou para Eve... e soube.  Acho que nada disso importa mais. Vamos comigo, Jamie, voc no devia estar aqui. 
 Tenente, com todo o respeito, acho que seria melhor se a senhora e Roarke fossem para casa, a fim de se lavarem  sugeriu Peabody.  Vocs esto exageradamente no clima das comemoraes de hoje, por assim dizer. 
Eve olhou para Roarke e fez uma careta. Sangue e marcas pretas de fumaa cobriam seu rosto. 
 Voc est horroroso!  afirmou ela. 
 Ah, ? Pois devia dar uma olhada em sua cara, tenente.  Enlaou-a com o brao.  Acho que Peabody tem razo. Vamos procurar um cobertor em algum lugar. Isso vai ser suficiente para conseguirmos chegar em casa sem voc congelar nem ir presa. 
Eve queria tomar um banho. Desejava isso to desesperada-mente que s faltou chorar de alegria. 
 Certo  concordou ela.  Estarei de volta em uma hora. 
 Dallas, no  preciso voc voltar aqui esta noite. 
 Uma hora...  repetiu.  Guarde a cena do crime e chame os legistas. Leve esse menino para os paramdicos, ele est em choque. Entre em contato com Whitney, pois ele vai querer saber em primeira mo o que aconteceu aqui, e quero Charles Forte liberado o mais rpido possvel. 
Eve apertou o palet de Roarke com mais fora em volta do corpo e elogiou: 
 Voc tinha razo o tempo todo a respeito dele, Peabody. Sua intuio acertou na mosca.  uma intuio muito boa. 
 Obrigada, tenente. 
 Torne a us-la para encerrar o caso. Se esse menino disser alguma coisa que no bata com o curto relatrio oral que acabei de lhe passar, ignore-o. Ele est emocionalmente devastado e em choque. No quero que seja interrogado esta noite por ningum. 
 Sim, senhora.  Peabody concordou com a cabea e manteve os olhos cuidadosamente sem expresso.  Vou providenciar para que ele seja levado para casa. Permanecerei na cena do incidente at o seu retorno. 
 Faa isso, por favor.  Eve se virou e comeou a abotoar o palet. 
 A propsito, Dallas... 
 Que foi, Peabody? 
 Linda tatuagem essa sua.  nova? 
Eve apertou os dentes com fora e foi a passos largos em direo  porta, com toda a dignidade que conseguiu recolher. 
 Viu s?  reclamou, cutucando o peito de Roarke com a ponta do dedo, enquanto caminhavam pelo corredor.  Eu lhe disse que ia acabar sendo humilhada por causa desse boto de rosa idiota. 
 Voc foi drogada, esbofeteada, amarrada nua e quase assassinada, mas a rosa tatuada em sua bunda foi o que a incomodou mais? 
 Isso tudo que voc descreveu faz parte do meu trabalho. O boto de rosa  algo pessoal. 
Rindo muito, ele colocou o brao sobre os ombros dela, abraando-a com fora e dizendo: 
 Por Deus, tenente, eu realmente te amo muito... 


 


















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